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Procedimentos e poderes para lidar com navios sem nacionalidade

não sinalizadas, embarcações sem nacionalidade e embarcações apátridas

15.4 Procedimentos e poderes para lidar com navios sem nacionalidade

Fase inicial antes da abordagem. Uma vez que o agente da autoridade encarregado do controlo da aplicação do di-reito do mar considere sustentável o requisito do “motivo razoável para suspeitar” que uma embarcação não tem nacionalidade, o Estado de abordagem pode interrogar a embarcação suspeita por rádio e/ou enviar ao navio sus-peito um barco sob o comando de um oficial, conforme previsto no nº 2 do artigo 110 da UNCLOS, para abor-dar o navio e recolher informações ou esclarecimentos.

2Ver capítulo 1 em relação à implementação interna da jurisdição das autoridades encarregadas do controlo da aplicação do direito do mar e os capítulos 4 e 5 relativamente às restrições e salvaguardas a que essa jurisdição de aplicação está sujeita, incluindo os princípios da necessidade e da proporcionalidade. Ver também as arbitragens decididas no âmbito do Tribunal Permanente de Arbitragem: Caso Duzgit Integrity (Malta v. São Tomé e Príncipe), Nº 2014-07, sentença de 5 setembro de 2016, e arbitragem Arctic Sunrise (Países Baixos v.

Rússia), Caso No. 2014-02, sentença de 14 agosto 2015, para. 198.

A fim de facilitar a visita, o navio de controlo da aplica-ção do direito do mar pode empregar força razoável para fazer o navio suspeito preparar-se para uma aproxima-ção e uma possível abordagem (ver capítulo 5). Note-se que, de acordo com os números 2 e 5 do artigo 110 da UNCLOS, o direito de visita só pode ser exercido por na-vios de guerra, ou quaisquer outros nana-vios devidamente autorizados, que estejam claramente sinalizados e identi-ficados como estando em serviço do governo.

Procedimentos e poderes disponíveis desde o início da abordagem até que uma nacionalidade válida seja apu-rada. Num momento inicial, se a embarcação suspeita fornecer os documentos relevantes ou outras informa-ções suficientes e o agente da autoridade encarregado do controlo da aplicação do direito do mar estiver sa-tisfeito quanto à sua nacionalidade, o processo chega ao fim e a embarcação anteriormente suspeita está livre para prosseguir a navegação. A este respeito, os pode-res disponíveis dizem pode-respeito à determinação e à con-firmação da nacionalidade do navio. Esses poderes in-cluem, necessariamente, a autoridade para exigir que os documentos relevantes, como os certificados de registo, sejam apresentados e - quando necessário - para trans-ferir esses documentos temporariamente para o navio do Estado de abordagem para fazer cópias ou verificar a sua autenticidade.

Todavia, o nº 2 do artigo 110 da UNCLOS estipula que se após a verificação dos documentos “as suspeitas persistem, [o Estado de embarque] pode proceder a bordo do navio um novo exame ulterior, que deverá ser efetuado com toda a consideração possível”.

Nesta fase da operação da abordagem, existem po-deres adicionais imediatamente disponíveis, tais como os necessários para, e incidentais relativamente ao pro-pósito principal da abordagem que é apurar e confirmar a nacionalidade do navio. Como exemplos destes po-deres e competências incidentais, temos os seguintes:

a realização de um controlo exaustivo de segurança na embarcação; a confisco temporário ou o controlo de armas descobertas; o controlo temporário dos sistemas de direção e de propulsão; o acesso ao sistema de na-vegação e a sua apreciação e ao sistema de dados com o objetivo de verificação de quaisquer reclamações que tenham sido a respeito de, ou relacionadas com a nacio-nalidade e registo.

Uma vez que a validade da nacionalidade invocada seja confirmada, o propósito subjacente à operação de abordagem chega ao fim. A embarcação é agora consi-derada uma embarcação com uma nacionalidade válida e, portanto, terminou o direito de visita nos termos da alínea d) do nº 1 do artigo 110 da UNCLOS. Note-se

CRIMINALIDADE MARÍTIMA: MANUAL PARA PROFISSIONAIS DA JUSTIÇA CRIMINAL 188

que, nos termos do nº 3 do artigo 110, se as suspeitas de falta de nacionalidade se revelarem infundadas, e desde que o navio abordado não tenha cometido qualquer ato que justifique essas suspeitas, o Estado de abordagem pode ser considerado responsável por qualquer perda ou dano que o navio possa ter sofrido.

No entanto, alguns Estados consideram que um Estado de abordagem pode invocar outras bases para a sua ju-risdição nesta fase da operação de abordagem. O Estado de abordagem pode alegar que essas bases de jurisdição continuam a ser aplicáveis mesmo após a confirmação da invocação válida da nacionalidade por um navio. Conse-quentemente, a validade de tais invocações de jurisdição dependerá, inteiramente, do seguinte: (a) a interpretação do direito internacional relevante aplicável pelo Estado de abordagem; e (b) a incorporação interna adequada de tal jurisdição na legislação do Estado de abordagem (juris-dição legislativa ou prescritiva do Estado de abordagem).

