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3. DIREITO E EMPATIA

4.1. PROCESSO JUDICIAL DE JOSEPH K

O processo judicial ao qual Joseph K. foi submetido inicia-se a partir de sua de- tenção desmotivada, ocorrida em sua residência. Ele estava ainda em seu quarto, quando apa- receram, pela manhã, dois desconhecidos o procurando, os quais logo ocuparam dois cômo- dos da pensão em que morava. Um dos indivíduos adentrou em seu quarto, sem identificar-se e solicitou o café da manhã de Joseph K., não entregue a ele naquele dia, que era seu aniver- sário. Joseph K., surpreso, mencionou ir embora e em seguida foi comunicado de que não podia ausentar-se, pois estava detido. Inconformado, questionou o porquê daquela situação e teve como resposta:

Não estamos autorizados a dizer isso ao senhor. Vá para o seu quarto e espere. O procedimento jurídico acaba de ser aberto, e o senhor ficará sabendo de tudo na hora adequada. Inclusive vou além de meu encargo ao conversar tão amigavel- mente com o senhor (KAFKA, 2015, p. 16).

No entanto, em que pese a falta de propósito da abordagem dirigida a Joseph K., ele comportou-se ao longo de toda a narrativa como alguém que admitia a sua culpa de forma a arrazoar as atitudes descabidas a que era submetido. Embora estivesse alerta a seus direitos e fizesse questionamentos, sentia-se e mostrava-se culpado (KAFKA, 2015).

Joseph K. pensava que toda a situação embasada no comunicado de sua detenção não passava de uma brincadeira - de mau gosto - que poderia ter sido feita por seus colegas de trabalho. Tudo aquilo não lhe parecia correto, ao mesmo tempo em que lembrava de seu jeito diante de certas ocasiões pretéritas, nas quais foi punido por ter sido imprudente (KAFKA, 2015).

Enquanto ainda estava em sua residência, Joseph K. continuou a querer mais in- formações a respeito do que estava ocorrendo e seguiu com seus questionamentos. Mostrou

aos algozes seus documentos de identificação, mas também lhes solicitou os mesmos e, espe- cialmente, o seu mandado de prisão. Joseph K. ouviu que deveria simplesmente conformar-se e parar de causar aborrecimentos com a sua inquietação (KAFKA, 2015).

Os guardas explicaram que eram funcionários de baixo escalão incapazes de reco- nhecer um documento de identificação e não tinham relação com o caso de Joseph K., a não ser pelo fato de o vigiarem e serem pagos para isso. Outrossim, que trabalhavam às altas re- partições, as quais se instruem acertadamente sobre os motivos da detenção e da pessoa do detido antes de decretarem uma prisão tal como a de Joseph K., afinal, “é a lei. Onde é que poderia haver aí um engano?” (KAFKA, 2015, p. 20).

Joseph K. resolveu tentar outra forma de compreender o seu caso e pediu aos vi- gias - chamados de Ralf e Willem - para que fosse conduzido a seu superior hierárquico, po- rém, foi informado que isto só seria possível quando tal superior assim desejasse. Willem re- comendou a Joseph K. que fosse ao seu quarto e lá esperasse novidades de seu processo; rela- tou também que Joseph K. não os tratou com boa vontade, esquecendo-se de que eles eram homens livres diante dele, entretanto, estavam preparados a receberem um café da manhã, se Joseph K. tivesse dinheiro. Diante dos abusos e da insegurança sentida, Joseph K. decidiu por retornar ao seu quarto, evitando quaisquer outras conversas (KAFKA, 2015).

Em seguida, um grito foi dirigido asperamente a Joseph K. a fim de que soubesse que o inspetor o havia chamado no aposento contíguo. Também foi avisado a vestir-se ade- quadamente, com paletó preto, ao que Joseph K. revidou dizendo que aquela não era a audi- ência principal e, por isso, não havia a necessidade daquela roupa, parecendo admitir o envol- vimento no caso (KAFKA, 2015).

O quarto ao lado, o qual estava alugado para outro hóspede - a Sta. Bürstner -, foi modificado a fim de que Joseph K. fosse interrogado informalmente pelo inspetor. Joseph K. insistiu por saber o motivo de sua acusação, a identificação da repartição que conduzia o pro- cedimento, assim como a dos funcionários. A resposta do inspetor continuou sendo no sentido de que ele e os vigias tinham participação apenas secundária e que mal sabiam sobre a causa de Joseph K. Todavia, recomendou a Joseph K. que fosse mais reservado em seu discurso, que até então não lhe estava sendo favorável (KAFKA, 2015).

