Esta pesquisa apresenta uma abordagem metodológica de caráter qualitativo, visto que se pretendeu analisar as estratégias e atividades didáticas adotadas por professores de química para o ensino de equilíbrio químico e como os padrões de interações estabelecidos podem contribuir para o processo de aprendizagem durante as aulas. Sendo uma pesquisa do tipo etnográfica, os dados foram obtidos, principalmente, a partir da observação das aulas de química de dois professores do ensino médio, nas turmas de 2º ano, um de escola pública e outro de escola privada.
Considerando os aspectos descritos do estudo etnográfico, foram assim feitas entrevistas com os professores e análise dos planos de aula, gravações em vídeo das aulas e aplicação de questionários aos alunos (após cada aula). Para melhor compreensão do que foi realizado ao longo da pesquisa, as etapas são descritas nas próximas linhas.
2.4.1. Etapa 1: Entrevista com os professores
A entrevista com os professores foi realizada antes da observação das aulas. Essa etapa foi realizada com o objetivo de conhecer algo sobre os professores, o que eles entendem sobre o conceito de equilíbrio químico e identificar o que foi planejado para suas aulas. A entrevista seguiu o formulário (apêndice B) desenvolvido pela pesquisadora, o qual continha sete perguntas abertas.
Em relação ao perfil do professor buscou-se conhecer, o tempo de experiência e o conhecimento desses com relação ao conceito de equilíbrio químico. Algumas das perguntas (4ª e 5ª) foram elaboradas com base no que vem sido discutido em pesquisa em ensino de Ciências sobre as dificuldades dos alunos quanto à aprendizagem desse conceito. Como os estudos de Machado e Aragão (1996) que afirmam sobre a deficiência de compreensão de aspectos importantes desse conceito pelos alunos do ensino médio, como também a relação dessa situação com as formas de abordagem desse conteúdo pelos professores. Dessa forma, conhecer a perspectiva desses professores com respeito a essas questões se fez necessário.
As duas últimas perguntas buscam conhecer sobre o planejamento do professor, considerando que alguns dos elementos estruturantes da atividade também possam ser identificados nesse. De forma a contribuir com a coleta de dados, logo após a entrevista foi solicitado aos professores o plano de aula elaborado para esse conteúdo. Isto se justifica pela
necessidade de conhecer principalmente as propostas de estratégias didáticas para a abordagem do conceito de equilíbrio químico.
A próxima etapa da pesquisa foi a observação das aulas dos dois professores.
2.4.2. Etapa 2: Observação da sala de aula
Pode-se dizer que esta foi a etapa mais importante da pesquisa, pois ela apresentou o maior número de dados coletados. As observações das aulas ocorreram no segundo semestre de 2014. O tipo de registro foi feito em vídeo, com a autorização do professor, para que maiores detalhes pudessem ser apreendidos e fossem revistos quantas vezes fosse necessário. Verificando assim, como eles abordam o conteúdo, quais são as estratégias didáticas usadas em suas aulas e como a dinâmica discursiva da sala de aula pode favorecer o processo de construção do conceito.
As observações realizadas foram do tipo não participante e sistemática. Não participante, pois a pesquisadora atuou basicamente como expectadora do processo, e sistemática, por que um roteiro de observação (apêndice C) foi utilizado. Este é uma adaptação do que foi produzido por Ninin (2009). Ela situa a ação de observar sob a perspectiva da Teoria da Atividade, considerando que esta pode ser entendida como “uma atividade em que o sujeito observador e o sujeito observado constroem significados com base em suas histórias e nos processos culturalmente construídos, relacionados ao fazer docente” (NININ, 2009, p.254). Assim, considerar que há construção de significados por esses sujeitos a partir da atividade de observação é afirmar que esta atividade, assim como qualquer outra atividade humana, é o resultado do desenvolvimento sociohistórico. A partir das experiências socioculturais e históricas que as ações desenvolvidas vão ganhando significado para os indivíduos. Assim, construir significados para dar sentidos as suas ações.
