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5 PERCURSO METODOLÓGICO

5.2 PROCESSO DE COLETA DOS DADOS

Para realização desta pesquisa, se fez necessário adotar o caminho que

mostra que o estudo foi executado através de um modelo intencional, considerando

prioridade algumas características que por ora são relevantes para a pesquisa.

Foram entrevistados, no período de junho a agosto de 2014, em um universo

de 204 (duzentos e quatro) moradores, 10% da população de residentes do abrigo,

ou seja, 20 (vinte) idosos institucionalizados, na faixa etária entre 65 (sessenta e cinco)

anos a 85 (oitenta e cinco) anos, de ambos os sexos, especificamente: 10 homens

com idade de 65 (sessenta e cinco) anos a 85 (oitenta e cinco) anos, viúvos, com

filhos e netos e/ou separados, com filhos e com netos, morador da Instituição entre 6

(seis) meses a 10 (dez) anos, aposentados, pensionistas ou beneficiários do Benefício

de Prestação Continuada (BPC), com renda mensal de 1 (um) a 6 (seis) salários

mínimos; e 10 mulheres, de 65 (sessenta e cinco) a 85 (oitenta e cinco) anos, viúvas,

com filhos netos e solteiras, com filhos e com netos, que residem no abrigo de 6 (seis)

meses a 10 (dez) anos, aposentadas, pensionistas ou beneficiárias do Benefício de

Prestação Continuada (BPC), com renda mensal de 1(um) a 10 (dez) salários

mínimos. Todos os entrevistados estavam lúcidos, orientados e em condições de

assinarem o Termo de Consentimento, bem como responderem as entrevistas.

É importante destacar que a decisão pela extensão dos anos de abrigamento

desses idosos foi intencional na pesquisa, justamente para analisar se há uma

diferença no discurso do conceito de idoso, família e abrigo, variando por tempo de

moradia de cada entrevistado.

Um dos assuntos que merece atenção especial está no ponto de vista técnico

da pesquisa no que tange à cautela quando se parte para a interpretação dos

discursos dos pesquisados. É sumamente importante que o pesquisador, na área do

idoso, tenha vigilância especial para analisar o discurso de cada um deles,

principalmente no momento em que há uma abordagem referencial de suas memórias

de vida.

Como pré-requisito para a aplicação do roteiro de entrevista, o pesquisado

necessita transparecer sua lucidez, muitos idosos mesmo não visíveis na

“manifestação” do seu discurso, possuem problemas de memórias, em termos. Alguns

as recriam, redefinem e reconceituam como destaca Mucida (2009, p. 85) quando diz

que a memória,

Primeiro [...] se constitui das marcas que não se apagam, mas que nem

sempre podem ser lembradas ou lembradas totalmente. Segundo, não tem

relação direta com os fatos; nas impressões e lembranças que retornam

encontram-se a forma de cada um perceber, interpretar, imaginar ou assimilar

as expectativas vividas [...] algumas formas de lembranças não morrem, mas

não podem ser lembradas.

Todavia, mesmo diante das questões expostas acima, importantes

informações extraídas dos discursos dos idosos, mesmo podendo ser histórias

reinterpretadas, foram extremamente relevantes para uma análise mais profunda da

pesquisa, sendo referenciada na análise dos resultados. Concluindo que de fato é

uma realidade, mas que jamais pode ser generalizada, as exceções sempre existirão.

Se o pesquisador da área do idoso não souber equilibrar discursos, poderá reproduzir

o que eles recriaram, ou adotar um preconceito, a depender do teor do discurso dos

participantes.

É necessário então compreender o processo de envelhecimento, tanto de

forma objetiva, quanto subjetiva, para não cair numa espécie de “subjulgamento” das

falas dos pesquisados.

Dando prosseguimento aos passos percorridos da pesquisa, a coleta de

dados foi realizada pela pesquisadora, com a autorização da Instituição em estudo,

registrada através de um Termo de Autorização a aplicação do roteiro de entrevista

aos idosos residentes.

