4 O TRABALHO COM O TEXTO LITERÁRIO NAS QUESTÕES DE
4.4 O PROCESSO DE FORMULAÇÃO DAS QUESTÕES
As questões que resultam das LOL são formuladas por profissional(is) contratado(s) para esse fim, mas ao integrar a prova de acesso à IES acabam por refletir o posicionamento da instituição em relação à literatura. Assim sendo, a responsabilidade a cargo desse elaborador de questões é significativa, posto que a qualidade dos exercícios propostos interfere em várias esferas.
Creio que a influência mais direta seja delimitar se as obras indicadas como leitura obrigatória precisarão ser lidas na íntegra e de forma reflexiva, pois uma questão bem elaborada e que exija do aluno conhecimentos adquiridos somente mediante a leitura integral dos textos é o que possibilita que os textos literários estejam inseridos de fato no ambiente escolar e (pausa para a utopia) que o professor de literatura disponha do tempo e espaço necessários para mediar as leituras de forma competente e significativa.
No outro extremo, questões que reivindicam do candidato um conhecimento básico em relação às obras podem contribuir com a perpetuação da cultura de leitura de resumos e fragmentos dos livros como suficientes para a realização das provas de literatura que integram os exames de acesso ao ensino superior. Em última instância, questões que não são elaboradas tendo em vista a necessidade de leitura do texto literário colaboram com a deslegitimação das indicações de leitura efetuadas pelas instituições, consideradas nesse trabalho como espaço de (r)eexistência da literatura. Ou seja, o cuidado na elaboração dos exercícios apresenta potencial para contribuir de forma positiva e efetiva com a presença da literatura nos exames de acesso ao ensino superior e, consequentemente, no ambiente escolar. Considerando que o profissional incumbido da formatação das questões precisa ser formado na área, certamente a defesa de um espaço para a literatura lhe interessa e muito. Contudo, é preciso considerar que o processo apresenta várias dificuldades.
Acredito que o primeiro impasse com que os elaboradores de questões se deparam seja o espaço reduzido disponível para a inserção das reflexões que deseja provocar em torno do texto. Como mobilizar vários conhecimentos sobre a obra no espaço de um exercício? E qual critério empregar para eleger algumas particularidades do texto a serem discutidas em detrimento de outras?
Alguns desses aspectos são delimitados de antemão pela IES promotora do vestibular, haja vista que cada instituição possui suas próprias regras em relação ao
modo de estruturação de questões e número de exercícios disponíveis para cada área do conhecimento, instruções apresentadas ao profissional responsável pela construção dos exercícios. Essas bases norteiam a elaboração das questões e o modo como os conhecimentos podem ser articulados de modo a enquadrarem-se nas normas da instituição.
É necessário relembrar e ressaltar que as instituições contratam esses profissionais, ou seja, pagam para que eles elaborem questões referentes à disciplina de acordo com o indicado. O vínculo financeiro, bem como a existência das normas de elaboração, de certa forma delimitam a atuação do profissional que recebe indicações em relação ao nível de conhecimentos que deverão ser exigidos na resolução dos exercícios (fácil, médio, difícil).
Sendo assim, não é possível afirmar se os responsáveis por elaborar as questões alcançam colocar em prática de forma efetiva o que consideram como relevante na relação com o texto literário ou precisam ceifar suas próprias expectativas para atender ao que a instituição exige, mediante pagamento e orientações prévias.
Isto posto, não podemos deixar de considerar que as listas analisadas neste trabalho apresentam extensão variável, contemplando entre 4 e 10 textos literários. Para que um profissional esteja apto a elaborar exercícios a partir desses textos que contribuam com a valorização da leitura e da literatura, é imprescindível que dedique tempo ao exame, análise e reflexão acerca das obras, de forma a desempenhar sua função de forma séria e cuidadosa.
Além disso, para que lhe seja possível formular questões que ampliem o conhecimento e as percepções do candidato, é necessário ainda que o profissional trave contato com a fortuna crítica que circunda cada uma das obras. Ou seja, o processo de elaboração implica em um tempo considerável de dedicação, haja vista que exige também um conhecimento crítico por parte do elaborador pois as questões não podem ser construídas a partir somente do que se ouve dizer sobre os textos literários.
Ponto relevante para esse momento da discussão é que, apesar de os responsáveis por elaborar as questões receberem um retorno financeiro por seu trabalho, o retorno acadêmico é nulo, considerando que todo o processo de planejamento dos concursos vestibulares exige sigilo absoluto. Ou seja, os profissionais empregam seu tempo e energia em um trabalho que obviamente lhe
agrega experiência, mas não contribui de forma positiva com o avultamento de seu curriculum. Do ponto de vista profissional, esse aspecto é muito negativo, sobretudo para aqueles que buscam ou já seguem uma carreira acadêmica, ambiente em que a produtividade é supervalorizada.
Ademais, de novo precisamos considerar que toda escolha é uma renúncia e, portanto, os profissionais que se colocam na posição de elaborador se sujeitam a críticas acerca de sua atuação. Esse movimento é natural pois cada profissional apresenta sua própria visão sobre o que precisa ser enaltecido em relação a determinada obra e à forma mais coerente de exigir esses conhecimentos do candidato.
As críticas constituem uma parte importante do processo pois esse retorno é o que garante que as práticas sejam atualizadas, revistas e repensadas. Além disso, os apontamentos de outros profissionais da área propiciam que os responsáveis por elaborar as questões para as provas dos concursos vestibulares analisem e repensem suas próprias escolhas, em um movimento de reflexão e avanço extremamente necessário ao aperfeiçoamento dos processos.