4 ANÁLISE DOS ACÓRDÃOS DO TRIBUNAL REGIONAL DO
4.2 ANÁLISE DO MATERIAL COLETADO
4.2.1 Licitude da terceirização
4.2.1.2 Processo n. 0000545-84.2017.5.05.0010
411 BRASIL, 14 out. 2019, op. cit.
412 A ratio decidendi corresponde à razão de decidir de um julgado, ou seja, às bases fáticas e jurídicas do caso em apreciação que levaram o julgador a decidir de uma determinada forma. O instituto será apreciado de forma mais detalhada no tópico posterior.
413 BRASIL, 14 out. 2019, op. cit.
414 Id., Ibid.
415 Id., Ibid.
O processo citado teve como partes rés as empresas CONTAX S.A., como empresa prestadora, e a CLARO S.A., como empresa tomadora de serviços.
De início, o relator ressaltou a possibilidade de ocorrência de fraude à legislação, mesmo após o entendimento vinculante adotado pelo Supremo416. Destacou o relator que a terceirização não poderia ser utilizada como forma de fraude à legislação trabalhista417. Além disso, destacou que os requisitos da relação de emprego permanecem vigentes, tal como prevê o texto consolidado418. Assim, de acordo com o entendimento prevalecente, a terceirização somente será lícita se o trabalhador terceirizado for contratado e dirigido, com subordinação, pela empresa fornecedora dos serviços.
Nesse sentido, a Lei n. 6.019/1974, com a redação dada pelas Leis n. 13.429/2017 e n.
13.467/2017, e a tese jurídica firmada pelo STF, não teriam inovado em nada, isso porque o art.
2º da CLT define como empregador “a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço”. Daí decorreria, por lógica, que se o trabalhador terceirizado presta serviços de forma subordinada diretamente ao tomador dos serviços, a relação de emprego deve ser reconhecida entre o prestador dos serviços (trabalhador terceirizado) e aquele que lhe toma os serviços (tomador dos serviços) 419.
O acórdão adotou o entendimento no sentido de que não há conflito entre a licitude da terceirização da atividade-fim e os requisitos da relação de emprego, destacando a subordinação direta e a pessoalidade420. Nesse sentido, destacou o relator que a nova redação da Lei n. 6.019/1974 e a tese firmada pelo STF não afastariam a incidência do art. 2º da CLT, vez que os referidos dispositivos legais e a tese jurídica firmado pelo STF conviveriam harmoniosamente. Assim, a legislação atual seguiria adotando o entendimento de que empregador é quem contrata e dirige o prestador de serviços. Na fundamentação, houve destaque para o fato de que, no caso em que o trabalhador terceirizado é dirigido pela empresa fornecedora da mão de obra, ele não manterá relação de emprego com o tomador dos serviços.
Por outro lado, se o trabalhador presta serviços de forma subordinada ao tomador dos serviços, entre eles ficará configurada a relação de emprego421.
Afirmou o relator que nada, portanto, teria sido alterado em relação à configuração da
416 BRASIL 06 dez. 2019, op. cit.
417 Id., Ibid.
418 Id., Ibid.
419 Id., Ibid.
420 Id., Ibid.
421 Id., Ibid.
relação de emprego entre o trabalhador e a empresa tomadora dos serviços quando essa dirige e subordina o executor dos serviços422. Nesse sentido, destacou o relator que, na prática, o que mudou foi que, antes, em havendo a terceirização na atividade-fim, a Justiça do Trabalho deveria reconhecer a relação de emprego diretamente com o tomador dos serviços, sequer apurando se o serviço era prestado com subordinação ou não ao tomador dos serviços. Partia-se, assim, do pressuposto de ilegalidade em se tratando de terceirização na atividade-fim, com o reconhecimento da relação de emprego em face do tomador dos serviços, ainda que, em tese, essa empresa não dirigisse a prestação de serviços423.
Em relação ao paradigma normativo anterior, destacou o julgador que, em se tratando de terceirização de atividade-meio, antes, a Justiça do Trabalho admitia a legalidade em nas hipóteses previstas no inciso III da Súmula n. 331, sem, entretanto, deixar de reconhecer a relação de emprego com o tomador dos serviços quando existente a pessoalidade e a subordinação direta em relação a essa empresa, tal como determina o inciso III da Súmula n.
331 do TST424.
Atualmente, destacou o relator que, seja em atividade-fim ou atividade-meio, somente haverá a configuração da relação de emprego com o tomador de serviços quando existente a
"pessoalidade e a subordinação direta" com este425.
O acórdão seguiu tratando da subordinação direta, sinalizando que competia ao reclamante demonstrar que teria ocorrido fraude na terceirização, com a prestação direta de serviços à empresa tomadora426.
Mereceu destaque, ainda, o fato de que tal subordinação seria a “subordinação na prestação de serviços", sendo que essa não se confundiria com as orientações gerais passadas pelo tomador à empresa interposta ou aos trabalhadores para que eles possam prestar os serviços conforme as diretrizes estabelecidas no contrato de prestação de serviços427. Sinalizou o desembargador que dar ordens no dia a dia é diferente de informar aos trabalhadores o que eles devem fazer cotidianamente, com o fornecimento de orientações a serem prestadas aos clientes com o intuito de atender às regras e às condições gerais dos produtos e/ou serviços ofertados428.
Sobre as peculiaridades do contrato em análise, o relator salientou que o fato de o
422 Id., Ibid.
423 BRASIL, 06 dez. 2019, op. cit.
424 Id., Ibid.
425 Id., Ibid.
426 Id., Ibid.
427 Id., Ibid.
428 Id., Ibid.
trabalhador terceirizado ser o responsável por passar informações aos clientes quanto aos planos de telefonia da empresa contratante não configuraria subordinação a essa empresa, isso porque tal atividade corresponderia justamente ao objeto do contrato firmado entre as empresas429. Logo, ainda que o trabalhador do teleatendimento se identifique como sendo o representante da empresa e preste informações sobre planos de telefonia móvel, conforme regras/orientações estabelecidas pela empresa tomadora, tais atividades não caracterizariam, por si só, a subordinação430.
No que se refere à análise probatória realizada pelo relator, merece destaque o fato de que, no seu entender, as provas produzidas não teriam demonstrado hipótese de subordinação direta à empresa tomadora de serviços431. Nesse sentido, destacou o julgador que o fato de os teleoperadores realizarem o atendimento conforme as normas estabelecidas pela empresa tomadora não caracterizariam a subordinação na prestação de serviços, uma vez que, quando a tomadora contrata a fornecedora de mão de obra, deve estabelecer qual o objetivo do serviço a ser prestado e a qualidade do mesmo. Ademais, destacou o relator que a contratação de serviços envolve um serviço específico, e não "qualquer prestação de serviços", havendo cláusula contratual que prevê o objeto e as regras do contrato, que devem ser observadas432.
Fixadas essas premissas, concluiu o Relator que, no caso, não restaria comprovada a existência de subordinação aos prepostos da empresa tomadora433. Destacou o julgador que as reclamadas foram uníssonas em afirmar que o reclamante era subordinado apenas aos prepostos da empresa prestadora. Além disso, a ausência de subordinação teria sido confessada pelo próprio reclamante em audiência, quando afirmou que só se dirigia aos prepostos da real empregadora e que eram eles quem dirigiam a prestação dos serviços434.
Assim, por entender não ter sido demonstrada a existência de subordinação e com base na tese firmada pelo Supremo, prevaleceu o entendimento de licitude da terceirização havida435.
Na fundamentação desse acórdão, houve silêncio quanto à subordinação estrutural.