Os materiais utilizados no processo de compostagem tiveram origem no processo de produção de pasta de papel na unidade fabril Europac Kraft Viana e são: biomassa de casca de pinheiro e casca de eucalipto, resíduos resultantes da triagem e produção de pasta a partir de papel recuperado e lamas biológicas resultantes do sistema de tratamento de efluente implementado nas instalações. Foram construídas, nas instalações da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima, três pilhas com uma volumetria inicial de 7,5 m3 e as temperaturas foram medidas entre as 16 e as 18 horas dos dias estabelecidos e foram feitas manualmente com recurso a uma sonda Testo modelo 175 – T2 Logger. Realizaram-se colheitas de três amostras por pilha nos dias 0, 7, 14, 28, 49, 77, 105, 133 e 175 de compostagem e recorreram-se às normas europeias (CEN, 1999) para a determinação das seguintes características: humidade (EN 13040); pH por potencimetria (EN 13037);
condutividade eléctrica (EN 13038); determinação do azoto amoniacal por destilação directa com uma unidade de destilação; determinação do teor de nitratos mediante espectrofotometria com base colorimétrica por desenvolvimento de cor do extracto aquoso com salicilato (adaptação ESAPL); MO por calcinação (EN 13039); azoto Kjeldahl modificado (EN 13654) (com um digestor Gerhardt-KT12S e uma unidade de destilação Vadopest-3);a concentração de carbono total, destinado ao cálculo da relação C/N; a mineralização da MO e as perdas de azoto foram estimadas pela fórmula de Paredes et al.
(2000) e as perdas de massa foram calculadas pela fórmula de Tang et al. (2007) (BRITO, 2012). O revolvimento das pilhas foi feito com recurso a utensílios agrícolas manuais.
RESULTADOS E CONCLUSÕES
A temperatura das pilhas durante o processo de compostagem evoluiu como o previsto (BRITO et al., 2008) no entanto, as temperaturas não foram suficientemente elevadas para garantir a higienização do composto. Este facto poderá, eventualmente, ser ultrapassado realizando a compostagem em pilhas de maiores dimensões. Após o arejamento, as temperaturas voltaram a aumentar pelo que indica que o processo não estava completo, e que o este era necessário para prosseguir o processo.
Durante o processo de compostagem o teor de humidade não diminui porque a evaporação de água não compensou a produção de água resultante do processo de mineralização da matéria orgânica e a diminuição da matéria seca, levando a que o processo se tornasse mais lento. O facto de as pilhas terem sido reviradas somente uma vez também afectou o teor de humidade pois não foi possível a correta oxigenação da pilha e a sua secagem. O pH das pilhas nunca tendo atingido valores muito ácidos, indicativos da inexistência de processos anaeróbios nas pilhas.
Durante o processo de compostagem, os valores de condutividade eléctrica tenderam a aumentar, no entanto mantiveram-se abaixo dos valores de referência pelo que a
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916incorporação do composto no solo não deverá causar excesso de salinidade que seja prejudicial à germinação das sementes e ao crescimento das plantas. O teor de N nítrico foi baixo durante a compostagem sendo que os momentos onde a presença de nitratos foi notada coincidiram com momentos de temperaturas mais baixas, propícias à nitrificação (JIMÉNEZ E GARCIA, 1989). Nos compostos em análise houve um aumento do teor de amónia inicial devido às elevadas temperaturas e/ou à mineralização das proteínas. Com a diminuição da degradação da matéria orgânica mais facilmente disponível e a descida das temperaturas, a produção de amónia diminui. Houve um novo aumento do teor de amónia coincidindo com o momento seguinte ao revolvimento, no entanto todas as pilhas apresentavam concentrações de amónia inferiores aos valores de referência, demonstrando que os compostos se encontravam maturados.
No fim do processo de compostagem, o teor de azoto total no composto foi, em todas as pilhas, muito superior à maioria dos compostos comerciais produzidos em climas quentes. O processo iniciou-se com uma razão C/N inferior a 20 nas três pilhas (tendo em conta que a quantidade de lenhina e celulose não entram na contabilidade do carbono da relação), e esta diminui para valores inferiores a 15, sendo indicativo que em todas as pilhas, ao nível do grau de maturação indicado pela relação C/N, o composto se encontra maturado e com elevado grau de estabilização. A diminuição e estabilização das perdas de matéria orgânica verificou-se somente nas pilhas B e C, tendo a pilha A apresentado variações nos valores finais e a consequente instabilidade, indicando a presença de um composto com uma maturação incompleta. Este facto pode ser justificado pela presença na pilha A de uma maior quantidade de material rico em lenhina. Visto nas pilhas B e C apresentarem maiores perdas de massa, matéria orgânica e azoto e estas terem estabilizado mais facilmente que na pilha A, indica que o processo de compostagem decorreu com mais sucesso nas pilhas B e C.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRITO, L.M. – Manual de Compostagem [Em linha]. Ponte de Lima: ESA – IPVC.
