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3 A JUSTIFICAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS E O CONTROLE

3.1 PARÂMETROS MÍNIMOS EXIGIDOS NA DENSIFICAÇÃO DOS

3.1.3 Processo cooperativo: influência e dever de debate

3.1.3 Processo cooperativo: influência e dever de debate

No desenvolvimento do trabalho foi assinalado que a incidência dos princípios

constitucionais, nas hipóteses de ausência ou deficitária densificação legislativa,

fortaleceu substancialmente a atividade judicial, feição constitutiva que intensificou a

subjetividade do juiz e a concomitante possibilidade de abusos na densificação desses

preceitos. Sendo assim, estabelecido um quadro mais problemático, descortina-se a

formatação do processo civil à luz de um forte contraditório, de um contraditório que

assegure às partes o direito de efetivamente influir na construção da decisão judicial;

de um contraditório que alcance também a figura do juiz, estabelecendo o dever de

debate sobre os temas que darão suporte à construção da decisão judicial.

Daniel Mitidiero e Luiz Guilherme Marinoni não apenas promovem um

inventário dos ordenamentos que expressamente trabalham essa visão do princípio do

contraditório, como também explicam: "Nessa nova visão, é absolutamente

indispensável tenham as partes a possibilidade de pronunciar-se sobre tudo que

pode servir de ponto de apoio para a decisão da causa, inclusive quanto àquelas

questões que o juiz pode apreciar de ofício" (

SARLET; MITIDIERO; MARINONI,

2012,

p.648-649). Na doutrina italiana, por exemplo, é possível invocar as lições de

Comoglio, Ferri e Taruffo (2006, p.77):

Ma ora si va progressivamente affermando – sulla base delle norme costituzionali e sulla scia delle esperienze di diritto comparato (si vedano, ad es., l'art. 16 del c.p.c. francese; il par. 278, comma 3, della ZPO tedesca, nel testo modificato nel 1976, ed il nuovo par. 139, commi 2-4, delle medesima, nonché il. Par. 182a della ZPO austríaca, dopo le rispette riforme degli anni 2001-2002) – un vero e próprio potere-devere del giudice di provocare comunque, di propria iniziativa, il preventivo contraddittorio delle parti su qualsiasi questione (di rito o di merito, di fatto o di diritto, pregiudiziale o preliminare), avente una rilevanza decisoria determinante. [...], il giudice che <rileva> tale <questione> per ciò stesso deve indicarla alle parti che non l’abbiano precedentemente proposta e discussa, prima di potersene avvalere per la decisione, giacchè la sua preventiva <trattazione> è da reputarsi sempre costituzionalmente <necessária> (e non è mai soltanto processualmente <opportuna>, como invece lascia intendere l’art. 183, comma 4.

O diálogo judicial, no dizer de Carlos Alberto Alvaro de Oliveira (1997,

p.168), não apenas garante a democratização do processo, como também impede

que o iura novit curia

206

resulte num instrumento de opressão e autoritarismo.

Continua o professor titular da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio

Grande do Sul (1997, p.167): "a colaboração das partes com o juízo encontra a sua

razão de ser num plano mais amplo, na medida em que não se cuida apenas de

investigar a norma aplicável ao caso concreto, mas de estabelecer o seu conteúdo e

alcance", evitando-se, com isso, as surpresas e os naturais prejuízos ao exercício do

direito de defesa.

207

A observância do contraditório previne as partes de uma

"decisão-supresa" ou de uma terza via

208

Nessa perspectiva, tem razão Daniel Mitidiero (2011a, p.48-49) quando

insere o processo (e não a jurisdição) como polo metodológico da teoria do processo

civil contemporâneo e, com ele, desenvolve a noção de processo cooperativo.

, construída, quase sempre, sob a

perspectiva do iura novit curia (

COMOGLIO; FERRI; TARUFFO

, 2006, p.78).

