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Nesta seção, discutiremos a importância de uma abordagem de ensino- aprendizagem intercultural e pluricêntrica para a produção de materiais de ensino de línguas na contemporaneidade e apresentaremos o processo de elaboração de unidades didáticas de PLE-PL2 para o PPPLE. Descreveremos as etapas de produção das atividades, os princípios que orientam a escolha de temas e a busca por textos autênticos relevantes para o desenvolvimento de competências e adequados aos níveis de proficiência. Na sequência, na seção em que apresentaremos a análise do PPPLE, consideraremos as articulações e operacionalização dos pressupostos teóricos discutidos nas unidades didáticas propostas.

Um crescente interesse pela aprendizagem de PLE-PL2 requer uma formação profissional especializada para atender tal demanda e uma produção de materiais didáticos que reflitam as tendências de um mundo marcado pela constante inter-relação

entre povos e culturas. As necessidades geradas pelo atual contexto de projeção da língua portuguesa, infelizmente, não têm sido acompanhadas por uma produção científica que se amplie na mesma velocidade. O mercado editorial de livros didáticos voltados para o ensino de PLE-PL2 apresenta uma lacuna no que diz respeito a suprir a necessidade dos aprendizes de desenvolver competências múltiplas que lhes permitam estabelecer relações significativas com pessoas de outras línguas-culturas. Entre as iniciativas que têm sido desenvolvidas com o objetivo de auxiliar os professores e aprendizes de PLE-PL2, o PPPLE apresenta o diferencial de oferecer unidades didáticas que levam em consideração as variedades linguístico-culturais da língua portuguesa.

Assim, a oferta dos materiais produzidos por cada um dos diferentes países da CPLP permitirá, por um lado, que o professor possa ter acesso a Unidades Didáticas de uma mesma variedade, contextualizadas em um determinado espaço geográfico, histórico e cultural, e salientando as suas especificidades, ou, por outro lado, que selecione unidades de diferentes contextos nacionais, realçando, assim, as diferentes possibilidades de uso da língua numa perspectiva de circulação internacional. 26

O PPPLE também pode contribuir para a atualização e formação do professor de PLE-PL2 ao propor um espaço para a interação e o diálogo entre professores de diversas partes do mundo. O Portal pode ter um importante efeito retroativo pelo contato dos professores com materiais que apresentam propostas pedagógicas alternativas e diferenciadas, por meio do compartilhamento de ideias e através do acesso a princípios, orientações e abordagens contemporâneas de ensino de línguas. Ao terem contato com orientações contemporâneas para o ensino de línguas, os professores vão sendo obrigados a rever as suas próprias abordagens de ensinar. Porém, o fórum de discussão do Portal, um ambiente significativo para promover discussões e compartilhamento de ideias, ainda se encontra inativo. Ademais, o Portal ainda não conta, no momento, com propostas ou roteiros didáticos sugeridos pelos utilizadores.

Os procedimentos para elaboração das unidades didáticas do PPPLE, conforme a descrição do Manual de Orientação para o desenvolvimento dos materiais didáticos de 2012, envolvem a escolha da situação de uso, definida da seguinte maneira:

Uma situação de uso é vista aqui como uma ação de linguagem que oferece uma gama de oportunidades de trabalho com a língua, e que pode ser explorada em diferentes contextos, com variados propósitos de comunicação e interação, com diferentes interlocutores. A situação de uso não deve ser vista como o meio para se realizar a ação de linguagem, mas é a própria ação em si.

Em seguida, são definidas as expectativas de aprendizagem, ou seja, os caminhos e estratégias adotados para a realização das situações de uso. O objetivo das expectativas de aprendizagem é trabalhar os eixos (ler, escrever, falar e ouvir) de forma integrada, considerando que as ações de linguagem não são excludentes e sim complementares. As expectativas de aprendizagem definem e orientam a elaboração das atividades.

Logo após, é proposta a atividade de preparação, compreendendo “o momento de sensibilização do aluno para o desenvolvimento das ações de linguagem previstas, bem como, a ativação dos seus conhecimentos e experiências prévios.” (Manual 2012, p. 11- 12)

O bloco de atividades é composto por um conjunto de ações e experiências de uso da língua de modo a alcançar as expectativas de aprendizagem propostas. Ensinar e aprender línguas são entendidos como uma ação colaborativa. Sendo assim, as atividades precisam envolver um trabalho integrado, propiciando tanto o trabalho individual quanto o coletivo. Dessa forma, o professor não apenas ensina e corrige, mas trabalha em equipe para estimular experiências de uso da língua. A extensão da unidade é uma ampliação das experiências desenvolvidas no bloco de atividades, mantendo o equilíbrio e coerência com as atividades anteriores. Por fim, a atividade de avaliação sistematiza e retoma as experiências anteriores de modo a verificar se as expectativas de aprendizagem foram alcançadas.

Elaborar materiais didáticos envolve um processo importante de auto reconhecimento identitário do professor como pesquisador e agente crítico, autônomo e criativo no processo de ensino-aprendizagem. A produção e a escolha de materiais didáticos não se constituem uma tarefa fácil, em especial quando pensamos língua como prática social com toda a sua complexidade e dinamismo. É um exercício contínuo que envolve pôr de lado construtos teóricos consolidados ao longo da vida acadêmica e profissional dos professores de línguas. O processo de elaboração de atividades sob uma perspectiva intercultural e pluricêntrica é, portanto, um convite para pensar diferente, sob outra lógica. Muitas vezes pela alta influência das práticas pedagógicas tradicionais recorrentes no modelo aplicado nas escolas é imprescindível um esforço em assumir os riscos de uma mudança e criar alternativas para estimular o estudante a se comunicar para desenvolver suas competências.

A possibilidade de se discutir os sentidos possíveis da língua portuguesa em sua diversidade de contextos sócio-linguístico-culturais é um caminho para a veiculação de atividades mais agradáveis e envolventes. Assim, uma abordagem de ensino- aprendizagem intercultural e pluricêntrica procura elaborar uma forma de organização de maneira tal que os temas propostos e o tipo de atividade instiguem a mobilização de conhecimentos, crenças, vivências e habilidades para agir efetivamente na e através da língua portuguesa. “A dimensão de uma língua, desse modo, e aqui o português, é o próprio lugar da interação, a própria instância na qual produzimos significados ao vivermos no mundo e com outros.” (MENDES, 2011, p.144)

Por conseguinte, o objetivo dos materiais didáticos interculturais é promover um ambiente de ensino-aprendizagem que envolva os aprendizes em situações de interação como sujeitos complexos, com sua diversidade de emoções, ideias e opiniões. A neutralidade e o mero compartilhamento de informações não desencadeiam o desenvolvimento de competências necessárias para movimentar-se sem maiores dificuldades dentro dos diversos contextos de uso da língua. Torna-se imperativo proporcionar espaços de discussão de ideias e opiniões no contexto de sala de aula para a construção conjunta e significativa de conhecimentos. O que inclui, portanto, solicitar que o aluno faça inferências, tire conclusões, articule seu conhecimento prévio e seu conhecimento de mundo com os diversos textos utilizados para a interação, levante os objetivos/intenções do autor, ou aqueles que são desenvolvidos no texto.

A utilização de textos autênticos é fundamental à medida que estes circulam em contextos reais de comunicação e traz consigo a ideia de que é possível compreender uma mensagem lida ou falada até mesmo com estruturas que ultrapassam o conhecimento linguístico já aprendido. Sendo assim, não é preciso proteger o aluno da língua que circula no mundo ao seu redor e que também o constrói e reconstrói através da multissignificação de palavras e ações. É importante tornar evidente nos processos de ensino-aprendizagem de línguas que, conforme citação de Kumaravadivelu (2006, p.140) elucidando o pensamento de Foucault (1970):

Um texto significa o que significa não por causa de quaisquer traços linguísticos objetivos inerentes, mas porque é gerado pelas formações discursivas, cada qual com suas ideologias particulares e modos particulares de controlar o poder. Nenhum texto é inocente e todo texto reflete um fragmento do mundo em que vivemos. Em outras palavras, os textos são políticos porque todas as formações discursivas são políticas. Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e ideológicas por natureza.

Dessa forma, consideramos de suma importância a inclusão da relevância da competência intercultural no Manual de Orientação para o Desenvolvimento dos Materiais Didáticos do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira/Língua Não Materna (PPPLE). Apesar da inclusão da concepção de língua como atividade social indissociável da cultura, o Manual não faz referência aos elementos necessários no percurso para o desenvolvimento das relações interculturais no processo de elaboração de materiais didáticos. Pensar a língua como cultura implica o reconhecimento da importância das relações de interação para a criação das multiplicidades de expressões e materializações possíveis da língua. À vista disso, o desenvolvimento da competência intercultural é essencial para o desenvolvimento de uma melhor compreensão de si mesmo e de sua realidade cultural bem como para a sensibilização diante da cultura do outro.

No caso específico do processo de ensino-aprendizagem de PLE-PL2, implica uma maior familiarização com os diversos espaços de circulação do português e das línguas que com ela interagem nesses espaços. Por meio do diálogo intercultural torna- se possível o desenvolvimento de uma postura mais positiva diante das variações e a dissipação de uma representação homogênea e equivocada do português. Os estudantes de PLE-PL2, através da promoção do diálogo intercultural, poderão apreciar e entender a diversidade linguístico-cultural do português. Um exercício permanente de tolerância e respeito em busca da criação de um ambiente de compreensão mútua.

O PPPLE também pode ser uma contribuição relevante para uma política de formação e valorização profissional à medida que incentiva o investimento na formação de professores crítico-reflexivos que saibam elaborar, utilizar e também maximizar o potencial dos materiais didáticos disponíveis. Professores de PLE-PL2 que não sejam apenas espectadores dos materiais didáticos prontos e acabados que chegam às suas mãos, mas protagonistas do seu fazer docente. Professores que possam atuar como gestores e promotores da língua que ensinam.

Participar no processo de elaboração de atividades para o Portal pode permitir tanto um amadurecimento de ideias com relação a aspectos teórico-metodológicos quanto uma oportunidade de repensar o processo de ensino-aprendizagem de PLE-PL2, através da aproximação com as realidades linguístico-culturais dos países de língua portuguesa. Para tal, é fundamental o reconhecimento do português como uma língua pluricêntrica e a importância de uma abordagem intercultural para o ensino de PLE- PL2.