As questões e as bases sobre as quais os Estados po-dem invocar jurisdição são as seguintes:

(a) Quando um membro da equipa de abordagem for ferido por uma pessoa a bordo da embarcação suspei-ta durante a operação de embarque. A jurisdição sobre essa conduta pode ser baseada na aplicação da jurisdição da nacionalidade da vítima no Estado de abordagem em relação ao seu nacional que é um membro da equipa de abordagem (princípio de personalidade passiva);

(b) Quando a equipa de abordagem descobrir provas de um crime de jurisdição universal, como pira-taria, e o Estado de abordagem tiver previsto e incorpo-rado a jurisdição universal decorrente na sua legislação interna sobre esse crime;

(c) Quando a equipa de abordagem descobrir provas do tráfico de escravos ou de transmissão não autorizada, de acordo com as alíneas b) e c) do nº 1 do artigo 110 da UNCLOS, e os poderes previstos são acionados, nos termos do artigo 109 da UNCLOS (transmissão não autorizada) ou artigo 99 (transporte de escravos);

(d) Quando a equipa de abordagem descobrir provas do tráfico ilícito de drogas e a legislação nacio-nal do Estado de abordagem tiver incorporado na sua legislação os crimes de tráfico de drogas em alto mar, incluindo a permissão para apreender as drogas ilícitas, a equipa de abordagem poderá apreendê-las.

Contudo, nestes casos, alguns Estados afirmam que a autorização do Estado de bandeira (do navio anterior-mente suspeito de ser apátrida) deve ser solicitada ad hoc ou de acordo com os tratados aplicáveis, incluindo a Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito

de Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas de 1988 (ver capítulo 12).

(e) Quando o Estado de abordagem emitiu leis que poderiam ser aplicadas a bordo do navio aborda-do, tais como as infrações relacionadas com a tentativa de suborno de um agente da autoridade do Estado de embarque, ou as infrações relacionadas com utilização e posse de documentos fraudulentos, como listas falsas de tripulantes ou inventários adulterados da carga;

(f) Quando o Estado de abordagem tenha incor-porado, no seu direito interno, uma autorização pertinen-te que confira a esse Estado poderes para tomar medidas específicas de aplicação da legislação em relação a uma questão específica que envolva uma embarcação sem na-cionalidade. Por exemplo, o Estado de abordagem pode ser membro de uma organização regional de gestão de pescas que tomou medidas por considerar todos os na-vios sem nacionalidade encontrados a pescar em áreas do alto mar sujeitas à competência dessa organização, de modo inconsistente com, ou infringindo, as medidas de conservação e de gestão dessa organização (de “pesca não regulamentada”) aplicáveis a embarcações de pesca ilegais, não declaradas e não regulamentadas. Neste caso, o Estado de abordagem é obrigado a atuar e a fazer cum-prir todas as medidas que tiverem sido previstas pela or-ganização contra essas embarcações.

RESOLUÇÃO DA COMISSÃO DO ATUM DO OCEANO ÍNDICO 16/05 SOBRE NAVIOS SEM NACIONALIDADE

3. As Partes Contratantes (Membros) e as Partes Não Contratantes Cooperantes são encorajadas a tomar medidas eficazes de acordo com o direito internacional, incluindo, quando apropriado, medidas de fiscalização contra os navios sem nacionalidade que estão envolvidos, ou estiveram envolvidos na pesca ou atividades relacio-nadas com a pesca na área de competência da [Comissão do Atum do Oceano Índico] e proibir o descarregamento e o transbordo de peixes e produtos da pesca e o acesso aos serviços portuários por parte desses navios, exceto quando tal acesso for essencial para a segurança ou para a saúde da tripulação ou a segurança do navio.

(g) Quando o Estado de abordagem implemen-tou, apropriadamente, a jurisdição nacional e as autori-zações decorrentes de sanções impostas pelo Conselho de Segurança, de acordo com o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas ou outro mandato que seja exequí-vel, sem a necessidade de obter o consentimento prévio do Estado de bandeira (consultar o capítulo 5).

Poderes de jurisdição posteriores à determinação da nacionalidade. Conforme observado acima, quando as

189 CAPÍTULO 15 NAVIOS SEM NACIONALIDADE

investigações quanto à nacionalidade do navio aborda-

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do, em última análise, revelarem e confirmarem que o navio tem uma nacionalidade válida que tinha sido invo-cada, o objetivo da abordagem chegou ao fim, de acordo com a alínea d) do nº 1 do artigo 110 da UNCLOS.

Se o processo de investigação em relação à naciona-lidade invocada pela embarcação suspeita revelar que a embarcação não podia, de facto, invocar essa nacionali-dade, a embarcação é considerada sem nacionalidade.

Neste tipo de situação, a questão fundamental passa a ser a de determinar o âmbito da jurisdição que o Esta-do de abordagem pode então invocar, de acorEsta-do com o direito internacional e a legislação nacional. Não existe uma resposta definitiva para esta questão. As opções são as seguintes:

(a) Alguns Estados podem entender que passam a tratar a embarcação como tendo a nacionalidade do

Estado da abordagem. Como consequência, o Estado de abordagem pode alegar o exercício da mesma jurisdi-ção sobre o navio suspeito que poderiam exercer sobre um navio com a sua nacionalidade;

(b) Outros Estados podem considerar que a falta de nacionalidade do navio não é suficiente para fazer va-ler a sua jurisdição sobre o navio e as pessoas a bordo.

Consequentemente, invocariam jurisdição apenas se existisse algum outro vínculo de jurisdição com a ati-vidade do navio ou as pessoas em causa (ver as bases jurisdicionais relevantes, antes enumeradas).

Em qualquer caso, deve salientar-se que, além do Estado de abordagem, os Estados das respetivas nalidades das pessoas a bordo de um navio sem nacio-nalidade também têm jurisdição sobre essas pessoas – e também no que diz respeito a qualquer violação de di-reito internacional contra elas.

CAPÍTULO 16

Shipriders e