Capítulo 3 – Sociedade em rede: perspectivas de comunicação
3.4 Processos comunicacionais para formação de redes
Este tópico tem como base, as informações do sítio da Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS)30. Referência em assuntos relacionados à mobilização em rede deste setor.
Fato é que as ações coletivas na sociedade da informação cada vez mais se estruturam sob a forma de redes, “como uma nova forma de relações/ articulações dos movimentos no mundo globalizado, cujas características merecem novas formas de entendimento”. (SCHERER-WARREN, 2002, p. 63).
Se os movimentos sociais construíram seu pensamento crítico com base no marxismo, os novos movimentos sociais estão mais focados em causas locais, como o feminismo, ecologismo, etnicidade, e etc. A rede facilitará estes na medida em que se articulam sob tipologias.
Assim, teremos as redes temáticas que se organizam em função de um tema, segmento ou área de atuação dos atores sociais. Este tema seja ele genérico (meio ambiente, infância) ou específico (reciclagem, desnutrição infantil) será o fundamento deste tipo de rede.
Ou ainda, as redes regionais, que formam este tecido de parceria determinado por uma região ou sub-região, seja um Estado, um conjunto de municípios, um conjunto de bairros, etc.
E, também as redes organizacionais, ou seja, a congregação de entidades autônomas filiadas a uma organização matriz. No entanto, nada impede que diferentes tipos de redes encontrem intersecções no tecido social. A rede parte do pensamento desconstrutivista da pós-modernidade, que “concebe o sujeito com
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A RITS é referência quando se trata de discutir o desenvolvimento das redes de articulação do Terceiro Setor.
base em suas múltiplas identidades, e a transformação, assim, poderá resultar da articulação discursiva de variados novos movimentos sociais”. (SCHERER- WARREN, 2002, p. 71).
Portanto para que uma rede esteja bem estruturada, esta deve seguir um bom planejamento, determinado por parâmetros essências para o trabalho em rede. “O conceito de redes está na compreensão do tempo na instantaneidade, da supressão do espaço, da instituição da velocidade no vetor da cultura, da interatividade absoluta entre pessoas, instituições e burocracias”. (TRIVINHO, 1994, p. 02).
Primeiramente é importante a existência de um propósito unificador, ou seja, a rede deve ser composta por organizações que compartilhem de um conjunto de valores de forma esclarecedora, democrática e explícita. Deve haver pactos e
padrões de rede, afinal sem intencionalidade uma rede não consegue ser um
sistema vivo. Uma rede é uma comunidade e, como tal, pressupõe identidades e padrões a serem acordados pelo coletivo responsável. É a própria rede que vai gerar os padrões a partir dos quais os envolvidos deverão conviver. É a história da comunidade e seus contratos sociais.
[...] da perspectiva dos movimentos sociais, a rede tende a aparecer como ferramenta capaz de construir novas formas de agregação de interesses e reivindicações de demandas – que surgem a partir de uma
idéia-força e expressam parcerias voluntárias para a realização de um
propósito comum – destinada prioritariamente a auxiliar na construção de uma sociabilidade solidária. [...] As redes se tecem através do compartilhamento de interpretações e sentidos e da realização de ações articuladas pelos parceiros (INOJOSA apud MARTINS, 2001, p. 90).
Decerto, ponto fundamental é a participação e colaboração, pois uma rede só existe quando em movimento, e este movimento é gerado pela participação de seus integrantes. Sem dúvida, esta participação deve ser colaborativa, para isso que a rede existe.
Outra questão será a condição de participantes independentes, pois fazer parte de uma rede não quer dizer deixar de lado sua independência. Será o equilíbrio entre a independência de cada participante e a interdependência cooperativa do grupo que dará força motriz a uma rede. Os integrantes da rede deverão seguir um fluxo de interligações voluntárias, podendo optar por trabalhar em projetos que os ajudem a cumprir seus objetivos pessoais e organizacionais.
