3 A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL PARA FINS DE CONCESSÃO DE BPC –
3.3 O BPC LOAS para pessoas com autismo
3.3.2 Processo judicial
A concessão do benefício de prestação continuada também poderá advir de uma decisão judicial, na hipótese de improcedência ou procedência em parte do pedido feito em âmbito administrativo.
Exige-se o prévio requerimento administrativo e posterior indeferimento ou a falta de resposta em tempo hábil para que haja interesse de agir do pleiteante ao benefício, que só então poderá ingressar com ação previdenciária. Não haverá necessidade de esgotamento das instâncias administrativas. O prévio requerimento só não será exigido nas ações de revisão, restabelecimento ou manutenção de benefício ou em causas em que seja notório o entendimento contrário da autarquia previdenciária, salvo se for necessária análise de matéria de fato86.
A possibilidade de o Judiciário rever decisões administrativas se baseia
83
BARROS, Allan Luiz Oliveira. LINHAS GERAIS SOBRE O PROCESSO ADMINISTRATIVO
PREVIDENCIÁRIO, p.12-13 . Disponível em: < www.agu.gov.br/page/download/index/id/2713856 >.
Acesso em: 26 out.
84
Ibid., p.13. Acesso em: 26 out. 16.
85
IBRAHIM, Fábio Zambitte. Curso de direito previdenciário. 20. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2015,p. 508.
86
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 631.240 – MG. Reclamante: Instituto Nacional do Seguro Social. Procurador: Procurador- Geral Federal. Reclamado: Marlene de Araújo Santos. Advogado: Fabrício José de Avelar. Relator: Min. Roberto Barroso. Brasília, DF, 3 set. 2014.
Disponível em:
http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?numero=631240&classe=RE&orige o=AP&recurso=0&tipoJulgamento=M. Acesso em: 29 out. 2016.
na adoção pelo País do sistema de jurisdição única, também conhecido como sistema inglês ou sistema judiciário. Esse sistema preconiza que todos os litígios podem ser resolvidos judicialmente, não podendo haver vedação para que a justiça comum conheça e julgue os atos da Administração87.
A escolha pelo sistema único de jurisdição está expressa na Constituição, em seu no art. 5º, XXXV, que diz: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”, ou seja, o Judiciário poderá se manifestar sobre qualquer assunto que gere, efetivamente ou potencialmente, algum dano à alguém.
O indeferimento de benefício de prestação continuada, à medida que impede que indivíduos idosos ou deficientes tenham condições de sustento próprio, é uma potencial lesão a direito que merece apreciação judicial.
3.3.2.1 Competência para julgamento
O ajuizamento de ações para concessão de benefício assistencial deve se dar na Justiça Federal, em virtude de serem propostas contra o INSS, que é autarquia federal.
É o que está expresso no art. 109 da Constituição, quando aduz:
Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho;
No entanto, a ação previdenciária, nomenclatura que engloba demandas de benefícios previdenciários e assistenciais88, também poderá ser proposta no foro do domicílio dos beneficiários, se não houver vara da justiça federal na comarca em que os mesmos residem, segundo o § 3º do art. 109, CF:
§ 3º Serão processadas e julgadas na justiça estadual, no foro do domicílio dos segurados ou beneficiários, as causas em que forem parte instituição de previdência social e segurado, sempre que a comarca não seja sede de vara do juízo federal, e, se verificada essa condição, a lei poderá permitir que outras causas sejam também processadas e julgadas pela justiça estadual.
87
MARINELA, Fernanda. Direito Administrativo. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 52.
88
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Conflito de competência nº 37717 – SP (2002/0147497-5). Relator: Min. Hamilton Carvalhido. Brasília, DF, 8 out. 2003. Disponível em: <http://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/7410715/conflito-de-competencia-cc-37717-sp-2002-
Havendo juízo federal em seu domicílio, poderá o beneficiário que morar no interior do seu estado, escolher ainda entre o juízo de sua comarca e o juízo da capital, segundo súmula 689 do STF: “O segurado pode ajuizar ação contra a instituição previdenciária perante o juízo federal do seu domicílio ou nas varas federais da Capital do Estado-Membro”89.
Deve ser observado, entretanto, que havendo vara de juizado especial federal, a sua competência será absoluta, segundo o teor do art. 3º, § 3º, Lei 10.259/2001: “No foro onde estiver instalada Vara do Juizado Especial, a sua competência é absoluta”90.
Assim, as demandas previdenciárias cujo valor da causa não ultrapasse 60 (sessenta) salários mínimos, que atualmente representa o montante de R$ 52.800,00 (cinquenta e dois mil e oitocentos reais), nos locais que sejam sede de juizado especial federal, deverão obrigatoriamente ser propostas perante esse juízo. As ações cujo objeto seja o benefício de prestação continuada, em regra, tramitam nos juizados especiais federais, uma vez que o valor da causa dificilmente ultrapassará 60 (sessenta) salários mínimos, dado que o benefício concede o valor de 1 (um) salário mínimo por mês91.
Os juizados federais se caracterizam como uma maneira mais prática e eficaz de prestação judicial, privilegiando a informalidade, celeridade e economicidade das demandas sob sua competência. Dessa forma, haverá preferência da forma oral sobre a escrita, a solução das lides se dará da forma mais célere possível92 e não haverá cobrança de custas judiciais na primeira instância.
A importância desses juízos, para a concessão de benefício de prestação continuada, também está presente na possibilidade de produção de prova pericial, por meio de laudo escrito confeccionado por perito indicado pelo juiz. Para a concessão desse benefício às pessoas com deficiência, o laudo pericial se constitui
89
CHIMENTI, Ricardo Cunha. Teoria e Prática dos Juizados Especiais Cíveis Estaduais e
Federais. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 35-36.
90
Ibid.,p. 33.
91
JORDÃO, Tatiana Sada. Concessão do Benefício de Prestação Continuada à Criança Portadora de Retardo Mental Severo Congênito e Quadro Psicótico Compatível com Autismo Infantil. Revista
Síntese Direito Previdenciário, São Paulo, v. 10, n. 46, p.17-27, fev. 2012, p. 23.. Disponível em:
<http://bdjur.tjdft.jus.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/11721/Concessão do benefício de prestação continuada à criança portadora de retardo mental severo congênito e quadro psicótico compatível com autismo infantil.pdf?sequence=1>. Acesso em: 30 out. 2016.
92
em elemento de prova imprescindível para a elucidação do caso93, dado que a aferição da existência de deficiência é um dos requisitos legais para a concessão de BPC – LOAS.
93
JORDÃO, Tatiana Sada. Concessão do Benefício de Prestação Continuada à Criança Portadora de Retardo Mental Severo Congênito e Quadro Psicótico Compatível com Autismo Infantil. Revista
Síntese Direito Previdenciário, São Paulo, v. 10, n. 46, p.17-27, fev. 2012, p. 24.. Disponível em:
<http://bdjur.tjdft.jus.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/11721/Concessão do benefício de prestação continuada à criança portadora de retardo mental severo congênito e quadro psicótico compatível com autismo infantil.pdf?sequence=1>. Acesso em: 30 out. 2016.
4 A CONSTATAÇÃO DO REQUISITO DA DEFICIÊNCIA NO BENEFÍCIO DE