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PROCESSO HISTÓRICO DE FORMAÇÃO DE CABO VERDE

2 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL BRASIL – ÁFRICA

2.2 PROCESSO HISTÓRICO DE FORMAÇÃO DE CABO VERDE

A origem do nome Cabo Verde é explicada devido ao arquipélago ser localizado próximo à costa do Senegal. Existe uma polêmica sobre qual europeu chegou primeira às ilhas, se foi o venesiano Cadamosto, ou o português Diogo Gomes, ou o genovês António de Noli, e se as ilhas se encontravam desabitadas. Sabe-se que a primeira ilha avistada foi a Ilha de Santiago, nome atribuído ao dia do calendário cristão ao respectivo santo, assim com as outras ilhas, quando cada uma foi achada. Contudo, o povoamento se deu, efetivamente, com as chegadas dos portugueses, em seguida os povos que foram escravizados, vindo da Guiné, do Senegal, os Bantos, os

Sudaneses e outros, de forma progressiva, sem obedecer a um plano sistemático de ocupação por parte do Estado português, como afirma Lígia Évora (FERREIRA, 1997). Segundo a autora, Cabo Verde sempre se diferenciou das outras colônias portuguesas, seja pelos fatores estruturais (condições geológicas e climatéricas), seja de fatores conjunturais (condições demográficas, políticas e econômicas). Todavia, os aspectos político-econômicos estavam relacionados, intrinsecamente com a conjuntura do Continente e com a política colonial seguida. Contudo os problemas endêmicos da sociedade cabo-verdiana, casou sérias consequências para a população.

2. 3 A BANDEIRA DE CABO VERDE

Figura 9: Bandeira de Cabo Verde

Fonte: Itamaraty 2019

O retângulo azul da bandeira simboliza o espaço infinito do mar-e-céu que envolve as ilhas. As faixas, o caminho da construção do país. O azul, o mar e o céu. O branco, a paz que se quer. O vermelho, o esforço. As estrelas, as dez ilhas que compõem o arquipélago (BRASIL, 2002).

Considerou-se importante dedicar este tópico ao país Cabo Verde, devido o recorte da pesquisa para os/as estudantes cabo-verdianos/as da UNILAB. A escolha foi movida pela oportunidade de ter conhecido, até o momento, somente este país e haver entrevistado as famílias dos sujeitos da pesquisa, os estudantes cabo-verdianos da UNILAB. A ocasião proporcionou-me a verificação de uma semelhança histórica com o Brasil, contudo vale fazer uma breve contextualização histórica de Cabo Verde, para entender esse processo. O mapa que segue foi publicado em 1598:

Figura 10 - Mapa antigo do Arquipélago de Cabo Verde no século XVI

Fonte: Guia Geográfico

2.4 LOCALIZAÇÃO DAS ILHAS DE CABO VERDE

Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas vulcânicas e treze ilhéus, um dos menores países do mundo, com superfície de 4.033 km², localizado na região central do Oceano Atlântico, na costa ocidental da África, o tamanho das ilhas varia de 991 Km2 em Santiago e 35 Km2 em Santa Luzia, a população atual de 542 416 e a capital Praia que está situada na ilha de Santiago.

O país foi colônia de Portugal por quatro séculos, obtendo a sua independência somente em 1975, como já visto acima. Para melhor compreensão da localização do país, seguirão imagens, um mapa e fotos (retiradas em ocasião da minha visita).

Figura 11 - Ilhas do Sotavento e Barlavento

Fonte: Guia Geográfico

Figura12: Campo de Concentração do Tarrafal Figura13: Praia de Tarrafal

Fonte: Arquivo pessoal, 2018Fonte: Arquivo pessoal, 2018

A Cidade Velha foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade no dia 26 de junho de 2009, numa decisão da UNESCO, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) que cuida da educação e da cultura. A Cidade de Ribeira Grande de Santiago, atual Cidade Velha Patrimônio Mundial está situada na parte sul da Ilha de Santiago, a 12 km da Cidade da Praia, nas Coordenadas UTM 14°54’N 23°36’O (RAMOS, 2017).A ilha de Santiago é a maior ilha do arquipélago de Cabo Verde, com cerca de 75 km de comprimento, no sentido norte-sul e cerca de 35 km de largura, no sentido Leste-Oeste As ilhas mais próximas são o Fogo, a uma distância de cerca de 50 km, a oeste, e a ilha de Maio, localizada a 25 km a leste. (SILVA, 2018, p.24).

