2. MATERIAIS E MÉTODOS
2.2. PROCEDIMENTOS LEGAIS
De acordo com as Resoluções da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos (CONEP) e do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde (CNS/MS 1997), o projeto de pesquisa foi aprovado pela Comissão de Ética na Pesquisa da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro / CONEP-UFRRJ, processo nº 23083.026947/2019-91.
Todos os informantes da pesquisa assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (APÊNDICE 1), sendo que cada integrante teve a opção de escolha em participar ou não da pesquisa, conforme instruções da Resolução 466/12 para pesquisas com seres humanos.
2.3. LEVANTAMENTO DE DADOS
O método utilizado para coleta de dados com os moradores da comunidade foi a entrevista semiestruturada (APÊNDICE 2). De acordo com Cruz Neto (1993), através da entrevista o pesquisador busca obter informes contidos nas falas dos atores sociais, não podendo ser considerada uma conversa despretensiosa e neutra, já que é o meio de coleta dos fatos
31 relatados pelos atores enquanto sujeitos-objetos que vivenciam uma realidade focalizada. Essa técnica gera compreensões ricas das biografias, experiências, opiniões, valores, aspirações, atitudes e sentimentos dos indivíduos entrevistados (May 2004, p. 145).
Foi utilizado o snowball sampling (Biernacki & Waldorf 1981) como técnica de amostragem, onde os participantes iniciais da pesquisa apontam novos participantes que por sua vez fazem o mesmo e assim sucessivamente (Baldin 2011). O número de entrevistados não foi definido, visto que não é possível prever a quantidade de indivíduos que irão prover todas as informações necessárias para atingir os objetivos da pesquisa. Importante ressaltar que nem todas as pessoas que foram indicadas aceitaram participar das entrevistas. Para ser apto a participar da pesquisa, o indivíduo precisava residir em Três Rios há pelo menos 10 anos, para que pudesse responder acerca do crescimento do município, das mudanças ocorridas com a chegada das indústrias e dos impactos decorrentes destas.
Foi apresentado a cada voluntário um TCLE apresentando a natureza da pesquisa, contendo informações relevantes ao processo de concessão de entrevistas e estabelecendo um canal para sanar as possíveis dúvidas que o entrevistado poderia apresentar. As entrevistas foram gravadas com a anuência dos entrevistados para posterior transcrição de dados relevantes ao estudo. O sigilo foi garantido para evitar algum tipo de constrangimento e receio por parte dos voluntários em responder às perguntas. Os temas abordados foram referentes à qualidade de vida e à infraestrutura dos bairros, ao acesso a serviços públicos e aos impactos sentidos nas comunidades com a chegada dos empreendimentos. Todos os termos de consentimento, assim como os áudios obtidos e suas respectivas transcrições estarão disponíveis para consulta no Laboratório de Ecologia Aquática e Educação Ambiental do Instituto Três Rios – UFRRJ (LEA/UFRRJ-ITR).
Em relação aos processos de licenciamento ambiental realizados pelo município, foi solicitado acesso às licenças emitidas através de um requerimento institucional ao órgão ambiental responsável, a Secretaria de Meio Ambiente e Agricultura (SEMMAA – TR), visando compreender a distribuição de empreendimentos pelo território e as condicionantes impostas no processo, de forma a entender o efeito socioambiental que a implementação desses empreendimentos causaram para com os moradores. Além disso, também foram consultados dados secundários que incluem legislações municipais, reportagens locais, bibliografias sobre a área e sites institucionais. Até a data de fechamento do trabalho, os dados solicitados à SEMMAA – TR não foram disponibilizados.
32 2.4. ANÁLISE DOS DADOS
Em relação à identificação dos voluntários, a nomeação foi feita com a inicial “E”, referente ao termo “entrevistado”, acompanhado de um número que seguiu a ordem de realização das entrevistas, garantindo o anonimato que lhes fora assegurado. No que se refere à transcrição das falas, optou-se por eliminar os vícios de fala, visando aproximar o leitor do relato oral experienciado em campo. Ambivero (2016) argumenta que o tratamento é um respeito à contribuição dos entrevistados, trazendo a relevante citação:
“Porém, não tenho medo de manejar o testemunho, porque o que é importante é realizar um texto que aproxime o leitor, o mais possível, à experiência do diálogo que encontramos no trabalho de campo. Ou seja, que este texto renda, a quem o lê, algo da experiência do encontro entre historiador e testemunho.
