Tráfico de migrantes por mar
13.2 O Protocolo Adicional contra o Tráfico Ilícito de Migrantes por
Via Terrestre, Marítima e Aérea, que complementa a Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade Organizada Transnacional de 2000 (Protocolo de Tráfico de Migrantes)
A Convenção das Nações Unidas contra a Criminalida-de Organizada Transnacional é o principal instrumento jurídico-internacional aplicável ao crime organizado
CRIMINALIDADE MARÍTIMA: MANUAL PARA PROFISSIONAIS DA JUSTIÇA CRIMINAL 162
transnacional, incluindo os crimes previstos no Protoco-lo Adicional contra o Tráfico Ilícito de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea. A Convenção da Criminali-dade Organizada obriga os Estados Partes a:
(a) Criminalizar o branqueamento de capitais proveniente do tráfico de migrantes (artigo 6º);
(b) Adotar medidas para prever a responsabilidade das pessoas jurídicas pelo tráfico de migrantes (artigo 10º);
(c) Adotar medidas para estabelecer uma ampla aplicação jurisdicional das disposições sobre o tráfico de migrantes (artigo 15);
(d) Cooperar na investigação, na instauração de processos criminais e na apreciação em tribunal de ca-sos relativos a tráfico de migrantes e às condutas relacio-nadas, por meio de investigações conjuntas (artigo 19), assistência jurisdicional mútua (artigo 18) e extradição (artigo 16);
(e) Fornecer canais de comunicação e outros meios para a cooperação policial na investigação dos crimes de tráfico de migrantes (artigo 27).
De acordo com o artigo 15 da Convenção sobre a Criminalidade Organizada, os Estados Partes devem prever a jurisdição sobre os crimes previstos na Con-venção ou pelos seus Protocolos complementares. Isto inclui o tráfico de migrantes.
O Protocolo de Tráfico de Migrantes é o principal instrumento internacional aplicável ao tráfico de mi-grantes. O seu objetivo é prevenir e combater o tráfico de migrantes, protegendo, ao mesmo tempo, os direitos das pessoas traficadas. Como o Protocolo complemen-ta a Convenção sobre a Criminalidade Organizada, as disposições da Convenção aplicam-se a todos os cri-mes estabelecidos de acordo com o Protocolo, desde que certas condições sejam satisfeitas: que o crime seja transnacional e que seja cometido por um grupo crimi-noso organizado. Ao ratificar o Protocolo, os Estados reconhecem a necessidade de fomentar e intensificar uma estreita cooperação internacional para combater o tráfico de migrantes.
A Parte II do Protocolo trata, especificamente, do tráfico de migrantes por mar, sendo tratada com maior pormenor na seção 13.3.
Definições
Tráfico de migrantes e entrada ilegal: O Artigo 3º do Pro-tocolo define o tráfico de migrantes e a entrada ilegal:
Em geral, os elementos do tráfico de migrantes no âmbito do Protocolo são:
(a) Uma atuação para facilitar a entrada ilegal de uma pessoa
(b) Para ou num Estado do qual essa pessoa não seja nacional ou residente permanente
(c) Para obter um benefício financeiro ou outro benefício material.
É importante notar que esta definição, ao incluir o ele-mento do benefício financeiro ou qualquer outro benefí-cio material, não estende a responsabilidade às ações de pessoas que ajudam os migrantes a obterem entrada ilegal por motivos puramente altruístas ou com base em laços familiares próximos. Um benefício financeiro ou outro be-nefício material deve ser interpretado de uma forma am-pla para incluir pagamentos, subornos, recompensas, van-tagens, privilégios e serviços, incluindo serviços sexuais.
CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS CONTRA A CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL (2000)
ARTIGO 15 Jurisdição
1. Cada Estado Parte deverá adotar as medidas neces-sárias para estabelecer a sua competência jurisdicional em relação às infrações estabelecidas nos artigos 5º, 6º, 8º e 23º da presente Convenção, nos seguintes casos:
a) Quando a infração for cometida no seu território; ou b) Quando a infração for cometida a bordo de um navio que arvore o seu pavilhão ou a bordo de uma aerona-ve matriculada em conformidade com o seu direito inter-no inter-no momento em que a referida infração for cometida.
2. Sem prejuízo do disposto no artigo 4º da presente Convenção, um Estado Parte poderá igualmente estabelecer a sua competência jurisdicional em relação a qualquer destas infrações nos seguintes casos:
a) Quando a infração for cometida contra um dos seus cidadãos;
b) Quando a infração for cometida por um dos seus cidadãos ou por uma pessoa apátrida residente habitual-mente no seu território; ou
c) Quando a infração for:
(i) Uma das previstas no nº 1 do artigo 5º da presente Convenção e for praticada fora
do seu território, com a intenção de co-meter, no seu território, um crime grave;
(ii) Uma das previstas na subalínea ii) da alínea b) do nº 1 do artigo 6º da pre-sente Convenção e for praticada fora do seu território com a intenção de come-ter, no seu território, uma das infrações enunciadas nas subalíneas i) ou ii) da alí-nea a) ou i) da alíalí-nea b) do nº 1 do artigo 6º da presente Convenção.
163 CAPÍTULO 13 TRÁFICO DE MIGRANTES POR MAR
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Navio: O Artigo 3º do Protocolo de Tráfico de Mi-grantes também define “navio”.
