UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ DEPARTAMENTO DE DIREITO PRIVADO PROGRAMA DE GRADUAÇÃO EM DIREITO
SARA DIAS PINHEIRO
O BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA PARA PESSOAS COM AUTISMO:
EM QUE GRAU A DEFICIÊNCIA PERMITE A CONCESSÃO DO BENEFÍCIO E
AFETA A VIDA EM SOCIEDADE
FORTALEZA
SARA DIAS PINHEIRO
O BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA PARA PESSOAS COM AUTISMO:
EM QUE GRAU A DEFICIÊNCIA PERMITE A CONCESSÃO DO BENEFÍCIO E
AFETA A VIDA EM SOCIEDADE
Monografia apresentada ao Programa de Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharelado em Direito.
Orientadora: Profa. Dra. Theresa Rachel Couto Correia.
SARA DIAS PINHEIRO
O BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA PARA PESSOAS COM AUTISMO:
EM QUE GRAU A DEFICIÊNCIA PERMITE A CONCESSÃO DO BENEFÍCIO E
AFETA A VIDA EM SOCIEDADE
Monografia apresentada ao Programa de Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharelado em Direito.
Aprovada em: ___/___/______.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________ Profa. Dra. Theresa Rachel Couto Correia.
(Orientadora)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Profa. Dra. Beatriz Rêgo Xavier
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Mariana Urano de Carvalho Caldas
A Deus.
AGRADECIMENTOS
À Profa. Dra. Theresa Rachel Couto Correia, pela valiosa orientação e ensinamentos como professora de Direito Previdenciário.
Aos participantes da banca examinadora, Profa. Dra. Beatriz Rêgo Xavier e mestranda Mariana Urano de Carvalho Caldas, pelas colaborações e sugestões dadas durante todo esse semestre, o que possibilitou em grande medida a realização deste trabalho.
Ao Dr. João Paulo Aguiar Sampaio, Dr. Rodrigo Schuler Honório, Dra. Daniele Cristina Santos Spindola, Irene Jucá Paiva Aguiar, Carolina Costa Castelo Branco, Liduina Gisele Timbó Aragão, Dra. Carolina Botelho, Ivana Vieira dos Santos, Adília Bastos e Eugênia Coelho, pelo tempo e atenção concedidos nas entrevistas.
Aos servidores da 13ª Vara Federal, por terem me proporcionado um excelente ambiente de trabalho e tanto companheirismo, o que nunca esquecerei, e por ajudarem na realização desta Monografia, disponibilizando contatos e dados importantes para o desenvolvimento da mesma.
Aos meus amigos da época do colégio e da graduação, dos grupos “Miguxos”, “Girls” e “Catrevagens”, que tanto me apoiaram na minha vida pessoal e estudantil e que são parte relevante na minha vida.
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso trata da concessão de benefício de prestação continuada (BPC-LOAS) às pessoas com autismo. Objetivou-se identificar o grau de deficiência que dificulta a plena e efetiva participação na sociedade e que determina o deferimento do benefício assistencial, além de analisar o sistema da Seguridade Social, de expor o autismo sob a perspectiva médica e de apontar a forma de avaliação do grau de incapacidade que influenciam as decisões judiciais. A metodologia empregada foi a análise bibliográfica de autores de Direito Previdenciário, de artigos científicos, trabalhos de conclusão de cursos e dissertações; a citação de normas e leis, como a Lei Berenice Piana (Lei 12.764/12) e a Lei Orgânica da Assistência Social (Lei 8.742/93), além de uma investigação empírica de dados, por meio de depoimentos de profissionais peritos, tanto na área médica como na área social e de estudo de decisões judicias. Ressaltou-se o modelo biopsicossocial empregado na avaliação dos requisitos do benefício assistencial, notadamente na identificação do critério da deficiência, que é o objeto deste estudo.
Palavras-chave: Benefício de Prestação Continuada. Assistência Social. Autismo.
ABSTRACT
The present work of conclusion of course deals with the concession of benefit of continuous benefit (BPC-LOAS) to people with autism. The objective of this study
was to identify the degree of disability that impedes the full and effective participation in society, which determines the deferral of care benefits, as well as to analyze the Social Security system, to expose autism from a medical perspective and to indicate the form of evaluation of the degree of incapacity that influence judicial decisions. The methodology used was the bibliographical analysis of authors of Social Security Law, of scientific articles, works of conclusion of courses and dissertations; the citation of norms and laws, as the Law Berenice Piana (Law 12,764 / 12) and the Organic Law of Social Assistance (Law 8,742 / 93), as well as an empirical investigation of data, through testimonies of expert professionals, both in the medical field as well as in the social area and study of judicial decisions. The biopsychosocial model used in the assessment of the requirements of the care benefit was highlighted, especially in the identification of the disability criterion, which is the object of this study.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 12
2 SEGURIDADE SOCIAL: ASPECTOS GERAIS... 14
2.1 Proteção social: do assistencialismo à Seguridade Social... 14
2.2 Estrutura da Seguridade Social: visão geral da ordem social na Constituição de 1988... 17
2.2.1 Princípios informativos... 19
2.3 Assistência Social: fundamento constitucional e regulamentação legislativa... 22
2.3.1 Benefício de prestação continuada: principal forma de transferência de renda ao idoso e ao deficiente hipossuficientes... 24
3 A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL PARA FINS DE CONCESSÃO DE BPC – LOAS... 29
3.1 Evolução histórica do tratamento da pessoa com deficiência mental... 29
3.2 O autismo... 31
3.2.1 Definição... 31
3.2.2 Diagnóstico, formas de manifestação e de tratamento... 32
3.2.3 Proteção legal às pessoas com autismo... 34
3.2.3.1 Lei Berenice Piana... 35
3.3 O BPC- LOAS para pessoas com autismo... 37
3.3.1 Procedimento administrativo... 37
3.3.1.1 Fases do processo administrativo previdenciário... 38
3.3.2 Processo judicial... 40
3.3.2.1 Competência para julgamento... 41
4 A CONSTATAÇÃO DO REQUISITO DA DEFICIÊNCIA NO BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA... 44
4.1 Do critério médico ao critério biopsicossocial... 44
4.2 A perícia médica... 47
4.2.1 A perícia médica do INSS... 47
4.2.3 Perícia médica da Defensoria Pública da União... 49
4.2.4 Perícia médica da Justiça Federal... 50
4.3 A perícia social... 52
4.3.1 Perícia social do INSS... 53
4.3.3 Perícia Social da Defensoria Pública da União... 54
4.3.4 Perícia social na Justiça Federal... 55
4.3.5 Pontos em comum entre as perícias sociais... 56
4.4 A influência das pericias nas decisões judiciais... 57
4.4.1 Demandas com procedência... 57
4.4.1.1 Processo 051229995.2015.4.05.8100 (28º JEF)... 57
4.4.1.2 Processo 0521505-07.2013.4.05.8100 (21º JEF)... 58
4.4.1.3 Processo 051397226.2015.4.05.8100 (13ª JEF)... 59
4.4.2 Demandas com improcedência... 59
4.4.2.1 Processo 051970655.2015.4.05.8100 (13º JEF)... 59
4.4.2.2 Processo 051024122.2015.4.05.8100 (26º JEF)... 60
4.4.2.3 Processo 052168989.2015.4.05.8100 (14º JEF)... 61
4.4.3 Considerações sobre as decisões judiciais ... 62
5 CONCLUSÃO... 64
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho aborda a concessão de benefício de prestação continuada (BPC-LOAS) às pessoas com autismo. O objetivo geral é identificar o grau de deficiência que dificulta a plena e efetiva participação na sociedade e que determina o deferimento do benefício assistencial. Os objetivos específicos são: estudar o sistema da Seguridade Social e o subsistema da Assistência Social, suas estruturas, formas de custeamento, destinação de seus recursos e benefícios existentes; expor o autismo sob a perspectiva médica, suas formas de manifestação e tratamento indicado e apontar a forma de aferição do grau de incapacidade suficiente para seu deferimento, bem como a influência dessa avaliação nas decisões judiciais.