Disponível em WWW: http://www.ci.esapl.pt/mbrito/compostagem/
BRITO, L.M.; MOURÃO, I.; COUTINHO, J. & SMITH, S.R. – Simple technologies for on-farm composting of cattle slurry solid fraction [Em linha]. Waste Management n. º 32 (2012), p.1332-1340.
CELPA – ASSOCIAÇÃO DA INDÚSTRIA PAPELEIRA - Boletim Estatístico 2009 [Em linha]. Indústria Papeleira Portuguesa, 2010 Disponível na internet:
http://www.celpa.pt/Default.aspx?PageId=207&ContentId=20&ChannelId=112
CEN – EUROPEAN STANDARDS – Soil improvers and growing media. European Committee for Standardization, (1999).
INE – INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA - Estatísticas do Ambiente 2010 [Em linha]. – Instituto Nacional de Estatística, Instituto Português, 2011 Disponível na internet:
http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui
=132235508&PUBLICACOESmodo=2
JIMÉNEZ, E.I. & GARCIA, V.P. – Evaluation of city refuse compost maturity: a review.
[Em linha]. Biological Wastes nº 27 (1989) p.115-142.
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917Gestão de RSU em São Tomé e Príncipe T. Lucas (a), A. Lorena (b)
(a) WACT Spirit, ONGD WACT, Lisboa, [email protected]
(b) IN+ Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento, Instituto Superior Técnico, Lisboa, [email protected]
SUMÁRIO
A gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU) em ilhas apresenta vários desafios. Para ultrapassar estas barreiras, é proposto um sistema de gestão de RSU baseado nos conceitos de metabolismo urbano e simbiose industrial para a principal ilha de S. Tomé e Príncipe (STP). O objectivo geral do sistema proposto consiste na integração dos fluxos de RSU nas actividades económicas locais, reduzindo assim a deposição não controlada e a necessidade de tratamento dedicado. Para tal, é necessário garantir uma rede alargada de recolha selectiva constituída por micro-empresas locais. O investimento acumulado estimado até 2040 encontra-se entre 30 e 38 milhões de US$. É ainda discutido o papel das organizações não governamentais (ONG) na implementação da estratégia proposta e a importância da monitorização contínua para o sucesso da implementação do sistema.
ARTIGO
A gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU) em ilhas apresenta vários desafios. A falta de escala limita o uso de tecnologias de tratamento com recuperação material ou energética. A insularidade aumenta os custos de exportação de materiais recicláveis ou de resíduos para os quais não existam soluções de tratamento nacional. Para ultrapassar estas barreiras, é proposto um sistema de gestão de RSU baseado nos conceitos de metabolismo urbano e simbiose industrial para a principal ilha de S. Tomé e Príncipe (STP). O arquipélago de STP situa-se em África, no Golfo da Guiné, sendo constituído pela ilha de S. Tomé (859 km2), a ilha do Príncipe (142 km²) e diversos ilhéus. No total o país possuía cerca de 179.000 habitantes à data do estudo, a maioria sem acesso a sistemas de gestão de RSU.
O sistema de gestão de RSU proposto garante a redução da fração de resíduos não recolhidos e despejados de forma ilegal, a praticamente zero. A sustentabilidade financeira é conseguida através da reciclagem de materiais e recuperação energética. No caso do vidro e das embalagens de alumínio, o objetivo passa por integrar a reciclagem com as principais indústrias de exportação, nomeadamente o cacau, café e óleo de palma. A energia para a reciclagem desses fluxos pode ser fornecidas por meio da integração de papel, pelets fabricados a partir de resíduos das serrações e incineração de plástico nos processos de combustão. Relativamente à fração orgânica, o objetivo será reduzir a deposição de aterro sanitário para praticamente zero. Poder-se-á atingir este objetivo através do desvio das matérias orgânicas para a alimentação animal (acompanhada de medidas que garantam a segurança alimentar), compostagem doméstica e/ou comunitária e implementação de digestores anaeróbios de pequena escala para a produção de eletricidade.
