CAPÍTULO 2- SURDEZ
2.2 Surdez, identidade linguística e cultural
Não podemos deixar de nos surpreender com o fato de que, apesar das “sensibilizações” para a questão da surdez, ao longo dos anos, alguns equívocos foram cometidos acerca dessa condição, dentre eles: a ideia de que a LS é universal; de que é possível idealizá-la como algo rudimentar, pantomímico e gestual; de que se poderia submeter o seu léxico à gramática do país, cuja língua majoritária é a do ouvinte, destituindo-a de uma gramática própria.
Com base nisso, pensemos no estado da criança surda que vive em um ambiente sem ter uma língua apropriada para o seu desenvolvimento linguístico, devido ao fato de seus pais
serem ouvintes, partindo-se da concepção de que não haverá a possibilidade de usar a língua oral. Outra questão a pensar é que, a família ouvinte fica tão vulnerável quanto a criança surda no momento em que esta nasce. Pensemos também que a língua dá refinamento ao sentido.
Diante dessas observações, temos um sujeito surdo que interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura, principalmente pela Libras (ALBINO, 2016), e, na ocorrência de perda auditiva de leve a profunda, a surdez faz com que a pessoa surda pertença a uma comunidade sinalizadora e que a oportunidade de acesso à língua ocorra durante o desenvolvimento da linguagem. Portanto, concordando com Capovilla e Raphael (2008, p. 94), “crianças surdas se comunicam em Libras, pensam em Libras, sonham em Libras, porque têm na Libras a sua língua materna”.
Por tudo isso, os estudos sobre as línguas visuoespaciais vêm, ao longo do tempo, apresentando evidências de que os aspectos linguísticos das LS podem ser analisados no nível semântico, tal qual o estudo sobre metáforas na língua de sinais americana (WILCOX, 2000), bem como em outros níveis.
Massone (1993, p. 81-83) contribui para a visão crítica acerca da continuidade dos estudos linguísticos sobre a LS, tomando-se como base as línguas orais-auditivas. Essa autora vê a língua sinalizada à sombra da tradição, distante de outra língua, cuja materialidade é distinta, logo para ela, ao estudar uma língua de organização visual e tão diversa à da língua estabelecida num ambiente experienciado oralmente, deve-se analisar os aspectos que as distinguem. Assim a autora indaga:
Até que ponto as línguas de sinais podem ser entendidas dentro do marco convencional da linguística, quer dizer, tomando como pontos de referência teóricos modelos que foram projetados para línguas baseadas nos sons e derivados de formas lingüísticas formalizadas? [...] Os modelos que provêm da linguística tradicional e ocidental são suficientes para a análise das línguas de sinais? Podem as línguas de sinais ser descritas nos mesmos termos das línguas faladas?
Essas “ilusões” de analisar a LS comparando-a com uma língua de modalidade oral e de quem é ouvinte são encontradas desde L’Epée (século XVIII) e permanecem quase que uma verdade para muitos ouvintes. Basta lembrarmos que a atitude “respeitosa” do referido abade acabou por constituir um recurso cognitivo e linguístico para os surdos se escolarizarem naquele contexto, visto como o verdadeiro meio de comunicação e de desenvolvimento do
pensamento deles, fazendo com que a LS, em sua essência, fosse ignorada em vários aspectos, sobretudo, não apresentando justificativa para tornar-se objeto de estudo pelos filósofos e linguistas daquela e de época posteriores.
No século XX, o linguista Stokoe66 – não concordando que a LS era uma espécie de pantomima ou código gestual, ou uma “espécie de inglês estropiado com as mãos” (SACKS, 2010, p. 70) – estudou e demonstrou que não se tratava disso, pois essa língua satisfaz todos os requisitos linguísticos de uma língua genuína no léxico e na sintaxe. A partir dos parâmetros67, Stokoe (1960) fez a primeira descrição de uma LS, notavelmente a Língua Americana de Sinais (ASL), o que tornou seus estudos base para outras pesquisas em outros países, efetivando-se, assim, descrições linguísticas diferenciadas.
Uma questão que chama atenção é que esses parâmetros eram vistos (e ainda há quem assim os veja) como semelhantes a fonemas das línguas faladas. Sacks (2010) nos fala que trata de princípios diferentes para o emprego de uma notação para fins de estudo, e não para uso comum.
