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1.2 Contribuições Metapsicológicas de Piera Aulagnier

1.2.1 Os modos de funcionamento psíquico

1.2.1.1 Processo originário

Ao teorizar sobre o funcionamento psíquico que corresponde ao período entre o nascimento e o advento do Eu, Aulagnier postula que o processo originário é o único modo de funcionamento psíquico nesse tempo inaugural da vida. Essa exclusividade da atividade do originário na cena psíquica é extremamente breve e corresponde aos momentos iniciais da vida do bebê. Apesar de o originário ser o único modo de funcionamento psíquico presente nesse momento em que o Eu ainda não se constituiu, sua atividade permanece durante toda a existência do sujeito sem acesso ao Eu e pode manifestar-se por metáforas como “carregar o mundo nas costas” ou “sentir-se bem na própria pele”211.

O processo originário é diferente do inconsciente regido pelo processo primário, tal como postulado por Freud; é o modo mais arcaico do funcionamento psíquico, e representará na psique o encontro do bebê com o outro – a partir do sensorial:

A atividade do processo originário é coextensiva a uma experiência responsável pelo estabelecimento da atividade de uma ou várias funções do corpo, resultantes da excitação das superfícies corporais subjacentes. Esta atividade e esta excitação exigem o encontro entre um órgão sensorial e um objeto exterior que possua um poder de estimulação sobre ele. 212

No encontro da boca do bebê (zona/órgão sensorial) com o seio materno (objeto externo com poder de estimulação), a excitabilidade sensorial (visual, tátil, gustativa, auditiva, etc.) deve ser acompanhada de prazer erógeno, revelando uma “equivalência entre excitabilidade e erogenicidade das zonas”213.

211 Ibid., p. 65.

212 Ibid., p. 43. 213 Ibid., p. 62.

De acordo com o funcionamento do processo originário, não é possível reconhecer a dualidade do encontro da boca com o seio representando-os separadamente. O prazer ou desprazer decorrente deste encontro será representado na psique por meio de um pictograma, isto é, tal vivência se inscreve na psique por meio da “imagem da coisa corporal”. Em vista da complementaridade entre a zona sensorial do bebê e o objeto que a complementa com poder de estimulação, a boca e o seio são pictografados como imagem da “zona-objeto complementar”.

Boca e seio, conforme acima referido, são representados como se fossem uma unidade (boca-seio). Se houver prazer, fundem-se; se houver desprazer, repelem-se. O prazer leva ao investimento da boca, do seio, da função alimentar e da atividade de representação pictográfica, e o desprazer leva ao desinvestimento ou não investimento. O investimento nesta representação e na própria atividade de representar está a serviço do Eros (pulsão de vida) e o desinvestimento está sob a égide de Thanatos (pulsão de morte)214.

Para que a atividade vital seja assegurada pelo investimento é necessário um “prazer mínimo”, que “[…] é consequência da relação entre os elementos da informação que penetram no espaço psíquico e o estado de quiescência resultante para a atividade de representação [...]”215. O prazer mínimo é resultante da fixação da energia psíquica em uma representação investida: “há uma atração entre a atividade representante e a imagem representada, cuja presença ou retorno será, desde então, desejada pela psique”.216

Se, por outro lado, o prazer mínimo fosse o único existente, sua finalidade seria tornar perene a representação inaugural, transformando-a no primeiro e último suporte da totalidade da energia psíquica.

Ao prazer mínimo soma-se um “a mais de prazer”, vivenciado no momento da satisfação real, graças à libido materna investida na criança.

[...] no momento em que a boca encontra o seio, ela encontra e absorve um primeiro gole do mundo. Afeto, sentido, cultura estão

214 Ibid.

215 Ibid., p. 43-44. 216 Ibid., p. 55.

copresentes e são responsáveis pelo gosto do leite que o infans toma. A oferta alimentar se acompanha sempre da absorção de um alimento psíquico217.

Assim, a mãe, por meio dos cuidados maternos, estimula a atividade sensorial e psíquica do bebê. Esse “a mais de prazer” é condição para que a satisfação seja apta a dar prazer, e não se reduza apenas a saciar a necessidade.

