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5. MACROCOGNIÇÃO NO PROCESSO DECISÓRIO

5.1 DETECÇÃO DE PROBLEMAS

5.1.1 Processos de apoio da Detecção de Problemas

Nos momentos críticos estudados a detecção de problemas foi relacionada a dois processos de apoio: gestão da atenção e simulações mentais. Estes processos habilitaram o

empreendedor a perceber os sinais provenientes do ambiente interno e externo e avaliar tendências nos acontecimentos. O curso futuro de acontecimentos foi testado por simulação mental, auxiliando na construção do entendimento se aquilo que foi percebido acarretará em problemas futuros.

A gestão da atenção, pode ser definida como a utilização de filtros de percepção que interferem na busca e aquisição de determinadas informações (CRANDALL; KLEIN;

HOFFMAN, 2006). Os resultados desta pesquisa indicam que a gestão da atenção foi relacionada a uma prática de raciocínio antecipativo, afetada pela disponibilidade de recursos e foco da atenção do empreendedor.

Na trajetória de Benjamin, o raciocínio antecipativo é associado a uma prática de buscar compreender e perceber eventos antes de sua consolidação, o que favorece a conexão aos sinais do ambiente. Para Conrado, em momentos de escassez de recursos o empreendedor foca a sua atenção na melhor utilização deles, o que favorece a detecção de problemas e correção de cursos de ação. Para Benjamin e Conrado o empreendedor precisa, voluntariamente, dirigir sua atenção para a detecção de problemas e sinais, pois o foco no operacional pode levar a uma desconexão com as informações provenientes do ambiente.

Este processo havia sido associado à detecção de problemas em trabalhos anteriores da NDM. Para Klein et al. (2005a), tal processo inclui a conexão com o ambiente por meio de sensores que permitem a percepção de desvios em um curso de ação. No entendimento de Klein, Hintze e Saab (2013), uma das características da expertise é a capacidade de focar a atenção em sinais que levam à detecção de problemas. Frye e Wearing (2013) relatam que comandantes de bombeiros mais experientes propositadamente mudam o foco da atenção como forma de detectar problemas.

Os depoimentos a seguir ilustram o papel da gestão da atenção na detecção de problemas, e sua associação com raciocínio antecipativo, foco e escassez de recursos.

Você quer ver o Benjamin fora do corpo dele, é você me [pausa] é ser pego de calça curta. Eu sempre ando um passo a frente do que pode acontecer, é perfil, eu sempre fui assim. (Benjamin)

A gente tem que estar antenado para ver o que vai acontecer. Porque na nossa área (...) a gente pode decidir rápido, mas a gente não muda rápido.

Por que a gente não muda rápido? O meu sistema hoje ele tem seguramente mais de um milhão de linhas (...) mais de duas mil e 300 telas. Significa que nós temos que pegar essas duas mil e 300 telas, ou esse mais de um milhão [de linhas] e mudar para uma outra ferramenta. E mudar não é um robozinho automático que vai lá e muda, não. Você tem que programar, tem que desenvolver. (Conrado)

Eu sempre pensei na questão da pasta de dente. Se a sua pasta de dente está acabando, quando já está começando a ficar difícil de tirar, se você tem uma nova você não pensa duas vezes, você pega e joga a outra e acabou. É ou não é? Agora quando você não tem uma e você precisa escovar os dentes mais aquele dia, você vai apertando e daí chega no final você pega até a tesoura e corta, aí é o limite, né? (Conrado)

Não era muito simples a gente conseguir enxergar isso porque realmente a gente era absorvido pelo operacional. (Conrado)

A simulação mental tem um papel na detecção de problemas, pois ao inscrever o percebido em uma história que represente o fluxo futuro de acontecimentos, o empreendedor decide se a situação demanda ações. Para Crandall, Klein e Hoffman (2006), a simulação mental é a criação mental de uma série de eventos e avaliação de suas possibilidades de consequência futura. Nos casos de Benjamin, Conrado, Nicolas e Elza a simulação mental serviu para revelar tendências futuras e rever os caminhos de ação adotados até o momento. A previsão de consequências futuras adversas foi útil para os empreendedores corrigirem o curso de ação ou decidirem pelo desinvestimento. Especificamente no caso de Elza, o resultado da simulação mental sobre os impactos dos berçários clandestinos em sua escola, levou ao investimento para criação da EL Bebê.

No escopo da revisão empreendida não foi encontrado trabalho empírico associando o processo de simulação mental a função de detecção de problemas. Porém a possibilidade desta associação é discutida no trabalho de Klein e Militello (2005), quando os autores afirmam que os propósitos da simulação mental podem ser a definição de expectativas, explicações ou diagnóstico. Os excertos a seguir demonstram a simulação mental apoiando a detecção de problemas.

Surpresa não. Você tem na verdade [pausa] os sinais eles sempre existem.

Cabe a você decodificar ou não, como o caso das, das massas, eu já tinha decodificado que brigar com os grandes não seria [pausa] eu fugia da briga, aquela história: „eu vou pegar a cozinha‟. (Benjamin)

„Preciso chamar atenção dos caras que passam pelo mercado‟. Porque também o mercado não vende sozinho, você para olhar „Massita‟, você compraria? „Ah, é bonitinha, mas eu nunca ouvi falar‟. (Benjamin)

A questão é que quando você perde um cliente, isso intimida um pouco a sua autoconfiança, eu acredito que para mim isso é o que mais pega. Porque você começa a achar que as coisas vão desabar. Mas a gente começa a entender, começa a ver [o] porquê. Tem situações que a gente vê o seguinte, naquele caso eu fiz o meu melhor, eu não tinha como fazer mais do que aquilo que eu podia fazer. (Conrado)

Na verdade, a alternativa seria continuar com aquilo que a gente tinha e a gente ia morrer aos poucos. A gente não teria mais para quem oferecer o nosso produto. (Conrado)

Esses movimentos aí que eu te já comentei [entrada e saída do mercado de PME e expansão para o Chile] foram as mudanças mais bruscas. Estávamos com um direcionamento e „se a gente for com isso aqui, nós vamos cair no abismo‟. (Nicolas)