Conforme mencionamos anteriormente, este artigo representa um recorte da nossa tese de doutorado, no qual trabalhamos com um corpus composto de 10 en- trevistas de seleção de emprego gravadas em áudio durante o processo de seleção de professores para os cursos técnicos de Logística, Radiologia e Vigilância em Saú- de. A transcrição do corpus foi realizada com base no projeto NURC-Brasil. A nossa investigação assume uma abordagem qualitativa devido à natureza do trabalho, que é a identificação e interpretação dos modalizadores epistêmicos asseverativos presentes no gênero entrevistas de seleção de emprego. Assume, ainda, um caráter descritivo de base interpretativa, porque procuramos descrever o funcionamento do fenômeno da modalização, observando que relação há entre esse fenômeno e o gênero por nós selecionado, conforme veremos a seguir na análise do corpus que constituímos.
A fim de facilitar a leitura e a identificação dos modalizadores materializados no gênero em estudo, decidimos que os trechos selecionados para análise seriam destacados em itálico, as formas modalizadoras, tanto em negrito quanto em itáli-
co, o recorte para análise contendo a abreviatura do tipo de modalizador, seguido
da referência da entrevista e o entrevistador identificado por L1 e o entrevistado identificado por L2.
A entrevista de seleção de emprego, objeto de nossa investigação, se constitui em um gênero discursivo oral, produzido no universo empresarial, e que tem por coletar informações a respeito de um postulante a uma vaga de emprego. Assim, é um dos gêneros utilizados no processo de recrutamento de pessoal das instituições empresariais, fortemente marcado pela assimetria entre os participantes da intera- ção (entrevistador e entrevistado), conforme assinala Adelino (2016).
Análise da Modalização Epistêmica Asseverativa no Corpus
A modalização epistêmica asseverativa ocorre quando o locutor considera certo o conteúdo do enunciado e, consequentemente, se responsabiliza pelo dito. Os trechos a seguir indicam como ocorre esse tipo de modalização, no corpus in-
MEA07-EE01-Linhas 81-83
L1 [...] mas... o que lhe atraiu pra o lado da docência? sabendo que o senhor tem um currículo muito bom pra área de pesquisa...
Como pode ser visto no trecho MEA07, L1 apresenta uma noção de certeza no enunciado ao afirmar que sabe das competências de L2, ou seja, sabe que este possui “um currículo muito bom pra área de pesquisa”, através do uso da expressão
sabendo que. Nesse sentido, podemos perceber que L1, ao utilizar essa expressão
em destaque, revela que sabe o que está dizendo, sem deixar margem para dúvidas e, ao mesmo tempo, expressa o compromisso com a “verdade” do que enuncia. A intenção do locutor também é a de apresentar seus argumentos como incontestá- veis. Assim, observamos que L1 recorre à modalização asseverativa (LYONS, 1977) e (PALMER, 2001), para se comprometer positivamente com relação à “verdade” da proposição. Desse modo, há uma transparência e um engajamento com o dito na construção da entrevista, ou seja, é o conhecimento que L1 tem a respeito das qua- lificações explicitadas no currículo de L2, ao qual ele teve acesso, que o compro- mete com a veracidade do seu enunciado. Temos, portanto, nesse enunciado uma avaliação no eixo do conhecimento marcada pela expressão sabendo que, a qual
imprime a responsabilidade do entrevistador com a certeza ou com a “verdade” do que enuncia.
MEA60- EE05-Linhas 132-133
[...] L1 bom... a escola técnica... ela também... é:: uma porta de en- trada pra TOdo o resto da instituição... isso é FAto e...
Ao afirmar que a escola técnica é também uma porta de entrada para que o docente tenha acesso aos demais setores da universidade, L1 põe força na asseve- ração por meio do modalizador isso é FAto, que confere certeza ao enunciado tanto
por meio da expressão quanto da entonação em destaque. É a entonação da fala que marca a direção interativa entre entrevistador e entrevistado. Ela é o recurso de ênfase, que imprime nesse enunciado uma visão avaliativa com noção de certeza e marca uma subjetividade na troca comunicativa entre interlocutores.
Ao apresentar o próprio comentário como fato (e não como possibilidade), L1 se compromete com o conteúdo da informação repassada para L2, ao assegurar que a escola técnica “é uma porta de entrada pra todo o resto da instituição” e, com isso, coloca como certo que L2 também terá oportunidade de acessar outras uni- dades na instituição, tais como atuar na graduação, na pós-graduação assim como assumir coordenações.
Ainda não podemos deixar de enfatizar o valor argumentativo do trecho em questão, à luz dos postulados ducrotianos. Desse modo, o trecho não é argumenta- tivo apenas pelas informações que apresenta, ou seja, pelo seu conteúdo informati- vo, mas é a presença, a seleção de certas expressões ou termos como, por exemplo,
isso é FAto que produz a orientação argumentativa do enunciado, levando o inter-
locutor (no caso, L2) a acreditar naquilo que é dito por L1. Além disso, fica claro que o tom de firmeza expresso por L1 constrói positivamente a imagem da instituição. Isso tudo ocorre por meio da linguagem e nesse trecho fica marcado pelo uso de modalizadores asseverativos.
MEA40 – EE03-Linhas 86-89
L1 [...] a... uhn... o que mais? você tem então... provavelmente a minha última pergunta seria se você tem experiência com plane- jamento acadêmico? fazer plano de aula? plano de ensino? L2 tenho tenho...
Nesse trecho MEA40, L1 pergunta a L2 se este tem experiência com a elabo- ração de planejamento de aula, ou seja, a orientação discursiva de L1 é a de buscar saber se L2 possui domínio de plano de aula, uma vez que essa é uma das exigên- cias para atuar como docente naquela instituição. L2 prontamente responde, uti- lizando o recurso da repetição, que é, segundo Koch (2010), um recurso do texto falado e pode desempenhar diversas funções. No caso em tela, a função exerci- da é a de asseveração, ou seja, a modalização asseverativa, nesse enunciado, se materializa pela repetição da palavra “tenho”. Assim, L2 assume uma posição de compromisso com o dito, conferindo precisão ao conteúdo do seu enunciado.
Essa certeza explicitada por L2 tem base no conhecimento, pois ele assegura que sabe elaborar plano de aula, planejamento acadêmico de um modo geral e, por isso, lança mão do modalizador epistêmico asseverativo tenho tenho, para
dar ênfase ao enunciado e ao mesmo tempo revelar alto grau de adesão em rela- ção ao que vem sendo discutido, transmitindo segurança para L1 sobre o domínio que detém com o trabalho de planejar aulas.
A repetição em análise tenho tenho não é apenas uma simples característica
da fala, mas um recurso argumentativo importante. No caso em análise, a repeti- ção faz como que L2 responda às perguntas: “[...] você tem experiência com plane-
jamento acadêmico? fazer plano de aula? plano de ensino?” e, ao mesmo tempo, afir-
mar, reforçar e enfatizar à reposta dada. Assim, seguindo a linha de interpretação postulada por Ducrot e colaboradores (1988), é a própria presença ou seleção da forma linguística que produz o movimento argumentativo já enfatizado.