4 ANÁLISE DOS ACÓRDÃOS DO TRIBUNAL REGIONAL DO
4.2 ANÁLISE DO MATERIAL COLETADO
4.2.2 Ilicitude da terceirização
4.2.2.3 Processo n. 0001174-14.2015.5.05.0015
O processo em epígrafe teve como partes rés as empresas ATENTO BRASIL S/A (empresa prestadora) e o BANCO ITAUCARD S.A. (empresa tomadora).
O acórdão iniciou a sua fundamentação sinalizando que o trabalhador de telemarketing
519 BRASIL, 24 maio 2019, op. cit.
520 Id., Ibid.
521 Id., Ibid.
522 Id., Ibid.
523 Id., Ibid.
atuava na atividade-fim da empresa tomadora (atividade-fim e atividade-meio). Assim, destacou a relatora que chamava a atenção o fato de que o preposto do banco tomador afirmou que o banco, que possui atuação em todo território nacional, não possuía empregado algum na capital do Estado da Bahia, mas tão somente em na cidade de São Paulo524. Assim, todas as tratativas pessoais relativas a cartões de crédito seriam realizadas pelas empresas terceirizadas ou por meio de internet, autoatendimento ou aplicativo, sendo que a administração de cartão seria, confessadamente, uma das atividades-fim do banco contratante525. Logo, destacou a relatoria que não haveria dúvidas quanto ao fato de que, diante do conjunto fático-jurídico formado dos autos, a trabalhadora teria laborado na atividade-fim da empresa tomadora de serviços526.
A julgadora destacou, ainda, a necessidade de haver disciplina judiciária quanto à decisão proferida pela Suprema Corte nos autos da ADPF n. 324 e do RE n. 958.252, vez que se trata de uma decisão que possui efeito vinculante, com observância obrigatória527. Dessa forma, por força da decisão proferida pelo Supremo, sinalizou a julgadora que não caberia, atualmente, o reconhecimento do vínculo de emprego com o tomador de serviços com base, apenas, na questão da terceirização ilícita528. Assim, destacou que a controvérsia acerca da formação de vínculo com o tomador de serviços deve se pautara na existência dos requisitos da relação de emprego529.
Portanto, a fundamentação do voto em análise apreciou os requisitos da relação de emprego, com destaque, de forma conjunta, à ocorrência de subordinação direta e de subordinação estrutural. Assim, da análise do conjunto probatório dos presentes autos, concluiu a julgadora que havia subordinação direta do trabalho desenvolvido perante o tomador de serviços, circunstância que descaracterizaria a terceirização, evidenciando, em verdade, pura e simples intermediação fraudulenta de mão de obra530.
Nesse sentido, destacou a julgadora que o preposto da empresa prestadora confirmou que a obreira laborava, exclusivamente, para o banco contratante e o preposto do banco confirmou que os clientes do banco pessoa física são atendidos pelos empregados da empresa prestadora, vez que o banco sequer possuiria teleatendimento próprio. Portanto, segundo a relatora, a
524 BRASIL, 15 jul. 2019, op. cit.
525 Id., Ibid.
526 Id., Ibid.
527 Id., Ibid.
528 Id., Ibid.
529 Id., Ibid.
530 Id., Ibid.
trabalhadora era vista pelos clientes como empregada do banco531.
Ademais, sinalizou a relatora que, em depoimento pessoal, a trabalhadora disse que estava inserida na dinâmica e organização do banco, com troca de e-mails com os empegados do banco tomador532.
A relatora ainda destacou a ocorrência de intermediação de mão de obra. Segundo a fundamentação, dúvida não haveria quanto ao fato de que a atividade desenvolvida pela obreira, além de essencial às operações do banco e, por isso mesmo, atrelada ao seu objetivo econômico, evidenciaria a sua submissão direta ao comando dos gestores do banco contratante, motivo pelo qual restaria descaracterizada da terceirização por conta de configuração de intermediação de mão de obra, vez que a direção e gestão do trabalho seriam do tomador de serviços, circunstância que autorizaria a declaração de vínculo de emprego diretamente com o banco, com fundamento no art. 2º da CLT533.
