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Capítulo 2 Ensino superior e o currículo em turismo

3.3. Processo ensino e aprendizagem experiencial

Desde praticamente a Segunda Guerra Mundial que o ensino e a aprendizagem têm sido alvo de interesse da educação, em geral, e das didáticas, em particular, entretanto, a utilização de estratégias de ensino aprendizagem remonta às origens da própria educação. Segundo Vieira e Vieira (2005: 9, citando Novak, 1998: 1), o questionamento41 foi uma estratégia de ensino utilizada por Sócrates42, no “qual ele fazia questões, sequencialmente, para mostrar o conhecimento que acreditava existir na mente de todas as pessoas, escravos ou imperadores”. Entretanto, segundo os autores, somente mais recentemente é que as estratégias de ensino e aprendizagem assumiram formalmente destaque como elemento constitutivo do processo educativo, fundamentalmente para propiciar a realização de aprendizagens por parte dos alunos.

Não obstante a importância do tema ensino-aprendizagem e as questões atinentes ao seu surgimento e utilização como processo educativo e, de modo comparativo, embora numa outra vertente, porém não menos elucidativa do uso de algumas de suas técnicas, não verificamos na literatura consultada qualquer referência que remonta à denominada “Era Cristã”, ainda que de forma ilustrativa, alguma passagem pela qual seu principal protagonista denominado Jesus, para os Cristãos, utilizava processos de ensino-aprendizagem. Muito mais no intuito de estabelecermos uma associação entre o tema e as ações educacionais pós contemporâneas do que qualquer outra alusão e/ou reverência a este ou aquele princípio doutrinal, crença espiritual ou dogmática, entendemos ser procedente incorporarmos a esta reflexão sobre o ensino-aprendizagem, neste capítulo, um desses momentos de ensinamento por meio da imersão em atividades experienciais levados a efeito na denominada “Era Cristã”.

41 Como estratégia de ensino, o questionamento é entendido como um plano cuidadosamente preparado

envolvendo uma sequência de questões explicitamente concebidas visando determinado(s) objetivo(s) /competência(s) de aprendizagem. O professor formula questões com as mais variadas finalidades que vão desde a verificação da presença ou ausência de conhecimentos até às que se destinam a controlar a participação dos alunos. (Vieira &Vieira, 2005: 44).

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É de salientar que o questionamento socrático tem vindo a ser utilizado desde a antiguidade clássica até aos dias de hoje, especialmente nos domínios da Filosofia, que de uma forma geral é atribuído a Sócrates (470-399 a.C.). Para além deste, também Aristóteles, entre outros, parece ter sido um utilizador desta estratégia. Fazer questões no contexto do questionamento socrático é uma tentativa de encontrar a validade de um argumento, ponto de vista ou proposição (Maiorana, 1991)

141 Assim, entre algumas das passagens citadas na Biblia através de seus Livros43, percebem-se nítidos exemplos de ensinamentos levados a efeito há mais de dois mil anos, reproduzidos em forma de parábolas num Livro editado em vários idiomas, lido e apreciado por milhões de pessoas em todo o mundo em que Jesus ensina por meio da experiência, fazendo uso inclusive do questionamento socrático. Destacamos, portanto, uma destas passagens atribuída a um dos evangelistas, Lucas44, onde este descreve um dos momentos em que Jesus silencia as autoridades que, percebendo que estão perdendo o controle, tentam fazer uma armadilha que desmoralize a Sua autoridade diante do povo:

“Num desses dias, Jesus estava no Templo, ensinando o povo. Então os chefes dos sacerdotes, os doutores da lei e os anciãos apareceram e disseram: “Diz-nos com que autoridade fazes tais coisas. Quem foi que te deu essa autoridade?” Jesus respondeu: “Eu também vou fazer uma pergunta para vocês. Digam: o batismo de João vinha do céu ou dos homens?” Mas eles comentaram entre si: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que vocês não acreditaram em João?’ Se dissermos que vinha dos homens, todo o povo nos apedrejará, porque está convencido de que João era um profeta.” Então eles responderam que não sabiam de onde vinha. E Jesus disse: “Pois eu também não vou dizer a vocês com que autoridade faço essas coisas”. (Livro de Lucas, capítulo 20, v. 1- 8).