Então, a reprodução exata e passiva da transcrição da fita, frequentemente, não é a mais fiel, porque vai interferir com a qualidade do relato. Um discurso oral muito envolvente, se é transcrito exatamente, palavra por palavra sobre uma página, torna-se algo que não se pode ler. Assim, não é fiel, porque não se pode ler a experiência que está contida nesse relato extraordinário. Há que se preservar a qualidade da experiência e basicamente a qualidade de performance: o fato é que os entrevistados, todos nós, quando falamos oralmente (eu mesmo, agora), estamos buscando as palavras e estamos construindo o que queremos dizer ao mesmo tempo em que o dizemos, ou seja, ‘tateamos’, e algo disso deve permanecer no texto escrito, mas não na mesma dimensão nem na mesma quantidade do que é possível e aceitável oralmente” (Almeida & Koury 2014 apud Ambivero 2016).
Através dos relatos, as falas foram analisadas e contextualizadas utilizando como base a bibliografia selecionada.
2.4.1 Percepção Ambiental
A percepção ambiental foi escolhida como conteúdo teórico-metodológico pelo seu potencial de entender as relações estabelecidas entre o homem e o ambiente, no que se refere à
33 forma como cada pessoa percebe, reage e responde às diversas manifestações sobre o meio em que vive.
2.5 DIFICULDADES METODOLÓGICAS
Nem todos os indivíduos indicados resultaram em entrevistas. Houve resistência por parte de alguns dos moradores quando o contato foi estabelecido para agendar as conversas.
Além disso, houve dificuldades com relação a dados do município. O site da prefeitura não forneceu as informações necessárias e não foi obtido retorno com os dados que foram solicitados à Secretaria de Meio Ambiente, o que comprometeu algumas análises.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram entrevistadas quatro pessoas, apresentando uma variação de faixa etária de 21 a 70 anos. Todos os voluntários residem no bairro há mais de 10 anos e conseguiram acompanhar o processo de implementação do distrito industrial, reflexo da Lei Estadual nº 4533/2005 (atual Lei Estadual nº 5636/2010), que contemplava a recuperação industrial de algumas regiões através de um regime especial de tributação (Rio de Janeiro 2010), e da Lei Municipal nº 3346/2009, que tratava sobre a disposição de incentivos fiscais às empresas que se instalassem no município (Três Rios 2009).
Foi feito um contato informal, via telefone, com a Secretária Municipal de Promoção Social solicitando dados acerca do processo de formação do bairro Habitat, porém a orientação que foi dada foi acessar o site do município para obter essas informações. Contudo, não há qualquer tipo de menção à formação do bairro no site. Só foi possível compreender esse processo através dos relatos dos voluntários.
O bairro surgiu no ano 2000, através da ação social de uma Organização Não-Governamental (ONG) não identificada, cuja nomenclatura se deu através do termo “os americanos” por se tratar de estrangeiros, que construiu cerca de 101 casas populares em terrenos que foram doados para essa finalidade:
34 Quando eles estiveram aqui, eles trouxeram o projeto Casa Fácil. [...] Eram homens e mulheres construindo suas casas. Foi assim que surgiu o bairro. [...]
O terreno foi na época do prefeito Raleigh Ramalho. Ele era prefeito na época.
O terreno foi desapropriado do Silvio Guaraciaba e doado para a ONG construir as casas. As nossas. 101 casas. Ai depois as outras [casas] foram com os governos juntos com a prefeitura. (E1)
Após a construção das casas populares, os primeiros moradores se instalaram em 2001.
As moradias foram construídas em 6 etapas, através de parcerias entre as três esferas federativas (Figura 2), sendo que a última etapa foi entregue em 2014, com 426 casas construídas:
Então primeiro construíram as nossas [casas], depois 50 [casas] no mandato do Celso Jacob, depois construíram mais 150 [casas] já no governo Cabral, depois 89 [na área] lá embaixo, já era o Pezão no lugar dele [Cabral], depois 20 do Josema, que desapropriou o pessoal do passatempo e construiu essas 20 casas e por último essas 426 [casas] no mandato do Vinicius Farah. (E1)
35 Figura 2. Publicação do Jornal Extra informando o sorteio e as entregas do último lote de casas no bairro Habitat, Três Rios – RJ. Fonte: Jornal Extra.
