1.2 Contribuições Metapsicológicas de Piera Aulagnier
1.2.1 Os modos de funcionamento psíquico
1.2.1.2 Processo primário
Ao se confrontar com a realidade de que o seio é separado do corpo, ou seja, um objeto cuja posse não pode ser garantida, a psique é obrigada a se representar privada do poder de engendrar prazer.
Com a experiência da ausência e retorno do corpo da mãe, que impõe o reconhecimento da separação dos espaços corporais e psíquicos pertencentes à mãe e ao bebê, entra em cena outro modo de funcionamento psíquico: o processo primário, que irá representar o vivido por meio da fantasia224.
Na fantasia, toda vivência de prazer/desprazer decorrente do encontro com o Eu do outro e a realidade é interpretada como desejo do Outro em dar/recusar
222 AULAGNIER, Piera. (1975) A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Trad. Maria
Clara Pellegrino. Rio de Janeiro: Imago, 1979.
223 VIOLANTE, Maria Lucia Vieira. Piera Aulagnier: uma contribuição contemporânea à obra de Freud.
São Paulo: Via Lettera, 2001. p. 30.
224 AULAGNIER, Piera. (1975) A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Trad. Maria
prazer. “Presença e ausência serão interpretadas por e na fantasia, como consequência da intenção do seio de oferecer prazer ou impor o desprazer antes dele ser substituído pelo desejo da mãe”225. A atribuição de causalidade ao vivido no processo primário é regida pelo postulado da onipotência do desejo do Outro – desejo dos pais ou desejo da própria criança projetado em um dos pais.
A vivência de desprazer também pode ter sua causalidade atribuída à onipotência do desejo do Outro. Aulagnier escreve que o desprazer
[...] pode, assim, tornar-se fonte de prazer uma vez que, ao experimentá-lo, asseguramo-nos de estar conformes ao desejo do Outro. Esta interpretação projetada sobre o desejo do Outro é o fundamento do masoquismo primário.226
Uma vez que o desprazer vivido pelo fantasiante é interpretado como aquilo que o Outro deseja, torna-se possível investir nesse desprazer, e, ao submeter-se a ele, este poderá tornar-se fonte de prazer para quem sofre (masoquismo primário).
Tendo em vista a especificidade deste modo de funcionamento, em Os destinos do prazer227 Aulagnier postula que é próprio do processo primário “[...] não poder traçar um limite por mínimo que seja entre fantasia e as circunstâncias reais da experiência que coloca em cena”.
No artigo O desejo de saber em suas relações com a transgressão228 Aulagnier conceitua a fantasia como o núcleo do inconsciente, no qual se inscreve a relação do sujeito com o desejo. Em um primeiro momento o processo primário produz a fantasia, em que só figura a “imagem-de-coisa” - portanto, indizível; e será dizível, em um segundo momento, quando aparecer na fantasia a “imagem-de- palavra”.
225 Ibid., p. 73.
226 Ibid., p.72-73.
227 AULAGNIER, P. (1979). Os destinos do prazer. Trad. Maria Clara Pellegrino. Rio de Janeiro:
Imago, 1985. p. 95.
228 AULAGNIE
R, Piera (1967) O “desejo de saber” em suas relações com a transgressão. In: AULAGNIER, Piera. Um intérprete em busca de sentido I. Trad. Regina Steffen. São Paulo: Escuta, 1990. p. 171.
No processo primário a palavra não possui significação linguística. Não importa a significação da palavra emitida pela voz da mãe, e sim, sua significação primária de prazer ou desprazer. Apesar de, nesse momento, o sentido libidinal prevalecer sobre a significação linguística - ao induzir a psique a acreditar que existe significação -, a significação primária abre caminho para a posterior significação da linguagem.
O processo primário postulado por Aulagnier corresponde ao processo primário na teoria freudiana. A diferença é que, em um segundo momento, esta autora compreende que no processo primário há também a presença do princípio de realidade (que impõe a separação entre os corpos), e não apenas o princípio de prazer, como postula Freud.