Em relação à hierarquia, é bom ressaltar que uma rede possui menos chefes e mais líderes, ou seja, a rede deve tender para a multiplicidade de líderes e
horizontalidade. Líderes podem ser caracterizados como pessoas que assumem
e mantém compromissos, mas que também sabem atuar como seguidores – se deixar ser liderado. Na rede as decisões são compartilhadas, esta é a sua essência.
Para Castells, o espaço de fluxos possui três camadas.
Alguns lugares são intercambiadores, centros de comunicação desempenhando papel coordenador para a perfeita interação de todos os elementos integrados na rede. Outros lugares são os nós ou centros da rede, isto é, a localização de funções estrategicamente importadas que constroem uma série de atividades e organizações locais em torno de uma função chave na rede. A localização no nó conecta a localidade com toda a rede. Os nós e os centros de comunicação seguem uma hierarquia organizacional de acordo com o peso relativo na rede. Mas essa hierarquia pode mudar dependendo da evolução das atividades processadas. Na verdade, em alguns casos, alguns lugares podem ser desconectados da rede, e seu desligamento resulta em declínio imediato e, portanto, em deterioração econômica, social e física. As características dos nós dependem do tipo de função desempenhadas por uma rede determinada. (CASTELLS, 1999, p. 502).
A rede só existirá de modo eficiente, quando seus pontos estiverem em
conectividade, ou seja, a manutenção da rede somente acontece quando seus
diversos nós estão interagindo entre si. Aliás, o dinamismo é outra característica importante da rede, pois seu movimento ultrapassa fronteiras físicas ou
geográficas. As redes são multifacetadas. Cada retrato da rede, tirado em momentos diferentes, revelará uma face nova.
De acordo com Castells (1999, p. 503), as funções a serem preenchidas por cada rede definem as características dos lugares que se tornam seus nós privilegiados. Em alguns casos, os locais mais improváveis tornam-se nós centrais por causa da especificidade histórica que acabou centrando uma rede determinada em torno de uma localidade específica.
Conseqüentemente, a interligação e transposição de fronteiras. Redes pressupõem transposição de fronteiras, sejam elas geográficas, hierárquicas, sociais ou políticas. O importante é a realização do projeto, delegando funções de acordo com a aptidão de seus membros, estejam eles onde estiverem, independente de posição social, geográfica ou hierárquica.
A fim de reforçar este aspecto, acrescentamos a conceituação de Castells (1999, 566), de que as “redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós, desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de desempenho)”.
Frisamos que as redes são organizacionalmente fechadas, mas abertas aos fluxos de energia e recursos, enquanto “sistema aberto que se auto-reproduz, isto é como um sistema autopoiético”. (MANCE, 2000, p. 24).
Outro parâmetro a ser observado nas redes é a necessidade da realimentação e
informação. Numa rede, a informação circula livremente, emitida de pontos
diversos, sendo encaminhada de maneira não linear a uma infinidade de outros pontos, que também são emissores de informação. O importante nesses fluxos é a realimentação do sistema: retorno, feedback, consideração e legitimidade das
fontes são essenciais para a participação colaborativa e até mesmo para avaliação de resultados e pesquisas.
Levando em consideração a conjuntura da cibercultura, incluímos o conceito de
reciprocidade, defendido por Pierre Lévy (1999, p. 128), sobre a moral implícita
da comunidade virtual. Afinal, na rede o que vale é a troca, é a acumulação do conhecimento. Desse modo, conforme explica o autor, “se aprendermos algo lendo as trocas de mensagens, é preciso também repassar os conhecimentos de que dispomos quando uma pergunta formulada on-line os torna úteis”.
E finalmente, a descentralização e capilarização. Uma rede não tem centro. Ou melhor, cada ponto da rede é um centro em potencial. Uma rede pode se desdobrar em múltiplos níveis ou segmentos autônomos, capazes de operar independentemente do restante da rede, de forma temporária ou permanente, conforme a demanda ou a circunstância.