O trabalho de conclusão de curso foi dividido em três capítulos. O primeiro trata do sistema Seguridade Social bem como do subsistema Assistência Social, destacando-se a concessão de benefício de prestação continuada como espécie de benefício assistencial. O segundo capítulo aborda o autismo como condição médica e os direitos aplicáveis às pessoas com essa comorbidade, notadamente o de receber BPC-LOAS, quando preenchidos os critérios legais. O terceiro e último capítulo analisa a forma de constatação do requisito da deficiência pelos profissionais envolvidos com o processo de concessão de BPC-LOAS, tanto administrativamente como judicialmente, como também a influência dessa maneira de avaliação sobre as decisões dos órgãos judiciais.
Na pesquisa foram utilizados a análise bibliográfica de autores de Direito Previdenciário, bem como de artigos científicos, trabalhos de conclusão de cursos e dissertações ligados ao benefício assistencial estudado e sua concessão às pessoas com autismo. Também serão citadas as leis e normas pertinentes ao tema, notadamente a Lei Berenice Piana (Lei 12.764/12) e a Lei Orgânica da Assistência Social (Lei 8.742/93). Foi feito ainda investigação empírica de casos concretos de requerimento de BPC-LOAS, bem como das avaliações realizadas pelos profissionais peritos de diferentes órgãos, por meio de entrevistas e análise de decisões judiciais.
a concessão do instituto.
O conceito moderno de deficiência, consagrado na Convenção de Nova York sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, reflete a mudança na forma como são vistos estes indivíduos, ao estabelecer que só haverá deficiência enquanto existirem barreiras sociais à plena participação na sociedade.
A definição atual de pessoa com deficiência foi estabelecida pela Convenção de Nova York, que a conceitua, em seu art. 1º, como sendo o indivíduo que tem “impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas”. A mesma definição foi incorporada à Lei 8.742/93, que regulamenta a concessão de BOC-LOAS. A norma de direito internacional também definiu a terminologia a ser empregada na referência aos indivíduos que ela visa proteger como “pessoas com deficiência”, que será a expressão também adotada neste trabalho.
A legislação brasileira não só incorporou o conceito de deficiência atual como previu novos mecanismos para promover os direitos e liberdades das pessoas deficientes, seja física ou mental. Exemplo disso é o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que busca desvincular os conceitos de deficiência e de incapacidade, ao retirar os deficientes do rol de incapazes absolutos ou relativos dos artigos 3º e 4º do Código Civil.
No entanto, a regulamentação do benefício de prestação continuada ainda constitui um dos principais mecanismos de melhoria na qualidade de vida das pessoas com deficiência, ao garantir uma renda mínima aqueles indivíduos em situação de risco, o que é relevante em uma sociedade que supervaloriza a independência financeira e social dos seus integrantes.
2 SEGURIDADE SOCIAL
O objetivo deste capítulo é apresentar a estrutura da Seguridade Social, dando destaque para a Assistência Social, uma das formas de cobertura social estabelecidas pelo texto constitucional. O capítulo será direcionado ao estudo da prestação assistencial dada às pessoas deficientes, principalmente por meio do Benefício de Prestação Continuada, que é um dos principais mecanismos de efetivação da Assistência
2.1 Proteção social: do assistencialismo à Seguridade Social
Doenças graves, mal formações congênitas e acontecimentos nefastos, que dão causa a deficiências físicas ou mentais sempre existiram na história da humanidade. Esse fato também é verdade para qualquer época da história do Brasil1.
Assim como em outros países, as informações sobre pessoas com deficiência estavam inseridas no mesmo contexto dos doentes e pobres em geral. Especificamente, no Brasil, o indivíduo com deficiência era classificado dentro do conceito amplo de miserável, chegando a ser considerado o mais pobre dos pobres2.
Até meados do século XIX, a população prejudicada por alguma deficiência não recebia nenhum tipo de assistência governamental de maneira significativa, ficando quase exclusivamente sob responsabilidade de sua família. As pessoas então apelidados depreciativamente de “aleijadas”, zambras”, “cambraias”, “loucas” ou “bobas”, eram consideradas problema de seus próprios familiares e não do Estado e nem da sociedade3.
A assistência existente fora do contexto familiar ficava a cargo de grupos filantrópicos e religiosos, que eram influenciados pelo ideal de benemerência em relação ao próximo, o que foi difundido pela tradição judaico-cristã como forma moral de conduta4. As iniciativas de assistência a enfermos, doentes crônicos e enjeitados já eram levadas a efeito desde a chegada dos jesuítas, sendo encarregados de
1
SILVA, Otto Marques da. A Epopéia Ignorada: A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje. São Paulo: Cedas, 1987, p. 198.
2
Ibid., p.198.
3
Ibid., p. 207.
4
AMADO, Frederico; BORSIO, Marcelo Fernando (Org.). Benefício Assistencial ao Idoso, à
tratar os indígenas nativos, além dos europeus que aqui desembarcavam. Posteriormente, em meados do século XVI, foram implantadas as Casas de Misericórdia, mantidas com recursos da comunidade para tratar os que não tinham condições de pagar por serviços médicos. Eram nessas instituições que se mantinham as mal afamadas Rodas dos Expostos, em que se deixavam recém-nascidos com deformações ou de qualquer forma indesejados pela família, para serem criados em orfanatos e conventos5.
Com a chegada de tendências europeias, por meio do atracar de navios de passageiros e da distribuição de revistas e livros, provocou-se alguma modernização na área de proteção social. Nesse período foram inaugurados três instituições no governo de D. Pedro II, por influência direta deste monarca: o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, Instituto dos Surdos-Mudos e o Asilo dos Inválidos da Pátria, ainda subsistindo os dois primeiros sob os nomes de Instituto Benjamin Constant e Instituto Nacional de Educação dos Surdos6, dando uma ideia da sua relevância histórica para o atendimento dos portadores de cegueira e surdez. .
Após a Independência, muito pouco mudou quanto à percepção da sociedade sobre as pessoas com deficiência, sendo a atenção que lhes era dispensada apenas de caráter assistencialista ou caritativa7. Nas primeiras décadas da República, deu-se apenas continuidade à manutenção das poucas instituições existentes no período anterior, ainda que tivessem recebidos novas denominações que melhor se adequassem aos propósitos republicanos.
Apenas na década de 1930, o Estado brasileiro passou a compreender a importância de seu papel na proteção social, produzindo legislação com vista a subsidiar a assistência social. Dessa maneira, a Constituição de 1934 atribuiu aos entes federados a competência para cuidar da saúde e da assistência, prevendo uma série de comandos normativos de caráter assistencial, como dever de amparo à maternidade e à infância, de assegurar amparo aos desvalidos e estimular a educação8.
