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CAPÍTULO 3 – METODOLOGIA DE ANÁLISE DOS DADOS

3.4 Procedimentos e instrumento de coleta do corpus de arquivo

Depois de aprovado o projeto pelo Comitê de Ética, a coleta de dados foi iniciada com a extração de textos escritos dos participantes voluntários presentes nos fóruns e chats, na plataforma Moodle. Para este estudo, dentre as ferramentas para aprendizagem na plataforma, como wiki, para elaboração de texto colaborativo, glossário, o material didático e outras atividades presentes no AVA do curso, pelo nosso recorte de pesquisa, privilegiamos na coleta os gêneros fóruns e chats, por entendermos que são atividades que propiciam práticas

de dizer de si, do aprendizado e sobre o outro, e que poderiam construir um sentido de corpo no ambiente virtual, possibilitando discutir as perguntas de pesquisa.

Esses gêneros se caracterizam, nesse curso, pela interação via escrita e possibilita, pela historicidade do espaço digital, o uso de sinais que podem representar o estado emocional dos sujeitos no curso. Os fóruns também autorizam a inserção de anexos como imagens, documentos de texto, vídeo, áudio. Mas, não devem funcionar como uma “rede de transmissão do mesmo”, isto é, uma cadeia de postagens de textos tradicionais e de reproduções. Por ser um ambiente acadêmico, no digital, foi esperada uma linguagem de cunho tanto formal, de um espaço universitário, quanto o aparecimento da linguagem informal, utilizada na Internet, nas conversas de bate-papo, pela rapidez da escrita para a interação. Uma linguagem escrita menos formal poderia assegurar a inter-relação e aproximar os sujeitos a distância. Nesses espaços, fóruns e chats, a utilização de modalizadores e expressões de saudações significam os sujeitos e faz emergir os sentidos na injunção da interpelação pela ideologia.

Os fóruns possibilitam a interação mediada e conduzida pelos tutores, a partir do material didático elaborado pelo professor da disciplina, de forma síncrona, quando os participantes se interagem perguntando, lendo, discutindo, respondendo concomitantemente, e assíncrona, o modo mais utilizado no curso, em que a partir da proposta de estudo e do prazo estipulado de encerramento da atividade, alunos e tutores interagiam em tempos diferentes, conforme a disponibilidade de cada um, até o final do período determinado. Nessa materialidade, o controle institucional aparece imbricado à possibilidade de o aluno estudar, ser producente, atuar com uma determinada autonomia de horários, dentro do tempo em que os fóruns permanecem abertos. Por essa dinâmica, essa materialidade pressupõe uma tendência à autonomia, como à liberdade mesmo para pensar e formular respostas, mesmo sob a regência necessária da instituição.

Os chats, com a interatividade síncrona e pela constituição desse gênero textual, possibilitam a utilização de abreviações, de uma linguagem escrita com códigos inaugurados com a Internet, sinais, símbolos que representam dizeres sobre a expressão facial dos sujeitos, o estado emocional, como sorrisos no rosto expressando a alegria, os dois pontos seguidos de um parêntese de fechamento indica essa situação, :)  , e dos sujeitos frente aos objetos que estão em contato, às atividades em execução, indicando aprovação, compreensão, dúvida. É um gênero em que, pela conversa simultânea, acontece a inobservância de algumas regras ortográficas, uma pontuação mais expressiva para simular a oralidade e a conversa face a face. A interação via chat na sala de aula virtual para ser bem sucedida pressupõe uma

organização, um planejamento do tema a tratar e um direcionamento que norteará a discussão de forma que todos que estejam acessando o chat possam dialogar, entender e esclarecer possíveis dúvidas que apresentarem, como também, se relacionarem abordando assuntos diversificados e que sintam necessidade de expressar para estabelecerem uma comunicação interpessoal e um bom convívio. Porém, as conversas “paralelas”, em um chat no AVA não devem extrapolar e nem tomarem um tempo que prejudique a abordagem do conteúdo de aula para a aprendizagem, necessitando, assim, o mediador, no caso do curso, o tutor a distância, chamar os alunos e reconduzi-los para o foco do estudo. Desse modo, para introduzir os alunos nesse tipo de atividade, no chat, é importante que o professor/tutor esclareça o funcionamento do exercício e até exponha “regras” para que seja produtivo, alcancem o objetivo do chat e os alunos tenham o rendimento desejado. Nesse sentido, estamos diante de outro gênero de chat, o chat do gênero acadêmico, que se diferencia da memória existente sobre chat, pois nessa memória discursiva do chat do bate-papo por diversão não há “regras”, não há um “mediador”, como no chat acadêmico. O chat deve ser um recurso para colaborar na aprendizagem, nesse aspecto é importante que a presença seja mobilizada para que os participantes não se sintam abandonados e essa ferramenta não tenha o caráter pedagógico destituído.

A pontuação, como apresenta Orlandi (2005, p. 111-113), revela o movimento do texto entre unidade e dispersão, paráfrase e polissemia, marca o dizer e o não-dito. A pontuação é uma manifestação do interdiscurso na textualização do discurso e atesta um trabalho do simbólico, ligando o real e o imaginário. É um mecanismo em que se manifesta o processo de subjetivação, podendo também por ela observar como o sujeito se inscreve em uma formação discursiva, como se identifica com uma filiação de sentidos.

A captação dessa materialidade, isto é, a coleta dos dizeres textualizados nos fóruns e chats foi realizada pela interpelação instaurada pelos objetivos de pesquisa. Buscamos as regularidades que emergiram das sequências discursivas das participantes da pesquisa em fóruns de uma disciplina por semestre do curso e em chats das mesmas disciplinas, porém os chats referentes às disciplinas dos primeiros semestres do curso, visto que houve diminuição do uso dessa ferramenta para o final do curso. Nesse sentido, a forma de captação dessa materialidade se conjurou para a compreensão do corpo e do afeto que emergiu dos dizeres dos participantes escritos nas atividades do ambiente virtual, para a visibilidade do corpo, a corporalidade.