CAPÍTULO 2 – PROBLEMÁTICA SOCIOAMBIENTAIS E URBANA: RISCOS SOCIALMENTE CONSTRUÍDOS
2.3 Formação sócio-histórica de Blumenau e trajetória de desenvolvimento
2.3.2 Processo de gestão de riscos na atualidade
- Vertente Comunitária: A partir dos esforços da vertente comunitária, foi implantado o Comitê de Gerenciamento da Bacia hidrográfica do Rio Itajaí, conhecido como Comitê Itajaí. Apresenta-se como órgão colegiado, de caráter consultivo e deliberativo de nível regional, vinculado ao Conselho Estadual de Recursos Hídricos e funciona como um parlamento das águas, criado pelo Decreto Estadual 2109/97. O Comitê é composto por 50 organizações, dos quais 10 são órgãos públicos estaduais e federais, 20 são usuários da água, 10 são órgãos públicos municipais e 10 são entidades da sociedade civil. Cada organização é representada por um membro titular e um suplente.
Este colegiado, renovado a cada quatro anos, (sempre após as eleições municipais), por meio de um processo público de escolha das organizações representantes por segmento, é dirigido por uma diretoria de 12 membros, composta de uma presidência, uma secretaria executiva e uma comissão consultiva, eleitas em assembleia geral, a cada dois anos.
O objetivo do Comitê do Itajaí é promover a articulação de ações de defesa contra secas e inundações e de garantia de fornecimento de água adequada para todos os usos. Esses objetivos serão alcançados mediante o combate e a prevenção da poluição, da erosão do solo e do assoreamento dos cursos de água, bem como, da proteção de ambientes fluviais37.
Com o desastre de 2008, o Comitê do Itajaí participou, no âmbito do GTC (Grupo Técnico Científico, instituído pelo Decreto Estadual nº 2.445/1317, de 13/07/2009), da elaboração do Plano Integrado de Prevenção e Mitigação de Riscos de Desastres naturais – PPRD - na bacia hidrográfica do rio Itajaí e da negociação de um novo acordo de cooperação com a JICA.
O desenvolvimento do PPRD- Itajaí foi uma demanda da sociedade que se viu desprotegida diante do desastre socioambiental ocorrido em novembro de 2008. Em junho, o GTC criou o Comitê Técnico de Avaliação (das propostas existentes para a bacia do Itajaí) e, até setembro de 2009, este Comitê elaborou o PPRD-Itajaí, alinhado com a Política Nacional de Defesa Civil. O plano contém seis programas, subdivididos em 25 linhas de ação e 76 projetos, que sinalizam as prioridades para a prevenção dos riscos de desastres naturais.
Segundo dados disponibilizados pelo comitê Itajaí, o plano estabelece a construção, a integração e a promoção de mecanismos ordenados e sistematizados na prevenção e mitigação dos riscos de desastres naturais, proporcionando resiliência e segurança para a população da região do vale do Itajaí. As suas ações são regidas por princípios inspirados no Plano de Defesa contra Enchentes do rio Reno: “a água é parte do todo; a água deve ser armazenada tanto quanto
37
Dados disponíveis em > www.comiteitajai.org.br < acesso em 24 de nov 2011.
possível; deve-se respeitar a dinâmica natural dos rios; os riscos existem
e é preciso aprender e lidar com eles”38
.
Várias organizações-membro do Comitê do Itajaí contribuíram para sua elaboração: Associação Brasileira de Recursos Hídrico (ABRH), Associação dos Municípios do Médio Vale do Itajaí (AMMVI), Universidade Regional de Blumenau (FURB), Cooperativa Regional Agropecuária Vale do Itajaí (CRAVIL), Associação dos Municípios do Alto Vale do Itajaí (AMAVI) e Secretaria do Estado de Desenvolvimento Sustentável, por meio dos seus representantes no Comitê do Itajaí.
Uma vez concluído, o Plano foi aprovado pelo Comitê do Itajaí por meio da Resolução 35. Para acompanhar a sua execução, o Comitê do Itajaí designou a Câmara Técnica de Prevenção de Desastres Naturais.
Em dezembro de 2009, o Comitê Técnico de Avaliação, criado pelo GTC para elaborar o Plano, decidiu transformar-se em Câmara Técnica do GTC, para assim continuar a desenvolver o PPRD-Itajaí, sob a coordenação de Harry Dorow, presidente da CRAVIL, e secretaria executiva do Prof. Fernando Aquino, da Fundação de Apoio a Pesquisa de Santa Catarina (FAPESC).
O Comitê continua atuando de forma paralela ao Governo, conseguindo congregar esforços junto aos municípios, no que se refere à Defesa Civil. No entanto, persiste o distanciamento das propostas e a não parceria de co-gestão, ocasionando uma lacuna historicamente construída entre a vertente comunitária, universidade e poder público.