5
SILVA, Otto Marques da. A Epopéia Ignorada: A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje. São Paulo: Cedas, 1987, p.198-200.
6
Ibid., p.207. 7
TOMAZ, Rodrigo Victor Viana et al. Políticas públicas de saúde para deficientes intelectuais no Brasil: uma revisão integrativa. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p.155-172, jan. 2016, p. 167. Disponível em: <http://www.redalyc.org/pdf/630/63043595017.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2016.
8
AMADO, Frederico; BORSIO, Marcelo Fernando (Org.). Benefício Assistencial ao Idoso, à
Em 11 de dezembro de 1974, foi editada a Lei nº 6.179, durante o regime militar, instituindo o benefício de renda mensal vitalícia, destinados ao amparo de maiores de setenta anos e inválidos, desde que filiados à Previdência. Esse benefício apresentava uma natureza tanto previdenciária como assistencialista, ao não exigir comprovação de contribuições, mas requerendo vinculo ao sistema previdenciário9. Muitos preceitos desse instituto foram utilizados posteriormente quando da criação do benefício de prestação continuada.
A assistência social continuou a ser regulamentada de maneira descentralizada, por meio de leis esparsas, até a promulgação da Constituição Federal de 1988, que inaugurou a atual estrutura da Seguridade Social, composta pelas áreas da Saúde, Previdência e Assistência. A partir do texto constitucional de 1988, os auxílios eventuais de natureza filantrópica ou previdenciária foram considerados dever jurídico do Estado e direito subjetivo dos cidadãos10. A Constituição, em seu art. 203, V, também previu a concessão do benefício de prestação continuada ao idoso e ao deficiente, que não tenham condições de se manter ou serem sustentados pela família, sendo esta a principal forma de transferência de renda do sistema da Assistência.
Após o estabelecimento da rede de proteção social pela Constituição de 1988, as mudanças legislativas que se seguiram focaram na melhor definição dos critérios identificadores de contingência social, em sintonia com a legislação supranacional existente. Como exemplo de evolução das normas voltadas à Assistência, a Lei nº 8742/93, conhecida como a Lei Orgânica da Assistência Social, foi alterada quanto ao conceito de deficiência com a assimilação interna da Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com deficiência e seu Protocolo Facultativo, que foi aprovada com status de emenda constitucional por meio do Decreto Legislativo nº 186/2008. Segundo o preceituado na Convenção, a deficiência é um conceito em evolução, que depende da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras que impedem a plena e efetiva participação das mesmas na sociedade11.
9
AMADO, Frederico; BORSIO, Marcelo Fernando (Org.). Benefício Assistencial ao Idoso, à
Pessoa com Deficiência e ao Trabalhador Portuário Avulso. Salvador: Juspodivm, 2016,p.49.
10
Ibid., p.50. 11
MARTINS, Flademir Jerônimo Belinati. A CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E SEUS REFLEXOS NO BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA. Sistema
A deficiência, notadamente a que seja merecedora de atenção da Assistência, passou a considerar o contexto social do indivíduo. Passou-se a desvincular o conceito de deficiência com o de incapacidade, estimulando-se os potenciais e as capacidades de cada indivíduo12. Essa é a proposta do Estatuto da Pessoa com Deficiência, instituído pela Lei nº 13.146/2015, que, entre outras medidas, retirou os deficientes do rol de incapazes dos artigos 3º e 4º do Código Civil Brasileiro.
2.2 Estrutura da Seguridade Social: visão geral da ordem social na
Constituição de 1988
O Direito da Seguridade Social compreende um conjunto de princípios, de regras e de instituições que estabelecem um sistema de proteção social contra contingências sociais, tais como, idade avançada, invalidez, morte, enfermidade, maternidade, acidente do trabalho e desemprego. Essas necessidades são sociais, uma vez que, se não atendidas, irão repercutir sobre toda a sociedade13.
A Seguridade Social nada mais é do que um meio para atingir a justiça e o bem estar sociais, que representam valores supremos da sociedade14. O bem-estar social presume a ideia de cooperação e de solidariedade, traduzindo-se na erradicação, segundo o art. 3º, III, CF, da pobreza, da marginalização e das desigualdades sociais e regionais. A justiça social exige a distribuição da riqueza nacional, o que deve ser uma diretriz dos governantes, em busca do desenvolvimento nacional15.
A Constituição, em seu art. 194, caput, refere-se à Seguridade Social como: “um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social.” Esse sistema consagra a proteção social contra os riscos sociais,
<http://eventos.uenp.edu.br/siacrid/trabalhos-antigos/sistema-constitucional-de-garantia-de-direitos-e-bioetica.pdf#page=6>. Acesso em: 04 mai. 2016.
12
Ibid., p.19. Acesso em: 04 mai. 2016.
13
MARTINS, Sérgio Pinto. Direito da Seguridade Social. 36. ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p 58-59.
14
BALERA Wagner; MUSSI, Cristiane Miziara. Direito previdenciário. 10 ed. São Paulo : Método, 2014 p. 35.
15
por meio de ações em diversas áreas16.
A Seguridade é gênero que se divide em três espécies: Saúde, Previdência e Assistência, havendo legislação própria para cada segmento. Como exemplo, a Lei 8.080/1990 dispõe sobre a promoção da saúde, a Lei nº 8213/1991 trata dos benefícios da Previdência e a Lei nº 8.742/1993 aduz sobre a organização da Assistência, estabelecendo-se diretrizes específicas em cada âmbito. Cada área da Seguridade Social, ademais, está vinculada a uma estrutura administrativa diversa: a Saúde está a cargo do Ministério da Saúde, enquanto a Previdência é regulada pelo Ministério da Previdência Social e a Assistência está sob a égide do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome17.
A Saúde é o segmento mais amplo da Seguridade, sendo, segundo o art. 196 da Constituição um direito de todos e dever do Estado, mediante acesso universal e igualitário às ações e aos serviços oferecidos. Por meio da garantia constitucional de universalização do acesso à Saúde, todos os indivíduos, independentemente de condição financeira, tem o mesmo direito às ações desse setor18. Assim, é dever do Poder Público prestar Saúde, em todas as suas esferas, a todos os brasileiros e estrangeiros, mesmo que sejam não residentes, havendo solidariedade entre União, Estados e Municípios19.
A Assistência é um setor restrito àqueles que efetivamente dela necessitarem, conforme disposição do art. 203 da Constituição, tendo, por sua vez, um âmbito de atuação mais limitado que a Saúde. A Assistência funciona como um complemento à Previdência, uma vez que esta não é aplicável a todos os casos, contribuindo para a efetivação do princípio da dignidade humana20.
A Previdência é o mais limitado dos segmentos da Seguridade Social, oferecendo cobertura protetiva apenas para os filiados de algum sistema previdenciário. Nesse setor, haverá aqueles que devem se filiar obrigatoriamente, como é o caso do empregado, do empregado doméstico, do trabalhador avulso, do contribuinte individual e do segurado especial, e aqueles que terão filiação
16
BALERA, Wagner; MUSSI, Cristiane Miziara, MUSSI, Cristiane Miziara. Direito previdenciário. 10 ed. São Paulo : Método, 2014, p. 23.
17
Ibid., p. 36.
