CAPÍTULO 2: Os Caminhos Trilhados
2.2. Procedimentos e Instrumentos Metodológicos
“Transformar a experiência educativa em algo puramente técnico é amesquinhar o que há de mais fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador”. Paulo Freire, 2004.
Apoiando-nos nas palavras de Paulo Freire, descrevemos, a seguir, como foram trilhados nossos caminhos metodológicos, não de uma forma puramente técnica, mas de modo a apontar cada passo dessa estrada seguida.
As escolas foram pré-selecionadas a partir de referências buscadas no sindicato dos professores do Estado de Minas Gerais, em Uberlândia com o intuito de sabermos quais eram as escolas-referência11 visto que passamos por um momento de transição na educação de Minas Gerais e o projeto escolas-referência ainda não tinha sido implantado em todas as escolas mineiras, no início do ano de 2007.
De posse dessas informações, entramos em contato com as doze escolas que faziam parte do projeto escolas-referência. Ao conversar com os diretores, verificamos a aceitabilidade deles ou não para com a pesquisa a ser desenvolvida. Nessa primeira etapa, encontramos alguns diretores muito refratários. Eles nos informaram que teríamos apenas o intervalo das aulas para conversar com os professores e, mesmo assim, não sabiam se eles nos receberiam, visto que o recreio é um tempo de descanso para eles. Por outro lado, encontramos diretores receptivos à nossa presença na escola. Eles se dispuseram a conversar e a responder a algumas perguntas que utilizamos para selecionar as escolas.
Os critérios utilizados para a escolha das escolas foram: a boa receptividade dos diretores, a presença de laboratórios de Biologia nas escolas, além da vontade dos professores em participar da pesquisa. Para a escolha dos professores também utilizamos os seguintes critérios: professores de Biologia do Ensino Médio, efetivos e que lecionavam para o
11 Escolas selecionadas pela SEEMG, que se destacam pelo trabalho que realizam, seja pela tradição ou pela
dimensão do atendimento à população de Ensino Fundamental e Médio da localidade, visando torná-las focos irradiadores da melhoria da educação no Estado.
primeiro ano colegial. A opção pelo primeiro ano colegial foi feita para observarmos as mudanças curriculares, presentes nas escolas do projeto referência e se essas mudanças alteravam a forma de lidar com tecnologias nas aulas de Biologia, considerando que a mudança curricular, naquele momento, ocorria no 1o Colegial. A opção por professores efetivos se justificou pelo fato de os professores contratados não terem a mesma estabilidade nas escolas selecionadas que os efetivos, podendo, portanto, perderem o cargo a qualquer momento, o que interferiria na pesquisa.
Após a pré-seleção das escolas, procuramos pessoalmente alguns professores das escolas pré-selecionadas e optamos, então, pela seleção de duas escolas, uma referência e outra não referência. Essa escolha foi realizada com o objetivo de verificar o uso das TICs, consideradas as possíveis diferenças encontradas entre essas duas escolas. Apoiamo-nos em Rey (2002) para realizar esta pesquisa que se desenvolveu em etapas: fase exploratória, pesquisa de campo e análises dos dados.
A fase exploratória teve como objetivo a busca das escolas (2 escolas estaduais de Uberlândia) que foram envolvidas na pesquisa, procurando conhecer um pouco as realidades de cada uma delas. Ao optar pela busca de duas escolas, pretendemos com isso, observar realidades de ensino diferentes com relação ao fenômeno estudado. No nosso caso, o uso das TICs nas práticas dos professores durante as aulas de Biologia.
O número de professoras ficou definido em três devido à receptividade que essas três docentes tiveram para com a pesquisa, sendo que duas delas lecionam na escola-referência pesquisada e dividem a mesma turma. Uma delas leciona as aulas teóricas e a outra as aulas práticas. Já, na escola não referência, tivemos a participação de uma única professora efetiva,
que não compartilha as aulas com outro professor, sendo ela responsável por toda a carga- horária semanal de Biologia nas turmas que leciona12.
A seleção das turmas observadas foi realizada de forma aleatória. Uma vez delimitado o objeto de estudo e a opção pelas escolas, passamos então, à pesquisa de campo.