SCHERER-WARREN (2002) acrescenta ainda que a dinâmica dos movimentos sociais, na sociedade em rede, deve superar alguns desafios, como a “desfundamentalização”, “descentramento” e “essencialismo”, ou seja, são os novos movimentos sociais, preocupados mais com questões locais, questões minimalistas do que as grandes causas.
Temos aqui, novamente a contribuição de Castells (apud SCHERER-WARREN, 2002, p. 70-71) ao passo que sintetiza a desfundamentalização com base numa perspectiva das redes. Este parâmetro deve nortear qualquer tipo de rede, ao passo que caminha pela essência da rede, que é da exaustão, da dispersão, do sistema aberto, da antinarrativa. A partir daí, as redes construídas em torno de projetos alternativos (feminismo, ecologismo, movimentos de direitos humanos etc.) constroem pontes de comunicação para outras redes na sociedade, opondo- se aos códigos das redes dominantes (religiosas, nacionais, territoriais e comunidades étnicas fundamentalistas).
Para Mance (2000, p. 24):
A idéia elementar de rede é bastante simples. Trata-se de uma articulação entre diversas unidades que, através de certas ligações, trocam elementos entre si, fortalecendo-se reciprocamente, e que podem se multiplicar em novas unidades, as quais, por sua vez, fortalecem todo o conjunto na medida em que são fortalecidas por ele, permitindo-lhe expandir-se em novas unidades ou manter-se em equilíbrio sustentável. Cada nódulo da rede representa uma unidade e cada fio um canal por onde essas unidades se articulam através de diversos fluxos.
Logo, com todos os elementos combinados, a rede tende a aproximar-se do “ideal do coletivo inteligente, mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender e de inventar do que um coletivo inteligentemente gerenciado”. (LÉVY, 1999, p. 130).
Desse modo, o “capital social”31 da rede será mensurado de acordo com o ajuste das variáveis de suas relações sociais como a sociabilidade, cooperação, reciprocidade, pró-atividade, confiança, o respeito e as simpatias com as técnicas de articulação estabelecidas, ou seja, uma série de implicações que facilitarão a ação coletiva em prol dos atores sociais envolvidos. E, conseqüentemente a força do capital social consolidará uma rede social como transformadora da realidade daqueles indivíduos que dela fazem parte.
Aqui, acreditamos ser pertinente elencarmos as considerações de Ziegler, autor que utilizamos na conceituação da criminalidade organizada, na medida em que este defende que somente uma sociedade fortificada em valores, composta de cidadãos solidários, apegados ao bem público comum, unidos na defesa da democracia, praticando entre si relações de complementaridade e reciprocidade e desejando a justiça social serão capazes de resistir à corrupção e à sedução engendradas pelos agentes da criminalidade. (ZIEGLER, 2003).
31
Capital social se refere àquele criado quando as relações entre as pessoas mudam de forma que facilita a ação. Cf. COLEMAN apud FONTES, 1999, p. 253.
No presente trabalho defendemos que o terceiro setor pode contribuir com esse “estado para o bem público comum”, no entanto, com a ressalva de que o setor não pode assumir para si as responsabilidades do Estado de forma a substituí-lo.
Ora, se vivemos na sociedade em rede é necessário entrelaçar as novas ocupações e atividades do terceiro setor às estruturas do Estado não tão somente como ações substitutivas, mas acima de tudo complementares com a utopia deste setor deixar de existir32.
Para Muller e Surel,
A noção de rede propõe um esquema de interpretação das relações entre o Estado e a sociedade que acentua o caráter horizontal e não hierárquico dessas relações, o caráter relativamente informal das trocas que se dão entre os atores da rede, a ausência de fechamento que autoriza a multiplicação das trocas periféricas e a combinação de recursos técnicos [articulados aos saberes dos atores] e de recursos políticos [articulados à posição dos atores no sistema político]. (apud MARTINS, 2001, p.90).