Quanto às condições relativas ao afeto de desprazer, este está presente quando

[...] o estado de fixação torna-se impossível e [...] a atividade psíquica deve forjar uma representação. [...] o trabalho necessário à constituição de uma nova representação tem como consequência um estado de tensão, responsável pelo que chamaremos “desprazer mínimo” [...]. 218

Além do “prazer mínimo” para funcionar e constituir novas representações, a psique requer o “desprazer mínimo”, decorrente de um estado de tensão pela necessidade de forjar uma nova representação mediante um estado de necessidade ou da falta de objeto que venha a satisfazer uma necessidade psíquica e/ou corporal de prazer. O desprazer mínimo deve ser simétrico ao prazer mínimo, e para tanto deve haver coincidência entre demanda e oferta, num primeiro e único momento.

Mediante a permanência da necessidade (que causa desprazer) na psique predominará uma representação do afeto de desprazer submetida aos objetivos de Thanatos.

O desprazer tem como corolário e como sinônimo um desejo de auto-destruição, primeira manifestação da pulsão de morte, que vê na atividade de representação, enquanto forma original de vida psíquica, a tendência contrária a seu próprio desejo de retorno ao “anterior” a qualquer representação219.

217 Ibid., p. 35.

218 Ibid., p.44. 219 Ibid., p. 45.

A essa tendência regressiva para um “impossível antes”, Aulagnier denomina “Thanatos”.

Sob o domínio da pulsão de morte, a atividade do processo originário forjará representações pictográficas em que o desprazer corresponde à rejeição entre as zonas sensoriais e o objeto complementar.

Neste caso, em que há predomínio da pulsão de morte,

Eros só poderá se impor se a espera de prazer não se prolongar, já que sua tática consiste em oferecer a Thanatos, através do objeto, a ilusão de que ele atingiu sua finalidade: o silêncio do desejo, o estado de quiescência, o repouso da atividade de representação. 220

No originário não há separação ou signo de relação entre boca e seio. O prazer ou o desprazer se irradia para as demais zonas. Mediante a complementaridade zona-objeto, o mau objeto é indissociável de uma má zona; portanto, se o seio for mau, a boca também será má. Assim, o prazer/desprazer é sentido em todo o corpo e imputado ao próprio corpo o poder de autoengendrar suas experiências de prazer ou sofrimento e seus movimentos de investimento ou desinvestimento. A atribuição de causalidade do prazer/desprazer à própria atividade psíquica/sensorial é denominada postulado do autoengendramento:

Enquanto espaço psíquico e espaço somático se mantiverem indissociáveis, enquanto nenhum existente exterior puder ser conhecido como tal, tudo o que afeta a psique, tudo o que modifica suas próprias experiências, responderá ao único postulado do autoengendramento.

[...] Nesse tempo, que precede a prova de separação, a realidade, termo que merece aqui duplas aspas, vai coincidir totalmente com seus efeitos sobre a organização somática, com as modificações, as reações que nela tomam lugar. [...] a realidade é autoengendrada

pela atividade sensorial.221

220 Ibid., p. 56.

221 AULAGNIER. Piera (1986) Nascimento de um corpo, origem de uma história. In: VIOLANTE,

Maria Lucia Vieira (Org.). Desejo e identificação. São Paulo: Annablume, 2010. p. 18. Grifos da autora.

Em A violência da interpretação222 Aulagnier postula que essa totalidade sincrônica da excitação das zonas erógenas é precursora necessária à integração do corpo como unidade futura, mas é também causa de uma fragmentação desta “unidade”, que é fonte de uma angústia de mutilação – vivida como uma desintegração da imagem do corpo –, protótipo da castração no originário.

A atividade do originário permanece atuando na psique como fundo representativo em que serão inscritos os afetos ligados às vivências do sujeito. Na interpretação de Violante, “a positividade desse fundo representativo depende do prazer experimentado no encontro da psique com o próprio corpo em bom estado de funcionamento”223.

Na fase inaugural da vida, o originário é a atividade psíquica que irá representar o vivido por meio de um pictograma. O pictograma é a figuração de um mundo-corpo a partir dos dois fragmentos da realidade: o próprio corpo (e seu estado de funcionamento) e o Eu materno (e o desejo materno).