O inspetor relatou a Joseph K. que a sua detenção não o impediria de cumprir os deveres de sua profissão - ele era procurador em um banco - e, para isso, haviam sido coloca- dos à disposição três funcionários do local em que Joseph K. trabalhava, deixando-o ainda mais perplexo. Ele dirigiu-se ao banco e, com dificuldade, tentou trabalhar (KAFKA, 2015).

O primeiro inquérito de Joseph K. foi marcado para um domingo, dia em que, se- gundo foi informado, não prejudicaria o seu trabalho no banco. O local do mesmo era incerto, assim como o horário, tendo sido indicado o número da casa de uma rua distante do subúrbio - Rua Juliustrasse -, não conhecida por Joseph K. (KAFKA, 2015).

Na manhã daquele domingo, Joseph K. dirigiu-se ao subúrbio para comparecer, por volta das 9h, já que este era o horário de início dos trabalhos nos tribunais em dias de ex- pediente. No trajeto, encontrou os três funcionários do banco envolvidos em sua causa, que pareciam segui-lo e observar o seu comportamento. Quando chegou na Rua Juliustrasse, en- controu um local com construções padronizadas e cinzentas, habitadas por muitas pessoas sem educação e que pareciam esperar por ele curiosamente (KAFKA, 2015).

Foi difícil para Joseph K. encontrar o local do inquérito, diante da negligência com a qual estava sendo tratado. A fim de conseguir olhar para dentro dos aposentos do pré- dio e tentar encontrar os funcionários do tribunal, Joseph K. inventou estar procurando por um marceneiro (KAFKA, 2015).

Em certo momento, entrou em um dos quartos e foi orientado a seguir, no meio de muito tumulto, por um corredor que parecia separar duas facções. Ao ser conduzido a uma sala, um homem, sentado em frente a uma mesa, ao perceber a chegada de Joseph K., comu- nicou-o de que ele deveria estar lá há uma hora e este atraso não poderia se repetir. “Mesmo sem determinar o horário, o tribunal exige pontualidade. É como se tudo já estivesse preesta- belecido” (KAFKA, 2015, p. 56).

Logo em seguida, o juiz de instrução apareceu e dirigiu-se a Joseph K. a fim de saber sobre a sua profissão, questionando-o se ele era um pintor de paredes, ao que Joseph K. objetou e respondeu que era o primeiro procurador de um grande banco. Seguiram-se risadas de uma das facções, enquanto a outra manteve-se em silêncio, e o juiz de instrução, furioso com a resposta e sem poder sobre as pessoas, ameaçou-as. Joseph K., incomodado com a forma da pergunta feita a ele, anunciou a todos sua insatisfação com a condução de seu pro- cesso. Nesse sentido, o poder do tribunal - e do processo - só era tão grande porque Joseph K. assim o percebia (KAFKA, 2015).

Joseph K. continuou sendo interrogado, bem como expondo suas ideias para aque- la multidão. Explicou que o que aconteceu com ele foi apenas um caso particular, longe de ser levado muito a sério, mas era o símbolo de um processo conduzido da mesma forma contra muitos e, por isso, estava lá, ou seja, não somente por ele mesmo. Como consequência, al- guém na plateia o aplaudiu, mas para Joseph K., não era a aprovação da coletividade o que

importava e sim que ela começasse a pensar acerca do caso por meio de seus argumentos e partisse para a discussão pública de um abuso público (KAFKA, 2015).

Ao término de seu discurso, Joseph K. observou que o juiz de instrução fez um si- nal a alguém da multidão, fato que o fez revelar a todos que os funcionários do tribunal eram influenciados por gestos secretos. Relatou também que, em meio a sua detenção e aquele in- quérito, encontrava-se uma grande organização (vigias, inspetores, juízes) que consistia em deter inocentes e encaminhar contra eles processos sem sentido, levantando a dúvida sobre o trabalho do funcionalismo envolvido e a difícil tarefa de se evitar a corrupção naquele meio (KAFKA, 2015). Quando Joseph K. dirigiu-se à saída do local do inquérito, o juiz de instru- ção avisou-o que ele havia se privado da vantagem do interrogatório. Isto, pois, talvez ainda não tivesse esta consciência (KAFKA, 2015).

Passou-se uma semana do primeiro inquérito de Joseph K. e ele não recebeu ne- nhuma comunicação de qualquer outra audiência. Mesmo assim, imaginou que deveria estar no domingo seguinte ao mesmo local, o que demonstra sua concordância com a organização de seu processo e com o tratamento que lhe estavam dirigindo. Desta forma, foi ao local da suposta audiência e então verificou que não havia sessão naquele dia (KAFKA, 2015).

