Foto 58 – Igreja e Convento do Carmo
1. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Partindo do pressuposto de um turismo participativo e sustentável que forneça subsídios e metodologias que auxiliem na construção de cenários viáveis para a arqueologia na democratização do patrimônio e na sustentabilidade da atividade turística no Estado de Sergipe, a tese possibilitou trabalhar dentro de um universo mais coletivo e integrado, onde não basta contemplar, mas interagir com o ambiente estudado, na compreensão de que se os vestígios estudados são cultura material produzida pelo homem, não podemos separá-lo do contexto existente, seja o contexto antigo ou atual.
A metodologia utilizada para atender ao objetivo geral foi a de construção de cenários. Para Turner (2008), o método de cenários é um importante instrumento no processo de decisões. Possibilita que o pesquisador organize o pensamento das informações de forma sistemática e estratégica. Para o autor o planejamento por construção de cenários permite que haja uma reflexão acerca de futuros cenários e evita o comodismo de mudar uma situação já estabelecida, havendo possibilidades de adaptação a situações emergentes.
Já Ribeiro (1997) entende que a metodologia possibilita a interação e as relações entre os atores envolvidos, e avalia as forças que os mesmos possuem, prevendo dinâmicas futuras. Para este estudo, adotamos a abordagem da metodologia explicitada por Godet (2008). Para ele, a elaboração de cenários é uma ferramenta que auxilia no planejamento e definição de estratégias na elaboração e políticas públicas, projetos e programas, concernem na possibilidade de traçar parceria e promover o turismo local. Desta forma, o autor divide a construção de cenários em três etapas, que foram adaptadas pela autora nesta tese: 1) Construção de base analítica e histórica: nesta fase é possível verificar o estado real e atual dos sítios arqueológicos, assim como o cenário turístico nas regiões estudadas, e analisar a relação entre eles. O autor sugere que nesta etapa sejam realizadas oficinas, workshops, ou conversas que envolvam uma chuva de ideias para que haja a percepção de como esses atores se relacionam, seja direta ou indiretamente. A etapa permite identificar tendências e possibilidade de atuação. 2) Exploração do campo e suas evoluções: Esta etapa coincide com a fase de pesquisa exploratória, onde há um levantamento mais profundo, como análise de infraestrutura básica e turística, logística de serviços, acessibilidade, ações de divulgação e outros. Na perspectiva de se chegar mais próximo de um cenário potencial, o autor sugere que sejam realizadas análises comparativas entre destinos consolidados ou que desenvolvem essas práticas, em uma lista de combinações de possibilidades e similaridades. 3) Elaboração dos cenários: É a etapa que resulta das pesquisas anteriores, constrói-se um cenário de referência
em contraste com a realidade encontrada. Nessa etapa podem ser realizadas sugestões, através de uma narrativa sequenciada, partindo da situação atual para a futura.
Como aponta Godet (2008), a metodologia permite vantagens, partindo do pressuposto de uma multiplicidade de futuros possíveis que relativize a continuidade das tendências, obrigando ações interdependentes dos elementos que compõem um sistema estudado. Para o autor, um cenário não é necessariamente uma realidade futura, por isso a metodologia permite compreender que a análise realizada em Canindé de São Francisco e São Cristóvão como cenários possíveis, dentro ou fora de um circuito turístico, respeitando condições necessárias de verossimilhança, importância e coerência.
É importante considerar que se trata de um método auto independente, que busca a criação de uma linguagem comum, trabalha na redução das incoerências, contribui para construção coletiva e favorece a apropriação da localidade.
Mas como adverte Godet (2008, pg. 38), o “sonho do prego pode ser o risco do martelo”, é preciso trabalhar com as incerteza e ajustes se necessário, para tal será proposto o esquema de organização estratégica que visa a os estudos prospectivos, mobilização, condução na mudança e apoio de decisão. Para tal condição, foi apresentado um plano interpretativo para gestão dos sítios arqueológicos voltados à visitação turística.
O primeiro cenário foi Canindé de São Francisco, localizado no alto sertão sergipano, já se apresenta como um dos principais atrativos turísticos: os cânions navegáveis de Xingó, mas que embora apresente resultados de geração de renda e seja captador de recursos, não absorve da demanda existente de atrativos e bens patrimoniais na cidade. Outro ponto a ser trabalhado pela metodologia foi a prática turística já existente nos sítios arqueológicos, mas sem motivação pela atratividade dos bens arqueológicos, mas de motivação para lazer e ecoturismo, suscitando uma preocupação com a conservação e preservação desses sítios. Neste cenário, buscou-se a utilização da abordagem teórica enquanto metodologia da arqueologia pública, já que esta possibilita ampliar as discussões e aproximar a arqueologia da comunidade, consequentemente do turismo.