Na estimativa da produção de RSU até 2040, foram considerados dois cenários. No cenário de referência [2] o perfil económico da STP mantém-se inalterado. A população e o PIB per capita crescem a uma taxa média de 2,0 % e 1,0%, respetivamente. No cenário Turismo, a população de STP cresce a uma taxa similar até 2020, mas a partir desse ano a taxa de crescimento anual da população decresce progressivamente até estabilizar em 1%, enquanto que o PIB per capita terá um aumento médio anual de 3% a partir de 2020. No primeiro cenário, é necessário aumentar o tratamento formal de RSU de praticamente zero para cerca de 130 mil toneladas por ano (100% do total produzido) em 2040. A capacidade de reciclagem de embalagens de vidro deve chegar a 15 mil toneladas por ano, enquanto que para as embalagens de alumínio, este valor deve ser de 8 mil toneladas por ano. No cenário Turismo, a capacidade de tratamento de resíduos sólidos urbanos terá de aumentar para 100 mil toneladas por ano, sendo a reciclagem responsável pela recuperação de 25 mil
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918toneladas de resíduos por ano. O investimento acumulado será entre 38 e 30 milhões de US$, dependendo do cenário.
A implementação de um sistema de gestão de RU requer a participação e o compromisso de todas as autoridades locais. Contudo, e particularmente em países como STP, onde a ajuda externa tem um peso importante no orçamento de Estado nacional, as ONG podem desempenhar fundamental. Por um lado, estas organizações permitem o acesso a financiamento internacional de apoio à melhoria das condições de saneamento, com impacto directo em termos de qualidade de vida e protecção da saúde pública das populações mais desfavorecidas. Por outro lado, muitas destas ONG têm a experiência e conhecimento das especificidades locais, elevado grau de aceitação por parte das comunidades e acesso às várias autoridades locais. Assim, é proposto que a implementação das actividades de gestão de RU, particularmente o desenvolvimento de uma rede de recolha selectiva de RU baseada em micro-empresas e a promoção da compostagem doméstica e comunitária, sejam feitas com o apoio alargado das ONG ambientais. A educação ambiental e a promoção de boas práticas de gestão de RU podem ser também promovidas pelas ONG junto das comunidades locais.
No entanto, a participação das ONG e o financiamento internacional não garantem necessariamente uma política coesa e com objectivos de longo prazo. Pelo contrário, as acções tomadas dependem na maioria das vezes das condições do financiador, que nem sempre se ajustam as necessidades estratégicas do país.
Para além da definição estratégica do sector, as autoridades centrais e locais devem garantir a monitorização contínua da quantidade e qualidade dos resíduos produzidos bem como o estado de implementação e avaliação das medidas implementadas. Neste sentido, sugere-se a realização de campanhas de recolha de dados de produção de resíduos provenientes dos produtores domésticos, em paralelo com a recolha dos dados dos censos.
A pesagem dos resíduos produzidos pelas famílias deve ser acompanhada pela realização de questionários que permitam obter conclusões sobre os hábitos sanitários das populações. Estes dados permitiram a otimização do sistema e o apoio à consolidação de medidas determinadas pelas instituições existentes. Propõe-se ainda a divulgação publica dos resultados, através do sítio institucional da Direção Geral do Ambiente de S. Tomé e Príncipe, tornando o sistema mais eficaz, transparente e útil para os diversos stakeholders, nomeadamente população, investidores, ONGS e investigadores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ecogestus e TESE - Plano de Acção para a Gestão Integrada de Residuos Sólidos Urbanos - São Tomé e Principe. S. Tomé, S. Tomé e Príncipe: Coperação Espanhola, 2010.
[2] Pardee Center for International Futures at the University of Denver - The International Futures. Disponível na Internet <URL. www.ifs.du.edu>.
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919Aspetos ambientais do engaço de uva usado como pellets biocombustíveis versus uso tradicional e comparação com pellets tradicionais Sónia Lopes, Sónia O. Prozil, Dmitry V. Evtuguin, Luísa P. Cruz-Lopes, Luís T. de Lemos INTRODUÇÃO
Em Portugal, o setor vitivinícola é dos mais representativos da economia agrícola. A gestão dos resíduos gerados deve prevenir o controlo de problemas ambientais e promover a rentabilização do respectivo potencial. O engaço de uva, resíduo do processo de vinificação, é, em Portugal, tradicionalmente depositado em terrenos agrícolas com a intenção de servir de fertilizante. Trata-se de um material lenhocelulósico que apresenta diversas possibilidades de valorização, nomeadamente a compostagem ou a sua utilização como combustível. Apesar do potencial energético, a sustentabilidade ambiental da bioenergia em geral e da biomassa em particular, não é inequívoca. No presente estudo, foi efectuada a comparação dos impactes ambientais resultantes da utilização de pellets obtidas a partir de engaço de uva, produzidas à escala piloto, com a deposição em aterro e compostagem do engaço de uva bem como com pellets obtidas a partir de material tradicional.
MÉTODOS