Em um primeiro momento, o bairro carecia de infraestrutura urbana mínima. Não havia asfalto, iluminação pública, água potável, ônibus que passasse pelo bairro. Os moradores iam se inserindo de forma precária naquele território conforme as casas eram disponibilizadas. Em relação à vida que era vivida na comunidade, E1 e E2 apontam:
[...] quando vim pra cá não tinha essas indústrias que tem aí não. Não tinha esse asfalto que tem hoje, a gente não tinha ônibus, não tinha iluminação nas ruas. Não tinha água da SAEETRI. Era uma água horrível que a gente bebia aqui, que várias pessoas passavam mal, iam até parar no hospital por causa da água. (E2)
36 Os moradores, não conformados em viver nas condições precárias em que o bairro se encontrava, procuraram formas de reivindicar os seus direitos e de contornar as adversidades:
Não tinha ônibus, aí eu fui a pé, subi aquela ponte, fui lá na Transa3 conversar com o responsável4 pedir a ela o ônibus. (...) Aí botaram ônibus sete da manhã, uma hora da tarde e cinco horas da tarde. Três horários por dia. Passou seis meses e eu voltei lá. “Estão poucos os horários de ônibus. As pessoas trabalham fora de manhã e só voltam uma hora? Se vai uma hora só volta às cinco? E se for às cinco vem a pé? As pessoas estudam, trabalham, querem ir a uma igreja.” Não tinha igreja nenhuma aqui (...). Aí botou outro ônibus dez [da noite], passaram alguns meses e eu voltei lá e hoje nós temos ônibus de 20 em 20 minutos. (E1)
Aí chegava no fim do ano com época de chuva os alunos não conseguia estudar. Eu ajudei com uma turma de pessoas com enxada e pá e fomos lá pra baixo, lá pro início, depois que passa o viaduto, pra arrancar o barro pra fazer com o que o ônibus conseguisse passar. Era fim de ano e os alunos precisavam fazer a prova. (E1)
3.1. TRÊS RIOS, A CIDADE EMPREENDEDORA
Como já foi mencionado anteriormente, o município de Três Rios adotou políticas públicas que incentivaram a implantação de diversas empresas no seu território e o bairro Habitat apresentou reflexos desse processo de industrialização. Com 18 empreendimentos instalados na área nos últimos dez anos, o bairro recebeu investimentos no que se refere à sua infraestrutura. Milton Santos (2002) argumentava que os lugares se distinguem pela capacidade de oferecer rentabilidade aos investimentos. Essa rentabilidade varia de acordo com as
3 Empresa de ônibus que atua no município.
4 O nome do responsável foi suprimido para resguardar o anonimato dos colaboradores e dos citados.
37 condições locais de ordem técnica e organizacional, no que tange aspectos como infraestrutura, leis locais, impostos, entre outros.
Essas mudanças foram percebidas pelos voluntários quando perguntados sobre as mudanças em suas vidas com a chegada das indústrias:
Foi na época do Vinícius [Farah] que começaram as fábricas. Aí cada empresário foi adquirindo o terreno.Eu não sei explicar se eles compraram ou se foi adquirido através de doação. [...] Mudou muita coisa [com a chegada das fábricas]. A estrada agora é toda iluminada, pra começar, porque antigamente não era. Dão emprego pra várias pessoas que moram aqui dentro, então quer dizer, isso ajuda muito. (E2)
Veio com as fábricas, através das fábricas [o asfalto]. Então são coisas que trouxe melhorias para o bairro. Antes, quando nós nos mudamos para cá, não tinha ônibus. (...) Então, com a chegada do asfalto tudo melhorou. Aí veio as empresas, porque as empresas não podiam funcionar se não tivesse asfalto, aí pressionou a prefeitura. Aí foi e botou asfalto por causa das empresas. (E1)
Então, o que se criou aqui com a vinda das indústrias foram benfeitorias, isso sim tá? Vem muita gente de fora aqui. Melhorou muito! Veio o asfaltamento, melhorou o serviço de água, que a água aqui era salobra, agora não, agora está [barulho que representa a expressão “ok”]. E melhorou muito mesmo. (E3)
Acserald (2010) chamava de acumulação flexível os processos de flexibilização de leis urbanísticas e ambientais, quando necessário, que os governos locais que buscam atrair investimentos realizavam. É possível observar semelhanças desse processo no município de Três Rios, através das políticas públicas de incentivos fiscais. Conforme Vainer (2007):
A guerra fiscal expressa, de um lado, o vácuo de políticas territoriais na escala federal e, de outro, a emergência de novas formas de articulação entre capitais e forças políticas que favorecem uma redefinição das relações entre as escalas subnacionais (municipal, estadual, regional), nacional e global.
