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Processos de reciclagem, compostagem e incineração

1 A ORIGEM DA PRODUÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS

2.2 A GESTÃO DO SISTEMA URBANO

2.2.2 Modelos de manejo tecnológico

2.2.2.1 Processos de reciclagem, compostagem e incineração

Inicialmente, faz-se necessário esclarecer que as práticas da reciclagem, compostagem e incineração não podem ser analisadas como técnicas de disposição final dos resíduos sólidos, mas sim, como processos de manejo do lixo urbano. Assim sendo, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000 (PNSB/IBGE, 2000, p. 375), a coleta seletiva é

a separação e acondicionamento de materiais recicláveis em sacos ou recipientes nos locais onde o lixo é produzido, objetivando, inicialmente, separar os resíduos orgânicos (restos de alimentos, cascas de frutas, legumes etc.) dos resíduos inorgânicos (papéis, vidros, plásticos, metais etc.). Esta prática facilita a reciclagem porque os materiais, estando mais limpos, têm maior potencial de reaproveitamento e comercialização.

Para Cortez (2002), a coleta seletiva, da qual deriva a reciclagem,22 consiste na separação, na própria fonte geradora, dos componentes que podem ser recuperados, mediante um acondicionamento distinto para cada componente.

Estes materiais, inicialmente chamados de lixo urbano, por não apresentarem nenhuma utilidade, não chamavam a atenção dos agentes econômicos; à medida, porém, que foram sendo percebidos como reutilizáveis no processo produtivo, esses materiais passaram a ter utilidade e, conseqüentemente, valor econômico.

Daí a transformação do lixo em recurso, caracterizando assim uma mudança institucional que altera as regras do jogo estabelecidas entre os agentes intervenientes neste ambiente institucional. Contudo, não se pode esquecer que estes agentes são motivados por interesses diversos.

22 Como bem lembram Scarlato e Pontin (1992), esta prática não é uma conquista recente da ciência.

Esta coleta seletiva era praticada por indivíduos coletores, de forma primária, munidos de pequenos veículos, quando não de tração humana ou animal, recolhendo lixo das residências e de fábricas, objetos que poderiam ser usados por eles ou vendidos no comércio, que florescia para estes bens, além de diminuir os acúmulos de detritos na natureza.

Por exemplo, de acordo com Bertoldi (2005), o Brasil, por não aproveitar o potencial do lixo urbano através da reciclagem, ao reciclar apenas 2%

de todos os materiais coletados diariamente, calcula-se que perca, anualmente, pelo menos R$ 4,6 bilhões por não reciclar adequadamente apenas o lixo doméstico.

De acordo com a mesma fonte, o Brasil recicla 1,5% dos resíduos orgânicos domésticos, 15% das embalagens PET, 18% do óleo lubrificante, 35% das embalagens de vidro, 38% de papel e papelão, 71% das latas de alumínio e de papelão ondulado. Estes dados evidenciam a demanda por estes materiais em face do valor econômico que eles representam ao retornar para o processo produtivo.

Por outro lado, é exatamente na reciclagem, ou seja, na utilidade e valor econômico, que reside a preocupação da autora, pois esse processo precisa ser edificado de forma eficiente no tripé: 1) tecnologia (para efetuar a coleta, separação e reciclagem); 2) informação (para motivar o público-alvo e todos os agentes envolvidos; e 3) mercado (para absorção de todo o material recuperado).

Nesta mesma linha de raciocínio, apesar de reconhecerem a aplicabilidade da reciclagem de resíduos como uma forma de mitigar o problema socioambiental, Phillip Jr. e Aguiar (2005) alertam sobre as dificuldades que se têm para efetivar tais programas, que podem levar à inviabilidade econômica e financeira da implementação. Por exemplo, o sistema de reciclagem não se diferencia de qualquer outro modo de produção, que envolve preços dos materiais, portanto envolve as leis de mercado.

Explicam os autores que certos materiais recicláveis, se não tiverem um preço atrativo de mercado, não motivarão o coletor a recolher e transportar tais materiais até o centro de triagem, colocando assim em risco uma seleção efetivamente adequada no sistema urbano.

Este fato é evidenciado com relação às sacolas plásticas ou outros materiais que têm pouco ou nenhum valor de mercado, os quais são desprezados pelos catadores, ao contrário do papelão, das garrafas PETS, do alumínio, do cobre, entre outros metais, cujos preços do mercado de recicláveis são bem mais baixos em relação ao preço de extração desta matéria-prima da natureza. Outro fator que tem dificultado a sobrevivência desta atividade é a capacidade desses atores de se

organizar em associações e cooperativas, pelo baixo grau de instrução/conhecimento.