Dessa forma, procedemos à observação direta das aulas, realizando anotações em um diário de campo e registros na sala de aula, com o auxílio de um gravador e fora da sala, nos intervalos de aulas ou momentos que conversávamos com as docentes na sala dos professores ou demais funcionários das escolas. As gravações das aulas foram realizadas com o consentimento das professoras e feitas com o auxílio de um gravador SONY TCM – 323, a pilha, que permanecia sobre a mesa da educadora e gravava a aula toda, uma vez que utilizamos fitas de 60 min. Posteriormente às gravações, as fitas foram transcritas, analisadas e adquiridas mais informações relevantes. Os modelos dessas transcrições de aulas observadas estão no final deste trabalho, nos ANEXOS 1, 2 e 3. Também foi utilizado nesta etapa da pesquisa um questionário respondido pelas docentes ANEXO 4, para conhecermos um pouco mais sobre sua formação inicial e continuada.
Para a observação das aulas, a pesquisadora sentava numa cadeira no fundo da sala. As professoras da escola-referência não se incomodam com a presença de um observador nas aulas, e lecionam normalmente, sem preocupações relevantes.
Na escola não referência, a docente explicou a presença da pesquisadora para os alunos no primeiro dia de observação, fazendo as devidas apresentações, rapidamente, e retomando a aula, normalmente, logo em seguida.
Pode-se dizer que os alunos ficaram bastante agitados com a presença de uma pessoa diferente do convívio deles no primeiro dia.
12 Embora não seja objeto desta pesquisa, é importante mencionar o fato de os três sujeitos da pesquisa serem do
sexo feminino, o que pode ser uma questão de gênero. Pesquisas já apontaram a predominância do sexo feminino na Educação Básica e a do sexo masculino mais freqüente no Ensino Superior.
Tentamos tranqüilizá-la, dizendo que com o tempo, eles se acostumariam com a presença da pesquisadora, mas notamos que muitos ficaram curiosos com a pesquisa e fizeram algumas perguntas:
Marcela: A senhora irá observar as aulas?
Adriano: A senhora dá aula também?
Com o passar dos dias, verificamos que os alunos eram agitados mesmo, não somente pela presença da pesquisadora, mas também pela natureza da turma em si.
Durante a coleta de dados, foi observada uma turma de primeiro ano colegial, no turno da manhã, na escola-referência. A sala fica situada no segundo pavimento da escola, é relativamente grande, bem arejada, com quatro janelas grandes, dois ventiladores, mesa e cadeira da professora, quadro e mesas e cadeiras dos alunos. O número de alunos inscritos na lista de chamada era de 39, mas apenas 36 apareciam diariamente.
Na escola não referência também foram observadas aulas de Biologia de uma turma de primeiro ano colegial no turno da manhã. A sala observada fica situada no terceiro pavimento escolar, juntamente com outras turmas também de primeiro ano. Como na escola-referência, o número de alunos matriculados (37) é maior que o número de alunos que freqüentam as aulas diariamente (28).
Terminada a parte de coleta de dados, principalmente pelas observações diretas e posterior análise desses dados, sentimos a necessidade de buscar respostas para algumas dúvidas que iam surgindo à medida que avançávamos nas análises. Por isso, formulamos um roteiro para a realização de entrevistas com as professoras, ver ANEXO 5, para o esclarecimento de algumas dúvidas relacionadas ao uso das TICs.
O tempo de observação direta nas escolas teve a duração de um trimestre, iniciado em fevereiro de 2007 e terminado na primeira quinzena do mês de maio de 2007. Esse período foi suficiente para a observação, conversa e anotações sobre a utilização das TICs nas aulas de Biologia das duas escolas.
Percebemos no dia-a-dia escolar outros fatos que influem indiretamente no desenvolvimento das aulas, bem como nas observações da pesquisadora, como por exemplo, mudanças nos horários, reuniões e a ausência dos professores na escola. No nosso caso, a observação das aulas foi combinada, com as professoras, para iniciar no mês de fevereiro, início do ano letivo. O cronograma das aulas observadas se encontra nos ANEXOS 6, 7 e 8, deste trabalho.
