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4 O TRABALHO COM O TEXTO LITERÁRIO NAS QUESTÕES DE

4.1.2 Questão 2 – PUC-SP

A seguir, no Texto I, o crítico literário Alfredo Bosi associa a publicação, em 1881, de Memórias póstumas de Brás Cubas à inauguração de uma nova fase na carreira literária de seu autor, Machado de Assis. No Texto II, excerto do capítulo “O verdadeiro Cotrim”, do mesmo romance, Brás Cubas descreve o caráter de seu cunhado Cotrim, ex-traficante de escravos. Leia os dois textos para responder às questões 69 e 70.

Texto I

A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto1 e desfrutador Brás Cubas.

(BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 40. ed. São Paulo: Cultrix, 2002, p.177)

Texto II

Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. (...) Não era perfeito, decerto; tinha, por exemplo, o sestro2 de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava, — sestro repreensível ou não louvável, concordo; mas ele desculpava-se dizendo que as boas ações eram contagiosas, quando públicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que ele não praticava, de quando em quando, esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição sine qua non3. Em suma, poderia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém.

(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê, 2001, p. 224-225)

Vocabulário:

1 cauto: cauteloso, prevenido. 2 sestro: vício. 3 condição sine qua non: condição sem a qual não é possível o que se pretende.

70 – No Texto I, Alfredo Bosi destaca a particularidade do foco narrativo criado por Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas. Dentre os traços característicos do narrador desse romance, a leitura do Texto II permite destacar a presença de:

A) leitor incluso em “e nisto faço o seu maior elogio”. (alternativa incorreta)

B) metalinguagem em “razão a que se não pode negar algum peso”. (alternativa incorreta)

C) cinismo em “poderia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém”. (alternativa incorreta)

D) sarcasmo em “o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro beneficio que praticava”. (alternativa correta)

A questão formulada pela PUC-SP traz dois textos motivadores para nortear a resolução das questões apresentadas em seguida: um texto teórico e um fragmento

de Memórias póstumas de Brás Cubas. Considero bastante positiva a decisão de apresentar ao candidato a opinião de um crítico literário que versa sobre a obra como ponto de ancoragem para a resolução do exercício, pois esse posicionamento auxilia no processo reflexivo e de ampliação dos pontos de vista sobre o texto.

A proposta é indicar a alternativa que apresenta um traço característico do narrador do romance, elemento fundamental para a compreensão do todo da obra. Todavia, o modo como a questão é articulada permite que um vestibulando que não tenha lido o texto mas domine conceitos como leitor incluso e metalinguagem seja capaz de identificar a informação correta mediante a interpretação do que é dado nas próprias alternativas.

A alternativa A exige que o aluno conheça o conceito de leitor incluso, elemento narrativo utilizado em diversas oportunidades por Machado de Assis – inclusive e principalmente em Memórias póstumas – e que pode ser comparado ao conceito de narratário interpelado: “Trata-se desse leitor anônimo, sem verdadeira identidade, interpelado pelo narrador durante a narrativa” (JOUVE, 2002, p.41).

Ou seja, o leitor incluso não é um personagem do texto haja vista que “não intervém, como ator, na história” (JOUVE, 2002, p.41), mas é de certa forma convidado a acercar-se da história ao ser abordado pelo narrador de forma direta. Os exemplos dessa técnica abundam em Memórias póstumas:

Se o leitor ainda se lembra do capítulo XXIII, observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas também há de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo – perpétuo. E Deus sabe a força de um adjetivo, principalmente em países novos e cálidos (ASSIS, 2014, p.127)

No fragmento acima, o narrador do romance dirige-se diretamente ao leitor, fazendo referência a passagens anteriores do texto, o que explicita a presença do narrador incluso no texto. O candidato que domina o conceito de leitor incluso e sabe como ele é aplicado, automaticamente descarta a primeira alternativa como incorreta, haja vista que não há, no trecho indicado, uma interpelação do narrador ao leitor. O narrador somente adiciona uma informação, uma impressão sua a respeito do que está sendo narrado naquele momento.

Na alternativa B, o candidato é convidado a refletir acerca do conceito de metalinguagem, que pode ser compreendida de maneira bastante simplificada como o uso da linguagem como ferramenta de reflexão e discussão acerca de si mesma.

Na literatura, a metalinguagem é tradicionalmente utilizada como instrumento de ponderação sobre o fazer literário, o ato de escrever, o público leitor ou a própria figura do escritor, dentre outros.

Seja por meio de personagens leitores ou escritores ou ainda recorrendo ao auxílio de um narrador que insere divagações sobre esses temas na narrativa, em geral os textos ressaltam aspectos que precisam ser repensados sobre a literatura, caracterizando um processo autorreflexivo.

É usual que escritores e estudiosos da literatura pensem sobre esses aspectos dos textos literários e mesmo que registrem suas opiniões em artigos críticos ou livros. Porém, não é usual que o grande público tenha acesso a essas produções. Sendo assim, o que há de mais importante na metalinguagem é o fato de proporcionar aos leitores o acesso a essas reflexões por meio do próprio texto literário.

No caso da alternativa B, portanto, o vestibulando que conhece o significado de metalinguagem descarta facilmente a proposição como incorreta, pois o fragmento indicado não se ocupa em discutir ou apontar nenhum aspecto do próprio texto, somente justifica a atitude do personagem Cotrim.

Considero muito importante a alternativa exigir do candidato o domínio do conceito de metalinguagem, artifício utilizado de forma recorrente por Machado de Assis. É provável que o vestibulando que leu a obra indicada e refletiu sobre suas características tenha tido contato com informações acerca desse traço característico da escrita do autor.

As alternativas C e D trazem exemplos associados aos conceitos de cinismo e sarcasmo. O cinismo pode ser compreendido como a atitude de ridicularizar algo ou alguém de maneira velada, enquanto o sarcasmo é explícito e algumas vezes cruel. A alternativa C traz um fragmento que poderia ser conceituado como ironia, mas não como cinismo. Portanto, o vestibulando que domina o significado de cinismo, pode descartar essa alternativa como incorreta.

O fragmento utilizado na alternativa D traz um exemplo típico de sarcasmo, pois indica que o personagem distribuía benesses porém tinha o vício de relatar sua atitude aos jornais, tornando-a pública e conhecida. Ou seja, o objetivo da frase é ridicularizar a atitude de promover benfeitorias com o intuito de ser louvado por seus atos, não somente buscando praticar o bem.

As alternativas A e B exigem que o candidato possua um conhecimento teórico para descartá-las enquanto as alternativas C e D apresentam conceitos

familiares à maioria das pessoas, por serem utilizados no dia-a-dia. As duas últimas proposições praticamente anulam o esforço efetuado nas duas primeiras em relação a exigir um conhecimento mais teórico, pois permitem que a alternativa correta seja identificada mesmo por um candidato que não domine os conceitos apresentados.

Portanto, para resolver a questão proposta pela PUC-SP, o candidato não precisa necessariamente conhecer os conceitos de leitor incluso e metalinguagem ou saber que o narrador de Memórias Póstumas apresenta como um de seus traços característicos ser sarcástico. É possível resolver a questão ao constatar que no trecho apontado na alternativa D há a utilização de sarcasmo.

Porém, a intenção de exigir do aluno um conhecimento teórico um pouco mais aprofundado é louvável, pois garante que um vestibulando que leu a obra e conhece as características do texto e do narrador responda a questão com mais segurança, tendo a certeza de que a alternativa D é a única correta.