Destarte, a atividade de reciclagem está diretamente relacionada à força de mercado, que pode ou não motivar tal empreendimento, tanto para o empresário que lida com bens recicláveis, como para o coletor. No interior dos domicílios brasileiros, a maior barreira é a resistência do cidadão-consumidor a manipular o lixo doméstico gerado.

Desta maneira, os sistemas de coleta pressupõem que exista um mercado economicamente viável para todos os materiais recicláveis coletados, ou até mesmo que haja, por parte dos órgãos municipais, subsídios para manter uma rentabilidade mínima e justa para que esta atividade se mantenha, de modo que os benefícios sociais e ambientais estejam acima de um simples resultado financeiro.

Neste contexto, cabe relembrar a indagação feita por Rodrigues (1993, p. 119): “Como situar o mercado definidor de um novo paradigma de preservação ambiental urbana em detrimento do consumo urbano?”

O que se sabe é que o discurso do Estado é promover um desenvolvimento sustentável no sistema urbano. Contudo, observa-se a existência, nos governos municipais, de mecanismos para subsidiar novas inversões de unidades produtivas que queiram se instalar nos municípios e, conseqüentemente, gerar mais resíduos, mas, paradoxalmente, os mesmos órgãos públicos alegam não haver recursos suficientes para criar programas sociais para os excluídos23.

Mesmo sendo uma prática que representa riscos de mercado, o fato é que o processo de reciclagem é, atualmente, reconhecido como um manejo que pode minimizar os problemas causados pela excessiva produção de resíduos sólidos urbanos, que contêm materiais complexos e de difícil degradabilidade.

Outra vantagem da reciclagem é que, além de esse processo permitir o aproveitamento das energias contidas na biomassa dos resíduos/matérias

23 Por analogia, pode-se refletir sobre as políticas de desenvolvimento implementadas pelo governo do Estado de São Paulo que cria incentivos de diversas ordens às montadoras de automóveis para que recordes de produção e consumo de carros sejam constantemente batidos, enquanto leis municipais restringem o fluxo de veículos na Grande São Paulo. Em outras palavras, incentiva-se o cidadão a consumir automóvel, mas depois não lhe permite transitar (desfrutar) livremente o bem adquirido.

orgânicos24 que ficariam eternamente estocadas nos lixões ou nos aterros sanitários, determinados tipos de material podem ser reaproveitados no processo produtivo25.

Desta forma, para os defensores do processo de reciclagem, gastar dinheiro público para enterrar matéria-prima que tem valor econômico e ainda pode ser reutilizada no ciclo do processo produtivo configura uma gestão pública de contra-senso, anti-econômica e ecologicamente insustentável.

Assim, a reutilização destes materiais, de certa maneira, estará poupando alguns recursos naturais não renováveis. Por estas e outras razões, a reciclagem é ainda considerada, por muitos técnicos, atores, ambientalistas e organizações não governamentais (ONGs), por países e diversos órgãos nacionais e internacionais, como a técnica mais adequada, por razões ecológicas, econômicas e sociais, para resolver a questão da produção do lixo urbano no sistema urbano.

Diante das colocações dos autores apresentados, impõe-se refletir sobre o processo social e econômico que está por trás deste manejo de resíduos sólidos urbanos. No contexto do manejo de reciclagem surgem duas questões que exigem uma profunda reflexão e não podem passar despercebidas nem pelo poder público nem pelos fóruns que tratam destas discussões técnico-científicas. A primeira precisa ser analisada pelo prisma ecológico e a segunda, pelo prisma social.

A primeira questão consiste em compreender que o processo de reciclagem tem limitações, uma vez que nem todos os materiais, até onde se sabe, podem ser reciclados ou reaproveitados infinitamente, sem perder a qualidade. A própria Lei da Entropia explica isso, como bem coloca Nutau (2007, p.1):

24 De acordo com Obladen (2003), o termo matéria orgânica ou resíduo orgânico é dado a todo composto de carbono passível de degradação. Em decorrência, o termo degradação ou biodegração dos resíduos orgânicos “diz respeito à decomposição desses resíduos por microorganismos”. Em função da estrutura molecular que constitui a matéria orgânica é que se dá a velocidade da decomposição.

25 Para Hall, House e Scrase (2005), a biomassa é uma importante fonte de energia do meio ambiente, que pode também oferecer alternativas energéticas confiáveis para amenizar o aquecimento global. Atualmente, um quinto de toda a energia mundial é gerada a partir de recursos renováveis: de 13% a 14%, a partir da biomassa e 6%, a partir da água, o que representa cerca de 25 milhões de barris de petróleo por dia. A biomassa é responsável por um terço da energia consumida nos países em desenvolvimento – variando de cerca de 90% em países como Uganda, Ruanda e Tanzânia e 45% na Índia, 30% na China e no Brasil e de 10% a 15% no México e África do Sul. Os países desenvolvidos obtêm da biomassa uma quantidade significativa de sua energia primária: 4%

nos EUA e na Europa Ocidental, 14% na Áustria, 18% na Suécia e 20% na Finlândia.

