Enquanto o MI inicia o processo de elaboração da PNDR em 2000 e também da PNOT, no Marajó o Bispo D. Ângelo Maria Rivato, da Diocese de Ponta de Pedras21, edita um “folheto” sobre o trabalho da Igreja Católica com a população marajoara; nele fica evidente o atraso, a desigualdade social e o abandono da região pelos governos do Estado e da União. As informações contidas nesse “folheto” tiveram grande repercussão na mídia local e estadual (HERMOSO, 2016).
A partir desse documento o Bispo D. José Luiz Azcona Hermoso, conhecido como Bispo do Marajó, da Prelazia do Marajó, leva a luta da Igreja na região a conhecimento do Brasil por meio de diversas reportagens nas maiores emissoras do país, e até o Governo Federal,
21 Integrante da Prelazia do Marajó, vinculada a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – Regional Norte II da Igreja Católica.
após várias reuniões no Planalto, denunciando a prostituição infantil, o tráfico de pessoas, os conflitos fundiários, a insegurança, a precariedade no saneamento básico, os números alarmantes de malária, a insuficiência de infraestrutura e o fato de grande parte da população estar imersa na pobreza. Por intermédio do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República Gilberto Carvalho, ganha o apoio do Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, e se começa a delinear com a Igreja Católica como poderia ser um plano de desenvolvimento para o Marajó (HERMOSO, 2016; RIBEIRO, 2015).
Após 2004 a situação econômica do Marajó é agravada com o início da chamada “crise do setor madeireiro”, e consequentemente as mazelas sociais são aprofundadas, logo, a necessidade de ações de governo tona-se cada vez mais necessária e urgente. Até que em 26 de julho de 2006 é publicado o Decreto Presidencial criando o Grupo Executivo Interministerial (GEI) “para acompanhar a implementação das ações de competência dos órgãos federais no Arquipélago de Marajó, bem como elaborar plano de desenvolvimento sustentável em articulação com a sociedade civil e os Governos estadual e municipais”. Igualmente era de competência do Grupo articular ações imediatas direcionadas ao combate à malária, regularização fundiária e a implementação de obras de infraestrutura. O prazo estipulado foi de 180 dias para a conclusão dos trabalhos a partir de sua instalação (BRASIL, 2007a, p. 20-21).
Com a publicação do decreto, o então Coordenador de Tecnologia da Informação da ADA, Adagenor Ribeiro, marajoara, natural de Anajás, com formação em desenvolvimento regional pelo NAEA/UFPA, solicita participação nos trabalhos do GEI e assume papel estratégico nas pesquisas preliminares do delineamento do plano para o Marajó, no processo de construção e na produção do documento final (RIBEIRO, 2015, MARTINS, 2015).
De agosto a dezembro de 2006 ocorreram diversas reuniões na Casa Civil com o GEI, tendo como produto o resumo executivo da versão preliminar do plano para discussão nas consultas públicas. Foi definido que as demandas seriam aglutinadas em cinco eixos temáticos: 1) fomento as atividades produtivas sustentáveis; 2) ordenamento territorial, regularização fundiária e gestão ambiental; 3) infraestrutura para o desenvolvimento; 4) inclusão Social e cidadania; e 5) relações institucionais. Para cada eixo foram estipuladas diversas diretrizes (BRASIL, 2007a).
Antecedeu as consultas, em 11 de dezembro de 2006 em Soure, reunião preparatória com lideranças regionais para definir estratégias de organização e mobilização, além de apresentação das ações pelos órgãos federais. De 30 de janeiro a 8 de fevereiro de 2007 as consultas públicas foram realizadas nos municípios de Salvaterra (no dia 30/01 com os municípios de Cachoeira do Arari, Ponta de Pedras, Santa Cruz do Arari e Soure), São Sebastião
da Boa Vista (em 01/02 com os municípios de Muaná e Curralinho), Breves (em 03/02 com os municípios de Bagre, Gurupá, Melgaço e Portel), Anajás (em 06/02 com o município de Chaves), e Afuá (no dia 08/02 com comunidades isoladas do centro da ilha) (BRASIL, 2007a).
Esse momento de construção contou com grande participação popular, contudo, o Governo do Estado do Pará teve uma participação mínima, conforme afirma Hermoso (2016, p. 16):
Na verdade, o apoio do Governo Lula mais do que o Governo do Estado, que no início ele não apoiou, ele se omitiu, ficou distante. De fato não colaborou muito. [...] Temos que reconhecer que a presença de organismos do Estado da federação aqui no Marajó-PA, nessas consultas populares, audiências públicas foi fundamental. Houve apoio econômico, presença de navios grandes com especialistas de áreas sensíveis de toda sociedade que se pode ver, de conhecimento da cultura, de conhecimento do Marajó, de desenvolvimento econômico, como não podemos dizer perfeitas, mas verdadeiramente temos que reconhecer que houve um certo esforço magnânimo, e a participação popular foi também maciça.
Essa participação popular foi maciça devido ao trabalho intenso da Prelazia do Marajó junto aos movimentos sociais dos diversos municípios da região, mas acima de tudo esse processo
[...] suscitou, digamos antropologicamente, em todo o Marajó uma esperança, levantou uma esperança, eu creio nunca historicamente o povo marajoara experimentou como possibilidade real de sair do atraso secular e do abandono do Estado e do Governo Central, a União. Foram tempos e meses de euforia grande de todo o povo do Marajó, porque foi uma nova expectativa. Talvez acompanhada dos primeiros anos da presença do PT que no início se manifestou popular mesmo, não populista, desejoso, pelo menos aqui no Marajó, de colaborar com o desenvolvimento do Arquipélago. (HERMOSO, 2016, p. 2).
Concluído esse processo, durante 172 dias foi trabalhado pelo GEI em Brasília a sistematização dos resultados das consultas e na identificação das ações em andamento de entidades estaduais e federais na região, objetivando alinhar as demandas recebidas com ações em curso, bem como aquelas que dependeriam de propostas de inclusões no PPA 2008-2011, e a definição de estratégias de implementação. Finalizada essa etapa, com a publicação do Decreto Presidencial em 30 de julho de 2007, nascia oficialmente o PDTSAM, o Plano do Marajó (BRASIL, 2007b). Integralmente inserido na nova estratégia de desenvolvimento regional para o Brasil e Amazônia brasileira, logo, alinhado a PNDR, ao PNOT e principalmente ao PAS (BRASIL, 2007b; BARROS, 2013).