Ao analisarmos este exemplo de ação de ensino-aprendizagem, percebemos que o principal protagonista utiliza, de forma loquaz, estratégias de questionamento na tentativa de encontrar a validade de um argumento. Para além disso, faz uso de quatro tipos de reflexão: a individual, a pública, a reflexão que se realiza na ação e a que se realiza, a posteriori, denominada reflexão sobre a ação realizada (Villardi & Vergara, 2011).

Entretanto, tais estratégias de ensino/aprendizagem assumiram formalmente destaque como elemento constitutivo do processo educativo somente recentemente,

43 A Bíblia é um conjunto de livros que revelam a vida de Deus presente na história dos homens. (Bíblia

Sagrada, Edição Pastoral, 1990)

44 O Livro do evangelista Lucas, fala de um determinado caminho de Jesus associando-o à pedagogia que

ensina a fazer a história dos pobres que buscam um mundo mais justo e mais humano. Segundo o Livro, Jesus traz o projeto para uma ordem nova, a libertação que leva os homens à relação de partilha e fraternidade (…). Tal como Jesus educa seus discípulos durante a longa viagem relatada por Lucas. (9,51-19,28). (Livro de Lucas, Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, 1990).

142 nomeadamente para propiciar a realização de aprendizagem por parte dos estudantes (Vieira & Vieira, 2005: 10). Os autores destacam ainda que a escolha e utilização de estratégias de ensino depende de vários factores, tais como: os objetivos/competências a atingir/promover. Em articulação com estes, a escolha e utilização de uma dada estratégia pode ser condicionada pelas filiações dos professores relativamente a aspectos como: perspectivas de ensino, modelos de ensino/aprendizagem, papel do professor, papel do aluno, bem como pelos recursos disponíveis. “É importante conhecer estratégias de ensino, possuir dados de investigação sobre a forma como funcionam em diferentes contextos de ensino e de aprendizagem e quais as potencialidades que possuem, pois, assim, poder-se-á racionalmente escolher a estratégia de ensino mais adequada ao contexto educativo em causa”.

Nesta vertente das estratégias de ensino/aprendizagem, destaca-se o estudo realizado por Villardi e Vergara (2011), em um curso de mestrado em administração, que buscou examinar a prática de ensino-aprendizagem durante e após o processo de aprender a pesquisar, a fim de encontrar resposta sobre a questão de como alunos de mestrado aprendem, por meio de prática experiencial, a realizarem pesquisa qualitativa em um curso de administração. Apoiadas em referencial teórico que trata de processos de ensino-aprendizagem, reflexão e pesquisa qualitativa, as investigadoras realizaram um percurso metodológico inspirado na fenomenologia e na abordagem socio construtivista, privilegiando a experiência vivida de professores e alunos. Chegaram à conclusão de que a vivência de pesquisa de campo e a prática de reflexão pública no e sobre o campo: (a) ampliou a consciência dos participantes sobre a sua importância no processo de ensino/aprendizagem; e (b) revelou duas implicações, que são: pode auxiliar docentes de cursos de mestrado em administração na reflexão de suas próprias práticas, e gestores de IES na formulação de políticas para capacitação de docentes e de políticas didático-pedagógicas.

Examinando os aportes teóricos sobre essa prática, foi possível, segundo conclusão das autoras, identificar pelo menos quatro tipos de reflexão: a individual, a pública, a reflexão que se realiza na ação e a que se realiza, a posteriori, denominada reflexão sobre a ação realizada.

Entretanto, abordar o processo ensino/aprendizagem como afirma Bru (1987) é analisá-lo como um sistema ou ainda, conforme menciona Altet (2000: 15), é considerá- lo como a articulação funcional entre dois subsistemas ao mesmo tempo

143 interdependentes e autonomos (o subsistema ensino e o subsistema aprendizagem), utilizando, também, o termo de processadores em sentido sistêmico. Altet apoia-se em Lerbet (1984), que apresenta as seguintes definições destes conceitos: “um processador é um ‘elemento’ – acontecimento de um sistema, quer dizer, de uma estrutura que gera energia, em sentido lato, a partir da informação e da permuta dos conteúdos...”. Numa investigação pedagógica, os processadores serão o professor e os alunos nas suas interações pedagógicas. Diz G. Lerbet, prosseguindo a análise sobre o conceito de processo: “o triângulo (processador x relação funcional x processador) constitui um processo, que se pode definir como a polarização de um desvio energético” (Altet, 2000: 15).