Dessa maneira, a relatora, por disciplina judiciária, reconheceu a licitude da terceirização da atividade fim, mas destacou que, na hipótese em que o tomador de serviços assume o protagonismo da gestão do trabalho terceirizado, dá treinamento, controla horários, estabelece postura, monitora uso de ferramentas, senhas, dentre outros, a terceirização desaparece534. Isso porque, nessa hipótese, desapareceria o significado econômico da terceirização de tirar das mãos do tomador de serviços a gestão de pessoal em setores para si estratégico, para concentrar esforços de organização do trabalho em outros âmbitos535, in verbis: “Quando isso ocorre aparece em primeiro plano a intermediação de mão de obra, prática abusiva vedada e que deve se coibida à luz do art. 9º da CLT, cabendo o reconhecimento de vínculo diretamente com o tomador de serviços” 536.
Destacou a relatora que a contratação da mão de obra por interposta pessoa impactaria diretamente os direitos trabalhistas e, por isso, é caracterizada como intermediação lesiva, pois não estenderia aos trabalhadores os direitos trabalhistas próprios dos empregados da empresa que se favorece diretamente com o trabalho desenvolvido, mas que não abre mão da sua gestão direta, valendo-se do instrumento da terceirização apenas como aparato para a minimização de
531 Id., Ibid.
532 BRASIL, 15 jul. 2019, op. cit.
533 Id., Ibid.
534 Id., Ibid.
535 Id., Ibid.
536 Id., Ibid.
custos com mão de obra537. Assim, tendo em vista que a empresa tomadora tem necessidade de controlar diretamente o trabalho desenvolvido pelos empregados, lançaria mão da abertura legislativa para a terceirização, sem, contudo, assumir os encargos que ela impõe, qual seja, o distanciamento da organização direta do trabalho538.
Diante da caracterização da intermediação de mão de obra, concluiu a relatora pela configuração de fraude à legislação. Nesse sentido, destacou que, no caso em análise, foram preenchidos os requisitos da relação de emprego, motivo pelo qual deveria ser reconhecido o vínculo empregatício com a empresa tomadora539. Destacou que não existiria impedimento legal nesse sentido, vez que a intermediação terceirizante de mão de obra não poderia ser utilizada como instrumento de fraude às relações de trabalho e violação ao art. 2º da CLT, que prevê que o empregador é aquele que "dirige a prestação pessoal dos serviços"540.
Destacou a julgadora que, no caso, estaria evidenciada a nulidade do ajuste firmado entre as reclamadas, ante a fraude perpetrada, consubstanciada no intento de sonegar aos trabalhadores os direitos típicos da categoria dos bancários, incidindo, na espécie, o comando do artigo 9º da Consolidação das Leis do Trabalho541. Sinalizou que, ainda que seja admitida a terceirização de forma ampla, desconsiderando-se a distinção entre fim e atividade-meio traçada pelo TST, não se poderia consentir com a mera intermediação de mão de obra542, de modo que a terceirização deve sempre objetivar a contratação de determinado serviço, jamais podendo ser utilizada para a contratação de trabalho por meio de empresa interposta, sob pena de desvirtuar a formação do vínculo de emprego com o real empregador, o que é vedado pelo art. 9o da CLT543.
Por fim, o acórdão concluiu pela existência de subordinação direta e onerosidade à tomadora de serviços. Sobre a subordinação direta, sinalizou a julgadora que restou perfeitamente caracterizada, vez que os autos não trouxeram notícia de que a trabalhadora laborava de modo impessoal, podendo ser substituída por terceiro ou por outro terceirizado, a qualquer tempo, apresentando-se, assim, a pessoalidade intrínseca ao vínculo empregatício544. Destacou, ainda, que a onerosidade e a não eventualidade também estavam presentes, conforme as fichas financeiras que foram acostadas aos autos. Assim, concluiu o voto vencedor que restou
537 Id., Ibid.
538 BRASIL, 15 jul. 2019, op. cit.
539 Id., Ibid.
540 Id., Ibid.
541 Id., Ibid.
542 Id., Ibid.
543 Id., Ibid.
544 Id., Ibid.
demonstrado nos autos que houve o preenchimento dos requisitos da relação de emprego traçados no art. 3º, da CLT545.