18
LEITÃO, André Studart; MEIRINHO, Augusto Grieco Sant'anna. Manual de Direito
Previdenciário. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, p.45, p. 102.
19
AMADO, Frederico. Direito Previdenciário. 5. ed. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 59.
20
facultativa, que são os demais segurados21.
Como se pode depreender do exposto, no sistema securitário constitucional, existem dois subsistemas, o contributivo, que é integrado pela Previdência, e o não contributivo, formado pela Saúde e pela Assistência22. A Previdência será o único setor cuja cobertura está condicionada ao pagamento de contribuições diretas pelo segurado, enquanto as ações nas áreas de Saúde e Assistência independem de contrapartida por parte dos beneficiários23.
Os três subsistemas da Seguridade são custeada de forma direta por meio das contribuições sociais e de forma indireta pelo orçamento dos entes federativos, que destinam parte de sua arrecadação com impostos para o setor. O custeio da Seguridade é regulado pela Lei nº 8.212/1991, que instituiu seu plano de custeio.
2.2.1 Princípios Informativos
A maioria dos princípios da Seguridade se encontram no art. 194 e art. 195 da Constituição, sendo considerados os objetivos a serem alcançados pela cobertura social. Podem ser aplicados tanto no subsistema contributivo (previdência) como no subsistema não contributivo (saúde e assistência), a depender da situação em análise24.
Os princípios informativos da Seguridade são: universalidade de cobertura e de atendimento, uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais, seletividade e distributividade, irredutibilidade, equidade de participação no custeio, diversidade da base de financiamento, gestão quadripartite, solidariedade, precedência da fonte de custeio e orçamento diferenciado.
A universalidade é definida pela necessidade de abranger o máximo de situações de proteção social possíveis. A universalidade de atendimento se refere ao objeto de proteção, devendo cobrir as contingências sociais que gerem o estado de necessidade, enquanto a universalidade de cobertura se relaciona aos sujeitos
21
BALERA, Wagner; MUSSI, Cristiane Miziara, MUSSI, Cristiane Miziara. Direito previdenciário. 10 ed. São Paulo : Método, 2014, p. 28.
22
AMADO, Frederico. Direito Previdenciário. 5. ed. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 59.p. 21.
23
LEITÃO, André Studart; MEIRINHO, Augusto Grieco Sant'anna. Manual de Direito Previdenciário. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, p.49.
24
protegidos, que tenham sua capacidade de auferir renda comprometida25.
A uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais é corolário do princípio da isonomia entre trabalhadores, não devendo haver tratamento desigual com base no local em que as populações exercem suas atividades. A isonomia se traduz ainda na necessidade de uniformidade quanto às espécies de benefícios e serviços concedidos e de equivalência quanto à efetuação dos cálculos26. Porém, não há vedação a um tratamento diferenciado baseado nas peculiaridades de determinados segurados, como é o caso dos rurícolas que contribuem com base na produção e não por desconto direto em folha de salário27.
Pelo princípio da seletividade, são eleitos os riscos e contingências sociais que poderão ser cobertos pela Seguridade, quais sejam, doença, invalidez, morte, idade avançada, proteção à maternidade, proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário, proteção aos segurados de baixa renda e contra o risco de acidente de trabalho. Já conforme o princípio da distributividade, são estabelecidos critérios para a concessão da proteção social, de forma a atingir os beneficiários realmente necessitados. Esses princípios atuam como limitadores ao princípio da universalidade, ao selecionar os segurados que receberão os benefícios28.
Segundo o princípio da irredutibilidade, não poderá haver redução nominal no valor dos benefícios da Seguridade, que não podem ter seu valor reduzido nem em caso de crises financeiras. Os benefícios previdenciários devem ainda ser reajustados por índice determinado por lei, para que conservem seu valor real. Assim, os benefícios em geral da Seguridade são protegidos pela chamada irredutibilidade nominal e os benefícios da Previdência, pelas irredutibilidades nominal e material 29.
A participação no custeio da Seguridade está ligado aos conceitos de isonomia e de capacidade contributiva, sendo compreendidos como forma de justiça e igualdade na forma do custeio. Na prática implica na cobrança desigual das
25
TSUTIYA, Augusto Massayuki. Curso de Direito da Seguridade Social. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p.73-74.
26
LEITÃO, André Studart; MEIRINHO, Augusto Grieco Sant'anna, Manual de Direito
Previdenciário. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, p.56.
27
AMADO, Frederico, Direito Previdenciário. 5. ed. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 27.
28
TSUTIYA, Augusto Massayuki. Op. cit., p. 74-75.
29
alíquotas de contribuintes em situações diversas, o que permite a tributação maior de empresas ou empregadores em comparação ao que é cobrado do empregado, devido à maior capacidade contributiva do primeiro grupo30.
A diversidade da base de financiamento pressupõe a diferença das formas de financiamento da seguridade, para que o comprometimento da arrecadação em determinado setor não prejudique todo o sistema da Seguridade31. Há uma dupla dimensão no princípio da diversidade: uma subjetiva, em que vários sujeitos contribuem para a Seguridade, e uma objetiva, em que várias situações dão ensejo à incidência das contribuições32.
A gestão quadripartite decorre do caráter democrático e descentralizado da administração da Seguridade, havendo quatro classes interessadas na gestão do sistema: trabalhadores e aposentados, que têm interesse no recebimento dos benefícios securitários, empregadores, que tem boa parte de suas receitas aplicadas no sistema, e Poder Público, que é o responsável direto pela administração da Seguridade. Esse foi o fundamento da criação do Conselho Nacional de Previdência Social – CNPS, órgão composto por representantes de cada classe responsável pela administração da Seguridade33.
O sistema da Seguridade é essencialmente solidário, pois se constitui numa verdadeira socialização dos riscos com a sociedade, em que a população, tanto ativa quanto inativa, juntamente com os recursos públicos, são responsáveis pela manutenção da estabilidade financeira da Seguridade Social. A solidariedade do sistema se evidencia ainda na possibilidade de certas pessoas usufruírem de benefícios sem terem contribuído, por terem sofrido infortúnio ou por necessitarem de serviços assistenciais ou médicos, que são prestados gratuitamente34.
O princípio da precedência da fonte condiciona a criação ou a majoração de benefício ou serviço da Seguridade à existência da prévia fonte de custeio. A intenção da norma é a preservação do equilíbrio financeiro da Seguridade, sendo necessário um planejamento integrado das receitas e despesas dos subsistemas da saúde, previdência e assistência. Essa é a chamada regra da contrapartida no
30
TSUTIYA, Augusto Massayuki. Curso de Direito da Seguridade Social. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 75-76.
31
AMADO, Frederico, Direito Previdenciário. 5. ed. Salvador: Juspodivm, 2015, p.32.
32
LEITÃO, André Studart; MEIRINHO, Augusto Grieco Sant'anna. Manual de Direito
Previdenciário. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 63.
33
Ibid., p. 70-71.
34
orçamento da Seguridade Social35.
A importância do sistema da Seguridade para a efetivação da justiça legitimou a criação de um orçamento diferenciado, que deve ser compreendido na lei orçamentária da União, junto ao orçamento fiscal e ao destinado ao investimento em empresas estatais. Dessa maneira, os recursos da Seguridade estão vinculados a despesas no setor, não podendo ser utilizados em outros gastos da União36.
