CAPÍTULO 1 ENFOQUES ANALÍTICOS DE SITUAÇÕES DE DESASTRES
1.2 Ecodesenvolvimento: gênese e desdobramentos
1.3.2 Risco, Vulnerabilidade social e resiliência
A sociedade contemporânea revela-se, cada vez mais, repleta de riscos, ameaças e incertezas que afetam todos os aspectos da vida social. Além dos grandes desastres que assombram populações inteiras, as desigualdades sociais e pobreza consubstanciam-se em meio à riqueza. A segregação espacial das cidades, onde as áreas de degradação ambiental coincidem com áreas de degradação social, muitas vezes, potencializando outros riscos e amplificando seus efeitos e danos. Soma-se a esta situação uma crise de confiança entre governos e populações, há uma ruptura de valores tradicionais dos sistemas políticos, jurídicos e sociais. Em todos estes campos, seja no domínio acadêmico-científico ou na arena governamental, a vulnerabilidade tem sido a condutora das ações, análises e propostas. (MANDAROLA; HOGAN, 2006)
Conceitos-chave merecem destaque nos estudos relacionados a desastres. Aqui, parte-se do pressuposto de que o conceito de risco está intrínseco ao conceito de vulnerabilidade. Isto porque a capacidade das comunidades locais e regionais de absorverem e agirem nos distúrbios sociais, causados pelos desastres, decorre da equação de avaliação de risco. Esta se caracteriza pela competência e habilidade das
sociedades de conviver com a incerteza, melhorar a auto-organização e procedimentos de planejamento, ampliação das medidas de mitigação e reforço dos recursos de emergência. (MENDES, 2009)
Na concepção adotada pela ONU/EIRD (2003), o risco é entendido por ameaça ou vulnerabilidade. Assim, o risco de um desastre é a possibilidade de que o mesmo suceda. A valorização do risco inclui a evolução da vulnerabilidade e da predição do impacto, tomando em consideração as margens que definem um risco aceitável dentro de uma determinada sociedade.
Muito embora, frequentemente, os riscos de desastres estejam ligados às características de cada região, quando se analisa os impactos humanos dos desastres, verifica-se que estes provocam mais impactos em regiões onde existe maior concentração de população. De acordo com Mattedi (2010), nos últimos trinta anos, aproximadamente 88% de pessoas mortas e 96% do total de perdas reportado vivem na Ásia e na África. Isso indica que a maior parte das mortes e das perdas se concentra em países em desenvolvimento, sem considerar as mortes resultantes do aumento da desnutrição, pobreza e deterioração das condições de vida. Para o autor, os dados disponíveis ,atualmente, indicam que determinados grupos sociais são mais vulneráveis que outros. Neste sentido, considera que os desastres não podem ser examinados isoladamente, mas, sim, nos contextos que definem como as populações compreendem e reagem a esses fenômenos. As ações parciais como resposta aos desastres, contribuem para a ocupação das áreas de risco, também descrito pelo autor como ciclo do desastre: desastres-dano-reparação-desastres. Consequentemente, os indivíduos e comunidades marginalizadas são incapazes de gerar mudanças em suas condições de vida. Portanto, “o aumento da população, as desigualdades na distribuição dos recursos, a marginalização de grupos específicos e a crescente interdependência global definem a vulnerabilidade”. Considera, neste sentido, que é a combinação de fatores naturais e sociais que definem o desastre, ou, mais precisamente, se são as características físicas do evento que determinam a probabilidade de ocorrência do fenômeno e são as condições sociais de vulnerabilidade que determinam a severidade do impacto.
Outro aspecto importante apontado pelo autor refere-se ao “princípio de continuidade” que considera a passagem das condições de vulnerabilidade pré-impacto para condições de destruição pós-impacto.
Nesse sentido, o desastre só desencadeia a destruição incubada socialmente e que é construída pela incapacidade cognitiva da população de conceber adequadamente o problema ou de agir política e tecnicamente na confrontação. (MATTEDI, 2010)
Neste ínterim, a redução efetiva do risco de desastres é possível, a partir do enfrentamento sistêmico e estrutural da vulnerabilidade social. A literatura que trata da vulnerabilidade tem apontado para uma dinâmica autônoma e específica pertencente à
capacidade de resiliência13 e habilidades de reconstrução das
comunidades locais. Tomando a resiliência como “a capacidade intrínseca de um sistema, comunidade ou sociedade, predispostos a um choque ou estresse para se adaptar e sobreviver mudando seus atributos não-essenciais e se reconstruindo uma abordagem estrutural e sistêmica, é necessária uma avaliação que vai além e redução da vulnerabilidade” . (Mendes, 2009) Práticas locais e políticas baseadas na articulação de órgãos oficiais de proteção civil são as formas mais efetivas para construção de resiliência comunitárias para desastres naturais.
