Mapa 18 – RMGV: Vias estruturantes/eixos dinamizadores
2 ESTUDO DE IMPACTO DE VIZINHANÇA: POLÍTICAS URBANAS E
2.5 Procedimentos básicos para elaboração do EIV
2.5.1 Processo decisório e participação popular
Existem várias possibilidades de participação popular nas decisões administrativas, em questões que envolvem a sociedade civil. Em alguns casos, os cidadãos podem participar de consultas públicas para a criação de novas leis ou de conferências temáticas para debater políticas públicas. Entre os diversos canais de participação dos cidadãos, as audiências públicas são um meio para compartilhamento das ações do Poder Público municipal nos assuntos relacionados ao planejamento e à gestão urbana.
As premissas para o cumprimento da função social da cidade e da propriedade urbana incluem a importância da efetiva participação dos cidadãos nos processos de gestão democrática. Segundo Rocco, a principal característica do EIV é a “democratização das decisões proferidas sobre a possibilidade de instalação, ou não, de determinados empreendimentos a serem realizados na cidade” (ROCCO, 2009, p. 25). Com isto, ao dar voz a bairros e comunidades que estejam expostos aos impactos gerados, o Poder Público municipal consagra o Direito de Vizinhança, parte integrante da política urbana.52
Por tratar-se de um tema que diz respeito à participação popular, vale destacar que seus princípios se baseiam nas prerrogativas dos direitos amparados pela Constituição Federal53 quanto à participação democrática nas decisões que envolvem
os cidadãos. Como matéria diretamente relacionada ao sistema democrático, o interesse nas decisões administrativas também inclui o Estudo de Impacto de Vizinhança e os desdobramentos da sua implementação. Assim, é de fundamental importância a representação da sociedade civil por meio da participação popular nas decisões relacionadas aos impactos de vizinhança, principalmente no que se refere à rua, bairro ou região.
Portanto, o EIV, como instrumento auxiliar na gestão democrática do solo urbano, deve ser motivado primordialmente pela preocupação com a ordem urbanística e pelo uso socialmente justo e ambientalmente equilibrado da cidade (SCHVARSBERG,
52 Câmara dos Deputados. Estatuto da Cidade. Guia para Implementação pelos Municípios e Cidadãos. 2001. 53 Conf. a instauração do Estado Democrático de Direito, pela CF de 1988, art. 1º, parágrafo único. (fonte: http://www2.planalto.gov.br - acesso em 14/01/2019)
2016). Sendo assim, a população urbana deve tomar conhecimento da avaliação dos impactos antes da aprovação do EIV e seu respectivo RIV, sendo incentivada a participar da decisão de implantação ou autorização de determinado empreendimento ou atividade.
Em algumas cidades o fator de participação popular e envolvimento nas instâncias públicas ainda se mostra incipiente. Existe pouco interesse ou crença da comunidade quanto ao seu poder de interferir nas decisões que cabem ao Poder Público, mas que envolvem toda uma área de influência. Isto é ainda mais evidente quando se trata de comunidades menos favorecidas, que eventualmente detêm pouco poder de representatividade.
Quando se trata de uma empresa de grande porte a ser implantada em determinado bairro da cidade, o interesse da população pode se concentrar apenas na capacidade de geração de emprego que o empreendimento poderá oferecer. Por desconhecimento ou desinformação, questões mais abrangentes e que eventualmente envolvem o interesse coletivo ficam em segundo plano. Contudo, se a comunidade for bem informada e articulada, agindo de modo a exercer suas prerrogativas de participação nas decisões, pode até mesmo interferir em todo o projeto de um empreendimento.54
É importante ressaltar que a obrigatoriedade da elaboração do EIV não é dirigida apenas aos empreendedores, mas também constitui uma determinação de responsabilidades direcionadas ao Poder Público. Assim, sua exigência não visa restringir a liberdade do proprietário, mas adequar o empreendimento ao meio ambiente em que será inserido.