209

206 Sobre o monopólio judicial na aplicação do direito, consultar Fritz Baur (1976, p.169-177). Dentre as conclusões do autor (p.177), extrai-se: “A dicção iuria novit curia não significa que o Tribunal disponha do monopólio da aplicação do direito, desconhecendo ou desprezando as concdlusões das partes tendo em vista as normas jurídicas invocadas pelos litigantes.”

207 No mesmo sentido: Tucci (2001, p.163); Teixeira (2004, p.175).

208 Eis as considerações de Michele Taruffo (2011a, p.356-357): "Una función similar de garantia instrumental es la que explica el principio de obligatoriedad de motivación en materia del derecho de defensa, [...]. Lo que se busca verificar mediante la motivación no es tanto el hecho de que las partes hayan tenido la posibilidad concreta de valerse de todos los instrumentos que les ofrece el ordenamiento procesal para el ejercicio idóneo de sus respectivas razones, sino, especialmente, el hecho de que el juez haya tomado en consideración de manera adecuada las instancias y los alegatos manifestados en ejercicio del derecho de defensa. [...], el vaciamiento de la garantia de la defensa puede tener lugar directamente en la decisión cuando el juez sigue la <<tercera vía>>, eligiendo una solución del litigio que no haya sido objeto de discusión entre las partes durante el juicio, o bien, cuando enche mano de su propio libre convencimiento sobre los hechos de tal modo que termine sobrevalorando o infravalorando indebidamente el valor de los elementos de prueba aportados durante el juicio."

209 O processo cooperativo, segundo lições de Daniel Mitidiero e Luiz Guilherme Marinoni, densifica ao menos parcialmente o princípio fundamental ao processo justo (SARLET; MITIDIERO; MARINONI, 2012, p.618-619). Sobre a natureza principiológica da colaboração processual, consultar: Daniel Mitidiero (2011b, p.55-68) e Lenio Luiz Streck (2012, p.13-34).

Segundo o autor (p.114), esse perfil processual decorre de uma visão do direito como

juris prudentia, muito embora concebido como scientia juris, de modo que o

contraditório assume destacada posição na construção do formalismo processual.

Especialmente quanto ao redimencionamento do papel do juiz, anota que a ele

incumbe uma dupla função: ser paritário na condução do processo, no diálogo

processual; e assimétrico no quando da decisão da causa. A isonomia reside na

condução dialogada do processo, inclusive em relação ao próprio juiz, que se converte

num dos sujeitos do processo, com a responsabilidade de também cooperar com as

partes, estando, portanto, "gravado por deveres de esclarecimento, prevenção,

consulta e auxílio para com os litigantes" (p.82-83). A assimetria está na decisão

judicial, gestionada num ambiente democrático, porém imposta pelo Estado-juiz,

dada à imperatividade da jurisdição (p.86). Especialmente quanto ao brocardo iura

novit curia – próprio do processo assimétrico – diz o autor que a sua relativização

pressupõe a compreensão do direito "não mais como algo totalmente pré-dado pela

legislação" (p.103), apontando, mais, com base nas lições de Carlos Alberto Alvaro

de Oliveira, que o contraditório pressupõe que as partes "têm o direito de se

pronunciar também sobre a valoração jurídica da causa, tendo o juiz de submeter ao

diálogo sua visão jurídica das questões postas em juízo" (p.102).

Então, nesse contexto de maiores incertezas, é importante pensar o processo

civil numa perspectiva dialógica também sobre as questões jurídicas, permitindo-se às

partes o direito de influir efetivamente na tomada da decisão. Afinal, qual o princípio

constitucional aplicado? Quais os critérios relevadores do princípio constitucional em

disputa, se implícito? Há divergências razoáveis de leituras constitucionais acerca do

mesmo princípio constitucional (colisão intraprincípios)? Existem princípios constitucionais

em tensão que igualmente hospedam a situação fática (colisão entreprincípios)?

É caso de ponderação? É caso de se trabalhar com qual ou quais das diretrizes da

proporcionalidade? Enfim, são delineamentos que antecedem à formulação da

decisão e que, com anterioriedade, devem ser compartilhados com os demais atores

processuais.

