5. PERCURSO METODOLÓGICO
5.4 Procedimentos e instrumentos de coleta de dados
5.4.2 Procedimentos qualitativos para coleta dos dados
Para a construção do nosso estudo, empregamos, basicamente, três fontes qualitativas para obter dados: a) levantamento de dados secundários por meio de pesquisa documental; b) uso de uma questão aberta (de resposta opcional) no fim do questionário eletrônico (on-line) disponibilizado para os
docentes via internet; c) realização de grupos focais com os docentes que se disponibilizaram a participar voluntariamente desses grupos. Sintetizamos cada procedimento a seguir.
No levantamento dos dados secundários desse estudo, empregamos uma pesquisa/análise documental para caracterização das universidades. Cabe ressaltar que nessa 1ª etapa do nosso estudo (também conhecida como análise documental) analisamos documentos internos (material oficial da organização investigada) e outros materiais externos (dados oficiais governamentais e de organizações não governamentais como materiais de sindicatos, institutos de ensino/pesquisa).
Outra fonte de dados qualitativos foi uma questão aberta (opcional), localizada no fim do questionário eletrônico (ver final do questionário no APÊNDICE A), na qual solicitamos aos participantes que acrescentassem algum comentário sobre a sua Qualidade de Vida no Trabalho enquanto docente de instituição pública. Do total da nossa amostra (715 docentes), apenas 203 pessoas (28,4%) registraram, espontaneamente, seus comentários nesse campo qualitativo do questionário eletrônico. Dessas 203 respostas qualitativas do questionário, registramos comentários de 147 dos docentes da UFMT (72,4% de 203 respostas) e 56 comentários dos professores da UTFPR (27,6%). Tais dados qualitativos também foram empregados nas análises aqui apresentadas.
Por fim, também usamos alguns grupos focais como procedimento qualitativo para coleta de dados. Empregamos tal procedimento para obter maiores informações sobre a percepção dos docentes sobre a sua QVT e sobre o contexto em que estão inseridos.
O grupo focal é um procedimento de coleta de dados qualitativo que permite ao pesquisador avançar além do conhecimento conceitual e prático, desvelando nuances que não estão disponíveis nas técnicas quantitativas. O grupo focal possui como característica propiciar o processo de discussão
informal dos participantes com o propósito de se obter informações de caráter qualitativo em profundidade.
O grupo focal é um procedimento consagrado e amplamente empregado em processos avaliativos ou pesquisas sociais que visam coletar dados sobre conhecimentos tácitos, opiniões e atitudes (BELZILE; ÖBERG, 2012; CYR, 2015; GEORGE, 2013; KIDD; PARSHALL, 2000; LINDEGAARD, 2014; LINHORST, 2002; RYAN et al., 2014). De acordo com Moura e Ferreira (2005), o grupo focal pode ser compreendido como:
[...] entrevistas em profundidade realizadas com um pequeno grupo de pessoas cuidadosamente selecionadas para discutir determinados tópicos [...], uma técnica bastante popular para a coleta de dados acerca de opiniões e atitudes. A composição desses grupos costuma ser feita de modo a
reunir pessoas com interesses, experiências ou
características demográficas similares (indivíduos que desempenham uma mesma função, alunos de uma mesma série, jovens de uma mesma faixa etária etc.), o que tende a resultar em discussões mais produtivas. [...] Os grupos focais oferecem a vantagem de reunir grande quantidade de informação num curto espaço de tempo, além de permitirem que o moderador explore assuntos não contemplados previamente no roteiro, mas ainda assim relacionados aos objetivos da pesquisa, quando emergem durante a discussão (MOURA; FERREIRA 2005, p. 68-69).
Outra grande vantagem do uso do grupo focal é que esse procedimento de coleta de dados também permite fazer o registro de observações relevantes (por exemplo, as expressões corporais das pessoas) que ocorreram durante a interação com os participantes.
O tempo de duração do grupo focal varia de uma a duas horas e o moderador/coordenador deve ficar atento para estimular a participação de todos os membros do grupo e manter o foco do debate nos temas previamente estabelecidos. Também é desejável a presença de observadores na equipe que conduzirá o grupo para fazer o registro das interações, gestos, expressões e demais comportamentos das pessoas que estão participando do grupo focal
(DIAS, 2000).
Os professores foram convidados a participar dos grupos focais por e- mail e via mensagens enviadas por celular. Todos os grupos, que ocorreram em salas de aula das duas universidades, seguiram a mesma sequência e só tiveram início após o esclarecimento dos objetivos gerais do estudo e o aceite/assinatura individual do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) por parte dos docentes participantes (APÊNDICE C). Todos os docentes também autorizaram o registro de áudio dos grupos focais para posterior transcrição e análise.
Na condução dos grupos focais, empregamos um roteiro flexível (APÊNDICE D), com questões que contemplaram as variáveis do Modelo Geral para compreensão da QVT (MORIN, 2008). Os resultados da pré-análise, feita com 564 respondentes do questionário eletrônico, também serviram para orientar os debates nos grupos focais.
Foram realizados seis grupos focais, que ocorreram no mês de junho de 2015 - com duração média de 90 minutos cada - sendo três grupos com os docentes da UFMT (com presença total de 12 docentes: 4 mulheres e 8 homens) e outros três grupos com professores da UTFPR (também com participação de 12 docentes: 5 mulheres e 7 homens). Todos os grupos focais foram de composição mista (sem distinção de sexo, idade, tempo de experiência, regime de trabalho, área de atuação/formação) e os encontros ocorreram no Câmpus Cuiabá da UFMT e no Câmpus Francisco Beltrão da UTFPR. Além dos seis grupos focais mencionados, dois outros grupos (um em cada instituição/câmpus) chegaram a ser agendados para coleta de dados, mas acabaram sendo cancelados por desistência dos docentes.
Os dados qualitativos foram analisados e categorizados considerando as verbalizações obtidas nos seis grupos focais (identificadas com as letras GF ao lado das verbalizações para clara percepção do leitor quanto à fonte do dado) e as respostas da questão aberta (sinalizadas com as letras QA) do questionário
eletrônico. Todo o material foi submetido ao procedimento de análise de conteúdo (BARDIN, 1994). Para manter a fidedignidade dos dados, também mantivemos a descrição literal das falas dos participantes do grupo focal, bem como os comentários feitos na questão aberta do questionário eletrônico.
A função de moderador/coordenador dos grupos focais foi desempenhada pelo autor desse estudo. Já o papel de observador/auxiliar na condução dos grupos foi exercido por um grupo de alunas de iniciação científica (IC), previamente instruídas para tal função.