Todavia, em detrimento da ineficiência do Estado – o primeiro setor do poder, em prover o bem comum à sociedade, e os abusos – próprios das organizações privadas, na comercialização de bens e serviços, fez emergir uma terceira via, uma alternativa a fim de suprir as necessidades da população desamparada por àqueles dois.
Desse modo, com a apropriação pelo mercado do espaço público, e a falta de alternativas de uma ação pública eficaz para a conquista da cidadania e da justiça social se desenvolve o Terceiro Setor, na tentativa de integração da esfera do Estado e do mercado, como mostra o diagrama33:
32
Para Daniel Ciasca, voluntário e educador da Fundação Gol de Letra, o Terceiro Setor deveria agir de modo a fazer-se desnecessário, ou seja, sua finalidade deve ser deixar de existir, e não ser um substituto do Estado em sua função de promover o bem-estar da sociedade.
33
Diagrama 1: Sistema Político Órgão de Governo Sociedade Civil Associativismo e Movimentos Mercado Empresas campanhas e mobilizações demandas por qualidade e quantidade novas atividades prestações de serviços novas ocupações atividades complementares inovadoras Atividades substitutivas (para estado ou para mercado) prestação de serviços públicos produção de bens e serviços ocupação
Economia do terceiro setor
Se por um lado, se defende que as organizações da sociedade civil estão mais aptas a atenderem as singularidades e complexidade das comunidades, por outro, sua autonomia frente ao poder público é delicada devido ao embate político- partidário. Essa é uma questão para reflexão, não sendo nosso objetivo tratá-la com minúcia. Entretanto, dada nossa abordagem em novas formas de organização, comunicação e gestão do terceiro setor, pensamos ser relevante citar a intrigante questão.
No Brasil, é o terceiro setor que tem percebido a necessidade de se organizar em rede, pois com poucos recursos, muitas vezes administração precária e até corrupção articula-se, solidariza-se e planeja ações compartilhadas para o bem da comunidade envolvida nesta rede.
As ONGs enxergam enormes possibilidades de transformar a vida de toda a sociedade brasileira, porém muitas vezes não possuem condições físicas, nem financeiras de resolverem problemas, mas possuem o conhecimento específico, o conhecimento local que facilita a consecução do objetivo proposto. O formato em rede facilita a realização dos projetos das comunidades envolvidas.
Isto porque, às vezes, o sucesso da ação positiva não está somente nos atores sociais envolvidos, mas na mudança de mentalidade, em novos métodos de gerenciamento adaptados à realidade local.
Apesar das discussões que elencamos acima em relação à posição que o terceiro setor deveria assumir, são “as organizações da sociedade civil [que] continuam colocando em prática programas, projetos e ações que visam, se não ideologizar ou fazer revoluções, ao menos integrar minimamamente as populações excluídas do sistema vigente”. (CALONIO, 2004, p. 77). Ainda mais porque “o poder público no Brasil mostra cada vez mais sinais de que abrirá espaços para a sociedade civil realizar ações na área social”. (CALONIO, 2004, p. 80).
É pertinente pensarmos na característica marcante do terceiro setor que o coloca como próprio de uma sociedade em rede, sendo seu objetivo maior integrar comunidades carentes à sociedade, tecendo uma rede de fios invisíveis transformadores da realidade de muita gente. “Integrar. Palavra que expressa uma incorporação de algo ou alguém a alguma coisa. [...] não se atua mais visando uma nova sociedade, mas o que se quer é não deixar imensos contingentes populacionais excluídos do sistema”. (CALONIO, 2004, p. 77).
É a partir desta visão que prosseguimos com nossa pesquisa, pois com a análise que se segue pretendemos enfatizar a Rede Vila Albertina na realidade do distrito Tremembé/ Jaçanã, foco central do presente trabalho.
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