Dito de outro modo, para além da preocupação com os termos da decisão; com

a fundamentação exteriorizada na sentença; impõe-se um compartilhamento dos

contornos decisórios à semelhança da organização processual em matéria

fático-probatória. Significa dizer: na audiência preliminar (

CPC

, art. 331), por exemplo, a

fixação dos pontos controvertidos pode transcender para igualmente alcançar as

questões jurídicas, não sob a perspectiva da distribuição e produção de provas, mas,

ao contrário, no sentido de informar e debater com as partes o próprio conteúdo da

futura decisão judicial. Não se trata de julgamento prévio, antes, cuida-se de prevenir

eventual surpresa ou ofensa ao princípio do contraditório quando da elaboração da

decisão judicial, oportunidade em que, não raras vezes, o juiz encontra solução que

sequer foi agitada pelos litigantes. Diz J. J. Gomes Canotilho (2002, p.1223): a

ponderação não dispensa uma cuidadosa topografia do conflito

210

, topografia,

acrescenta-se, que não dispensa a efetiva colaboração das partes.

211

3.1.4 Pretensão de universalização (excepcionável): ideia regulativa

A destacada problematicidade do direito contemporâneo é incompatível com

a existência de uma única resposta correta, de modo que o ideal regulativo migra

para a obtenção da melhor resposta, também aferida por meio de uma pretensão de

universalidade. Na medida em que a densificação do comando constitucional é feita

sem escalas ou intermediações, exige-se do juiz que a justificação da decisão não

fique circunscrita ao caso concreto, mas que ela possa servir de parâmetro para a

solução de casos semelhantes ou equiparados.

212

210 "A análise da topografia do conflito exige, assim, que se esclareçam dois pontos: (1) se e em que medida a área ou esfera de um direito (âmbito normativo) se sobrepõe à esfera de um outro direito também normativamente protegido; (2) qual o espaço que 'resta' aos dois bens conflituantes para além da zona de sobreposição." (CANOTILHO, 2002, p.1223).

211 Ana Paula de Barcellos (2005, p.91-92) concebe a ponderação como um processo composto de três fases sucessivas, assim identificadas: (i) na primeira das fases, incumbe ao intérprete identificar os enunciados normativos que se encontram em conflito; (ii) na segunda das fases, ocupa-se o intérprete em apurar os aspectos fáticos relevantes; e (iii) na terceira das fases, o intérprete formula a sua decisão. Humberto Ávila (2011, p.156-157) fala de etapas fundamentais para que se tenha uma ponderação estruturada: (i) a primeira delas consiste na preparação da ponderação, fase em que devem ser analisados exaustivamente os elementos e argumentos; (ii) a segunda delas se refere à realização da ponderação, oportunidade em que se indica a primazia entre os elementos e argumentos; e (iii) a terceira delas pressupõe a reconstrução da ponderação sob a perspectiva de uma pretensão de validade para além do caso. Sendo assim, não se duvida que o processo cooperativo satisfatoriamente atende à preparação da ponderação, mecanismo, como mencionado, imprescindível nas hipóteses de conflito entre princípios constitucionais. 212 Ana Paula de Barcellos (2005, p.126) observa que a "pretensão de universalidade" encerra duas

significações: "uma relacionada com a argumentação jurídica propriamente dita e outra com a decisão final do intérprete." Num primeiro momento, quer-se que o intérprete empregue uma argumentação universal, entendida como aquela "aceitável de forma geral dentro da sociedade e do sistema jurídico no qual ela está inserida e racionalmente compreensível por todos". Prossegue (p.130-131): num segundo momento, quando a decisão envolve a decisão formulada pelo juiz, diz que "a solução a que chega o intérprete deve ser generalizada para todas as outras situações semelhantes ou equiparáveis e, para isso, deve ser submetida ao teste da universalização: é possível e adequado aplicar a decisão a que se chegou a todos os casos similares?"