O conceito de vulnerabilidade encontra-se associado à problemática dos desastres como uma de suas dimensões mais importantes. Resultados do “processo de articulação entre o sistema social e o ambiente construído, os riscos evidenciam os fatores de exposição das sociedades ao desastre, isto é, nas suas vulnerabilidades sociais” (RIBEIRO, 1995, p.06)
Sinônimo de insegurança e de fragilidade frente a um perigo, a vulnerabilidade conceitualiza-se como uma noção de conteúdo explicativo dentro do contexto social onde se insere. Enquadrado numa teoria social dos desastres, este conceito é atravessado por uma dupla referência analítica: por um lado se considera o nível e grau de exposição a determinados perigos, e por outro, reflete sobre a capacidade de absorver e recuperar os danos produzidos por parte do sistema ou grupos sociais. Desta forma, caracteriza-se a vulnerabilidade
13 Para Weber (2000) o conceito de resiliência é fundamentalmente
baseado na compreensão de que mudanças cíclicas são características essenciais de sistemas sociais e ecológicos. Por suas características, um sistema resiliente possui mecanismos de feedback e de manutenção da heterogeneidade, que permite atuar com diversas opções diante das mudanças ocorridas.
como um processo dinâmico que segue as três fases explicitadas anteriormente. É durante a fase de produção/ reprodução que se desenvolvem condições sociais para o aumento ou diminuição dos parâmetros de vulnerabilidade no sistema social, face aos perigos e aos riscos. Durante a fase de ruptura/emergência, definem-se os atributos da vulnerabilidade relativos às condições do sistema social, absorver o impacto do desastre através da existência ou ausência de meios e recursos e o grau de preparação sócio-técnico e cultural que gera atuação no socorro. No período de reconstrução/desenvolvimento, os fatores de vulnerabilidade interferem na maior ou menor capacidade de recuperação do sistema social, face aos danos provocados. (Ribeiro, 1995) A partir disso, observa-se que a vulnerabilidade é variável e transversal, evidenciada em todo o processo do desastre e relacionada à capacidade intrínseca de cada espaço onde ocorre o evento.
Assim, pode-se perceber que a vulnerabilidade é também, consequência do próprio processo social, refletindo as relações que definem o estágio e forma de desenvolvimento de uma sociedade, podendo existir vulnerabilidades diferenciadas dentro de um próprio sistema, consoante com sua organização, distribuição e composição social (Ribeiro, 1995, p. 07) Neste sentido, a análise das vulnerabilidades sociais consiste numa literatura integrada de
componentes sócio estruturais (complementaria aqui com
sociodemográficos, levando em conta a composição familiar, níveis de escolaridade e qualificação profissional, dentre outros), sócio urbanísticas (estrutura urbana, equipamentos sociais existentes) e socioculturais (percepção e representação do risco, acessos às informações).
Observa-se que esta definição incorpora uma
multidimensionalidade, o que conflui para olhares interdisciplinares. A articulação entre as dimensões envolvidas numa escala espaço-temporal adequada, é o grande desafio. Assim, “relacionar num mesmo contexto a dimensão vivida do risco, as imagens criadas em torno do perigo; a dimensão socioeconômica de ação política de enfrentamento do risco, os contextos geográfico e social de produção da ocorrência do perigo; e a técnico-científica que analisa o processo e amplificação ou atenuação do risco mediante a comunicação é um desafio imensurável” (Marandola; Hogan, 2006). No entanto, há que se considerar que, em cada estudo, determinadas dimensões serão mais imprescindíveis e relevantes que
deixam de ser fundamentais para o conhecimento das vulnerabilidades e suas implicações para os desastres socioambientais.
Estes são apenas alguns elementos que precisam ser mensurados para se chegar a um estudo de vulnerabilidade. Não é o intuito deste estudo, deter-se em formulações mais aprofundadas, como os índices elaborados por estudiosos da área ( Macías, 1992; Mattedi, 1999), mas, apenas destacar a vulnerabilidade como um elemento-chave para o entendimento dos desastres socioambientais.
Como se salientou anteriormente, a origem sistêmica dos riscos e dos desastres decorre das dinâmicas de articulação entre o sistema social e o ambiente natural e construído. Neste sentindo, outra referência imprescindível para o entendimento da problemática é a leitura dos componentes culturais do sistema social e percepção do risco.
