4. Recepção de Pedidos e Práticas Ilegais de Morte Medicamente Assistida nos
5.4. Procedimentos de Recolha e Análise do Material Experiencial
A recolha e a análise do material experiencial envolveram procedimentos metodológicos distintos neste estudo fenomenológico, pelo que os discutimos separadamente em seguida.
O material experiencial sobre os pedidos de ajuda médica para morrer foi recolhido com recurso à realização de entrevistas semi-diretivas e ao uso de um guião de entrevistas (Apêndice D) que continha quer questões fechadas de caraterização socioprofissional, quer questões abertas relacionadas com o fenómeno. Nesta investigação fenomenológica hermenêutica, as entrevistas assumiram um registo conversacional e cumpriram duas funções específicas, que já haviam sido previamente sinalizadas por Max van Manen45(pp63,66),46(p314): em primeiro lugar, serviu para explorar relatos médicos pré-reflexivos e recolher material (narrativas, histórias e memórias reconstruídas) sobre as experiências vividas pelos médicos que foram interpelados por doentes para praticarem a eutanásia ou os auxiliarem a cometer o suicídio; e, em segundo lugar, serviu como uma ocasião para próprios os médicos interpretarem os significados dessas experiências e, dessa forma, possibilitarem à autora do estudo desenvolver uma compreensão mais aprofundada sobre o fenómeno em estudo e, consequentemente, proceder à sua reflexão fenomenológica.
A construção do guião que orientou a condução das entrevistas foi inspirada em seis estudos qualitativos realizados por Kohlwes e col.200 em dois estados norte-americanos (Washington e Califórnia), por Ganzini e col.201 e Dobscha e col.202 no estado do Oregon, por Georges e col.25 na Holanda e por Meeussen e col.203 na Bélgica. Considerando que estes seis estudos foram efetuados em estados norte-americanos e em países europeus que despenalizaram a morte medicamente assistida e, ainda, que nenhum deles aplicou o método fenomenológico para averiguar o modo como os médicos entrevistados experienciaram, aferiram e responderam a pedidos de morte medicamente assistida, revelou-se necessário construir um guião de entrevistas com tópicos de discussão que respeitassem a orientação metodológica do nosso estudo e se enquadrassem no regime ético-legal que proíbe a eutanásia e o suicídio medicamente assistido em Portugal. Assim, no nosso guião de entrevista (Apêndice D) incluíram-se tópicos de discussão sobre: a formação, especialização e experiência profissional do médico; a experiência médica com a recepção de pedidos de morte medicamente assistida; a caraterização do doente que efetuou o pedido e do processo que o enquadrou (forma, conteúdo e motivações); a resposta médica e reação emocional suscitada pelo pedido; a relação terapêutica do médico com o doente e os seus familiares; a perspetiva médica sobre a eutanásia e o suicídio medicamente assistido; e, ainda, a referenciação de outros colegas médicos que experienciaram o fenómeno (aplicando-se, neste tópico, a técnica da bola de neve). Saliente-se que este vasto conjunto de tópicos não foi escrutinado per si, tendo sido usado para enriquecer a análise temática do material experiencial.
Aquando da elaboração do guião de entrevistas, não considerámos oportuno pré-definir os termos eutanásia e suicídio medicamente assistido em prol da tentativa de captar a polissemia que ambas as vertentes da morte medicamente assistida poderiam assumir para os participantes no estudo. Julgámos que, se fossemos interpelados sobre potenciais clarificações conceptuais, seria mais frutífero devolver ao entrevistado a sua pergunta na expectativa de que o próprio nos revelasse o que é que a eutanásia e o suicídio medicamente assistido significam para si. Todavia, o contato com dois médicos (um nefrologista e uma oncologista) potencialmente participantes no estudo revelou-nos que a morte medicamente assistida pode ser confundida com outras decisões médicas em fim de vida (abstenção ou suspensão de tratamentos e sedação paliativa). De modo a evitar confusões conceptuais que comprometessem o estudo, optámos, em alternativa, por incluir no preâmbulo do nosso guião de entrevistas as definições de eutanásia e suicídio medicamente assistida, nos termos em que os dois conceitos já haviam sido operacionalizados no estudo de
Ferraz Gonçalves56; a saber: a eutanásia definida por “terminação deliberada e indolor da vida de uma pessoa, com uma doença incurável, avançada e progressiva que levará inexoravelmente à morte, a seu pedido explícito, repetido, informado e bem refletido, pela administração de um ou mais fármacos em doses letais”56(p191); o suicídio medicamente assistido definido por “ajuda ao suicídio de uma pessoa com uma doença incurável, avançada e progressiva que levará inexoravelmente à morte, a seu pedido explícito, repetido, informado e bem refletido, prescrevendo os fármacos e dando-lhe as instruções necessárias para o seu uso”56(p191).