Ao reconhecimento da separação dos corpos - entre o seio e o bebê - segue o reconhecimento do “outro espaço sem seio”: “[...] ele aponta para a existência de um objeto ou lugar enigmático que permite ao Outro [a mãe] realizar um desejo, que não se refere mais àquele que contempla a cena [a criança]” 229.
Esta indicação do desejo materno por um “outro espaço”, que tira da criança a posição de objeto exclusivo do prazer, obriga-a a se voltar para uma cena na qual um dos objetos continua como representante do desejo da mãe e o outro torna-se representante do atributo paterno. A cena primária é uma fantasia construída por meio do processo primário que busca responder às questões que a criança se coloca a respeito de sua origem, do desejo, do prazer e do desprazer.
Na cena primária o cenário contemplado pelo fantasiante é composto por três objetos: o bebê, a mãe e o outro sem seio (o pai). “A entrada do pai na cena psíquica obedece à condição universal que regula este acesso para todo objeto: ser fonte de uma experiência de prazer que se torna para a psique um objeto de investimento” 230 . Esse outro sem seio passa a ser fonte de prazer para a criança e sua presença passa a ser desejada por ela, ainda que esta presença perturbe a díade mãe-filho.
229 AULAGNIER, Piera. (1975) A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Trad. Maria
Clara Pellegrino. Rio de Janeiro: Imago, 1979. p.74. Entre colchetes, interpolação minha.
230 AULAGNIER, Piera. (1975) A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Trad. Maria
No primário, o precursor do Édipo é construído pelos resquícios do Édipo parental. No desejo da mãe e do pai por este filho, a criança é sucessora historicizada de uma criança cujo desejo tem sua origem no Édipo dos pais. A esse respeito escreve Aulagnier: “É necessário, no entanto, levar em conta as relações entre os dois ocupantes da cena exterior e, sobretudo, as consequências da repressão que eles fizeram do seu próprio Édipo” 231. O desejo e as ações dos pais em relação à criança, ainda que resultem do Édipo parental, não podem ser manifestação do desejo edipiano. A marca do Édipo “[...] vai se manifestar pelo que deve se manter reprimido. O comportamento da mãe e do pai deriva daquilo que já não pode se manifestar do desejo edipiano [...]” 232.
Quanto aos precursores da castração, conforme já mencionado, no originário a angústia de mutilação é o protótipo da castração. No primário o protótipo da castração consiste na angústia de amputação, decorrente da separação dos corpos e do reconhecimento da diferença entre o desejo da criança e o do Outro. Diante do reconhecimento dessa diferença, ao estar submetido à onipotência do desejo do outro, nada garante a onipotência do desejo do fantasiante. Em face da autonomia de uma zona-função como fonte de prazer, a angústia de amputação é de “[...] amputar o próprio espaço psíquico do sujeito de seu poder sobre a função[...]” do próprio corpo. Assim, a amputação não é da zona-função, mas de sua autonomia.
Aulagnier ilustra o modo de funcionamento primário a partir da ideia de
[...] um sujeito que colaria num álbum as fotografias que um aparelho fotográfico captaria sucessivamente de sí mesmo, sujeito que saberia que todas as fotografias lhe pertencem e têm como agente o mesmo aparelho, sendo portanto incapaz de ler nelas a história de sua temporalidade ou de prever, a partir delas, qual será o seu futuro. 233
231 AULAGNIER, Piera. (1975) A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Trad. Maria
Clara Pellegrino. Rio de Janeiro: Imago, 1979. p.79-80.
232 Ibid., p.80. 233 Ibid., p.83.
O primário, em que a imagem de coisa é precursora da imagem de palavra, é o ponto de passagem entre um antes e um depois, em que, “[...] o cênico sucede o pictograma e prepara o dizível, que vai sucedê-lo”234.
O primário abre caminho para a atividade ideativa, que é obra do Eu e que leva em consideração as significações linguísticas.