De acordo com Ribeiro (1995), relativamente ao processo de produção e desenvolvimento das culturas dos desastres, é possível salientar três componentes essenciais: 1) a semelhança com as vulnerabilidades sociais, a composição do próprio sistema social também contribui para que as culturas assumam contornos diferenciados, tanto na produção como repercussão na sociedade; 2) os
diferentes estágios de percepção e das representações sociais14 face aos
14
O Conceito de representação social surge com o trabalho de Moscovici intitulado “la psychanalyse, son image el son public” (1961, 1976), com objetivo de ampliar a psicologia social. O autor irá buscar em Durkheim, na obra “as formas elementares da vida religiosa”, o conceito de representações coletivas para dar suporte a sua teoria. Assim Moscovici situou-se no campo intermediário da psicologia e das Ciências sociais (SÁ, 1996). Para fins deste estudo, abordaremos as representações sociais no sentido em que são definidas pelas Ciências Sociais: como categorias de pensamento que expressam a realidade, explicam-na, justificando-a ou questionando-a. Neste sentido, estas percepções são consideradas importantes como temas de estudo, atravessando a história e as mais diferentes correntes de pensamento sobre o social. (Minayo, 1995) A autora analisa o viés através do qual autores como Durkheim e seus seguidores, Weber e a escola fenomenológica representada por Schutz, Marx e os marxistas, trabalham o mundo das ideias e seu significado no conjunto das relações sociais e, por último analisa Bourieu e Bakthin, que trazem ambos uma contribuição sobre o estatuto da palavra. A partir disto, constata que as representações sociais, enquanto imagens construídas sobre o real são um material importante para a pesquisa no interior das ciências sociais. No entanto, assinala para o fato de que as representações
riscos de desastres; e 3) resultando da articulação dos dois componentes acima apresentados, salienta-se os mecanismos de prática social realizados através das atitudes e comportamentos sociais desenvolvidos. Neste sentido, Britton (1992) afirma que “a cultura dos desastres define-se como conjunto socialmente produzido de valores, normas, regras e saberes que enquadram as representações, atitudes, comportamentos adotados relativamente às distintas expectativas que decorrem de situações sociais e ambientais específicas” ( apud PINHEIRO, 1995)
A cultura dos desastres evidencia diferentes representações, comportamentos e atitudes que influem na forma de atuar e agir perante as situações de desastres. Da mesma forma, contribui para determinados tipos de padrões socioculturais. Assim, a existência de padrões socioculturais, sociopolíticos e socioestruturais distintos, conduz que a nível dos desastres se desenvolvam culturas, comportamentos e atitudes diferenciados, com implicações nos efeitos e consequências que produzem. (Pinheiro, 1995). Trata-se de um processo dialógico, um sistema de representação implica na cultura e esta implica nas atitudes que irão refletir diretamente nos desastres e seus efeitos. Um exemplo já citado é o pogrom, que evidencia, de forma contundente, que padrões culturais podem gerar reações diversas no pós-desastre, aproveitando momentos de crise e catástrofes para externalizar atitudes racistas e preconceituosas.
Pode-se evidenciar que, assim como as vulnerabilidades sociais, a cultura é um tema transversal que atravessa as três fases do processo de desastres: Na fase de produção/ reprodução, influencia diretamente no desenvolvimento de mecanismos de alerta e prevenção, que podem ser orientados tanto para um reforço e alternativa de
respostas às situações de desastres, como podem ser de cunho
sociais não conformam a realidade e “seria outra ilusão tomá-las como verdades científicas, reduzindo a realidade à concepção que os homens fazem dela”. (Minayo, 1995, p.110) Reforça ainda que a mediação privilegiada para a compreensão das representações sociais é a linguagem. Portanto, a autora conclui a partir de Bakhtin (1986, p.37) que a “palavra é a arena onde se confrontam interesses contraditórios, veiculando e sofrendo os efeitos das lutas de classes, servindo ao mesmo tempo como instrumento e material”. Ou seja, pela sua veiculação dialética com a realidade, a compreensão da fala exige ao mesmo tempo compreensão das relações sociais que expressa.
tecnocrático e pouco auxiliarem no fornecimento de capacidade de lidar com os desastres. Na fase de ruptura/emergência, as capacidades de gestão do sistema social na emergência, as referências e padrões de cultura da sociedade podem auxiliar na minimização dos efeitos dos desastres, como também a ausência destas referencias podem influir na falta de respostas. Na fase de reconstrução/desenvolvimento social, constitui um momento oportuno para avaliação e reflexão dos modelos culturais de referência, podendo tanto ocasionar um aprendizado social e a busca por melhorias nesta percepção, como perpetuar a defasagem anterior que não conduziram a uma resposta rápida. (RIBEIRO, 1995)
Assim, percebe-se que os conceitos de risco, vulnerabilidade social e Resiliência são variáveis e precisam de outros elementos analíticos para se determinar com precisão seus significados. São voláteis no sentido de depender, do desenvolvimento da sociedade, níveis e padrões socioculturais e político-econômicos e dos aspectos demográficos e populacionais.
Para análise das situações de desastres, são conceitos chave que devem ser estudados, mas que precisam ser entendidos como variáveis aplicadas ao contexto em que se inserem, sem grandes pretensões de delineá-los antecipadamente. A partir das considerações fundamentais de Ribeiro (1995), pode-se destacar que risco, vulnerabilidade e cultura de desastres atravessam todo o processo social que envolve o desastre, sendo estes, tanto consequências dos desastres, como geradores e propulsores destes.
Os subsídios que a sociologia pode fornecer à mitigação de desastres passam pela necessidade de enfocar a vulnerabilidade social precedente ou circunstancial do grupo que integrará o fator ameaça, analisando as relações sociais e políticas que refletem no território (Quarentelli, 2006). Neste sentido, os padrões, as representações e as relações sociais que se estabelecem, condicionam o desenvolvimento de estratégias sociopolíticas, socioculturais e sócio urbanísticas que podem contribuir tanto pra acentuar as vulnerabilidades, quanto minimizar o risco de desastres.
1.4 O ecodesenvolvimento: contribuições para análise de