CAPÍTULO 3 – ADICONANDO IGUARIAS À RECEITA PARA O
3.3 Local de atuação do colaborador da pesquisa
3.3.4 Processo de análise e interpretação da entrevista
Este tópico trata do processo de análise e interpretação da entrevista narrativa (auto)biográfica empregado para alcançar a subjetividade do sujeito, de forma que possam alcançar os objetivos dessa pesquisa.
O processo analítico proposto para esta pesquisa é a análise interpretativa que prioriza a fertilidade da subjetividade do sujeito, constituindo um campo que privilegia a observação dos processos de reflexividade do agir e narrar sobre si no trabalho biográfico do colaborador da pesquisa. (DELORY-MOMBERGER, 2006; 2008; 2011; 2012)
Essa observação do pesquisador deve ser interpretativa e sistemática daquilo que orienta, autodefine, oprime, ou legitima o portador do trabalho biográfico (SCHUTZE, 2013), podendo-se encontrar diversos e distintos tipos de discursos constituídos por leitura e análise.
Entre as formas de discurso está aquela que cabe ao pesquisador observar as relações narrativas, explicativas e avaliativas. Na análise interpretativa sobre o que os sujeitos fazem de si mesmos é possível compreender processos de reconstrução que o colaborador da pesquisa faz, no ato de narrar seus fatos biográficos. Para tanto o pesquisador deve buscar seguir os “esforços teóricos interpretativos do portador da biografia com o contexto de vida no qual ocorreram os desencadeamentos de processos fáticos”, ou seja, processos experienciáveis e comunicáveis, será possível fazer a “análise do conhecimento” com argumentações e posicionamentos (SCHUTZE, 2013, p. 214).
O ato de seguir a interpretação e as ressignificações do portador da biografia, a partir da entrevista narrativa (auto)biográfica pode ser discutida por meio de análise narrativa (BOLÍVAR, 2012). Para tal o pesquisador deverá contemplar a dimensão pessoal do entrevistado de forma que possibilite evidenciar como o colaborador da pesquisa reconstrói e interpreta o seu mundo vivido. Nas palavras de Abrahão (2008, p. 100), consiste no processo de “ressignificação do vivido do sujeito que se narra”. Esse processo pode ser considerado como um trabalho biográfico co-interpretativo do pesquisador, que requer escuta e capacidade de compreender como os colaboradores da pesquisa ressignificam seu trabalho biográfico, fazendo uma análise hermenêutica que busca estabelecer uma rede de sentidos, estruturadas pela narrativa.
A narrativa pode ser considerada como uma fonte de informação produzida pelo trabalho biográfico do colaborador da pesquisa e a análise interpretativa deve figura uma intencionalidade hermenêutica do pesquisador, evidenciando as compreensões do colaborador da pesquisa. Isso em outras palavras se traduz em dá lugar a uma boa história narrativa, que mantem o caráter narrativo na pesquisa, pois o forte tratamento categorial analítico deixa de ser narrativo” (BOLÍVAR, 2012, p. 92).
Uma vez compreendido que para a realização da a entrevista narrativa (auto)biográfica o pesquisador deixa o colaborador da pesquisa ou o narrador a vontade para contar fatos biográficos da sua vida que se entrelacem com a temática proposta, cabe ao pesquisador apenas pedir esclarecimentos ao seu colaborador da pesquisa para entender claramente a singularidade dos seus modos de existência, de forma que seus questionamentos só poderão vir depois da narração. Após isso o pesquisador passa ao processo da análise interpretativa da narrativa (auto)biográfica que é o momento de tomar decisões sobre o que fazer com a palavra do outro. (DELORY-MOMBERGER, 2012)
Para isso se faz necessário para o processo de análise interpretativa da entrevista narrativa (auto)biográfica compreender: Formas do discurso, Esquema de ação no agir estratégico, agir progressivo, agir arriscado e no agir na expectativa; Motivos recorrentes ou topoi; e a Gestão biográfica dos topoi. (DELORY- MOMBERGER, 2012, p. 528-535)
A análise interpretativa fundamenta-se também na compreensão das interpretações e ressignificações que os sujeitos fazem de si mesmos de forma compete ao pesquisador reconstruir, nas narrativas (auto)biográficas do colaborador da pesquisa o seu ato de narrar determinados fatos biográficos, estimulando o colaborador a responder perguntas teóricas que resultem em respostas argumentativas, buscando explorar a capacidade de explicação e abstração do entrevistado como especialista e teórico de si.
Para tal, depois da realização da Entrevista (Auto)biográfica passei a ouvir e transcrever atentamente, de maneira fiel e literal, todas as narrativas do colaborador da pesquisa, o professor de música Valdécio Fonseca.
Após isso, passei ao processo de análise interpretativa, tomando decisões sobre como iria tratar as narrativas do professor de música de maneira que
comungassem com as reflexões provindas do referencial teórico da pesquisa e da revisão de literatura.
Entre essas decisões considerei necessário compreender as formas de discurso do colaborador da pesquisa, sondando com expectação os seus esquemas de ação na narrativa, esquadrinhando e assimilando os ações estratégicas, progressivas, arriscadas e de expectativa dos movimentos recorrentes e da gestão biográficas dos seus topoi. Portanto, busquei compreender as intepretações e ressignificações de si do professor de música Valdécio Fonseca, reconstruindo os fatos biográficos que constituíram suas narrativas (auto)biográficas, assim como, revisitei suas respostas à perguntas teóricas sobre questões, fatos narrados, pessoas, momentos, entre outros da narrativa que não ficaram claros para mim, explorando a capacidade de abstração do professor Valdécio Fonseca colocando-o como um especialista e teórico de si, a partir das compreensões de Delory- Momberger (2012).
Essas compreensões me possibilitaram identificar a natureza dos conhecimentos gerados a partir das narrativas (auto)biográficas do professor de música e idealizador de projeto social Valdécio Fonseca, de maneira que as estruturas teóricas empregadas no discurso do biografado busque destacar estruturas alternativas de processos biográficos sociais comuns entre si.
Sabemos da necessidade de se catar o feijão antes de colocá-lo de molho para “amolecer”, a fim de facilitar o cozimento. Catar é separar, cautelosamente, o feijão. Faço essa analogia para saber escolher as palavras, as narrativas que tematizam e problematizam esse objeto de estudo, cujo fio condutor levam a compressão do que é ser professor de música de projeto social. Assim, catar palavras é apreender narrativas que o professor Valdécio, sujeito desta pesquisa, considera importante ser relatado. É um processo de se descobrir e de fazer produzir análises desses feijões servidos à mesa. Catar narrativas consiste naquilo que Delory-Momberger (2012) chama de discursos, posições estratégicas e negociações para se chegar ao topoi biográfico, neste caso, um topoi que se constrói com música em projetos sociais. São esses processos de biografização que dão sentido ao ser professor de música de projetos sociais. E contar a história de Valdécio Fonseca e sua implicação como professor de música de projeto social faz emergir seus processos de biografização com música.