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4.3 Tradição, modelos e aspectos culturais

4.3.2 Processo produtivo da panela de pedra-sabão

O aspecto geral da oficina observado por Burger (1927) constituía-se de uma modesta cabana, coberta de palha e aberta em três lados. Em frente a essa cabana eram estocados os blocos de pedra-sabão já preparados para serem torneados. Esta preparação consiste em cortes no bloco de matéria-prima bruto feitos com machado ou talhadeira e martelo a fim de deixar esse bloco com um formato aproximado ao das panelas. Nestes blocos preparados observava- se também um botão, que servia como polia para guiar a polia do torno.

No lado interior da cabana ficava o torno, o qual era totalmente construído pelo artesão. Portanto, esse tinha todo o conhecimento de seu funcionamento e poderia substituir qualquer peça defeituosa sem a necessidade de recorrer a recursos externos. A FIG. 6, feita pelo pintor Eugenio Pajeken, mostra a construção do torno e a ligação com a roda d‟água. A roda d‟água possui um eixo comprido, sobre o qual está fixada uma polia de madeira. Desta polia passa uma correia sobre o botão do bloco a ser torneado. Este bloco acha-se colocado entre dois pontos de ferro e desta forma pode ser virado facilmente. As únicas partes feitas de ferro no torno são estes dois pontos. Estes são fixados sobre dois suportes verticais bem grossos C1 e C2, um fixo em uma viga horizontal pesada de madeira b e o outro escorregando

dentro de uma fenda da mesma viga, desta forma a distância dos pontos pode ser adaptada convenientemente conforme o tamanho do bloco. A viga escorrega sobre dois paus horizontais para dar à correia a própria tensão e fixa-se na posição desejada por meio de uma haste inclinada d, a qual fica enterrada em uma extremidade e encostada noutra contra o suporte vertical fixo na viga. Desta forma, é possível todos os movimentos necessários para o ajustamento da obra.

FIGURA 6 – Torno em 1927 Fonte: BURGER, 1927, p. 529.

A FIG. 7 apresenta a evolução nos diversos estágios do processo produtivo da panela em cortes. Na primeira parte da FIG. 7 tem-se a pedra bruta trabalhada com talhadeira mostrando o botão para a correia no fundo e os buracos em cima e em baixo para receber as rolhas de madeira. Na parte II as rolhas de madeira estão colocadas nos buracos da pedra e esta colocada entre os pontos de ferro do torno. Estes pontos entram apenas nas rolhas de madeira sem tocar na pedra e a superfície exterior da panela está pronta e torneada. No item III, o material do interior da panela está retirado, ficando no interior apenas uma coluna do material intacta como apoio ao ponto de ferro. Por último (IV), está a panela retirada do torno, com botão do fundo serrado; e a coluna no interior quebrada com uma martelada. Então, alisavam-se o resto do botão e da coluna e a panela estava pronta.

FIGURA 7 – Estágios do desenvolvimento da panela em cortes Fonte: BURGER, 1927, p. 533.

Sobre o sistema produtivo utilizado atualmente, pode-se dizer que este possui algumas características em comum com o processo produtivo descrito por Burger, ressaltando que assim como na época de Burger, atualmente a variabilidade nas etapas produtivas é fato inerente ao sistema. Sobre o que acontece atualmente pode-se dizer que a grande inovação se deve à utilização de energia elétrica, a qual possibilitou o aperfeiçoamento de algumas máquinas e ferramentas e consequentemente possibilitou mudanças no processo produtivo. A respeito do processo produtivo utilizado atualmente encontram-se mais detalhes no Capítulo 5 – Pesquisa de Campo.

Há cem ou duzentos anos antes da realização dos estudos de Burger (1927) a técnica de fabricação, a distribuição e a organização das oficinas eram essencialmente as mesmas encontradas por este pesquisador. A panela de pedra era o único produto, apenas em raras exceções alguns artesãos produziam vasos e copos, segundo o autor “com pouco gosto artístico” (BURGER, 1927, p. 523). Nesta época, um comerciante interessado em adquirir panelas de pedra-sabão perguntou a respeito das numerações (tamanho) das mesmas. Devido a este episódio, logo se percebeu a crescente valorização dada às peças padronizadas. Quando este negociante procurou saber dos tamanhos das panelas, ele caracterizou a panela de pedra- sabão como as panelas feitas com outros materiais e mecanicamente, as quais apresentavam padronização e as questões comerciais e de logística se beneficiavam disto. Os substitutos

diretos da panela de pedra-sabão dispunham de um sistema produtivo que possuía elementos capazes de controlar e diminuir a variabilidade. Para a manufatura a padronização de produtos pode trazer uma série de vantagens, como a otimização do transporte e a capacidade de controle da qualidade utilizando técnicas quantitativas, como por exemplo, o controle estatístico do processo.

De forma peculiar à capacidade do ser humano de desejar que um trabalho realizado por ele tenha um melhor resultado possível, o artesão que extraía a rocha de pedra-sabão estaria preocupado em não desperdiçar a matéria-prima. Assim, as panelas de pedra-sabão eram fabricadas segundo os tamanhos dos blocos de pedra-sabão utilizados como matéria- prima. Um bloco pequeno, médio ou grande daria panelas respectivamente do tamanho inicial da matéria-prima. A ideia de padronização ou até mesmo a posse de instrumentos para medição não estavam no conhecimento destes artesãos. Dessa forma, a tentativa de comercializar a panela de pedra-sabão conferindo a essa as mesmas características valorizadas em suas substitutas fracassou desde o começo.

Na FIG.8 encontra-se o modelo de panela de pedra-sabão encontrada em 1927 e ainda produzida atualmente, tornando-se costume e então característica própria do artesanato da região. De acordo com um artesão entrevistado nesta pesquisa, este formato característico confere maior uniformidade ao calor distribuído na panela. O estreitamento na parte superior dificulta o transporte das panelas, no sentido de que não é possível transportar muitas panelas uma dentro da outra. Então, o espaço ocupado por uma quantidade de panelas de pedra-sabão é bem maior do que aquele ocupado por panelas que não tenham este formato. A FIG. 9 apresenta a disposição de panelas de panelas que não possui este estreitamento e o modelo de panelas produzidas em pedra-sabão.

FIGURA 8 – Modelo de panela de pedra-sabão Fonte: BURGER, 1927, p. 521.

FIGURA 9 – Disposição das panelas Fonte: BURGER, 1927, p. 525.

Na FIG. 9 observa-se a economia de espaço e de materiais para embalagem no caso das panelas com o formato das panelas representadas no lado esquerdo. Para proteger essas peças é necessário apenas folhas de papel ou qualquer outro material que evite o atrito entre as peças para prevenir possíveis estragos. No caso da panela de pedra-sabão geralmente comercializada (modelo do lado direito) a quantidade de material para embalagem deve preencher um espaço vazio maior entre as panelas. As “quinas” presentes nas panelas de pedra-sabão são muito mais suscetíveis a danos. Por esse motivo, além da quantidade de embalagem que deve ser maior, devem-se levar em consideração também outros aspectos, como a complexidade e consequente tempo de execução da tarefa. Atualmente, além dos modelos semelhantes à panela apresentada por Burger (1927), como exposto na FIG. 10, outros modelos de panela também podem ser produzidos (FIG. 11).

FIGURA 11 – Outros modelos de panelas produzidos atualmente