- Vertente Governamental - Atualmente, como em todo o território Nacional, Blumenau tem a coordenação da gestão de riscos realizada pela Defesa Civil. No Estado de Santa Catarina, esta foi organizada em 1973 e no mesmo ano, em 20 de dezembro, foi implantada em Blumenau a Comissão Municipal de Defesa Civil (Comdec). Foi após a grande enchente de 1983, que persistiu 31 dias, quando o rio subiu 15,34m, que as demandas por serviços especializados foram deflagradas.
38
Disponível em > www.comiteitajai.org.br < acesso em 24 de nov 2011.
Em 1989, criou-se na Prefeitura Municipal de Blumenau um Departamento de Defesa Civil, para fazer frente aos desastres naturais. A elaboração de um plano, implantação de abrigos, sistematização de procedimentos e preparo de lideranças comunitárias foram alguns dos resultados da experiência adquirida com o trágico evento de 1983, que inundou 30% das casas do município e desalojou mais de 50 mil pessoas.
A Defesa Civil de Blumenau é uma secretaria que funciona como órgão de coordenação e mobilização das ações de defesa civil no município. É responsável por:
“Atividades de socorro às populações em risco, assistência aos habitantes afetados e reabilitação dos cenários dos desastres; Restabelecimento dos serviços públicos essenciais, a economia da área, o bem estar da população e o moral social; Avaliação de riscos aos quais o município está sujeito e
redução de riscos de desastres;
Desenvolvimento institucional de recursos humanos, mobilização, monitorização, alerta, alarme, aparelhamento, apoio logístico, entre outros” (SMDC, 2011)
De acordo com os documentos oficiais do município de Blumenau, a atuação da Defesa Civil compreende ações de prevenção, preparação para emergências e desastres, resposta aos desastres e de reconstrução. Dá-se de forma multissetorial e nos três níveis de governo - federal, estadual e municipal - com ampla participação da comunidade. (SMDC, 2011) A Defesa Civil de Blumenau conta com 10 profissionais, que trabalham 24 horas por dia.
Até o desastre de 2008, todas as discussões, planos contingenciais e treinamentos técnicos haviam sido realizados com intuito de preparar a cidade para as enchentes. No entanto, em 2008, o desastre, ocorrido a partir de uma combinação de cheias, enxurradas e deslizamentos, deixou a todos atônitos. Nem mesmo a Defesa Civil
sabia como conduzir os trabalhos, já que este era o primeiro episódio de tamanha magnitude.
Ainda, em dias atuais, as duas vertentes seguem em andamento na cidade de Blumenau. De um lado o Comitê Itajaí, dá prosseguimento a seus projetos e, de outro, a Prefeitura Municipal realiza ações focadas na Defesa Civil. Prova disto é que após o desastre de 2008, o comitê Itajaí participa da elaboração do PPRD e por outro lado, a Defesa Civil elaborou um Plano de Contingência que se destina a enfrentar os eventos adversos “Inundações Graduais”, “Inundações Bruscas”, “Escorregamentos” e para isso estabelece medidas de coordenação entre órgãos públicos, privados e a comunidade.
O primeiro plano, como mencionado anteriormente, é uma construção coletiva que engloba a sociedade civil organizada, mediante amplo debate. O segundo plano constitui-se como um documento técnico da política pública que organiza as estruturas de atendimento. Novamente se identifica que o diferencial dos dois planos mencionados, não se situa nas medidas, mas, especialmente, na forma política de gestão do problema.
Nos documentos oficiais analisados, especialmente o plano elaborado pela defesa civil, pode-se perceber a ausência de uma visão crítica no que se refere ao modelo de desenvolvimento adotado para a região, focando apenas no uso inadequado do solo e nas formas técnicas de atuação frente ao desastre.
Para encerrar esta retrospectiva, é oportuno sintetizar os principais aspectos apontados por Frank (2011), no que se refere a gestão das enchentes. Em primeiro lugar a autora destaca que a gestão oficial do controle das enchentes sempre foi inercial e aleatória, dependendo da disposição momentânea do governo em exercício. Além disso, enfatiza que a responsabilidade pelo controle de cheias ficou, durante décadas, a cargo de um departamento com uma visão reducionista da questão dos rios e das bacias hidrográficas, neste caso, a Defesa Civil.
Em segundo lugar, a autora observa que o vale do Itajaí, como região ou como sociedade, não foi capaz de enfrentar os problemas relacionados às enchentes, mesmo avançando em diversas tentativas surgidas ao longo deste processo, que por razões de ordens
institucionais, políticas, econômicas ou culturais, não obtinham sucesso e iam se esvaziando. Durante este período, o problema das enchentes foi se intensificando, sem ter atingido, possivelmente, a gravidade necessária para motivar uma mudança de comportamento coletivo em relação ao uso do solo e dos recursos naturais (FRANK, 2011)
2.4 Política de Assistência Social no contexto do Sistema de Gestão