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Procedimentos  e  Conceitos  Metodológicos  na  Análise  do  Discurso

3.   METODOLOGIA

3.1.   Paradigma  de  pesquisa  e  metodologia  escolhida

3.1.6   Procedimentos  e  Conceitos  Metodológicos  na  Análise  do  Discurso

Visto que “o sujeito inscrito no discurso é um “efeito de sentido” produzido pelo próprio discurso, isto é, seus temas é que configuram a “visão de mundo” do sujeito (FIORIN, 2004, p. 949), esperou-se, por meio da operacionalização da análise do discurso, perceber os sentidos impostos no processo de interação entre pares durante a resolução de problemas e suas relações de poder.

A fim de interpretar o corpus construídos, apresentam-se os conceitos chaves e relevantes para operacionalização da análise do discurso neste presente estudo:

interdiscurso, cenografia e dêixis discursiva.

Sabe-se que o discurso só adquire sentido no interior de um “imenso interdiscurso” (MAINGUENEAU, 2014, p. 28), ou seja, é necessário relacionar o discurso captado a todos os tipos de outros enunciados sobre os quais o discurso se apoia. O autor propõe o entendimento do interdiscurso por uma tríade: universo discursivo, campo discursivo, espaço discursivo.

Por universo discursivo, entende-se o conjunto heterogêneo de formações discursivas que interagem numa conjuntura. Embora finito, é irrepresentável e não pode ser apreendido em sua globalidade. Por campo discursivo, entende-se o conjunto de formações discursivas em concorrência que se delimitam numa região do universo discursivo. O discurso se constitui no interior de um campo discursivo, que foi etiquetado pela tradição como campo discursivo religioso, político etc. (POSSENTI, 2003).

Por fim, entende-se por espaço discursivo o subconjunto do campo discursivo, que liga, ao menos, duas formações discursivas que se relacionam e são importantes para o entendimento dos discursos em questão. É neste espaço que se pode materializar o discurso por meio das análises de seus enunciados. Neste sentido, “os enunciados de um discurso são uma espécie de lugar de chegada do trabalho de um pesquisador” (FISCHER, 2012).

Em congruência com os estudos da AD em Maingueneau (2008b), Foucault (1986) comenta que na análise dos enunciados, o pesquisador trata dos espaços de enunciação determinados discursos que são recorrentemente acionados (discurso político, discurso religioso, etc). Logo, poder-se-a-ter distintos discursos acionados em um determinado espaço discursivo, nomeando esta ação de “acionamento discursivo” de interdiscurso.

Tendo em vista esta conceptualização de interdiscurso, pode-se afirmar que o conceito de interdiscurso pressupõe a presença do Outro, que se dá por meio da heterogeneidade enunciativa, ou seja, um discurso nunca será homogêneo e único. E é no espaço discursivo que se pode captar as formações discursivas dos sujeitos, isto é, a representação de suas ideologias, conhecimento e poder sobre o seu próprio discurso e sobre o discurso do outro.

Para a compreensão dessa dialética de discursos de diferentes sujeitos e oriundos de diferentes ideologias, passa-se para o segundo conceito-chave da AD, a cenografia.

Segundo Maingueneau (2014), a cenografia não se trata de uma mera moldura, como se o discurso aparecesse no interior de um espaço já construído e independente. Ao contrário, à medida que a enunciação se desenvolve, o seu dispositivo de fala vai-se constituindo, fazendo sentido e ganhando forma. Trata-se, portanto, da cena de fala que o discurso pressupõe para que possa ser enunciado. Esta cena se apoia na memória coletiva, ou interdiscursos, a fim de legitimar um enunciado e ao mesmo tempo ser legitimada por ele.

Na presente dissertação, durante a análise, a cenografia, corresponde à posição dos coenunciadores no processo de interação durante a resolução de problemas e suas relações de poder. Tal posicionamento discursivo pôde ser por meio da análise das dêixis

discursivas, terceiro conceito-chave da AD.

A noção de dêixis é solidária à noção de dêitico, ou seja, entende-se por dêixis “a localização e a identificação de pessoas, objetos, processos, eventos e atividades em relação ao contexto espaço temporal, criado e mantido pelo ato de enunciação. (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2014, p. 148)

Como aponta Maingueneau (1997, p. 41) “a dêixis discursiva define as coordenadas espacial, temporal e pessoal, manifestando-se no nível do universo de sentido que uma formação discursiva constrói através de sua enunciação”. Pode-se, portanto, dizer que a dêixis tem três domínios da enunciação: dêixis pessoal, espacial e temporal. A figura 5, a partir dos estudos Benveniste (2005) sobre dêixis e a subjetividade da linguagem, ilustra a relação destes três domínios no ato da enunciação:

Figura 5: Dêixis Discursivas

Fonte: Benveniste (1995, p. 280) adaptação do autor.

Tal figura “eu ↔ tu ↔ aqui ↔ agora” é a base de constituição das dêixis. A partir de tal triangulação são derivadas outras categorias como “meu”, “teu”, “hoje”, “amanhã”, “neste lugar” etc. Isto posto, entende-se por dêixis um conjunto de signos “vazios” desprovidos de referência material. Os significados de tais dêixis estão disponíveis no sistema, no campo ou na situação e se tornariam “plenos” à medida que o locutor os assume no discurso (BENVENISTE, 1995).

Tendo elencado os conceitos-chaves à luz da AD - interdiscurso, cenografia e

dêixis discursiva, buscou-se operacionalizar a análise do corpus construídos em campo de

Figura 6: Operacionalização AD

Fonte: Elaborado pelo autor (2017)

Portanto, assumindo o paradigma interpretativista norteador desta pesquisa que assume a realidade apreendida de formas socialmente construída a partir das experiências e interações sociais (GEPHART, 2004), a visão de pesquisa qualitativa, cujo cerne é o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental, valorizando-se o contato direto desse com a situação estudada e o seu contexto (GODOY, 1995; FLICK, 2009). E juntamente com os dados observacionais em campo unidos às estratégias da AD para análise dos dados, pretendeu-se chegar a possíveis interpretações do objetivo central deste estudo que é compreender o processo de aprendizagem por meio da troca discursiva entre pares de trabalho e suas relações de poder durante a aprendizagem situada à luz da análise dos discursos dos sujeitos em seu local de trabalho.