Após um prolongado processo de seleção e localização dos participantes, as entrevistas aos nove médicos que aceitaram integrar o nosso estudo foram realizadas durante cinco meses, entre Junho e Outubro de 2014. Com cada profissional de Medicina foi realizada uma entrevista, não obstante ter sido necessário concluí-la em dois dias diferentes, no caso de dois participantes, devido à indisponibilidade temporal para finalizarem a partilha das suas experiências vividas com o fenómeno da recepção e da resposta aos pedidos de ajuda médica para morrer durante o horário de trabalho em contexto hospitalar. As entrevistas tiveram uma duração média de duas horas, cada uma, decorrendo maioritariamente em instituições hospitalares públicas da região de Lisboa e Vale do Tejo; isto apesar de dois médicos terem sido entrevistados nos seus domicílios pelo facto de estarem reformados, terem dupla residência e exercerem a prática clínica na região Centro do país. Mediante o consentimento dos nove médicos participantes neste estudo, todas as entrevistas foram conduzidas, áudio-gravadas e transcritas na íntegra pela autora (Apêndice E).
Na sequência da transcrição integral das entrevistas, procedeu-se à análise do material experiencial recolhido com o propósito de elaborar uma reflexão fenomenológica hermenêutica que nos permita compreender os significados imbuídos na recepção de pedidos de eutanásia e de suicídio medicamente assistido para os próprios médicos participantes no estudo. De acordo com Max van Manen45(p90), a percepção da essência do fenómeno requer um processo de apropriação reflexiva que torne possível clarificar e tornar explícita a estrutura de significados da experiência vivida. No estudo procurámos identificar a estrutura de significados encrustada nas experiências dos médicos que foram solicitados por doentes mentalmente competentes para os ajudarem a morrer através da identificação de unidades de sentido em todos os textos transcritos e analisados tematicamente. As análises temáticas dos significados do fenómeno da recepção e resposta aos pedidos de morte medicamente assistida que foi experienciado pelos médicos entrevistados não se revelaram, contudo, um processo simples. Max van Manen45-46!relembra-nos, a este respeito,
que “analisar os significados temáticos do fenómeno (a experiência vivida) é um processo complexo e criativo de invenção perspicaz, descoberta e revelação”46(p320). Apesar da sua complexidade, encetámos esta análise para identificar os temas fenomenológicos constitutivos da estrutura da experiência vivida que pretendemos descrever, compreender e interpretar45. Os temas fenomenológicos deste estudo foram, por conseguinte, desvendados com recurso à análise dos textos transcritos; os quais foram tratados como fontes de significados, a vários níveis (desde histórias completas, a excertos dos relatos médicos, expressões idiomáticas e palavras únicas), para obter uma descrição fidedigna da experiência dos médicos que receberam pedidos de morte medicamente assistida, tal como os próprios a vivenciaram. A fim de descobrir, isolar e designar os temas fenomenológicos nos textos transcritos e analisados pela autora do estudo, utilizámos três abordagens sugeridas por Max van Manen45(pp92-93),46(p320): uma abordagem holística de leitura de cada texto como um todo, com o intuito de resgatar o seu significado principal; uma abordagem seletiva de leitura em cada texto, lido várias vezes, com o propósito de encontrar episódios que fossem particularmente ilustrativos do fenómeno em estudo; e uma abordagem detalhada de leitura do texto para perceber o que é que cada conjunto de declarações revelava não só sobre o fenómeno da recepção e resposta aos pedidos de ajuda médica para morrer, mas também sobre a experiência vivida pelo médico entrevistado. Estas três abordagens de leitura dos textos possibilitaram, assim, o surgimento de quatro temas fenomenológicos comuns (universais) aos testemunhos dos nove médicos participantes neste estudo sobre a experiência da recepção, da abordagem e da resposta aos pedidos de eutanásia e de suicídio medicamente assistido.