(...) Esta situação propicia a eclosão de uma guerra de todos contra todos, da qual saem vencedoras, como se sabe, as empresas privadas, que promovem
38 verdadeiros leilões para os que ofereçam maiores vantagens – fiscais, fundiárias, ambientais, etc. (Vainer 2007)
3.1.1. O Licenciamento Ambiental no município
Para compreender melhor como que ocorreu o processo de industrialização da cidade e do bairro, foi solicitado à SEMMA – TR dados sobre as licenças emitidas pelo órgão, de modo a mapear e quantificar os empreendimentos na cidade, além de visualizar as condicionantes exigidas no processo de licenciamento ambiental. Até a data de fechamento deste trabalho, as informações solicitadas não foram disponibilizadas pelo órgão ambiental, o que contraria a Lei nº 10650/2003, que dispõe sobre o acesso público aos dados e informações existentes nos órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA):
Art. 2º Os órgãos e entidades da Administração Pública, direta, indireta e fundacional, integrantes do Sisnama, ficam obrigados a permitir o acesso público aos documentos, expedientes e processos administrativos que tratem de matéria ambiental e a fornecer todas as informações ambientais que estejam sob sua guarda, em meio escrito, visual, sonoro ou eletrônico, especialmente as relativas a: mediante requerimento escrito, no qual assumirá a obrigação de não utilizar as informações colhidas para fins comerciais, sob as penas da lei civil, penal, de direito autoral e de propriedade industrial, assim como de citar as fontes, caso, por qualquer meio, venha a divulgar os aludidos dados.
[...]
§ 5º No prazo de trinta dias, contado da data do pedido, deverá ser prestada a informação ou facultada a consulta, nos termos deste artigo.
[...]
39 Art. 4º Deverão ser publicados em Diário Oficial e ficar disponíveis, no respectivo órgão, em local de fácil acesso ao público, listagens e relações contendo os dados referentes aos seguintes assuntos:
I - pedidos de licenciamento, sua renovação e a respectiva concessão;
(grifo nosso) (Brasil 2003)
A Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) 237/97, que dispõe sobre licenciamento ambiental, traz em seu Art. 10 os procedimentos que devem ser adotados em processos de licenciamento ambiental:
Art. 10 - O procedimento de licenciamento ambiental obedecerá às seguintes etapas:
[...]
II - Requerimento da licença ambiental pelo empreendedor, acompanhado dos documentos, projetos e estudos ambientais pertinentes, dando-se a devida publicidade;
[...]
VIII - Deferimento ou indeferimento do pedido de licença, dando-se a devida publicidade. (grifo nosso) (CONAMA 1997)
O Decreto Estadual nº 44820/2014 que dispõe sobre o Sistema de Licenciamento Ambiental (SLAM), também traz em seu Art. 32 normas referente à publicização das licenças ambientais expedidas: sujeitos à elaboração de Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) e Relatório Ambiental Simplificado (RAS), bem como sua concessão, renovação, averbação e indeferimento serão publicados no jornal oficial, em periódico regional ou local de grande circulação e em Diário Eletrônico de comunicação mantido pelo órgão ambiental licenciador.
40
§ 2º As concessões, renovações, averbações e indeferimentos das demais Licenças Ambientais e de Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos serão publicadas em Diário Eletrônico de comunicação mantido pelo órgão ambiental licenciador. (Redação do parágrafo dada pelo Decreto Nº 45482 DE 04/12/2015).
§ 3º As concessões, renovações, averbações e indeferimentos de Autorizações Ambientais, Certidões e Certificados Ambientais e demais instrumentos do SLAM, bem como os demais atos administrativos relacionados ao processo de licenciamento ambiental, em especial notificações, autos de constatação e autos de infração, devem ser publicados em Diário Eletrônico de comunicação que deve ser mantido pelo órgão ambiental licenciador. (grifo nosso) (Rio de Janeiro 2014)
O Código de Meio Ambiente do município, Lei nº 3053, sancionado em novembro de 2007, traz em seu Art. 2º os princípios que orientam a política ambiental a ser aplicada em seu território:
Art. 2° – A Política Municipal de Meio Ambiente é orientada pelos seguintes princípios:
I – a promoção do desenvolvimento integral do ser humano;
II – a racionalização do uso dos recursos ambientais, naturais e sociais, visando o desenvolvimento sustentável;
III – a proteção e restauração da diversidade biológica, e a integridade do patrimônio genético, ecológico, paisagístico, histórico, paleontológico e arquitetônico;
IV – o direito de todos ao ambiente ecologicamente equilibrado e a obrigação de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações;
V – a função social da propriedade urbana e rural;
VI – a obrigação de recuperar áreas degradadas e indenizar pelos danos causados ao ambiente;
VII – a garantia da prestação de informações relativas ao meio ambiente;
VIII – o exercício da cidadania e da democracia através da participação da comunidade na política ambiental;
IX – a transversalidade no trato da questão ambiental. (grifo nosso) (Três Rios 2007)
41 O código também traz normativas quanto à compensação ambiental que os empreendimentos devem adotar para com a população na área de influência durante o processo de licenciamento:
Art. 69 - Nos casos de licenciamento de empreendimentos de impacto para o meio ambiente, o empreendedor é obrigado a adotar compensação ambiental.