O segundo cenário foi São Cristóvão, fundada em 1590, a cidade despertou a motivação para a investigação pela quantidade de acervo e edificações significativas para a construção de interpretações do passado. Para este, foi utilizada a abordagem teórica da arqueologia histórica e urbana, através da disposição dos objetos matérias e das práticas sociais que possibilita entender o sentido da sua ordenação espacial. Dentro deste aspecto, a tese irá buscar também compreender as pesquisas arqueológicas em São Cristóvão e de que forma elas podem fomentar elementos para fortalecer o arqueoturismo na região. Com um
valor intrínseco histórico cultural, a cidade ainda não despertou para o desenvolvimento. Sendo esse um dos motivos de escolha pelo município, embora muitas iniciativas tenham sido desenvolvidas e não foram eficazes ao para o seu desenvolvimento local, fato que instigou a pesquisa para a busca por quais motivos para a inércia da população para o desenvolvimento local, que poderia gerar melhorias a população.
Para alcançar a proposta, a pesquisa caracterizou-se de forma qualitativa baseando-se na fonte direta e no ambiente natural, ou seja, no local onde o estudo foi realizado, neste caso nos sítios arqueológicos de São Cristóvão e Canindé de São Francisco.
Uma pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, se preocupando com a realidade que não pode ser quantificado. Trabalha com universo de significados, motivos, valores e atitudes, correspondendo a um espaço mais amplo das relações, dos processos e dos fenômenos que não reduz a variáveis quantitativas. (MINAYO, 1994). Assim, a pesquisa qualitativa permitiu avaliar melhor o fenômeno turístico no contexto das práticas em sítios arqueológicos e suas motivações e percepções.
O método diz respeito às concepções amplas de interpretação do mundo, de objetos e de seres, referentes às posturas filosófica, lógica, ideológica e política que fundamentam a ciência e os cientistas na produção do conhecimento. Cada método poderia estar compreendido assim por um paradigma. (HISSA 2002, pg. 159)
Visando buscar o entendimento sobre a natureza do problema apresentado, foi realizada uma pesquisa exploratória, que Aaker (2001) caracteriza como de grande utilidade para estabelecer prioridade de questão de pesquisa e possibilita aprendizado para os problemas práticos para execução da pesquisa. Na pesquisa exploratória foram realizadas visitas de campo, encontros, reuniões (ANEXO A e B), que permitiram melhor observar as atividades já desenvolvidas, coleta de dados, experiências e pré-teste do roteiro sugerido. Seguiu-se então a pesquisa documental, que se caracteriza por fontes escritas cientificamente autênticas e permitiu emergir nos aspectos subjetivos dos atores envolvidos. Buscou-se o entendimento sobre a natureza geral da prática do turismo arqueológico nos municípios estudados, abrindo espaço para interpretação.
Nessa perspectiva, o recorte temporal utilizado para pesquisa de campo foi durante os anos de 2016/2017, quando houve uma frequência de seis visitas anuais, com permanência de 3 a 4 dias nas áreas estudadas possibilitando o desenvolvimento da pesquisa descritiva. Para Dencker (2004), a pesquisa descritiva compreende verificar as características da população
envolvida, estabelecendo critérios e envolvendo as técnicas de coleta de dados (observação, entrevistas) na proposta de desenvolver um levantamento descritivo sobre o objeto de estudo.
Minayo (1994) entende a pesquisa de campo como o recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o estudo e objetos de investigação. Para Ruiz (1976), a pesquisa de campo consiste na observação dos fatos e como ocorrem de forma espontânea, na coleta de dados.
Foi possível através das visitas a campo observar a dinâmica e comportamento das pessoas que atuam e visitam os sítios arqueológicos, assim como as pessoas que trabalham inseridos na atividade turística e têm contato com os sítios. Para coletar dados nessa etapa foram realizadas entrevistas com roteiro semiestruturados (Apêndices A, B, C e D), já que se trata de informações obtidas através de pessoas ou lugares. Isso facilitou o estudo, pois estimulou os entrevistados a falarem com mais liberdade e procurando identificar os fatores que determinaram e contribuíram para a ocorrência dos fenômenos (DENCKER, 2004).