Entretanto, Joseph K. quis conhecer mais daquele lugar e perguntou a mulher (es- posa do oficial de justiça) que o atendeu se poderia entrar e ver os livros que lá se encontra- vam, ao que lhe foi negado, inicialmente. Ironicamente, comentou a ela que certamente eram códigos legais, os quais orientavam como conduzir os casos no tribunal e, assim, a maneira como os inocentes eram condenados, especialmente sem eles saberem os motivos deste desti- no (KAFKA, 2015).

Depois de conversarem, Joseph K. teve acesso aos livros, os quais tinham dese- nhos obscenos e histórias desconectadas com normas legais. Também descobriu que as in- fluências daquela mulher poderiam se estender ao juiz de instrução, a fim de alguma forma lhe ajudar no conhecimento de seu processo. Ademais, conheceu mais sobre as instalações do tribunal, as quais não inspiravam nenhum respeito, já que, por exemplo, os cartórios ficavam no sótão daquele apartamento. Isto fez com que Joseph K. pensasse que era vergonhoso con- duzir um acusado ao sótão e por isso o importunavam em sua própria moradia (KAFKA, 2015).

Ao encontrar com o oficial de justiça, este convidou Joseph K. a acompanhá-lo até o cartório. No trajeto, Joseph K. percebeu o fato de não darem atenção ao público por con- ta da precariedade das instalações. Ao adentrarem no recinto, havia muitas pessoas que obser- vavam Joseph K. e o oficial de justiça passarem e curvavam-se diante deles a fim de cumpri-

mentá-los. Eram todos acusados e mantinham uma postura de medo, insegurança e humilha- ção (KAFKA, 2015).

À medida em que Joseph K. ia adentrando nas instalações, sentia o ambiente bas- tante quente e pouco arejado, imerso em um clima que estava lhe deixando tonto, como se estivesse prestes a sofrer uma metamorfose. No trajeto ele foi apresentado a um senhor que fornecia informações às partes dos processos, pois, segundo a explicação do oficial de justiça, o tribunal não era muito conhecido da população, sendo consequentemente solicitados escla- recimentos a outros. O oficial também explicou que as vestimentas deste informante eram muito importantes e a partir dele se passava a primeira impressão do tribunal, o que tornavam as belas roupas necessárias (KAFKA, 2015).

Joseph K. disse ao informante que estava lá por ser domingo, dia em que ele tinha tempo e poderia esperar ser atendido. Ademais, não incomodaria ninguém, mesmo sabendo que seus pedidos não pudessem ser atendidos naquele dia. Diante disso, o informante respon- deu que, enquanto Joseph K. não se tornar inoportuno, não o impediria de acompanhar o an- damento de seu processo, ainda mais por se tratar de alguém que não negligenciava o próprio caso. Isto demostra a informalidade dos tratamentos, bem como o sentimento de culpa que atingia Joseph K. nesta e em outras situações (KAFKA, 2015).

Joseph K. foi alertado por seu tio da importância de um advogado como parte de seu processo, porém, somente depois de já ter conversado pessoalmente com funcionários do tribunal. Seu tio - Karl - no primeiro contato com o sobrinho, ao falar do advogado, percebeu que Joseph K. mantinha uma postura cabisbaixa e indiferente, não compatível com a de um acusado inocente que ainda dispunha de forças (KAFKA, 2015). Karl indicou seu colega de escola para acompanhar o caso de Joseph K., o advogado Huld, o qual se encontrava acamado e em tratamento de saúde, mas apto a seguir com suas causas, a sua maneira. Ele estava parci- almente impedido de circular no tribunal, devido a sua doença, mas recebia visitas de amigos que lá trabalhavam e por isso ficava sabendo de muitas coisas. Inclusive, no momento da visi- ta de Joseph. K e Karl, chegou também o diretor do cartório. A enfermeira Leni, que cuidava do advogado, também estava presente na maioria das vezes durante as conversas profissionais entre ele e seus clientes e amigos, sendo uma potencial ajudante de Joseph K. por saber de informações que acabavam por cair na informalidade (KAFKA, 2015).

Joseph K. se mostrou ao tio desinteressado no trabalho do advogado. A preocupa- ção sobre o processo mantinha-se e ele refletiu se não seria melhor trabalhar ele próprio na redação de um documento de defesa e encaminhá-lo ao tribunal, uma vez que não sabia qual rumo o advogado estava tomando em seu processo e não tivera uma boa impressão do profis-

sional, sem contar que já o havia chamado há mais de um mês, sem resposta. Nesse documen- to, Joseph K. escreveria sua biografia e os motivos pelos quais havia agido em cada aconte- cimento, podendo ser aceito ou condenado pelo tribunal, o que mais uma vez reflete seu sen- timento de culpa (KAFKA, 2015).

