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3 SOCIOLOGIA[S] DA INFÂNCIA: CONTEXTUALIZANDO O CAMPO,

3.1 TEORIAS TRADICIONAIS DA SOCIALIZAÇÃO

3.1.1 Processo de socialização do modelo determinista

Nesse modelo atuam duas concepções de criança assentadas sobre a sua suposta sujeição passiva: uma em que seu estatuto de imaturidade impera, como vimos no subitem anterior, o que a torna uma legítima massa de modelar para, posteriormente, quando adulta, funcione para fazer a marcha da sociedade continuar na sua engrenagem. Ao mesmo tempo, como possui algumas tendências inatas, na parte passível de ação, deverá

ser cuidadosa, intencionalmente e de modo determinado ser treinada e controlada com autoridade.

Os precursores da teoria da socialização estavam imersos em um momento histórico em que “a filosofia do individualismo era rígida; era comum focalizar o como as pessoas se relacionam com a sociedade”. (CORSARO, 2011, p. 20). Da mesma forma, supunha-se que havia uma interlocução constante da sociedade com o sujeito, o que fazia com que aquela fosse um meio reconhecidamente “determinante no comportamento do indivíduo.” (CORSARO, 2011, p.21). Para melhor compreender tanto as relações do indivíduo na interlocução com a sociedade, mais ainda, da sociedade no indivíduo, foi desenvolvida “uma concepção teórica que descrevesse a apropriação da criança pela sociedade.” (CORSARO, 2011, p. 20).

A apropriação é uma forma de conceber, de tomar a criança pela sociedade. Ao tomar a criança como um ser passivo, esse modelo determinista de socialização visa o seu treinamento, para que se torne “um membro competente e contribuinte.” (CORSARO, 2011, p. 20). Por existirem diferentes formas para conceber a sociedade, esse modelo determinista assumiu duas diferentes feições: o modelo funcionalista e o modelo de reprodução. Vejamos sobre cada um deles nos subitens que seguem.

3.1.1.1 Processo de socialização do modelo determinista funcionalista

O francês Émile Durkheim (1858-1917), com o objetivo de promover à sociologia o status de cientificidade, buscou desenvolver um método de análise exclusivamente sociológico. Tendo em seu contexto social e intelectual as raízes da ‘belle époque’, em que pululavam as complexidades das ‘questões sociais’ de formas nunca experimentadas, partindo das influências das correntes de pensamento do Positivismo, do Evolucionismo e do Conservadorismo, é que foram erigidas as produções acadêmicas e intelectuais de Durkheim. Nesse sentido, com o Positivismo, assentado nos fundamentos de Augusto Comte, com influência do iluminismo, em que a racionalidade era suprema, e do positivismo, por meio da superioridade da ciência, é a partir desses predicados que Durkheim pretende “fundar uma sociologia verdadeiramente científica, capaz de descrever as leis de funcionamento da sociedade e orientar o seu comportamento” (SELL. 2002, p. 62).

Influenciado pelo Evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882) e replicando as noções de Herbert Spencer, que pretendia aplicar à sociedade as mesmas leis

evolucionistas estudadas por Darwin, por meio da noção de que os corpos evoluem gradativamente, por meio de estágios, de modo a superar a simples primitividade para atingir patamares mais complexos e heterogêneos. (SELL, 2002, p.62). Com o conservadorismo, bastante presente no pensamento político de Durkheim, as maiores influências estão nos filósofos Edmund Burke (1729-1797), Joseph de Maistre (1754- 1821) e Louis de Bonald (1754-1840), opositores das “transformações trazidas pela Revolução Francesa de 1789. Esses filósofos criticavam o racionalismo e a agitação do mundo moderno. Pregavam o retorno da estabilidade da Idade Média e sua ênfase na religião.” (SELL, 2002, p. 62). Embora Durkheim não coadunasse na íntegra com esses pensamentos, é possível perceber em suas obras a influência conservadora desses filósofos.

Diante disso, Durkheim cria a teoria sociológica funcionalista, em que se ocupa da criação de um método capaz de estudar adequadamente a natureza dos fenômenos sociais. Em termos epistemológicos, antes de criar o método em si, Durkheim partiu da premissa das duas questões primordiais da epistemologia sociológica: “como ele concebia a relação entre o indivíduo e a sociedade e também como ele entendia o papel do método científico na explicação dos fenômenos sociais.” (SELL, 2002, p. 63). Com forte demarcação positivista, entendendo que é o objeto, e não o sujeito, que condiciona a realidade, Durkheim vai construir seu pensamento sob essa base: “a sociedade (objeto) tem precedência sobre o indivíduo (sujeito). Em outros termos, Durkheim afirmava que a explicação da vida social tem seu fundamento na sociedade, e não no indivíduo.” (SELL, 2002, p. 63/64). Quanto ao método, partindo da influência comtiana, Durkheim tomava os fenômenos sociais como ‘coisas’. Partindo do pressuposto de que “a realidade social é idêntica à realidade da natureza e que, portanto, equipara-se aos fenômenos por ela estudados”, Durkheim acabou seguindo os pressupostos de Darwin, apropriados por Spencer, assumindo como método para estudar a sociedade a mesma lei assumida pela natureza, a da evolução. (SELL, 2002, p. 65). Nesse sentido:

O papel da sociologia consiste em ‘registar’ da forma mais imparcial possível a realidade pesquisada (o objeto), tal como naquelas ciências [da natureza, ou seja, as ciências físicas, químicas ou biológicas]. Cabe ao pesquisador apenas fazer um retrato da realidade pesquisada, pois ela é uma realidade objetiva, tão objetiva como qualquer ‘coisa’ da natureza. (SELL, 2002, p. 65/66).

Considerando que a sociedade é que explica o indivíduo, o objeto de estudo formal de Durkheim passa a ser o fato social, de forma que “o modo como o homem age é sempre condicionado pela sociedade”, entendendo que:

É um fato social toda a maneira de agir, fixa ou não, capaz de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, ou ainda; que é geral no conjunto de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independentemente de suas manifestações individuais (DURKHEIM, 1978, p. 93 apud SELL, 2002, p. 67)

Quer dizer que, com a tríade dos fatos sociais assentada sobre a exterioridade, significando que tem origem na sociedade, coercitividade, ou seja, são imperativos, e de existência objetiva, quer dizer, existem de forma independente do indivíduo, Durkheim postula “o que” do seu principal pensamento: “a sociedade é que explica o indivíduo”. (SELL, 2002, p. 67), estando o como, ou seja, o método, com base no modelo funcionalista, ou seja:

explicar os fatos sociais significa demonstrar a função que eles exercem. Todavia, essa explicação não se encontra no futuro (a utilidade que nós projetamos nas coisas), mas se encontra no passado: primeiro é preciso investigar a razão pela qual surgiu aquela prática social (sua causa eficiente), para depois determinar a sua função. [...]

Em relação a este método, devemos assinalar ainda duas coisas. Em primeiro lugar que Durkheim compara a sociedade com um ‘corpo vivo’, em que cada órgão cumpre uma função. Daí o nome de metodologia funcionalista para seu método de análise. Em segundo lugar, como se repete novamente a ideia de que o todo predomina sobre as partes. Para Durkheim, isso implica afirmar que as partes (fatos sociais) existem em função do todo (sociedade). E é justamente isso que a ideia de ‘função social’ mostra: a ligação que existe entre as partes e o todo. (SELL, 2002, p. 68/69).

Esse modelo funcionalista teve muitos adeptos, sobretudo, na Sociologia, sendo que Corsaro (2011) assume Talcott Parsons como um de seus principais expoentes, depois de Durkheim, que entendia que a sociedade deveria funcionar por meio de um sistema que visasse a estabilidade, a ordem e o equilíbrio. Desta forma, as crianças devem ser instruídas de modo a compartilhar e contribuir com esses valores e finalidades. (CORSARO, 2011, p. 20).

Esses modelos funcionalistas repaginados ganharam popularidade entre as décadas de 1950 e 1960 e estavam focados em responder a duas perguntas básicas sobre o processo de socialização, centrados no “que” e no “qual”. Perguntas mais complexas sobre o porquê e “como as crianças se tornam integradas à sociedade” eram preteridas, assim, indagavam: “o que as crianças precisavam internalizar? Qual a educação dada pelos pais e quais estratégias de formação deveriam ser utilizadas para garantir tal

internalização?” (CORSARO, 2011, p. 20). Parsons via a criança quase que como um objeto estranho que, até ser socializado, diga-se, moldado, representava uma ameaça em potencial. (CORSARO, 2011, p. 20).

A criança era alguém em potencial que deveria ser desenvolvida para ser útil. Essa utilidade deveria ser formulada, segundo Corsaro, em leitura de Parsons, “em um processo cíclico, para lidar com problemas, e por meio de um treinamento formal, para aceitar e seguir normas sociais, a criança internaliza, por fim, o sistema social.” (CORSARO, 2011, p. 21). Como veremos mais adiante, esse modelo funcionalista perpassa as teorias democráticas contemporâneas analisadas por Carole Pateman (1992) e influenciaram o conceito de “participação”, reverberando na sua extensão às crianças.