As entrevistas foram realizadas visando traçar as motivações que levam as pessoas a buscar os locais estudados, assim como verificar a percepção acerca do patrimônio arqueológico e como está inserida no cenário turístico, assim como está igualmente inserida no contexto cultural e social dos municípios estudados. As entrevistas realizadas em Canindé de São Francisco foram com os seguintes colaboradores: guias de Turismo; proprietários da Xingó Tour; o turismólogo Carlos Moisés de Lima; Funcionária do Museu Arqueológico de Xingó, Railda Nascimento; a professora e pesquisadora do Projeto de Salvamento Arqueológico de Xingó e arqueóloga Suely Amâncio Martinelli; a assessora da Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte de Canindé de São Francisco e Especialista em Planejamento Turístico Magalene Alves Santana e a técnica e mestre em Arqueologia do IPHAN/SE Beijanizy Abadia. Além destes, foram entrevistados trinta moradores e turistas na região, compreendo que a amostra é estatisticamente relevante uma vez que após esse quantitativo, as respostas tornam-se repetitivas.
Em São Cristóvão, os entrevistados foram o assessor da Secretaria de Turismo e Cultura e Esporte, turismólogo e especialista em planejamento e Gestão Turística Pedro Renngo; a pesquisadora, turismóloga e responsável pela elaboração do Plano de Desenvolvimento Turístico de São Cristóvão Mônica Liberato; Allan Alberto Santos de Oliveira, gestor público da Fundação João Bebe Água e Diretor da Secretaria Municipal de Turismo; as guias de turismo, turismólogas e especialistas em Planejamento e Gestão
Turística Maria José Rosendo e Thaiane Bispo e a técnica e mestre em Arqueologia do IPHAN/SE Beijanizy Abadia.
O roteiro de entrevistas foi baseado em uma adaptação do modelo proposto de imagem benéfica de Tapachai e Waryszak1 (2000) que trata da construção de imagem turística de novos destinos, como é o caso de Sergipe. O modelo utiliza categorias que possibilitam trabalhar a imagem e percepção que a população tem de espaços naturais e culturais, desta forma adaptou-se para avaliar percepção do patrimônio arqueológico. São elas: funcional, social, emocional, epistemológico e condicional. Essas categorias e valores são cruciais na influência de escolha de um destino e seu tratamento facilitará a análise de conteúdo de Bardin (1977).
O modelo permitiu analisar conjuntos de características que influenciam na decisão de turistas ao visitar o sítio, a participação da comunidade neste processo, empresários turísticos na iminência de investimentos, órgãos competentes e sua forma campo de atuação. O modelo proporcionou a análise, relacionada às atividades e às ações de uma pessoa em relação a uma dada localidade ou destino turístico, sendo altamente condicionado pela sua imagem, resultado das percepções e impressões da imagem criada com base nos valores e categorias apresentados no modelo.
Quadro 1 - Categorias de Análise para Roteiro de Entrevistas. CATEGORIAS DE
ANÁLISE QUALITATIVA
ITENS ANALISADOS ELEMENTOS PARA ANÁLISE
FUNCIONAL Atributos físicos, utilitários, funcionais.
Quando são expostos ao atributo em si: Os sítios arqueológicos;
Serviços e infraestrutura básica e turística como: hotéis, restaurantes, pousadas, centro de informações e outros.
SOCIAL
Associações com um ou mais grupos sociais específicos. Em aspectos socioeconômico, cultural, ambiental.
Quando são suscitados grupos sociais: moradores, empresários, turistas e visitantes, e outros.
EMOCIONAL Habilidade para suscitar
sentimentos ou estados efetivos.
Quando são evidenciados elementos que provoquem relações de sentimentos: memoria, experiências, aspectos culturais e patrimoniais e outros.
EPISTÊMICO
Habilidade de provocar curiosidade, promover novidade e/ou satisfazer desejo de conhecimento.
Quando são provocadas novas experiências seja de conhecimento, sugestões, modelos sustentáveis, trilas, roteiros, e demais práticas
1 Tapachai e Waryszak (2000) dizem que a imagem benéfica é um conjunto de características que influenciam na decisão do turista. Assim, as atividades e ações de uma pessoa em relação à localidade ou destino são condicionadas pela sua imagem. Para os autores, o produto turístico requer julgamentos subjetivos por não poder ser experimentado antes da viagem.
Capacidade de promover algo novo, novo modelo sustentável, algo diferente.
turísticas e outros.
CONDICIONAL
A utilidade percebida por uma alternativa como o resultado de uma situação especifica ou contexto feito por uma escolha. Alternativas adquirem valores condicional na presença de antecedentes físicos ou contingências sociais que melhoram seus valores funcionais e sociais, mas de outra forma não possuam esse valor. Baseado neste conceito um agente de transformação irá escolher as alternativas que derivam da utilidade de uma associação com uma situação antecedente. Valor condicional foca na utilidade extrínseca tanto quanto na utilidade intrínseca ou alternativa. Trabalha com base em estudos já desenvolvidos ou analogia.