Ademais, o discurso e a prática de oralismo (as pessoas surdas ensinadas a falar, a ler e a escrever) perduram nos séculos XIX, XX e XXI, fazendo da surdez algo a ser corrigido e desconsiderando, muitas vezes, outros olhares sobre o assunto. Ocorre que os surdos representam, para muitos ouvintes da sociedade, uma minoria linguística68.
É importante destacar, nessa perspectiva de conhecimento linguístico, os impedimentos de tornar viva a língua e de evidenciar a cognição da pessoa surda. Nesses termos, ressaltamos a prática ilusória, que se arrasta no decorrer de muitos e muitos anos por estudiosos falantes de línguas orais, de aproximar a organização linguística da LS à da língua oral. Esse equívoco
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Willian Stokoe era professor na Gallaudet College, atualmente Gallaudet University, em Washington. Essa é a primeira e única, no mundo, instituição de Ensino Superior para surdos.
67 Na década de 1960, o linguista Stokoe, em seu exercício de magistério com surdos, também sensibilizou-se
com a LS e verificou que os sinais não eram invenções de seus falantes e não aconteciam aleatoriamente. Logo, seus estudos voltaram-se para a análise dos parâmetros e revelam que, em cada um, existem combinações que oferecem à língua uma organização interna própria, possibilitando aos seus falantes comunicação plena e meios de discussões e aprendizagens sobre assuntos de qualquer natureza. Os sinais foram constituídos por parâmetros denominados por Stokoe (1960): configuração de mão (CM), ponto de articulação (PA) ou locação (L) e movimento (M). Outros parâmetros encontrados nos estudos linguísticos pioneiros, a exemplo de “Klima; Bellugi e Battison”, na década de 1970, são: o de orientação de mão (O) e o de expressões facial (EF) e expressão corporal (EC).
68 Segundo Sánchez (1990, p. 13), o surdo “vive inserido em um grupo majoritário que reconhece apenas nos
impediu, por muito tempo, a promoção de um grande deslocamento na forma de estudar a língua visuoespacial e difundi-la na sociedade.
Para Sacks (2010), o uso linguístico do espaço das LS é uma característica que diferencia essa língua das demais línguas e atividades mentais, visto que existe um emaranhado complexo de padrões espaciais. Em razão disso e da importância da complexidade cultural que envolve LS como língua de instrução para os surdos, seus falantes vêm participando de movimentos que tratam a surdez não como uma deficiência auditiva, no sentido estritamente biológico (SÁ, 2010), mas como condição de pessoas que pertencem a um determinado contexto cultural, linguístico e identitário, e que se encontram distantes de um enquadramento de deficiência tratada clinicamente.
Sacks (2010) nos fala que a LS é extraordinariamente expressiva e bela para quem a utiliza e afirma que “na comunicação uns com os outros e como um modo de atingir com facilidade e rapidez a mente dos surdos, nem a natureza nem a arte lhes concedeu um substituto à altura” (2010, p. 2). Diante disso, a LS representa uma língua estruturada e a oportunidade de o sujeito surdo ter acesso à aquisição da linguagem e de conhecimento de mundo e de si mesmo.
Capovilla e Raphael (2008) corroboram essa ideia ao tratarem do movimento de explosão de pesquisas que vêm ocorrendo no mundo acerca da estrutura linguística da LS, que está se tornando, dessa forma, um rico objeto de estudo da Linguística, da Psicologia, da Neurologia, da Educação, da Sociologia e da Antropologia. Assim, a visibilidade dessa língua vem, cada vez mais, se reafirmando e sua legitimidade acompanha a resistente história da evolução de seus falantes no mundo.
Sem dúvida, os aspectos visuais e espaciais dessa língua estabelecem a comunicação entre os membros de uma comunidade linguística ou de um grupo social. Em termos mais específicos da LS, o sistema de comunicação dos surdos é considerado uma língua, apresenta as características básicas de uma língua natural e pode ser explicado além de mecanismos formais, pois a sua estrutura é construída em um contexto real e cultural.
A forma visuoespacial de apreensão, de construção e de expressão de conceitos faz com que se configure a diferença cultural que a LS representa. O canal de comunicação propicia o desempenho na aquisição da língua e “também a sua habilidade linguística que se manifesta na criação, no uso e no desenvolvimento dessa língua” (DORZIAT, 2011, p. 26).