A partir de um olhar in loco em Cabo Verde, é possível notar semelhanças e diferenças entre o Brasil e este país. Esta relação entre os dois países reflete na forma como os/as estudantes cabo-verdianos/as da UNILAB, lidam com as experiências encontradas na cidade de São Francisco do Conde/BA, onde está localizado o Campus dos Malês.

Após conquistar a independência os cabo-verdianos são impelidos a aderir à cultura dominante, como requisito básico para a sua inclusão sociopolítica, o que chamamos de assimilacionismo, contribuindo para a discriminação e incentivando a autonegação. Como explica Gabriel, o comportamento assimilacionista tende a posicionar-se entre aquilo que conhece, e de que se lhe impõe livrar, e aquilo com que se lhe acena como alternativa; ou seja, entre o seu, mas subjugado, mundo e um mundo alheio, mas valorado e promissor.

O conceito de colonialidade desenvolvido por Aníbal Quijano, explica o que vai além das particularidades do colonialismo histórico e que não desaparece com a independência ou descolonização. Contudo, o sociólogo cabo-verdiano Gabriel Fernandes (2006, p. 33) explica que o pertencimento da nação se presume imune a quaisquer oscilações conjunturais, neles a nação simboliza tanto uma aquisição quanto uma negação, já que o que se lhes reconhece, enquanto supostos membros da nação, é-lhes retirado enquanto colonizados. Iva Cabral analisa este fato ao dizer:

Cabo Verde é uma sociedade escravocrata — serviu de entreposto de escravos a partir do século XV — ―que nasce racista‖, diz Iva Cabral. E o inconsciente de uma sociedade escravocrata ―é muito pesado‖; ainda está presente o ―problema de sermos africanos ou não‖, justamente porque ―quando se fala em África fala-se em escravidão e é todo o peso da escravidão que ainda existe no nosso subconsciente‖. (Acervo Público, 2016).

O sociólogo Gabriel Fernandes ao analisar a busca dos cabo-verdiano pela sua nação, salienta: ―O colonizado desconfia do passado de quem lhe estende a mão; o colonizador confia no seu passado para estender a mão e não permitir que se lhe tome o braço‖ (FERNANDES, 2006, p. 51).

3 RELATOS DE EXPERIÊNCIAS DOS/AS ESTUDANTES CABO-VERDIANOS

As relações raciais no Brasil, ainda se constituem em um grande desafio para a população negra brasileira e a estrangeira. Devido ao ―Mito da Democracia Racial‖ que impera no país e se propaga no cenário internacional, apesar de desmistificado pela ciência, permanece na inércia. No Brasil existe um racismo que se construiu pela negação do próprio racismo, o que tornam as relações dos/as estudantes africanos/as com o contexto social e político brasileiro bastante desafiadoras, além do preconceito racial e machismo, sexismo, misoginia e xenofobia. Contudo, apesar dos desafios enfrentados pelos/as estudantes PALOP, o conteúdo da grade curricular dos cursos ofertados pela UNILAB, principalmente o curso de BHU tem contribuído para torná-los/as mais conscientes e preparados para responder, intelectualmente, as ofensas.

Para melhor entender como tem ocorrido essas relações, serão apresentadas aqui algumas das experiências dos/as primeiros/as estudantes que chegaram na cidade baiana de São Francisco do Conde, em 2014/2015. Foram entrevistados seis (6) estudantes cabo-verdianos/as, três mulheres e três homens.