Art. 70 - Para os fins da compensação ambiental, o empreendedor deverá destinar uma parcela dos custos totais para a implantação do empreendimento, às seguintes finalidades:
I – no mínimo, (2%) dois por cento, para apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação;
II – garantido o disposto no inciso anterior, e até o limite máximo de cinco por cento, para apoiar ou executar outras medidas ambientais de compensação à comunidade atingida, na forma a ser disciplinada em regulamento.
[...]
§ 3º - Os recursos mencionados no inciso II deste artigo deverão ser aplicados, de acordo com a seguinte ordem:
I – a execução de obras e serviços de saneamento e/ou tratamento e destino de resíduos sólidos;
II – implantação de programas de educação ambiental;
III – aparelhamento e estruturação de fiscalização, monitoramento e controle ambiental. (grifo nosso) (Três Rios 2007).
Como não foi obtido retorno da SEMMA - TR possibilitando o acesso às licenças emitidas pelo órgão e a página de Licenciamento Ambiental no site oficial do município não está funcionando, não foi possível verificar as condicionantes e compensações ambientais nos
42 processos de licenciamento. Contudo, é possível inferir que não houve compensação no que se refere a projetos de Educação Ambiental (EA), tendo em vista que os voluntários, com exceção de E1, por ser um ator social5 reconhecido no bairro, relataram que não há nenhum tipo de contato com a comunidade, tanto no momento de construção das indústrias, quanto após sua implantação:
Não, não. Continua do mesmo jeito. (E2), quando perguntado se já houve algum tipo de contato com a comunidade.
Comigo sempre foi dito que eles vinham querendo saber como era o bairro, como funcionava, se tinha horário de ônibus, se tinha ponto comercial. (E1)
A implementação de programas de EA crítica6 se mostra imprescindível no contexto do licenciamento ambiental ao voltar a sua atenção aos grupos sociais que teriam que arcar com o ônus dos empreendimentos. Segundo Quintas (2006), os processos educativos têm o dever de proporcionar meios para que as comunidades envolvidas na problemática em questão adquiram conhecimentos e competências para desenvolver atitudes para poderem intervir de forma participativa nos processos decisórios que impactam o seu território. Paulo Freire (1980, p. 35), autor que serviu de referência na construção da EA crítica, inferiu sobre o potencial transformador que a educação crítica e emancipatória tem:
O homem chega a ser sujeito por uma reflexão sobre sua situação, sobre seu ambiente concreto. Quanto mais refletir sobre a realidade, sobre sua situação concreta, mais emerge, plenamente consciente, comprometido, pronto a intervir na realidade para mudá-la. Uma educação que procura desenvolver a tomada de consciência e a atitude crítica, graças à qual o homem escolhe e decide, liberta-o em lugar de submetê-lo, de domesticá-lo, de adaptá-lo, como
5 Quintas (2006) define atores sociais como agrupamento de pessoas, com formas de organização variadas e características específicas, que distinguem um grupo de outro, seja a partir do ponto de vista dos seus componentes, seja a partir do ponto de vista de outros segmentos sociais ou da sociedade como um todo.
6 Entende-se Educação Ambiental Crítica como o projeto político-pedagógico que fomenta uma mudança de valores e atitudes, contribuindo para a formação de sujeitos ecológicos capazes de identificar, problematizar e agir em relação às questões socioambientais tendo como horizonte uma ética preocupada com a justiça ambiental (Carvalho 2004).
43 faz com muita frequência a educação em vigor num grande número de países
43 faz com muita frequência a educação em vigor num grande número de países