O período de observação nas escolas tornou-se propício para um maior entrosamento entre a pesquisadora e as professoras, o que favoreceu a realização da entrevista de forma mais descontraída. Para a realização das entrevistas deixamos à escolha do local e horário a cargo de cada professora.
A entrevista com a professora Viviane13 ocorreu no laboratório onde faz sua pesquisa de Doutorado. Já as entrevistas com a professora Daniela e Beatriz foram realizadas nas escolas em horários de módulos das professoras.
Todas as entrevistas tiveram um tempo de duração aproximado de uma hora e vinte minutos. Elas foram gravadas, com o consentimento de todas, transcritas e utilizadas ao longo desta dissertação para o enriquecimento desta pesquisa e sanar as dúvidas que ficaram ao desenvolvermos as análises.
Ainda foram utilizados documentos obtidos nas escolas como: atividades, roteiros de aulas práticas, dentre outros fornecidos pelas docentes ao longo do trimestre.
Como o objeto do nosso trabalho não tem relação com um conteúdo específico da Biologia, mas o uso das TICs e sua influência nas aulas, permanecemos nas escolas até a obtenção satisfatória de dados para esse fim, ou seja, até o término do trimestre observado.
As análises foram construídas ao longo do trabalho, levando em consideração os dados coletados principalmente nas observações diárias nas escolas. Os dados foram
13 Os nomes de todos os participantes desta pesquisa, inclusive das professoras, foram modificados para
relacionados, para darem origem à nossa reflexão, a qual também foi baseada nas referências teóricas adotadas e, assim, buscamos formular explicações para a realidade investigada.
Ao começarmos a analisar os diários de campo, as fitas gravadas e transcritas das aulas assistidas e os acontecimentos das manhãs passadas nessas duas escolas pesquisadas, definimos quatro parâmetros de análises relacionados às tecnologias da informação e da comunicação (TICs), apresentados na figura 1, abaixo:
Figura 1: Parâmetros de análises das TICs Fonte: Elaborado pela autora
Esses parâmetros de análise surgiram aos poucos e foram construídos ao longo de nossas análises ao investigarmos as TICs nas aulas de Biologia.
O parâmetro recursos de informática é essencial no momento atual onde vivemos constantes transformações científicas e tecnológicas. Os indicadores desse parâmetro são muito usados atualmente nos mais diversos espaços como no trabalho, em casa, no lazer e na escola. São eles: computador, DVD, CD, pen drive, disquete, data-show e a Internet. Todos esses recursos podem ser utilizados para fins educativos, nas aulas de Biologia. São essenciais
Outros Recursos Didáticos Eletrônicos de uso pessoal Relações Interpessoais Recursos de Informática Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs)
para as atividades rápidas, como uma busca mais atual sobre um determinado assunto, no caso da Internet.
Podem ser utilizados para o armazenamento de informações, como o disquete, o CD e o pen drive, mais atuais, além de reproduzir informações já armazenadas, como é o uso do DVD e do data-show. Além dessas funções, as ferramentas tecnológicas podem contribuir para a aprendizagem, deixando-a mais atraente.
No parâmetro outros recursos didáticos, identificamos os seguintes indicadores: retro- projetor, vídeo-cassete e as fitas de vídeo, TV, DVD, microscópio, o livro didático, o quadro e giz, além de atividades avaliativas realizadas em sala.
As relações interpessoais estabelecidas a partir da sala de aula também são essenciais para a aprendizagem, pois o professor tem que conhecer os seus alunos para que o ensino seja eficaz. Assim, nesse parâmetro discutiremos as relações estabelecidas entre professora e alunos, as relações de alunos entre si, bem como as relações entre os professores.
Outro parâmetro por nós definido são os eletrônicos de uso pessoal, que são basicamente, o celular, o MP3 e/ou o MP4.
Ao analisarmos cada um desses parâmetros observamos que nem sempre eles ocorrem de forma isolada, numa sala de aula. Muitas vezes podem aparecer mais de um indicador de diferentes parâmetros em uma mesma aula.