Frente a isso, a pessoa surda é colocada dentro de sua identidade cultural. Com base nessa perspectiva, Goldfeld (2002) nos fala que é pela linguagem que se constitui o pensamento da pessoa humana.
Hall (2006, p. 47), aproximando-se de um conceito de identidade sob variadas interpretações, parte da ideia de que no mundo moderno:
As culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das principais fontes de identidade cultural. Ao nos definirmos, algumas vezes dizemos que somos ingleses ou galeses ou indianos ou jamaicanos. Obviamente, ao fazer isso, estamos falando de forma metafórica. Essas identidades não estão literalmente impressas em nossos genes. Entretanto, nós efetivamente pensamos nelas como se fossem parte de nossa natureza essencial.
Considerando essa afirmativa, a condição de ser surdo se deve à ausência de sensorialidade, e o modo como esses indivíduos vivem no mundo permite-lhes construir sentidos que influenciam e organizam tanto suas ações quanto as percepções que têm de si mesmos e, assim, eles acabam identificando e construindo a sua identidade. Dos muitos aspectos que identificam as pessoas surdas, aqui realçamos o desejo destas de viver em conjunto com seus pares, surdos, da cultura surda. De certo, “a construção de cada sujeito sobre determinado objeto depende do lugar que ele ocupa no tempo e no espaço e da articulação com as construções de outros sujeitos que também ocupam posições particulares no tempo e no espaço (DORZIAT, 2011, p. 30)”.
Seguindo a mesma concepção de Hall (2006), argumentamos que a identidade é definida historicamente e, enquanto sujeitos, assumimos identidades diferentes e, muitas vezes, deslocadas. Isso se deve ao fato de que, ao mesmo tempo em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos, segundo Hall (2006, p. 13), “confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente”. Desse modo, é possível inferir que a importância de consolidar a cultura surda é visível no momento em que há a necessidade da aquisição do próprio sistema linguístico, tecido pela condição sociocultural, pois unifica o longo processo de conquista forçada pela diferença linguística e cultural.
Se pensarmos que, no dia a dia, no reconhecimento de um objeto qualquer, associamos representações visuais e táteis – em relação à forma, ao manuseio, à utilização etc. – e utilizamos palavras como unidades arbitrárias, convencionais e recombinativas, entenderemos melhor porque a Libras também é plena para as pessoas surdas brasileiras, pois o mesmo ocorre com ela, expressa por meio de sinais. Consideremos os esforços de estudos de psicólogos experimentais para ressaltar que o preconceito em relação a associar sinais a gestos de mímica e pantomima é resultante da ausência de conhecimento de que gestos apresentam o mesmo canal visuoespacial e quiroarticulatório que o da LS (CAPOVILLA; RAPHAEL 2008).
É por meio da linguagem que a criança pode aprender sobre o mundo, beneficiando-se da experiência numa relação interpessoal, ao permitir a comunicação social, e vai além da mera observação direta e imitação de seu entorno. Percebemos, pois, a linguagem como constituidora do pensamento, como “um fator essencial para o desenvolvimento cognitivo da criança” (GOLDFELD, 2002, p.15). Capovilla e Raphael (2008) afirmam haver também na linguagem a função intrapessoal, ao permitir “o pensamento, a formação e o reconhecimento de conceitos, a deliberada resolução de problemas, a atuação refletida e a aprendizagem consciente” (p. 1480).
Sob essa ótica, há a necessidade de rever os preconceitos que perpassam a Libras, esta desenhada no emaranhado dos Estudos Surdos, como sendo um fator de desenvolvimento global da pessoa surda, sobretudo, linguístico. Sem dúvida, o modo visuoespacial de apreender e construir conceitos configura a comunidade surda e, consequentemente, sua cultura.
No presente, a Libras tem respaldo oficial na legislação vigente e o reconhecimento de que se trata de uma língua humana e natural, tornando-se, desse modo, mais fortalecida, apesar do preconceito linguístico e das pesquisas linguísticas tardias (DINIZ, 2011).
Outrossim, as descrições em torno de línguas visuais permitem verificar o valor fundamental da linguagem na própria vida, pois permite compartilhar experiências emocionais e intelectuais. Além de ser utilizada para exercer o pensamento, refletir, criar, recriar, o ser humano pode empregá-la de acordo com a modalidade de percepção e a produção desta. Sendo assim, a LS é uma língua natural tão humana quanto as demais e não se limita a um código restrito de sinais nem de gestos.