2.3 Assistência Social: fundamento constitucional e regulamentação legislativa
Com a promulgação da Constituição de 1988, passou-se a considerar a Assistência Social como política pública de Estado, merecedora de ações afirmativas no sentido de oferecer cobertura contra contingências sociais.
A Assistência integra a Seção IV, do Capítulo II, do Título VIII (Da Ordem Social) no texto constitucional. O art. 203, CF, além de estabelecer auxílio a todos que necessitarem, independentemente de contribuição, dispõe sobre os objetivos da Assistência: a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; o amparo às crianças e adolescentes carentes; a promoção da integração ao mercado de trabalho; a habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; a garantia de um salário mínimo de benefício mensal ao deficiente e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. Já o art. 204, CF, trata da organização da Assistência, que contará com uma descentralização político-administrativa entre esferas do governo e entidades sem fins lucrativos, além da participação da população.
Infere-se da disposição em texto constitucional, que a Assistência tem caráter complementar à Previdência, dado que esta só é extensível para os que contribuem para o seu sistema. A principal função da Assistência Social, portanto, é a manutenção da população carente, que de outra forma restaria desassistida. 37
Assim, em regra, apenas as pessoas não cobertas pela previdência e que não podem ser sustentadas pela família farão jus ao recebimento de ações
35
BALERA Wagner; MUSSI, Cristiane Miziara. Direito previdenciário. 10 ed. São Paulo : Método, 2014 p. 42.
36
AMADO, Frederico, Direito Previdenciário. 5. ed. Salvador: Juspodivm, 2015, p. 38.
37
assistenciais, pois naqueles casos já gozam de proteção previdenciária ou alimentar38.
A Assistência foi regulamentada pela Lei nº 8.742, também conhecida como Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS, em 7 de dezembro de 1993.
O art. 2º da LOAS, estabelece como objetivos do sistema da Assistência Social:
I - a proteção social, que visa à garantia da vida, à redução de danos e à prevenção da incidência de riscos, especialmente:
a) a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice;
b) o amparo às crianças e aos adolescentes carentes; c) a promoção da integração ao mercado de trabalho;
d) a habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; e
e) a garantia de 1 (um) salário-mínimo de benefício mensal à pessoa com deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família;
II - a vigilância socioassistencial, que visa a analisar territorialmente a capacidade protetiva das famílias e nela a ocorrência de vulnerabilidades, de ameaças, de vitimizações e danos;
III - a defesa de direitos, que visa a garantir o pleno acesso aos direitos no conjunto das provisões socioassistenciais.
No art. 4º desse texto normativo, estão expressos os princípios do subsistema da Assistência, destacando-se, entre eles, a supremacia do atendimento às necessidades sociais sobre as exigências financeiras e a universalização dos direitos sociais, a fim de tornar o destinatário da ação assistencial alcançável pelas demais políticas públicas.
A Lei Orgânica da Assistência Social orienta-se pela preservação do direito social, enunciando princípios inovadores para o ordenamento jurídico. Prevê, como exemplo, a dissociação entre prestação pecuniária e concessão de serviço assistencial, desvinculando-se dos imperativos da rentabilidade econômica39.
As prestações assistenciais pecuniárias podem ser eventuais, que pressupõem delimitação temporal, ou de prestação continuada, tratando-se esse último caso do benefício de prestação continuada.
Os auxílios eventuais se destinam à cobertura de nascimento, morte, situações de vulnerabilidade temporária e de calamidade pública, segundo o art. 22
38
AMADO, Frederico, Direito Previdenciário. 5. ed. Salvador: Juspodivm, 2015, p.42.
39
da Lei nº 8.742/199340, sendo o principal exemplo o Bolsa-Família, regido pela Lei nº 10.836/2004.
O Bolsa-Família é um programa de transferência de renda destinado às famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica, tendo se originado da união dos programas de renda mínima anteriores, tais como o Bolsa-Alimentação, Auxílio-Gás, Bolsa-Escola e o Cartão Alimentação. Por meio de um cadastro único, são identificados os núcleos familiares com direito ao benefício, exigindo-se como contrapartida das famílias beneficiárias o acompanhamento de calendário vacinal, exame pré-natal para gestantes, além de comprovação de frequência regular na escola de crianças e adolescentes41.
Já o benefício de prestação continuada visa à cobertura de vulnerabilidade por período de tempo mais longo, destinando renda mensal mínima aos beneficiários.
2.3.1 Benefício de prestação continuada: principal forma de transferência de
renda ao idoso e ao deficiente hipossuficientes
O benefício de prestação continuada, também conhecido pela sigla BPC-LOAS, é uma das principais políticas de transferência de renda42. Por meio dele, garante-se um salário-mínimo por mês à pessoa com deficiência e ao idoso com 65 anos ou mais, que não tenham meios de prover a própria subsistência ou tê-la provida pela família.
O benefício só é devido enquanto persistir a necessidade de o beneficiário ser amparado socialmente, não servindo como forma de complementação de renda. O requerente do benefício não pode exercer atividade remunerada, não pode ser mantido por pessoa de que dependa obrigatoriamente e nem deve receber qualquer tipo de rendimento que ultrapasse o valor mensal
40
BALERA, Wagner; MUSSI, Cristiane Miziara. Direito previdenciário. 10 ed. São Paulo : Método, 2014 p. 25.
41
OLIVEIRA, Simone Mendes et al. Condicionalidade e Proteção Social no programa Bolsa Família. Revista Desenvolvimento Social, Montes Claros, v. 1, n. 9, p.15-23, 2013, p.19. Disponível em:< http://www.rds.unimontes.br/index.php/desenv_social/article/view/100/87>. Acesso em: 10 out. 2016.
42
mínimo legal. 43
Para se ter direito ao benefício de prestação continuada, não é necessário a contribuição por parte do beneficiário, tendo em vista o caráter assistencial do instituto, bastando que seja comprovada o estado de necessidade do requerente. Não é exigido ainda o cumprimento de período de carência, como o são a maioria dos benefícios previdenciários.
O BPC é o único benefício assistencial, no universo de auxílios dessa espécie existentes, previsto expressamente no texto constitucional. O art. 203 da Constituição assim preceitua:
Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos:
[...]
V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei.
No entanto, apesar de constar em comando constitucional desde a promulgação da Constituição, o benefício de prestação continuada só foi regulamentado com a edição da Lei Orgânica da Assistência Social, Lei nº 8.742 de 1993, e posto em prática somente com a publicação do Decreto nº 1.744 de 199544.
Os critérios para concessão do benefício são delineados pela Lei nº 8.742/93, que prevê a renda mensal que configurará a miserabilidade, bem como a idade e a existência de deficiência.
Art. 20. O benefício de prestação continuada é a garantia de um salário-mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção nem de tê-la provida por sua família.
[...]
§ 2o Para efeito de concessão do benefício de prestação continuada, considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. § 3o Considera-se incapaz de prover a manutenção da pessoa com deficiência ou idosa a família cuja renda mensal per capita seja inferior a 1/4 (um quarto) do salário-mínimo.
43
MARTINS, Sérgio Pinto. Direito da Seguridade Social. 36. ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 717-720.
