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2 O DISCURSO POLÍTICO E O CAMPO DA CIÊNCIA POLÍTICA

2.4 CONTEXTO POLÍTICO DO GOVERNO DE DILMA ROUSSEFF

2.4.2 O processo de impeachment

O processo de impeachment começou oficialmente em 2 de dezembro de 2015, quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, acolheu um dos pedidos contra Dilma, protocolado pelos juristas Hélio Bicudo, Janaina Paschoal e Miguel Reale Júnior. A justificativa era que a presidenta teria realizado manobras conhecidas como pedaladas fiscais75, operações financeiras não previstas na legislação para maquiar as contas públicas, em desrespeito à lei orçamentária e à lei de improbidade administrativa, cometendo, assim, crime de responsabilidade. No dia seguinte, Cunha autorizou a criação da Comissão Parlamentar Especial, com 65 deputados proporcionalmente à bancada de todos os partidos representados, que elaborou um parecer favorável à admissibilidade da abertura do processo.

O rito do processo somente foi estabelecido em 16 de março de 2016, pelo Supremo Tribunal Federal. No dia seguinte, a Câmara elegeu, por votação aberta, os 65 integrantes da

74 As informações obtidas aqui advêm de sites noticiosos e de jornais como G1, UOL, Folha de São Paulo, Correios Braziliense, Estado de São Paulo etc. As fontes foram consultadas no período de 27 a 31 de março de 2017, por meio de sites de buscas. Deixo de informar a referência completa de tais fontes uma vez que as informações se encontram dispersas em diversos portais, tornando complexa a reunião delas para esta breve contextualização.

75 Ainda há muita controvérsia sobre se as manobras de pedaladas fiscais se configuram crime de responsabilidade.

Juristas como Celso Antônio Bandeira de Mello e Fabio Konder Comparato refutaram a tese de Bicudo, Paschoal e Reale Junior, além de entenderem que o pedido foi feito com base em uma suposta irregularidade fiscal, ocorrida em 2014. Como o primeiro mandato de Dilma Rousseff terminou em 31 de dezembro de 2014, não haveria cabimento jurídico pedir impeachment de um mandato, se o suposto crime de responsabilidade ocorreu no mandato anterior, já encerrado. Para mais sobre este assunto: MELLO, Celso A. B. de; COMPARATO, Fabio K. Parecer de Celso Antônio Bandeira de Mello e Fabio Konder Comparato acerca do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, 2016. Disponível em: <http://www.migalhas.com.br/arquivos/2015/10/art20151014-13.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2017.

comissão especial. Em 11 de abril, essa comissão, com 38 votos a favor e 27 contra, aprovou o parecer do relator pela a admissibilidade do processo de afastamento da presidenta. O parecer elaborado pelo deputado Jovair Arantes seguiu para apreciação pelo plenário da Casa. No dia 17 de abril, domingo, a Câmara dos Deputados, com 367 votos favoráveis e 137 contrários (além de 7 abstenções e 2 ausentes), autorizou o Senado Federal a instaurar processo de impeachment contra a presidenta. O Senado, por sua vez, em 12 de maio de 2016, autorizou a abertura do processo de impeachment, e determinou o afastamento de Dilma da Presidência da República pelo período de até 180 dias. Foram 55 votos favoráveis, 22 contrários e 2 ausências.

Com isso, o vice-presidente Temer passou a exercer as funções de presidente da República. No dia 31 de agosto de 2016, com 61 votos a favor e 20 contra, o Senado Federal aprovou o pedido de impeachment e afastou definitivamente a presidenta do cargo76.

Ainda que localizemos o início oficial do processo de impeachment em dezembro de 2015, suas raízes se encontram nas manifestações populares ocorridas em 2013. Conforme afirma Souza (2016), entre o intervalo das chamadas “jornadas de junho” e a deposição da presidenta, o governo federal foi alvo de sucessivos ataques que foram preparando o contexto ideal para que o processo encontrasse apoio junto à sociedade. Para o autor, há quatro elementos chaves na articulação desse contexto. O primeiro é a mudança de alvo dos protestos de junho de 2013. Liderado pelo Movimento Passe Livre, as manifestações tinham por objetivo frear o reajuste das passagens de ônibus em algumas cidades brasileiras. Os protestos já vinham acontecendo no primeiro trimestre daquele ano, mas se tornaram mais frequentes no final de maio e junho de 2013. Houve casos de vandalismo e violência policial; muitas pessoas ficaram feridas e forma detidas, sem o registro de flagrante, para explicações e averiguações – práticas comuns no período militar77.