Como consequência dessa maneira de conceber a linguagem, as pessoas surdas “planejam a condução de suas vidas e a de sua comunidade” (CAPOVILLA; RAPHAEL, 2008, p. 1479). Também a elas é permitido organizar discursivamente as experiências compreendendo melhor convenções e adaptações a uma dada realidade social e cultural, não apenas tornando o conhecimento de mundo perceptível, mas, sobretudo, “sociocognitivamente existente” (KOCH, 2002 apud DUQUE e COSTA, 2012, p. 14).
Logo, de mãos em mãos, as LS adquirem novas versões e sotaques e são mescladas pelas influências e empréstimos linguísticos (GESSER, 2009). Existem, pois muitas línguas de sinais, como: Língua de sinais Francesa, Chilena, Portuguesa, Americana, Argentina, Venezuelana, Peruana, Italiana, Japonesa, Chinesa, Urubus-Kaapor69.
É fato que, ao longo de seu percurso histórico, a LS passou por muitos desafios até chegar ao status de língua, tendo em sua forma de estudá-la os moldes da língua falada (MASSONE, 1993). Entretanto:
A maioria dos linguistas havia descrito línguas faladas, todos eram ouvintes [...]. Quando aceitaram o desafio de analisar uma língua numa modalidade diferente, deveriam reestruturar sua forma de pensar já que estavam tratando com um objeto que, além de não ser a sua língua nativa, era uma língua transmitida numa modalidade visuo-gestual (MASSONE, 1993, p. 82).
Por essa razão, desde a antiguidade clássica, a LS vem passando por ideias preconceituosas do senso comum, principalmente, as de que a língua falada é a única forma de linguagem e que o processo de aprendizagem ocorre por meio da audição.
Com muitos esforços, os estudos descritivos demarcaram a investigação científica das LS e as incluíram nas denominadas línguas visuoespaciais ou espaço-visuais, diferenciando-se os canais de recepção e emissão no estabelecimento da comunicação mediante a sua aquisição. De acordo com Fernandes (2003, p. 17),
As línguas são denominadas orais-auditivas quando a forma de recepção não grafada é a oralização. De outro lado, são espaço-visuais quando a recepção se dá pelo sentido da visão. Nos dois casos, mesmo diferentes, os canais de recepção cumprem a função de permitir a comunicação e a interação entre membros de um grupo cultural. A língua a ser utilizada – oral-auditiva ou espaço-visual – é adequada para o caso e comunicação entre ouvintes e surdos, respectivamente, pois atingirá os canais de recepção linguística específicos a cada sujeito, em seu contexto cultural.
Cumpre ressaltar, portanto, que os falantes da Libras têm uma relação intensa com a língua, pois conseguem se comunicar e entender uns aos outros e quebram paradigmas e visões filosóficas arraigadas na forma de ver e compreender o mundo de seus usuários. Sendo assim, a ideia de que a identidade surda é construída dentro da cultura visual é uma diferença que precisa ser percebida.
Essas pesquisas validam as LS como sistemas linguísticos que expressam ideias, sentimentos e ações e utilizam o canal espaço-visual ou visuoespacial como modalidade linguística. Em outras palavras, a sua realização acontece por meio da visão e da utilização do espaço e não por meio dos canais oral-auditivos. Conforme Desloges (apud SACKS, 2010, p. 29),
A língua [de sinais] que usamos entre nós, sendo uma imagem fiel do objeto expresso, é singularmente apropriada para tornar nossas ideias acuradas e para ampliar nossa compreensão obrigando-nos a adquirir o hábito da observação e análise constantes. Essa língua é vivida; retrata sentimentos e desenvolve a imaginação. Nenhuma outra língua é mais adequada para transmitir emoções fortes e intensas.
Essa concepção postula que, por ser completa, a LS permite a seus falantes “discutir qualquer assunto, concreto ou abstrato, de um modo tão econômico, eficaz e gramatical quanto a língua falada” (SACKS, 2010, p. 29).