44
Conforme a exegese da LOAS, para a concessão do benefício assistencial é preciso existir as seguintes condicionantes: impedimento de longo prazo que obstrua a participação social para a pessoa com deficiência; a idade mínima de 65 anos pela pessoa idosa; a comprovação de renda mensal familiar menor do que um quarto de salário mínimo, tendo a legislação infraconstitucional enumerado os familiares que compõem o conceito de família para fins de concessão de BPC.
A regulamentação inicial do benefício, além de tardia, deu ensejo a vários entraves ao seu deferimento, em virtude do rigor dos critérios impostos, negando a ação assistencial a inúmeros idosos e pessoas com deficiência45. Posteriores mudanças legislativas e entendimentos jurisprudenciais corrigiram algumas das principais inconsistências da legislação, alterando alguns dos requisitos para o deferimento do benefício.
Atualmente, vem-se entendendo que o requisito da renda per capita no valor de um quarto de salário mínimo não é absoluto, podendo-se comprovar a hipossuficiência do requerente do benefício por outros meios de prova. Esse é o atual entendimento da Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais, que exige a realização de perícia socioeconômica nas ações em que é requerido o BPC:
SÚMULA Nº 79 - Nas ações em que se postula benefício assistencial, é necessária a comprovação das condições socioeconômicas do autor por laudo de assistente social, por auto de constatação lavrado por oficial de justiça ou, sendo inviabilizados os referidos meios, por prova testemunhal.
A própria Lei Orgânica da Assistência Social estabelece a possibilidade de a miserabilidade ser comprovada por outro meio que não o da renda per capita mensal de um quarto de salário mínimo:
Art. 20[...] [...]
§ 11. Para concessão do benefício de que trata o caput deste artigo, poderão ser utilizados outros elementos probatórios da condição de miserabilidade do grupo familiar e da situação de vulnerabilidade, conforme regulamento.
A idade mínima necessária para a concessão do benefício ao idoso é
45
PEREIRA, Luciano Meneguetti. ANÁLISE CRÍTICA DO BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA E A SUA EFETIVAÇÃO PELO JUDICIÁRIO. Revista CEJ, Brasília, v. 16, n. 56, p.
15-27, jan./abr. 2012, p. 17. Disponível em:
atualmente regulamentada pelo Estatuto do Idoso, Lei nº 10.741/03, que em seu art. 34, estabelece a idade de 65 (sessenta e cinco) anos para seu recebimento. Quando da edição da Lei nº 8742/93, entretanto, a idade prevista para o benefício era a de 70 (setenta) anos de idade.
Quanto à deficiência para fins de benefício de prestação continuada, a redação original da Lei Orgânica da Assistência Social exigia a constatação de incapacidade para a vida independente e para o trabalho, o que gerava dúvidas quanto à necessidade de a incapacidade ser permanente ou temporária. O conceito de deficiência sofreu uma redefinição com as leis nº 12.435/2011 e nº 13.146/2015, que buscaram adequar o texto legislativo ao preceito da Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, considerando a deficiência sob os aspectos biológico e sociológico46.
Segundo o critério biológico, a deficiência consiste em “impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual ou sensorial”, enquanto para o critério sociológico, consistiria na interação dos impedimentos biológicos com barreiras e a obstrução da participação plena e efetiva na sociedade, em igualdades de condições com as demais pessoas, segundo a atual redação do art. 20, §2º, Lei nº 8742/93. A deficiência, compreende impedimento de longo prazo, podendo ser definitivo ou temporário, entendendo-se por longo prazo o lapso temporal mínimo de 2 (dois) anos, conforme nova disposição do art. 20, §10 da LOAS. Pacificou-se, dessa forma, a possibilidade de concessão de benefício de prestação continuada para a pessoa que não tenha uma deficiência permanente47.
Outra inovação da Lei nº 12.435/2011 foi vedar a suspensão ou cancelamento do benefício nos casos de exercício não remunerado de atividade de reabilitação, habilitação ou que promovam o desenvolvimento das capacidades cognitivas, motoras ou educacionais, inserindo esse comando no art. 21, §3º da Lei 8742/93.
Já a Lei nº 12.470/2011 também inovou ao estabelecer, no art. 21-A da LOAS, a suspensão do benefício quando a pessoa com deficiência passar a exercer atividade remunerada, permitindo-se a sua reativação em caso de perda dessa fonte
46
PEREIRA, Luciano Meneguetti. ANÁLISE CRÍTICA DO BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA E A SUA EFETIVAÇÃO PELO JUDICIÁRIO. Revista CEJ, Brasília, v. 16, n. 56, p.
15-27, jan./abr. 2012, p. 23. Disponível em:
<http://www.jf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/view/1521/1559>. Acesso em: 16 out. 2016.
47
de renda e quando não houver direito a benefício previdenciário. A mesma legislação incluiu, no art. 21-A, o §2º, que prevê a possiblidade de o beneficiário ser contratado como jovem aprendiz, podendo acumular essa remuneração com o benefício por até 2 (dois) anos. Os dispositivos das leis nº 12.470/2011 e nº 12.435/2011 foram importantes mudanças na regulação do benefício de prestação continuada, considerando-se que a redação anterior desses dispositivos eram verdadeiros desestímulos a inserção no mercado de trabalho das pessoas com deficiência48.
48
PEREIRA, Luciano Meneguetti. ANÁLISE CRÍTICA DO BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA E A SUA EFETIVAÇÃO PELO JUDICIÁRIO. Revista CEJ, Brasília, v. 16, n. 56, p.
15-27, jan./abr. 2012, p. 23. Disponível em:
3 A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL PARA FINS DE CONCESSÃO DE BPC –LOAS
Neste capítulo, será destacado o autismo como uma das espécies de deficiência mental passíveis de proteção da Assistência Social, bem como os procedimentos necessários, no âmbito administrativo e judicial, para a obtenção do benefício de prestação continuada.
3.1 Evolução histórica do tratamento da pessoa com deficiência mental
Desde que o tratamento das pessoas com alguma deficiência mental passou a ser uma preocupação pública, demandando soluções do Estado sobre como lidar com essa parcela da população, pode-se afirmar que existiram três fases ou paradigmas pelos quais passou o tratamento concedido aos deficientes intelectuais: a da Institucionalização; a do Serviços e a do Suporte.
O primeiro paradigma formal pelo qual a sociedade se relacionou com a pessoa com deficiência foi o da Institucionalização. As chamadas instituições eram caracterizadas: “como local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada.”49Esses indivíduos ficavam então em isolamento sob os argumentos de proteção, de tratamento, ou de processo educacional50. Nesse período a deficiência intelectual não era diferenciada da demência mental51.
Apesar de existir desde o século XVI, esse modelo de tratamento só começou a ser contestado no início da década de 1960, o que se baseou em diversos motivos. Os custos da manutenção de uma população improdutiva e sob isolamento aliados às progressivas críticas, por parte de diferentes setores da sociedade, redundaram num enfraquecimento do Paradigma da
49
GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974, p.11.
50
ARANHA, Maria Salete Fábio. PARADIGMAS DA RELAÇÃO DA SOCIEDADE COM AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Revista do Ministério Público do Trabalho, Brasília, v. 21, , p.160-173, mar. 2001, p.165. Disponível em: <http://fs1.anpt.org.br/site/download/rev_mpt_21.pdf>. Acesso em: 22 out. 2016.