PROTOCOLO CONTRA O TRÁFICO ILÍCITO DE MIGRANTES POR VIA TERRESTRE, MARÍTIMA E AÉREA, ADICIONAL À CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS CONTRA A CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL (2000)
ARTIGO 3º Definições
Para efeitos do presente Protocolo:
a) Por «introdução clandestina de migrantes»
entende-se o facilitar da entrada ilegal de uma pessoa num Estado Parte do qual essa pessoa não é nacional ou residente permanente com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, um benefício financeiro ou outro benefício material;
b) Por «entrada ilegal» entende-se a passagem de fronteiras sem preencher as condições necessárias para a entrada legal no Estado de acolhimento;
PROTOCOLO CONTRA O TRÁFICO ILÍCITO DE MIGRANTES POR VIA TERRESTRE, MARÍTIMA E AÉREA, ADICIONAL À CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS CONTRA A CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL (2000)
ARTIGO 3º Definições
Para efeitos do presente Protocolo:
d) Por «navio» entende-se todo o tipo de embarca-ção, incluindo embarcações sem calado e hidroaviões, utilizados ou que possam ser utilizados como meio de transporte sobre a água, com exceção dos navios de guerra, navios auxiliares da armada ou outras embarca-ções pertencentes a um governo ou por ele exploradas, desde que sejam utilizadas exclusivamente por um ser-viço público não comercial.
PROTOCOLO CONTRA O TRÁFICO ILÍCITO DE MIGRANTES POR VIA TERRESTRE, MARÍTIMA E AÉREA, ADICIONAL À CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS CONTRA A CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL (2000)
ARTIGO 6º Criminalização
1. Cada Estado Parte adotará as medidas legislativas e outras que considere necessárias para estabelecer como infrações penais, quando praticadas intencionalmente e de forma a obter, direta ou indiretamente, um benefício financeiro ou outro benefício material:
a) A introdução clandestina de migrantes;
b) Os seguintes atos quando praticados com o obje-tivo de possibilitar a introdução clandestina de migrantes:
(i) Elaborar um documento de viagem ou de identidade fraudulento;
(ii) Obter, fornecer ou possuir tal docu-mento;
c) Permitir que uma pessoa que não é nacional ou residente permanente permaneça no Estado em causa sem preencher as condições necessárias para permanecer legalmente no Estado através dos meios referidos na alínea b) do presente número ou de qual-quer outro meio ilegal.
2. Cada Estado Parte adotará também as medidas legislativas e outras que considere necessárias para estabelecer como infrações penais:
a) Sem prejuízo dos conceitos fundamentais do seu sistema jurídico, a tentativa de cometer uma infração esta-belecida em conformidade com o nº 1 do presente artigo;
b) A participação como cúmplice numa infração estabelecida em conformidade com as alíneas a), b), subalínea i), ou c) do nº 1 do presente artigo e, sem prejuízo dos conceitos fundamentais do seu sistema jurídico, a participação como cúmplice numa infração estabelecida em conformidade com a alínea b), subalí-nea ii), do nº 1 do presente artigo;
c) A organização ou a determinação de outras pessoas para a prática de uma infração em conformida-de com o n.º 1 do presente artigo.
3. Cada Estado Parte adotará as medidas legislativas e outras necessárias para considerar como circunstân-cias agravantes das infrações estabelecidas em confor-midade com as alíneas a), b), subalínea i), e c) do nº 1
O Artigo 6º criminaliza o tráfico de migrantes e os crimes relacionados, como permitir que uma pessoa permaneça num Estado da qual não é nacional através de meios ilegais, apresentar ou obter um documento fraudulento de viagem ou de identidade para obter um benefício financeiro ou material. A criminalização do tráfico de migrantes é a principal obrigação dos Estados Partes do Protocolo. O Protocolo exige ainda que os Es-tados criminalizem a tentativa e a cumplicidade e, em certos casos, prevê circunstâncias agravantes.
Uma embarcação “envolvida” no tráfico de migran-tes deve ser abrangida quer pelo envolvimento direto (transporte do migrante) quer pelo envolvimento in-direto (naves-mãe ou embarcações de apoio). A ideia anterior fica confirmada pelas notas interpretativas da Convenção sobre o Crime Organizado e seus Protoco-los (A/55/383/Add.1, para. 102).
Infrações nos termos do Protocolo
O Artigo 4º do Protocolo exorta os Estados Partes a prevenir, investigar e processar o tráfico de migrantes, protegendo os direitos das pessoas que tenham sido ob-jeto desses crimes.
CRIMINALIDADE MARÍTIMA: MANUAL PARA PROFISSIONAIS DA JUSTIÇA CRIMINAL 164
Várias disposições do Protocolo refletem os padrões e as normas internacionais de direitos humanos, em parti-cular os direitos fundamentais à vida e à liberdade contra a tortura e o tratamento desumano. A este respeito, o nº 3 do artigo 6º estipula que a violação destes direitos deve ser considerada, no mínimo, como uma circunstância agravante na legislação nacional. A importância da prote-ção dos direitos dos migrantes também está refletida nos artigos 4º, 5º, 9º, 16 e 19, conforme será discutido a seguir.
O Protocolo não usa o termo “vítimas” para se referir a migrantes, mas sim “pessoas que foram objeto de tais cri-mes”. O artigo 5º do Protocolo estabelece que os migrantes não serão passíveis de processo criminal pelo simples fato de serem objeto das condutas estabelecidas no artigo 6º.
No entanto, o Protocolo não impede que os Estados responsabilizem os migrantes por outros crimes, como, por exemplo, fraude de documentos (ver nº 4 do artigo 6º do Protocolo).