A primeira petição era importante, pois muitas vezes definia o rumo de todo o processo. Sabia que o advogado a tinha iniciado, mas não se já havia ingressado com ela. To- davia, Joseph K. sabia que às vezes as primeiras petições não eram sequer lidas no tribunal, mas simplesmente anexadas aos autos com a indicação de que provisoriamente o inquérito e a observação do acusado eram mais importantes do que qualquer coisa escrita. Poderiam ser até mesmo extraviadas ou perdidas - fatos que os advogados saberiam por boatos. Além disso, a lei não recomendava a publicidade dos autos do tribunal, sobretudo o auto de acusação não era acessível ao acusado e sua defesa; por isso que não se sabia ao certo contra o que a pri- meira petição deveria ser dirigida (KAFKA, 2015).

Além da dificuldade de acesso ao advogado, os funcionários do tribunal eram su- bornáveis, não cumpriam com suas obrigações, eram suscetíveis e nervosos. Os procedimen- tos diante da justiça eram secretos e faltava a conexão com a população. Entre os funcionários da justiça e a população parecia não existir normas. Ainda, um acusado que nomeou certo advogado teria de ficar com ele até o final de seu processo (KAFKA, 2015).

Joseph K. acreditou que a sua defesa não estava sendo conduzida adequadamente, inclusive ela poderia ser a responsável pela presença de obstáculos a sua causa, sinal disso era o fato de que sua primeira petição ainda não havia sido entregue, mesmo após meses. Era in- dispensável que interviesse pessoalmente e já não tinha a escolha de aceitar ou rejeitar o pro- cesso, teria que se defender. Mesmo afirmando que “não existia culpa, este comportamento categórico era o contrário de sua conduta, o que é perfeitamente explicável em termos psico- lógicos” (KAFKA, 2015, p. 150).

A existência de um pintor chamado Titorelli, que trabalhava no tribunal e conhe- cia muitos juízes, fez com que Joseph K. o procurasse na tentativa de estar a par de dados de seu processo. Ao encontrá-lo, observou algumas de suas pinturas, entre as quais uma que pa- recia a de um juiz, com venda nos olhos e uma balança, porém, acrescida de asas nos calca- nhares como se estivesse correndo. Titorelli explicou que teve de fazer a pintura daquela for- ma, e ela se tratava da deusa da justiça e da vitória em uma só figura, já que assim foi solici- tado por um de seus clientes vaidosos. Joseph K. comentou que tal relação não era certa, pois a justiça teria de estar em repouso, pois do contrário a balança oscilaria e um veredicto justo se tornaria impossível (KAFKA, 2015).

Joseph K. decidiu-se por retirar o advogado de sua representação em juízo. Ao tomar conhecimento desta decisão e diante de Joseph K., o advogado disse que esperava en- contrar mais discernimento nele em comparação com seus outros clientes, sobretudo por ele ter proporcionado a Joseph K. uma visão mais completa da essência do tribunal e de sua ati- vidade. Este comportamento do advogado demonstrou humilhação e falta de ética profissio- nal, o que aumentava seus questionamentos (KAFKA, 2015).

Na véspera de seu trigésimo primeiro aniversário, dois homens chegaram à mora- dia de Joseph K. e o conduziram até uma pedreira abandonada. Durante o trajeto, Joseph K. tentou resistir, mas os dois homens o seguraram com força. Ao alcançarem a pedreira, os ho- mens pegaram uma faca, a qual Joseph K. poderia ter possuído e tirado sua própria vida, mas não conseguiu. Joseph K. livremente deixou que os dois definissem o seu destino - a faca foi cravada em seu coração (KAFKA, 2015).

Interessante notar que Joseph K. se recusa ao suicídio. Kafka fez um relato gené- rico sobre isso, no qual parece justificar o motivo de Joseph K. não ter cometido tal ato: “Se podes te matar, tu de certa forma já não precisas mais fazê-lo” (KAFKA, 2015, p. 261).

Este capítulo descreveu alguns dos principais momentos do processo de Joseph K. narrado por Franz Kafka. Essa narração possibilitou conhecer, embora parcialmente, o con- texto em que se desenvolveu a história. A seguir, será explicado outro recorte do livro, o qual foi apontado por Max Brod – amigo e testamenteiro de Kafka - como o microcosmo da obra. Neste sentido, durante a conversa entre K. e o sacerdote, ocorrida na catedral, a empatia surge como um comportamento suscetível de ser detalhado a partir de interações que se mostram explícitas e outras que estão implícitas no diálogo entre ambos.

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