Trazendo a Teoria da Atividade como referencial nesse momento da observação de sala de aula, podemos afirmar que ambos os sujeitos são os principais indivíduos engajados nessa atividade. O primeiro sujeito, cujo papel deve ser o de mero espectador, é o que observa atentamente as ações desenvolvidas pelo outro sujeito ou outros sujeitos do processo educativo, a depender da situação em questão. Sua proposta não é a de emitir juízo ou criticar o professor observado e sim conhecer um pouco da dinâmica interna desse processo, as estratégias e metodologias de ensino, as atividades realizadas e interações estabelecidas entre alunos e professores.
O roteiro utilizado foi importante na identificação de alguns aspectos da aula dos professores, por exemplo, as interações em sala de aula, principalmente aquelas que representaram as melhores situações para a construção do conceito supracitado. Como foi estabelecido anteriormente à aula, o roteiro possibilitou delimitar o que seria observado de acordo com os objetivos estabelecidos para a pesquisa. O foco da observação estava sob o tipo de abordagem utilizada pelos professores, desse modo, os elementos estruturantes da atividade, as estratégias utilizadas e a dinâmica discursiva ao longo da aula foram investigados.
Com relação ao roteiro de observação, ele contém dois grandes eixos de interesse da observação: os elementos estruturantes da atividade (NÚÑEZ, 2009) e os questionamentos com relação à aula (NININ, 2009). Em relação aos elementos estruturantes da atividade têm- se os motivos, o objeto, os objetivos, as ações e os produtos, enquanto que os questionamentos com relação à aula se associam à condução da aula, as interações em sala de aula e a socialização do conhecimento.
Dessa forma, o roteiro de observação contribuiu com a sistematização das observações realizadas. Como dito anteriormente, todas as aulas foram filmadas para melhor análise posterior, permitindo que mais detalhes pudessem ser extraídos durante a revisão dos vídeos. Foram observadas um total de 05 aulas, sendo 03 aulas de P1 e 2 aulas de P2, que nesse caso, corresponderam ao número de aulas utilizados por cada professor para trabalhar o conceito de equilíbrio químico. Logo após a filmagem da aula os pontos presentes no roteiro foram preenchidos. Ao término de cada aula foi solicitado que os alunos respondessem os questionários, o próximo tópico detalha essa outra etapa da pesquisa.
2.4.3. Etapa 3: Aplicação dos questionários aos alunos
A última etapa da coleta de dados realizada foi a aplicação dos questionários aos alunos no final de cada aula. O objetivo desta etapa foi reconhecer alguns dos elementos estruturantes da atividade identificados na observação das aulas e verificar o que os alunos aprenderam durante as aulas sobre o conceito de equilíbrio químico. O questionário continha sete perguntas abertas (apêndice D). Os elementos estruturantes da atividade que se buscou reconhecer nas respostas dos alunos foram os motivos, os objetivos da aula, o objeto (conteúdo da aula) e as ações desenvolvidas pelos alunos. Com relação ao conteúdo buscou-se conhecer o que os alunos descrevem ter aprendido sobre esse. O Quadro 4 sintetiza o que se
desejou analisar nos questionários, sendo estes elementos utilizados como categorias para a análise dos questionários.
Quadro 4: Elementos a serem analisados nos questionários Questão Elementos para a
análise
1ª e 2ª Motivos 3ª Objetivos da aula 4ª e 5ª Objeto (Conteúdo) 6ª e 7ª Ações
Fonte: elaborada pela autora.
Desse modo, as respostas dos alunos foram analisadas. Com os dados obtidos com os questionários, os quais forneceram a perspectiva dos alunos com relação ao que foi feito em sala de aula, uma maior discussão sobre as estratégias usadas pelos professores para abordagem do conceito trabalhado pôde ser realizada. Assim, fornecendo uma melhor compreensão da prática educativa ocorrida durante as observações.