Quando os dados mostram uma ação condicionada pela ação local. Neste caso se há viabilidade em desenvolver turismo arqueológico em Sergipe.
Fonte: Adaptado pela autora do modelo de imagem benéfica de Tapachai e Waryszak (2000).
Dentro dessas categorias, se utilizou a análise de conteúdo de Bardin (1977). Pela análise de conteúdo, visa-se obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
A partir das respostas obtidas, as informações coletadas através das entrevistas foram categorizadas e codificadas para serem posteriormente passíveis de tabulação.
As cinco categorias de análise escolhidas foram adaptadas do modelo de Tapachai e Waryszak (2000), o que possibilitou formar uma proposta de modelo de objetivos para roteiro de entrevistas. A primeira trata da análise funcional e espacial dos atributos físicos, espaciais e funcionais que analisou a localização dos sítios arqueológicos, se há estrutura para prática turística com elementos de apoio e equipamentos turísticos que possam contribuir para realização dos roteiros assim como pontos positivos e negativos da localização de dos sítios e seus atributos. A segunda trata da análise social, observa-se a percepção de moradores e visitantes/turistas em relação ao município na perspectiva de identificação dos sítios como parte da cultura local. Na terceira procedeu-se a análise emocional traçando as causas e motivos para prática nesses sítios, elementos que evoquem memória, heranças culturais e narrativas, assim como a representatividade para as comunidades locais e turistas. A quarta tratou da uma análise mais epistêmica, quando são provocadas novas experiências seja de conhecimento, sugestões, vivências em participação de ações na comunidade, entre outros. A última categoria constituiu a análise condicional que possibilitou verificar a rede de
integração dos atores envolvidos sob o patrimônio arqueológico, utilizando neste cenário o turismo de experiência.
Em todas as fases de tabulação e apresentação dos resultados foram elaboradas algumas tabelas para as perguntas abertas, reproduzindo as falas, percepções e perspectivas dos entrevistados. A partir das respostas obtidas, as informações coletadas através do roteiro de entrevista foram categorizadas e codificadas para serem posteriormente passíveis de tabulação.
No último capítulo da tese, metodologia proposta por Pardi (2007) foi utilizada nas discussões acerca da gestão do patrimônio arqueológico para fins turísticos em Sergipe. E, para um diagnóstico mais preciso foi elaborado um roteiro de visitas (APÊNDICE E), atendendo a metodologia de Pardi e adequado ao Roteiro de Inventariação proposto pelo Ministério do Turismo que buscou coletar a identificação do sítio, localização, jurisdição (pública/particular), tipo de ambiente, função, acesso, taxa de visitação, monitoria, características físicas (correspondente a documentação), verificação de infraestrutura básica e turística, sinalização, caracterização turística e segurança. Os dados coletados permitiram a elaboração e contribuição do plano interpretativo como proposta de proteção assim como fichas de formulário para diagnóstico (APÊNDICE F), que funcionaram como diário de campo.
Segundo Pardi (2007), os processos de coleta de dados garantem a instalação de serviços para o desenvolvimento de uma política de ação ativa e reativa, em resposta às demandas da sociedade constituem-se de atividades de identificação, documentação, proteção e promoção desses bens. A autora aponta para o método de coleta de Gestão do Patrimônio Arqueológico - GPA onde a responsabilidade atribuída pela Constituição e pela Lei 3924/61 do governo federal e executada através do IPHAN, que está administrativamente setorizado de acordo com aspectos básicos da especialidade: identificação, documentação, proteção e promoção.
Figura 1 - Esquema dos macros processos da gestão do patrimônio arqueológico.
Fonte: Pardi (2007)
Estas ações permeiam as atividades desenvolvidas na descrição e identificação do dos sítios com potencial de uso para fins turísticos, passando pelas etapas de forma linear, alternativa ou concomitante de forma a estabelecer uma gestão compartilhada entre a arqueologia e turismo como pode ser observado no quadro resumo (figura 1).
A metodologia permite fazer parte de estudos interdisciplinares na busca por novos olhares, transitando por diferentes áreas do conhecimento e procurando contextualizar e integrar saberes, de forma a compreender melhor os fenômenos voltados para uma proposta democrática em uma nova forma de pensar a arqueologia no turismo na sugestão de trilhas e roteiros absorvida juntamente com a comunidade local, em uma perspectiva de criar alternativas para as práticas convencionais, exemplificando em tabelas o grau de dificuldades. Como não se tratou de propor um roteiro convencional, não seguimos a metodologia exigida pelo Ministério do Turismo.
2. ARQUEOLOGIA E TURISMO: UM DIÁLOGO INTERDISCIPLINAR E