3.1.1.2 Processo de socialização do modelo determinista reprodutivista

Os modelos reprodutivistas se explicam porque, em termos de teoria social, a vertente funcionalista perdeu força. Tendo em Bourdieu o sociólogo de maior expressão e suas teorias muito voltadas para “ilustrar modelos macrossociológicos” (LAHIRE, 2002, p. 18), segue uma teoria de ação que toma o autor enquanto uma lógica da unicidade e homogeneidade. Bourdieu, adepto dessa acepção, desenvolve a sua teoria do habitus na medida em que “permite ‘construir e compreender de maneira unitária as dimensões da prática que frequentemente são estudadas em ordem dispersa’”. (BOURDIEU, 1992, p. 107 apud LAHIRE, 2002, p. 18). Essa ideia unitária ora diz respeito a uma construção cientifica, ora à ideia de que a unicidade está na realidade social. “Então, o conceito de habitus tem a função de ‘dar conta da unidade de estilo que une as práticas e os bens de um agente singular ou de uma classe de agentes.” (BOURDIEU, 1994, p. 23 apud LAHIRE, 2002, p. 18).

Bourdieu, portanto, procurava “ ‘a’ fórmula geradora das práticas de um ator”, buscava “reconstituir “o” estilo (‘cognitivo’ ou ‘de vida’), que perdura e se manifesta nos domínios mais diferentes de atividades”, o que, para Lahire (2002, p. 21) é compartilhar a ilusão comum da unicidade e da invariabilidade. Quando Lahire, ao explicar a concepção de ator presente na teoria de habitus de Bourdieu, afirma quais são os objetivos e objeto da procura deste, o faz a partir de afirmações do próprio Bourdieu, senão vejamos:

Ele afirmava, ao declarar que queria ‘encontrar o que há de verdade na aproximação característica do conhecimento comum, a saber, a intuição da

sistematicidade dos estilos de vida e do conjunto que os constituem. Para isso, é preciso voltar ao princípio unificador e criador da prática, isto é, ao habitus de colocar como forma incorporada da condição de classe e dos condicionamentos que ela impõe, portanto, construir a classe objetiva como conjunto de agentes que são postos em condição de existência homogênea e produzem sistemas de disposições homogêneas, próprias para criar práticas semelhantes’. (BOURDIEU, 1979, p. 112 apud LAHIRE, 2002, p. 21). Portanto, do que se depreende desses excertos citados literalmente, compreende- se que, ao citar Bourdieu e os modelos reprodutivistas, Corsaro (2011) tem em mente os constructos formulados – e não se pode afirmar aqui que esta seja a única raíz, a única fonte –, a partir da teoria do habitus de Bourdieu. É o que se entende quando Corsaro afirma que os modelos reprodutivistas:

[...] são centrados nas vantagens usufruídas por aqueles com maior acesso aos recursos culturais. Por exemplo, os pais oriundos de grupos de classe social mais elevada podem garantir que seus filhos recebam educação de qualidade em prestigiadas instituições acadêmicas. Teóricos reprodutivistas também apontam para um tratamento diferenciado dos indivíduos nas instituições sociais (especialmente no sistema educativo) que reflete e apoia o sistema de classe dominante. (CORSARO, 2011, p. 21).

Corsaro se limita a citar Bernstein, Bourdieu e Passeron como sendo os teóricos dos modelos reprodutivistas e não desenvolve o tópico para muito além do exposto nos parágrafos antecedentes. Tece críticas às duas abordagens do modelo determinista e, de modo semelhante a Lahire (2002), argumenta que negligenciam ou diminuem a importância “das capacidades ativas e inovadoras de todos os membros da sociedade” (CORSARO, 2011, p. 21), fazendo desses teóricos omissos “em relação à natureza histórica e contingente da ação social e da reprodução. Em suma, esses modelos abstratos simplificam processos altamente complexos e, no seu erigir, ignoram a importância das crianças e da infância na sociedade.” (CORSARO, 2011, p. 21). Tudo porque os efeitos da socialização, da desigualdade social e do conflito social são postos em primazia, em detrimento da diversidade plural dos atores (LAHIRE, 2002; CORSARO, 2011).

Corsaro cita a importância de Bourdieu para a construção de sua própria tese, a “reprodução interpretativa” das crianças, mas, por entender que falta um elo construtivista na compreensão do habitus em Bourdieu – que não é determinista, na visão de Corsaro ─, que vá além da socialização que “limita o envolvimento das crianças na participação e reprodução cultural” para alcançar “as contribuições infantis para o refinamento e mudança cultural” (CORSARO, 2011, p. 22), é necessário um modelo que emergiu do construtivismo, que inclua a criança como ator. É sobre esse modelo que as próximas subseções tratarão.

3.2 PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO DOS MODELOS DE DESENVOLVIMENTO