54 Como exemplo de um caso representativo, podemos citar os desdobramentos da apresentação do EIV de um projeto de dois edifícios de alto padrão, a ser implantado em área nobre da cidade de Vitória (região da Enseada do Suá): uma torre residencial e outra de uso comercial e serviços, em uma primeira audiência pública. A população do entorno, representada pela associação de moradores e investidores do local, interveio contra a aprovação, alegando que o bairro ressentia de mais unidades residenciais, sendo já bem servido no setor empresarial. Assim, o projeto foi indeferido, tendo sido posteriormente modificado, inclusive em sua tipologia (incluindo maior diversidade de usos residenciais), acatando algumas sugestões proferidas na ocasião. O parecer do novo EIV em relato sobre a segunda audiência pública (para apresentação de novo estudo e projeto) consta a seguinte justificativa: ”Destacamos que foi recorrente a preocupação da vizinhança com o agravamento das condições do trânsito, principalmente com a implantação de grandes empreendimentos de uso não residencial, expressando a preferência por edificações voltadas para o uso residencial” (Conf. Processo nº.717.3502/2015 – resumo EIV nº 11/2015, p. 28; PMV/SEDEC/GGU; 31/08/2016).
Deste modo, entre as diretrizes relacionadas ao EIV está a obrigatoriedade de que o empreendedor realize Audiências Públicas na sequência de elaboração do Estudo,
disponibilizando seus resultados (por meio do Relatório de Impacto de Vizinhança), para o conhecimento prévio dos moradores do entorno do empreendimento, primordialmente os residentes na região de sua área de influência.
2.5.1.1. Audiências públicas
De acordo com os mesmos princípios estabelecidos originalmente para o EIA/RIMA, o artigo 37, parágrafo único do Estatuto da Cidade, determina a publicidade do Estudo de Impacto de Vizinhança. Assim, o EIV deverá ser tornado público e devidamente informado à sociedade civil, de modo a evitar que hajam desvios para interesses particulares. Tal publicidade inclui a elaboração de um Relatório de Impacto de Vizinhança (RIV), que deve ser composto em linguagem mais clara e sucinta, para entendimento da população interessada, a ser apresentado publicamente.
Conforme instrução contida no PDU de Vitória (Lei Municipal nº 6.705/2006), a Audiência Pública é uma instância de discussão onde os cidadãos exercem o seu direito de se manifestarem sobre certos planos e projetos. Assim, de sua parte, a Administração Pública cumpre o dever de informar e esclarecer dúvidas para a população interessada, eventualmente atingida pela decisão administrativa.55
Deste modo, no cumprimento das exigências do EIV, e com vistas à sua aprovação, o empreendedor fica obrigado a tornar público o estudo a ser disponibilizado a qualquer interessado (incluindo todos os documentos e estudos relativos ao EIV), de forma a possibilitar canais de diálogo com a sociedade civil.
Também fica obrigado a arcar com eventuais custos da realização das audiências públicas. Neste contexto, deverão ser incluídas, além da vizinhança, também as associações comunitárias e setores representativos da sociedade civil, para cumprimento ao disposto no Estatuto da Cidade, nos seguintes termos:
55 Conforme o art. 57 da Lei nº. 6.705/2006, a audiência pública é “de interesse dos cidadãos direta ou indiretamente atingidos pela decisão administrativa, convidados a exercerem o direito à informação e o direito de manifestação, [...] sendo obrigatória, sob pena de nulidade do ato”.
Audiência do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou construído, o conforto ou a segurança da população; (EC, art.2º, XIII)
A menção de “efeitos potencialmente negativos” no trecho em destaque enfatiza a importância da participação popular, principalmente no tocante ás questões em que a população se sentir lesada mediante alterações no ambiente urbano. Conforme avalia Maricato (2011), ainda que sejam poucas as consequências e os efeitos de audiências públicas, a novidade é que, com a participação da população interessada em casos que extravasam a situação legal de determinado lote ou gleba, podem surgir “embates políticos opondo moradores e promotores imobiliários” (MARICATO, 2011, p. 104). Como importante ferramenta de planejamento urbano, o EIV deve ser parte permanente na prática da gestão pública, visando o bem-estar da população e a proteção dos interesses dos cidadãos, que devem ser também instruídos quanto à sua natureza e importância. Isto também deve ser manifestado pelo incentivo à participação da comunidade nos processos de aprovação dos empreendimentos ou atividades que se propõem no espaço urbano.
Esta responsabilidade, dentre as demais atribuídas à implementação do EIV, deve ser compartilhada entre o empreendedor e o Poder Público municipal, visando o cumprimento do seu papel como instrumento para a eficácia da gestão democrática das cidades.
3 REGIÃO METROPOLITANA