A primeira resposta do governo federal foi desonerar as empresas de transporte do pagamento de alguns impostos, como uma tentativa de segurar o aumento da tarifa do transporte coletivo. Contudo, as manifestações continuaram e, aos poucos, foram mudando de foco, passando a incorporar pautas como o combate à corrupção e os gastos para a realização da Copa do Mundo de 2014. Souza (2016) explica que até 17 de junho de 2013, os protestos eram retratados pela mídia como atos de vandalismo e desordem. Porém, a partir desse dia, a cobertura jornalística passou a mostrar as manifestações como uma forma de expressão democrática dos anseios dos brasileiros. Pouco a pouco, ocorreu o que Souza chama de

76 Em uma segunda votação, os senadores decidiram por 54 votos conta 42 manter os direitos políticos da presidenta.

77 Idem nota 72.

“federalização” dos protestos: os grupos eram vistos como pacíficos, deu-se destaque a demonstrações de nacionalismo e patriotismo, como as entoações do hino nacional, o uso da bandeira e das cores nacionais. As críticas, antes direcionadas à administração municipal – e eventualmente estadual – e aos valores das tarifas do transporte coletivo municipal, agora se voltavam ao governo federal. Conforme sintetiza o autor:

Era o sucesso absoluto da campanha midiática pela federalização das manifestações e pela personalização do descontentamento na pessoa da presidente da República:

ocorrera queda de 35 pontos na popularidade de Dilma se a comparação se der o com mês de março de 2013, quando a presidente gozava de sua maior taxa de aprovação popular. A rejeição também aumentara de inexpressivos 7% para 25%. Sucesso total da violência simbólica. Esse foi o efetivo começo do golpe (SOUZA, 2016, p. 95).

O segundo elemento está relacionado com o casamento entre a mídia e a classe conservadora brasileira, com o objetivo de deslegitimar o governo eleito. Segundo o autor, a imprensa brasileira assumiu o status de porta-voz da classe conservadora, dando visibilidade para os seus descontentamentos em relação ao governo federal e convertendo a classe conservadora, até então avessa a manifestações, em herói revolucionário nacional:

A nova estética foi extremamente importante. A camisa da seleção brasileira e a bandeira nacional se tornam os símbolos que ninguém mais conseguiu retirar ou sequer disputar com essa fração de classe. [...] Esses símbolos conseguiram passar a impressão para boa parte do público de que essa fração privilegiada, branca e bem-vestida representava o “interesse nacional” em uma mudança para o melhor para todos (SOUZA, 2016, p. 101).

Além disso, a classe conservadora passa a transparecer certo preconceito em relação aos indivíduos da classe pobre que ascendem à classe média. As políticas de inclusão social e transferência de renda permitiram aos mais pobres acesso a oportunidades de consumo nunca antes experimentadas. A classe média, então, passa a ter medo que os mais pobres tenham acesso aos seus privilégios e ameacem seus empregos. Daí se revela uma espécie de racismo de classe, até então velado na sociedade (SOUZA, 2016). Para Avritzer (2016), a classe média foi atingida por uma adequação de status: “ao mesmo tempo que se vê pressionada pelo aumento dos preços no setor de serviços, está cada vez mais distante da classe alta, que manteve seu padrão de consumo” (p. 21). Com o acesso às oportunidades e à inclusão, a nova classe média, formada pela ascensão da classe mais pobre, aufere o capital cultural da classe média conservadora.

Com a expansão da educação superior para os setores populares, estaria ocorrendo uma “inflação do diploma” universitário, uma vez que ele não “comprava” mais o que

prometia: o acesso a melhores empregos, com maior qualificação, que não são tão numerosos quanto os de baixa qualificação. [...] estaríamos experimentando uma frustração típica do público mais jovem, que não recebe mais o que as gerações anteriores puderam desfrutar (SOUZA, 2016, p. 99).

O resultado, afirma Avritzer (2016), é que a proposta de desenvolvimento da democracia e de aumento da inclusão social encontra seu limite político na incapacidade de ampliar a participação popular, o que culmina na classe média tradicional contra o governo.

O terceiro elemento, aponta Souza (2016), é a cooptação da elite política. Tão logo a apuração do segundo turno da eleição presidencial de 2014 foi encerrada, o candidato Aécio Neves, descontente com a derrota, e o coordenador jurídico da campanha, Carlos Sampaio entraram, quatro dias após a divulgação do resultado, em 30 de outubro de 2014, com um pedido de auditoria no Tribunal Superior Eleitoral para verificar os sistemas de votação e de totalização dos votos. Sem sucesso, o legislativo é articulado para conferir a aura de legalidade necessária ao processo de impeachment, em troca de favores, financiamento de campanha e acobertamento de escândalos de corrupção (SOUZA, 2016).

O quarto elemento é a cooptação do complexo jurídico-policial do Estado. Conforme o autor, houve uma série de ilegalidades que permitiram à mídia expor o governo a uma espécie de linchamento público: vazamentos de ilegais e seletivos das delações premiadas, simplificação das questões complexas, eliminação do contraditório e do direito de defesa, pré-julgamento, dramatização do rito processual. Nas palavras do autor, “nos tempos recentes não tivemos apenas a judicialização da política, mas muito pior, a politização da justiça” (SOUZA, 2016, 118).

Em suma, tanto para Souza (2016) quanto para Avritzer (2016) o processo de impeachment nunca teve a ver com as pedaladas fiscais praticadas por Dilma Rousseff. O golpe, como consideram a retirada da presidenta do poder, foi todo orquestrado pela elite financeira, com o apoio cooptado das elites midiática e política e a máquina jurídico-policial do Estado, para retornar a um status quo no qual os interesses da elite – sobretudo o lucro – se sobrepõem aos da população.

No capítulo a seguir, trabalharemos os conceitos acerca do método utilizado em nossa pesquisa, bem como os procedimentos metodológicos de construção do objeto e das etapas de investigação.