51
GARGHETTI, Francine Cristine; MEDEIROS, José Gonçalves; NUERNBERG, Adriano Henrique. Breve história da deficiência intelectual. Revista Electrónica de Investigación y Docencia, Jaén, v.
10, n. 0, p.101-116, jul. 2013, p. 103. Disponível em:
Institucionalização52. Ficou cada vez mais evidente a inadequação e ineficiência na recuperação das pessoas com necessidades especiais para a vida em sociedade53.
Iniciou-se um movimento de desistitucionalização, baseado na ideologia da normalização, que também recebeu o nome de Paradigma dos Serviços. Nesse novo modelo, procurava-se modificar os indivíduos com deficiência mental para que viessem a se assemelhar, o máximo possível, ao resto da população. Entendia-se que a sociedade deveria disponibilizar recursos e serviços suficientes para que fosse operada a normalização dos indivíduos com deficiência.54 Era imperativo, então, integrar todos os indivíduos no meio social.
Entretanto, essa integração proposta se traduzia em encontrar na pessoa com deficiência o que precisava ser modificado e não adequar o meio para que fosse efetivado o acesso aos recursos disponíveis àqueles cidadãos. Exemplo de organização que seguia essa filosofia eram as escolas especiais destinadas ao ensino do aluno com vistas ao seu retorno às classes normais55.
Em contraste com o paradigma da Institucionalização, que se manteve incontestado por séculos, o paradigma dos Serviços começou a sofrer críticas logo na década de 1980, vindas tanto do meio científico como das próprias pessoas com deficiência, já organizadas em organismos de representação. Parte do insucesso do modelo de Serviços se deu pela impossibilidade de se buscar uma adequação forçada de indivíduos, sem serem respeitados as características de cada deficiência e seu grau de comprometimento56.
Surgiu então um terceiro paradigma: o do Suporte. Segundo esse modelo, caberia à sociedade se reorganizar para garantir a todos os cidadãos o acesso a tudo que dispõe, independente do grau de deficiência dos mesmos. Compreendeu-se que a pessoa com deficiência e, em especial a com deficiência intelectual, tem direito a não ser segregada, proporcionando-se a inclusão dessas pessoas no espaço comum, dando-se margem ao atendimento de seus desejos e
52
ARANHA, PARADIGMAS DA RELAÇÃO DA SOCIEDADE COM AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Revista do Ministério Público do Trabalho, Brasília, v. 21, , p.160-173, mar. 2001, p.165-167. Disponível em: <http://fs1.anpt.org.br/site/download/rev_mpt_21.pdf>. Acesso em: 22 out. 2016.
53
PROJETO ESCOLA VIVA: garantindo o acesso e permanência de todos os alunos na escola :
necessidades educacionais especiais dos alunos. Brasília: Ministério da Educação, 2005, p.15.
Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/visaohistorica.pdf >. Acesso em: 21 out. 2016.
54
Ibid., p. 18. Acesso em: 21 out. 2016.
55
ARANHA, Maria Salete Fábio. Op. cit, p. 168. Acesso em: 22 out. 2016.
56
necessidades57.
A integração social é objetivo visado na maioria dos estatutos e regulamentos das instituições e entidades que prestam serviços ao deficiente, sendo largamente prevista na legislação constitucional e ordinária. No entanto, grande parte das pessoas com deficiência mental estão ainda confinadas em instituições e em escolas especiais58, que são claros resquícios dos paradigmas da Institucionalização e dos Serviços e da visão da sociedade brasileira, que ainda vê os deficientes mentais como passíveis de segregação corporal.
3.2 O autismo
A história do autismo é relativamente curta, podendo ser incluída na história mais abrangente das deficiências intelectuais. O seu pleno conhecimento se deu gradualmente a partir da década de 1940. Apesar de não ter sido formalmente mencionado antes disso, é quase certa sua existência anterior, mesmo que compreendidos como particularidade de outros transtornos, como psicose infantil, esquizofrenia ou retardo mental, ou ainda como característica de pessoas peculiares e estranhas59.
O transtorno do espectro autista acomete aproximadamente um por cento da população dos países, sendo quatro vezes mais frequente em homens do que em mulheres60.
3.2.1 Definição
Segundo sua classificação na CID -10, o autismo é um transtorno global do desenvolvimento caracterizado por:
57
ARANHA, Maria Salete Fábio. PARADIGMAS DA RELAÇÃO DA SOCIEDADE COM AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Revista do Ministério Público do Trabalho, Brasília, v. 21, , p.160-173, mar. 2001, p. 170-171. Disponível em: <http://fs1.anpt.org.br/site/download/rev_mpt_21.pdf>. Acesso em: 22 out. 2016.
58
ARANHA, Maria Salete Fábio. Integração social do deficiente: análise conceitual e metodológica. Temas psicol., Ribeirão Preto , v. 3, n. 2, p. 63-70, ago. 1995 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1995000200008&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 20 out. 2016.
59
WHITMAN, Thomas L.. O Desenvolvimento do Autismo: Social, Cognitivo, Linguístico, Sensório-motor e Perspectivas Biológicas. 2. ed. São Paulo: M. Books, 2015, p. 22.
60
a) um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos, e b) apresentando uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos três domínios seguintes: interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se acompanha comumente de numerosas outras manifestações inespecíficas, por exemplo fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade (auto-agressividade).61
Já para a Sociedade de Autismo da América62, o Autismo é uma complexa incapacidade de desenvolvimento, que tipicamente afeta o indivíduo em sua primeira infância, afetando a habilidade de comunicação e a interação social.
A nomenclatura transtorno do espectro autista compreende não só o autismo, mas também a Síndrome de Asperger, o transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, o autismo de Kanner, o autismo de alto funcionamento, o autismo atípico, o transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação e o transtorno desintegrativo da infância, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V)63. Esse relatório indica os mesmos critérios para o diagnóstico de todas as patologias inseridas no transtorno de espectro autista.
3.2.2 Diagnóstico, formas de manifestação e de tratamento
Cada caso de Autismo é muito específico e diferenciado, não existindo um autista igual ao outro, pois ao redor dos sintomas centrais há uma grande variedade de sintomas secundários64.
O autismo costuma ser caracterizado como um conjunto determinado de comportamentos que afetas seus portadores de forma diferente e em variados graus. Alguns dos comportamentos associados ao autismo incluem aprendizado atrasado da linguagem, dificuldade em manter contato visual ou em manter uma conversação, incapacidade de raciocínio ou planejamento, interesses intensos e pouca habilidade motora ou sensitiva. Uma pessoa classificada dentro do espectro
61
DATASUS. Disponível em: <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f80_f89.htm#F84>.
Acesso em: 23 out. 2016.
62
What is Autism? Disponível em: <http://www.autism-society.org/what-is/>. Acesso em: 23 out. 2016.
63
American Psychiatnc Association, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014, p.51-53.
64
autista pode apresentar muitos desses comportamentos, muito poucos deles ou ainda muitos outros além65.
O diagnóstico formal de transtorno autista tem como características essenciais o déficit persistente na comunicação e na interação sociais e o padrão restrito e repetitivo de comportamento, interesses ou atividades. Podem ser observados: dificuldade para estabelecer uma conversa normal ou para compartilhar interesses, emoções ou afeto; adesão inflexível a rotinas; interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade; hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais. Essas condições devem estar presentes desde o início da infância, limitando o funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida66.