Em linhas gerais, a LS tem uma gramática própria, e em cada região é construída culturalmente, com suas variedades regionais. Gesser (2009) esclarece que os estudos sobre a gramática da LS americana são aprofundados pelos linguistas Battison (1974), Klima e Bellugi (1979). Esses linguistas descrevem a orientação da palma da mão (O) após observarem que esse parâmetro pode mudar o significado do sinal. É necessário ainda realçar que, além das mãos, na estrutura das línguas de sinais, são utilizados marcadores não manuais, constituídos de expressões faciais (movimentos da cabeça, dos olhos, da boca, da sobrancelha etc.), para produzir a informação linguística. De acordo com Baker (1993, apud FERREIRA, 2010),
As expressões não manuais (movimento da face, dos olhos, da cabeça ou do tronco) prestam-se a dois papéis nas línguas de sinais: marcação de formas sintáticas e atuação como componente lexical. As expressões não manuais que assinalam sim-não, perguntas retóricas, condições, orações relativas ou topicalizações operam uma função sintática, enquanto as expressões que
funcionam como uma referência específica ou como uma referência pronominal, uma partícula negativa, um advérbio, um modificador ou uma marca de aspecto constituem componentes lexicais (p. 240).
Não adianta dizer, portanto, que sinais (itens lexicais) são gestos, pantomima, mímica, ou buscar interfaces conceituais entre a articulação oral e a perceptual, pois a língua oral e a visuoespacial apresentam-se em suas modalidades numa complexidade linguística diferente de uma para a outra. Quem de nós já não se perguntou por que uma palavra, em uma dada língua, quando traduzida para a outra, pode ficar diferente na forma?
Gesser (2009, p. 24) toma como referência de análise a metáfora do “pacote” para indicar o modo como cada língua dá forma aos conceitos em unidades linguísticas. Segundo ela, cada língua “empacota seus conceitos em unidades linguísticas”, ou seja, o “conteúdo e a informação nas palavras de certas línguas são empacotados distintamente”. Para exemplificar, a linguista afirma que, “no alemão, o sintagma nominal a associação dos fabricantes de copos de suco de laranja tem a seguinte forma: dieorangensaftglasherstellervereinigung. Em Libras, a pergunta que horas são? é a sinalização apenas da palavra hora com expressão facial” (p. 24). Cabe lembrar que a expressão facial é que marca a pergunta.
Diante do exposto, estudos educacionais, linguísticos e culturais (SKLIAR, 2013, 2015; DORZIAT, 2011; SANTANA, 2007) trazem o propósito de problematizar as mudanças conceituais e estruturais que dizem respeito ao reconhecimento das peculiaridades humanas, sobretudo, das pessoas surdas, e do fato de que a Libras é uma língua independente de outras línguas.
A valorização da LS para as pessoas surdas, de acordo com Dorziat (2011, p. 27), é questão essencial, bem como oportunidade de igualdade de condições de desenvolvimento entre as pessoas. Contudo, para essa autora, a abordagem dessa língua deve ser relacional e contextual, e não restrita a códigos e a padrões predeterminados.
Desse modo, a Libras é vista como a única língua que o surdo brasileiro pode dominar plenamente, servindo para as suas necessidades de comunicação e de atividades cognitivas. Caso contrário, isto é, se os surdos não têm acesso à língua alguma, acabam privados de
compartilhar as informações mais óbvias de uma comunidade e, sem um instrumento linguístico acessível, sofrem enormes dificuldades na constituição de sua própria consciência, ou seja, não se constituem com base
nas características culturais de sua comunidade e com isso desenvolvem uma maneira de ser e de pensar muito diferente dos indivíduos falantes (GOLDFELD, 2002, p. 54).
Brito (1993) corrobora a visão de que consequências graves surgem na vida das crianças com surdez, se elas não forem expostas à LS. De fato, segundo essa autora, pode vir a ocorrer na vida da pessoa surda:
perder a oportunidade de uso da linguagem, senão o mais importante, pelo menos um dos principais instrumentos para a solução de tarefas que se lhe apresentam no desenvolvimento da ação inteligente; não há de recorrer ao planejamento para a solução de problemas; não supera a ação impulsiva; não adquire independência da situação concreta; não controla seu próprio comportamento e o ambiente e não se socializa adequadamente (BRITO, 1993, p. 41).
Notavelmente, a ênfase é nos sinais utilizados nos momentos de interações formais e informais, acreditando-se que o modo mais simples dos surdos viverem no mundo é por meio da utilização de sua própria língua. Por isso, até agora afirmamos que falar de surdez é enfatizar a língua própria dos surdos, de modo a inferir que estamos tratando sobre um sujeito