No que se refere à coleta de dados, em um primeiro momento, foi realizada a

entrevista com um roteiro previamente definido, de acordo com os objetivos da

pesquisa. Tal requisito foi utilizado para identificar os principais pontos relevantes para

a evidência do estudo. Utilizou-se para entrevista um gravador, no intuito do melhor

aproveitamento da conversação e para facilitar a análise dos dados. Foram feitas

análises através do referencial teórico, juntamente com as observações realizadas na

Instituição. As análises posteriores foram expressas de forma descritiva.

Para assegurar o anonimato dos idosos, não foram fornecidos quaisquer

dados que possam identificá-los. Utilizados como pseudônimos nomes de flores para

apreciar as histórias de vida de cada um, a saber: mulheres - 1. Orquídea, 2.

Margarida, 3. Lírio, 4. Rosa, 5. Acácia, 6. Amarílis, 7. Dália, 8. Íris, 9. Camélia e 10.

Jasmim; homens – 1. Crisântemo, 2. Gerânio, 3. Girassol, 4. Lótus, 5. Bogarim, 6.

Gérbera, 7. Cardo, 8. Lisanto, 9. Anis e 10. Adelfa. Para preservar o nome da

Instituição, se fez necessário utilizar um nome fantasia, denominado “Abrigo Viver”.

Contudo, é importante destacar que os discursos dos idosos entrevistados

foram descritos na íntegra, por meio das gravações e do roteiro de entrevista, recursos

importantes para a compreensão da retórica, dos posicionamentos e das principais

colocações dos entrevistados.

Na pesquisa foram inclusos apenas indivíduos que estiveram aptos a dar seu

consentimento e livre escolha da sua participação para realização do estudo. Houve

um momento em que a pesquisadora apresentou preocupação no que diz respeito ao

emocional dos idosos, uma vez que, adentrou em fatos que os deixaram muito

emotivos, mais precisamente quando abordou o tema família e a satisfação de morar

na Instituição, fizeram de certa forma, um retrospecto ao passado vinculando a sua

condição no presente.

No contato canalizado pelas entrevistas, um dos temas levantados pelos

entrevistados foi a abordagem da pesquisadora mediante a sua vida pessoal,

mostrando-se receosos em alguns momentos em relatar fatos, mas, após uma série

de explicações, os participantes da pesquisa compreenderam que não representam

apenas objetos de estudo, mas sim pessoas que tem algo a oferecer para a

compreensão dessa dinâmica a qual o pesquisador se dispôs a analisar, em face

disso, eles se sentiram à vontade para responder às perguntas.

Houve ainda a preocupação em anotar todos os acontecimentos, observando

comportamentos, expressões faciais e corporais, o silêncio que muitas vezes

representou respostas, assim como o “excesso” no discurso de alguns,

compreendendo que todo processo traduz uma mescla de sentimentos acerca da sua

condição atual.

Essa forma de análise tornou possível buscar, nas respostas dos idosos

entrevistados, os significados que conferiam às questões que determinavam seu

comportamento diante dos conceitos levantados em análise. Essa experiência

proporcionou à pesquisadora conhecer outro lado do seu exercício profissional, um

lado reflexivo e envolvido com a temática sob questões subjetivas, motivando-a ainda

mais a mergulhar na pesquisa dessa natureza, para compreender como se dá a

condição de ser idoso na sociedade contemporânea, quais são os seus grandes

medos, expectativas, receios e desejos.

Nas próximas etapas deste estudo, serão apresentadas e apreciadas as

análises dos resultados da pesquisa de campo, ou seja, o que os idosos

compreendem sobre a sua vida e condição atual, residindo em uma Instituição de

Longa permanência, bem como o processo de compreensão de pessoa que está

vivenciando essa realidade, a família na sua ótica e a situação atual em que se veem

diante da complexidade da vida pós-moderna e sua posição diante dessa dinâmica.