Boa parte dos acometidos com transtorno do espectro autista - cerca de setenta por cento deles, apresentam sintomas psiquiátricos, que não fazem parte do transtorno, podendo ser diagnosticados um ou mais transtornos mentais67.
É comum a presença de epilepsia associada ao autismo, havendo intima associação entre ambas as comorbidades, podendo ser resultado de uma patologia cerebral comum que deu origem a ambas as condições68.
Não há tratamento específico para o transtorno autista, podendo ser receitados medicamentos para controlar doenças associadas como a epilepsia ou algum transtorno psiquiátrico. Alguns métodos terapêuticos podem ser empregados de forma isolada ou conjunta, com a finalidade de melhorar a qualidade de vida da pessoa com autismo, devendo ser empregados precocemente na criança. Essa abordagem deverá sempre levar em consideração o grau do transtorno e requer o trabalho de profissionais de diversas páreas, tais como fonoterapeutas, pedagogos, médico e educadores físicos69.
65
What is Autism? Disponível em: <http://www.autism-society.org/what-is/>. Acesso em: 23 out. 2016.
66
American Psychiatnc Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014, p. 50-53.
67
Ibid. , p. 58.
68
PEREIRA, Alessandra; PEGORARO, Luiz Fernando Longuim; CENDES, Fernando. Autismo e epilepsia: modelos e mecanismos. J. epilepsy clin. neurophysiol., Porto Alegre , v. 18, n. 3, p. 92-96, 2012 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-26492012000300005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 24 out. 2016.
69
3.2.3 Proteção legal às pessoas com autismo
Além dos direitos e garantias garantidos a todos pela Constituição Federal e além da legislação internacional voltada à proteção específica da pessoa com deficiência, em especial a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, existe proteção legislativa ordinária interna aplicável às pessoas com necessidades especiais.
Entre essas leis, há a Lei 7.853/89, que assegura o pleno exercício dos direitos individuais e sociais dos deficientes; a Lei 8.742/93, que regula os benefícios da assistência social; a Lei 8.899/94, que concede passe livre no sistema de transporte coletivo interestadual, a Lei 10.048/00, que dá atendimento prioritário aos que precisem de atendimento privilegiado; a Lei 10.098/00, que garante a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida70.
Atualmente, a norma de maior relevância para a proteção das pessoas com deficiência é a Lei 13.146/15, que instituiu o Estatuto das Pessoas com Deficiência. Essa legislação proporciona acesso à educação e saúde e estabelece punições para atitudes discriminatórias contra essa parcela da população e traz diversas inovações, como proibir cobranças extras em instituições de ensino privadas, impedir o ingresso em plano de saúde privada e a negativa de emprego, assistência médico-hospitalar ou outros direitos71.
A principal contribuição do Estatuto, entretanto, foi a desvinculação dos conceitos de deficiência e de incapacidade, ao retirar os deficientes do rol de incapazes absolutos ou relativos dos artigos 3º e 4º do Código Civil. Foi garantido, dessa maneira, o direito fundamental à capacidade civil, possibilitando-se uma vida independente, além do direito de poder fazer as próprias escolhas, independentemente da condição apresentada pelo indivíduo72.
Em 2012, foi aprovada uma lei própria para as pessoas com autismo Trata-se da Lei 12.764/12, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
70
GIUSEPPE, Alessandro di. DIREITOS DAS PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO
AUTISTA (TEA). Jurisway, abr. 2013. Disponível em:
<http://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=10515>. Acesso em: 24 out. 2016.
71
Instituto Brasileiro de Direito da Família. Estatuto da Pessoa com Deficiência entra em vigor
em janeiro e garante mais direitos. 2016. Disponível em:
<http://www.ibdfam.org.br/noticias/5870/Estatuto>. Acesso em: 25 out. 2016.
72
3.2.3.1 Lei Berenice Piana
A Lei 12.764/12 é também conhecida como Lei Berenice Piana, em homenagem a uma mãe de autista que participou ativamente de sua aprovação73. Essa lei identifica a pessoa com autismo com os mesmos critérios utilizados pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V), garantindo que a pessoa com algum espectro autista é pessoa com deficiência para todos os efeitos de proteção legal, conforme o seu art. 1º, §2º.
O art. 3º da Lei 12.764/12 garante o direito das pessoas com autismo a:
I - a vida digna, a integridade física e moral, o livre desenvolvimento da
personalidade, a segurança e o lazer;
II - a proteção contra qualquer forma de abuso e exploração;
III - o acesso a ações e serviços de saúde, com vistas à atenção integral às
suas necessidades de saúde, incluindo:
a) o diagnóstico precoce, ainda que não definitivo;
b) o atendimento multiprofissional;
c) a nutrição adequada e a terapia nutricional;
d) os medicamentos;
e) informações que auxiliem no diagnóstico e no tratamento;
IV - o acesso:
a) à educação e ao ensino profissionalizante;
b) à moradia, inclusive à residência protegida;
c) ao mercado de trabalho;
d) à previdência social e à assistência social.
Há, como pode ser observado, expressa preocupação com a qualidade de vida das pessoas com autismo, garantindo às mesmas proteção contra qualquer forma de violência, além de garantir o acesso à saúde, educação e ao mercado de trabalho.
É destacada a necessidade de uma educação inclusiva aos indivíduos com o transtorno autista, sendo assegurado sua matrícula no ensino regular, com direito a um acompanhante especializado, sob pena de multa do gestor escolar
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responsável pelo seu impedimento, segundo o art. 7 º da norma em comento.
É garantido ainda, no art. 3º, III, o acesso a ações e serviços de saúde, o que inclui o direito a um diagnóstico precoce, ainda que não definitivo, a um atendimento multiprofissional, a medicamentos, a uma nutrição adequada e a informações que auxiliem no diagnóstico e no tratamento.
A internação médica da pessoa com autismo deverá ser empregada apenas em último caso, não podendo ocorrer em instituições com características asilares, ou seja, que não ofereçam serviço integral ao interno, o que inclui serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais, de lazer, entre outros. Essa medida extrema de tratamento deve seguir o disposto na Lei 10.216/01, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais.
A Lei 12.764/12 proporciona também o acesso a todos os serviços disponíveis na área da Assistência Social. Em âmbito municipal, as pessoas com autismo, bem como suas famílias, podem se dirigir aos CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e aos CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social).
Os CRAS se destinam a prevenir situações de risco social, desenvolvendo ações de fortalecimento da família, promovendo acesso a benefícios e demais serviços assistenciais e realizando atividades que colaboram com a inclusão social, por meio da atuação de assistentes sociais e psicólogos. Um dos serviços oferecidos por esse centro é Serviço de Proteção Social Básica em Domicílio, que visa a impedir o rompimento de vínculos familiares e sociais desses indivíduos74.
Os CREAS oferecem serviços especializados aos que tem seus direitos violados, como violência física, psicológica e negligência, através da orientação de assistentes sociais e psicólogos e advogados. Entre os serviços disponibilizados estão o Serviço de Proteção Social Especial, que se destina a promover a melhoria da qualidade de vida de pessoas que vivenciam violação de direitos, e o Serviço de Acolhimento Institucional, que tem o objetivo de oferecer moradia aos indivíduos
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Cartilha Direito das Pessoas com Autismo. Defensoria Pública do Estado de São Paulo, 2011,
p.7-8. Disponível em: