5.3 EXPERIMENTO II
5.3.2 Procedimentos e hipóteses do experimento II
No desenvolvimento de protocolo para mensuração da carga cognitiva, os pesquisadores em Psicologia propuseram escalas psicométricas, nas quais os indivíduos fazem autoavaliação da carga demandada na execução de uma tarefa (BRATFISCCH et al., 1972; PAAS, 1992;
LEPPINK et al., 2013; DEBUE e VAN DE LEEMPUT, 2014). Bratfisch et al. (1972) propuseram um protocolo de mensuração subjetiva, o qual foi validado por pesquisas subsequentes (PAAS, 1992). O protocolo de Bratfisch et al. (1972) demonstrou-se eficaz e eficiente para se aferir a carga cognitiva de um modo generalista, sem que se fizesse distinção entre a carga intrínseca, a carga externa e a carga relevante. Este protocolo subsidiou a proposição de outros mais atuais, como o de Leppink et al. (2013), que faz a distinção entre os diferentes tipos de cargas cognitivas. Desse modo, no protocolo de mensuração da carga cognitiva proposto por Leppink et al. (2013) existem questionamentos específicos para se aferir a carga cognitiva intrínseca; existem questionamentos específicos para mensuração da carga cognitiva externa; e existem questionamentos específicos que avaliam a carga cognitiva relevante. Porque nesta tese tem-se a intenção de se caracterizar a complexidade das tarefas de uso e geração de geoinformação no mapeamento colaborativo segundo o estudo da carga
cognitiva relacionada ao conhecimento em Cartografia de um grupo de indivíduos, adaptou-se o protocolo de Leppink et al. (2013) relativo à mensuração da carga cognitiva intrínseca. Vale salientar que o valor atribuído à carga cognitiva intrínseca é determinado pela complexidade da tarefa e o conhecimento prévio de um indivíduo sobre a tarefa a ser desempenhada (LEPPINK et al., 2013; DEBUE e VAN DE LEEMPUT, 2014).
Para que fosse possível aplicar os parâmetros propostos por Leppink et al. (2013), propôs-se um teste de nivelamento considerando-se a escala de complexidade de TLMs descrita por Board (1978), na qual, tarefas associadas ao contexto da navegação são menos complexas do que tarefas associadas ao contexto de mensuração ou visualização. Nesse sentido, Leppink et al. (2013) indicam que a mensuração da carga cognitiva intrínseca depende do conhecimento da (a) complexidade da tarefa e (b) do conhecimento prévio do indivíduo acerca daquela tarefa.
Pensando nesses requisitos (a,b), Leppink et al. (2013) fizeram um experimento inicial, no qual avaliaram o conhecimento prévio dos entrevistados acerca do tema “estatística”. Nesse teste, os pesquisadores propuseram um problema relacionado ao tema “probabilidade”, por meio do qual se averiguou a performance dos entrevistados na solução do dado problema. Assim, Leppink et al. (2013) puderam nivelar os participantes do experimento segundo estes parâmetros (a,b). Seguindo a proposta de Leppink et al. (2013), para que fosse possível estudar a complexidade das novas tarefas segundo a mensuração da carga cognitiva intrínseca, elaborou-se dois cenários de complexidades conhecidas (BOARD, 1978), os quais foram apresentados aos entrevistados na primeira etapa do experimento II. No primeiro cenário, os entrevistados foram convidados a executar tarefas de leitura de mapas consideradas por Board (1978) como mais complexas, no contexto da mensuração e visualização. Na apresentação do cenário aos entrevistados, leu-se o seguinte texto:
Imagine-se sentado em um café em Madrid, na Espanha. Um colega nativo e recém conhecido levanta um questionamento comum: o quão grande é o território Brasileiro? Na intenção de responder e elaborar comparações que deixassem clara a sua resposta, você ligou seu computador, conectou-se à internet e abriu o OpenStreetMap. Como seu colega visitou recentemente o Estado da Bahia, você pretende fazer as comparações segundo o cálculo da área entre esses dois locais. Dessa forma, estime o valor total da área do Estado da Bahia e o valor total da área da Espanha. Use a unidade que lhe convir. Faça as comparações.
Como indicado anteriormente, adicionou-se à avaliação subjetiva proposta por Leppink et al. (2013), critérios que se relacionam com as técnicas baseadas na performance, para a mensuração da carga cognitiva intrínseca. Desse modo, as variáveis “tempo” de resposta
e a “acurácia” nas respostas foram levadas em consideração no nivelamento dos indivíduos.
Aplicou-se, então, o formulário de autoavaliação da carga cognitiva intrínseca (Apêndice VI), adaptado de Leppink et al. (2013). Na segunda tarefa do teste de nivelamento, os indivíduos tiveram que resolver um problema menos complexo, conforme indicou Board (1978). O contexto de uso foi o da navegação e o cenário proposto foi o seguinte:
Você quer mostrar sua posição geográfica para uma pessoa que está perdida. Na intenção de responder e elaborar uma possível explicação, você ligou seu computador, conectou-se à internet e abriu o OpenStreetMap. Centralize o mapa na posição geográfica em que você se encontra nesse momento.
Neste item, considerou-se verificar a validade de três hipóteses, apresentadas na sequência. Tais hipóteses foram levantadas com base nos resultados de Lloyd e Bunch (2005) e Leppink et al. (2013). No caso do tempo, Lloyd e Bunch (2005) encontraram que indivíduos experientes no uso e geração de geoinformação levaram menos tempo para solucionar problemas fáceis do que usuários leigos. Entretanto, os experientes utilizaram maior tempo para solucionar problemas complexos, porque consideram realizar as tarefas da melhor maneira possível, por vezes, seguindo caminhos de solução mais complexos do que os utilizados por indivíduos sem educação formal neste campo. Ademais, na geração das hipóteses, considerou-se que indivíduos melhor instruídos teriam melhor deconsiderou-sempenho no que considerou-se refere à acurácia nas respostas, bem como, marcariam menor valor à carga cognitiva intrínseca, assim como indicaram Leppink et al. (2013). Dessa forma, as hipóteses levantadas – sem conotação estatística – são as seguintes:
Hipótese 1: indivíduos com maior tempo de educação formal no campo da Cartografia alcançam melhor desempenho na acurácia da resposta do que indivíduos com menor, ou, nenhum tempo de educação formal em Cartografia.
Hipótese 2: indivíduos com maior tempo de educação formal no campo da Cartografia utilizam mais tempo para proferir as respostas do que indivíduos com menor, ou, nenhum tempo de educação formal em Cartografia.
Hipótese 3: indivíduos com maior tempo de educação formal no campo da Cartografia marcam menor valor de carga cognitiva intrínseca do que indivíduos com menor, ou, nenhum tempo de educação formal em Cartografia.
A acurácia das respostas do primeiro cenário foi avaliada por meio da comparação entre os valores das áreas calculados computacionalmente e aqueles respondidos pelos entrevistados. O cronômetro foi acionado no momento em que se findou a leitura dos cenários propostos em ambos os cenários. Parou-se o cronômetro no momento em que os indivíduos pronunciaram o término do exercício. Como explicitado anteriormente, aferiu-se a carga cognitiva intrínseca por meio da adaptação do protocolo de Leppink et al. (2013), apresentado no Apêndice VI. Em suma, os Quadros 5 e 6 apresentam os cenários - e as tarefas a eles associadas – utilizados nesta primeira etapa do experimento II. Vale ressaltar que as tarefas foram classificadas quanto à sua complexidade de um modo equivalente ao que definiu Board (1978).
QUADRO 5 – TAREFAS DE EXECUÇÃO COMPLEXA, SEGUNDO BOARD (1978)
Estimar o valor total de área do Estado da Bahia (Brasil) e o valor total de área da Espanha.
Comparar/reconhecer,
QUADRO 6 – TAREFAS DE EXECUÇÃO MENOS COMPLEXA, SEGUNDO BOARD (1978) Centralizar o mapa na posição geográfica em que
você se encontra nesse momento. Identificar a própria posição no mapa FONTE: O Autor (2017).
Na sequência, na segunda parte do experimento II buscou-se avaliar a complexidade das tarefas de uso e geração de geoinformação no contexto do mapeamento colaborativo, levantadas no experimento I desta tese. Considerou-se que este item permitiria fosse adicionado conhecimento ao objetivo geral de caracterizar as tarefas de uso e geração de geoinformação no mapeamento colaborativo. Assim, para que se iniciasse a segunda parte do experimento II, apresentou-se o seguinte cenário aos entrevistados:
Você quer colaborar com o OpenStreetMap, uma plataforma de mapeamento colaborativo que permite que qualquer pessoa gere e compartilhe informações geográficas no seu mapa. Dessa forma, vá até as redondezas de sua residência e verifique se existe algo que não está representado, mas poderia estar. Gere ou modifique algo no mapa.
Este cenário foi desenvolvido visando-se permitir que os indivíduos interagissem com a plataforma OpenStreetMap, de modo a possibilitar que os mesmos criassem recursos mentais para avaliar a carga cognitiva intrínseca demandada no uso e geração de geoinformação no mapeamento colaborativo. Nesse sentido, para avaliação da complexidade das tarefas de uso e geração de geoinformação no contexto do mapeamento colaborativo, relacionando-se com o perfil de educação formal dos indivíduos, levantou-se as seguintes hipóteses – sem conotação estatística – em consonância com os resultados de Lloyd e Bunch (2005) e as hipóteses dos experimentos de Leppink et al. (2013):
Hipótese 4: indivíduos com maior tempo de educação formal no campo da Cartografia executam as tarefas de uso e geração de geoinformação com maior tempo de resposta do que indivíduos com menor, ou nenhum, tempo de educação formal em Cartografia.
Hipótese 5: indivíduos com maior tempo de educação formal no campo da Cartografia marcam menor valor de carga cognitiva intrínseca do que indivíduos com menor, ou, nenhum tempo de educação formal em Cartografia, pois têm estratégias estabelecidas para se produzir mapas.
Porque não há uma sequência considerada correta relacionada ao uso e geração de geoinformação, a acurácia das respostas, neste caso, não foi verificada. O tempo foi uma variável aferida, uma vez que se relaciona com a performance dos indivíduos na operação da plataforma. A carga cognitiva foi verificada por meio do protocolo adaptado de Leppink et al.
(2013), apresentado no Apêndice VI.
Na sequência, avaliou-se a complexidade associada às tarefas de compartilhamento do mapa. Porque a tarefa de compartilhamento não foi proposta nos cenários elaborados no experimento I e, por estar presente no quadro de tarefas de uso e geração de geoinformação no mapeamento colaborativo, considerou-se prudente separar a avaliação da complexidade deste tarefa. Essa opção foi considerada, uma vez que, para compartilhar as informações geradas os participantes encontraram-se face à decisão de “escolher” qual indivíduo receberia o mapa elaborado, o que poderia ocasionar variações na demanda cognitiva por motivos pessoais, fato que não se intencionava averiguar nesta pesquisa. Deste modo, elaborou-se, então, um cenário para avaliar este item, o qual foi apresentado aos entrevistados, da seguinte maneira:
Escolha um amigo e compartilhe o mapa que aparece na tela do computador.
Novamente, como não se conhece as variáveis a interferir no processo de “escolha de um amigo” para se compartilhar o mapa, i.e., é uma ação que demanda o entendimento das relações interpessoais dos entrevistados, optou-se por não levantar hipóteses relacionadas à performance dos entrevistados. O tempo de resposta foi aferido para que fosse possível fazer considerações preliminares acerca do relacionamento desta variável com a carga cognitiva marcada. A averiguação da carga cognitiva neste item seguiu os moldes dos exercícios anteriores, i.e., utilizou-se do protocolo adaptado de Leppink et al. (2013), apresentado no Apêndice VI.