The fundamental characteristic of solid waste is its high entropy.

Indeed, solid waste is a complex mixture of many substances, each of which is not waste. If we separate the substances that make up the mixture, they are only raw material. Therefore, we could say that the more complex the mixture and the bigger the number and variety of substances in it, the more the mixture will be considered waste. A statistical quantity can be defined as proportional to solid waste disorder, by analogy that quantity is the solid waste entropy.

Solid waste disorder depends on heavily on its origin: if is domestic, it will be higher, if industrial or commercial probably smaller. From a economic viewpoint, the value of each waste component is transmuted to negative value (cost) by entropy.

Além do mais, a reutilização freqüente de determinados materiais também é problemática. Não se pode esquecer que, embora com toda essa euforia e apoio institucionalizado, inclusive dos órgãos nacionais e internacionais, o processo de reciclagem possa gerar renda e, desta maneira, amenizar a situação econômica dos excluídos, além de economizar espaços nos aterros sanitários em operação, este processo apenas retarda o envio destes materiais para o meio ambiente. Claro está que o processo de reciclagem não resolve definitivamente esta problemática urbana, simplesmente a ameniza e retarda.

Em outras palavras, o processo de reciclagem somente alivia o estresse ambiental do sistema urbano no curto prazo, pois não previne a produção de novos materiais recicláveis nem desestimula a lógica do padrão de consumo vigente. Muito pelo contrário, poderá até estimular a geração de mais bens descartáveis, pela simples ingenuidade de se pensar que, no ciclo pós-consumo, este problema estará resolvido pela simples reabsorção destes materiais no processo produtivo. Definitivamente, isto não acontecerá.

Reafirma-se, portanto, que o problema urbano ambiental no que diz respeito à gestão dos resíduos sólidos urbanos estará sendo, apenas e unicamente, adiada para um breve futuro. É uma questão ética, inclusive. Assim sendo, as futuras gerações precisarão resolver esta questão deixada pela presente geração.

Já o processo de compostagem, de acordo com Bidone e Povinelli (1999) é um processo biológico aeróbio e controlado de transformação de resíduos orgânicos em resíduos estabilizados, com propriedades e características completamente diferentes do material que lhes deu origem. A rapidez da decomposição dá-se de acordo com a estrutura molecular de cada material. Após o

processo de decomposição da matéria orgânica, obtém-se o húmus, que pode ser retornado ao meio ambiente como um adubo natural.

Para Milton e Yuan (1998), o método tecnológico da compostagem, além de reduzir o volume enviado para os aterros sanitários, produz um adubo orgânico bastante eficaz para a fertilidade do solo. Entretanto, requer áreas suficientes e atenciosas operações, além de gerar problemas de odores bastante desagradáveis nos arredores. Reconhecem ainda os autores que todas estas práticas incluem as práticas convencionais de engenharia sanitária.

Por fim, tem-se a incineração do lixo urbano, que, de acordo com Braga et al. (2002), é realizada em usinas de incineração cuja temperatura pode chegar a 1200ºC e nas quais os resíduos sólidos urbanos são reduzidos a cinzas e gases, em decorrência da sua combustão.

Como já afirmado, a incineração não é um tipo de disposição final, mas sim, um processo para reduzir o volume e a variedade de materiais que compõem o resíduo sólido urbano, além dos lixos considerados perigosos. Como explica Nutau (2007, p. 9), “after incineration, the total volume is less than 10% of the original, composed mainly of phosphate, glass and metals. The separation of three phase is easy by mechanical and electromagnetic means”

De acordo com Perez e Isler (2002), é um processo de oxidação térmica sob alta temperatura no qual ocorre a decomposição de matérias orgânicas/resíduos perigosos. No Brasil este processo é regulado pela norma NBR 11.175 e é indicado também para tratar resíduos não recicláveis ou não reutilizáveis.

Milton e Yuan (1998) colocam que este processo, além de reduzir a necessidade de novas áreas para os aterros sanitários, pode converter parte da energia gerada para o próprio processo. No entanto, reforçam os autores que a incineração pode produzir efeitos prejudiciais à qualidade do ar e gerar cinzas que concentram metais pesados. Mesmo assim, os mesmos autores alertam que este processo necessita de aterros sanitários específicos e seguros para receber os rejeitos resultantes da própria operação, os quais são considerados perigosos.

Neste sentido, a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), da qual o Brasil é signatário, reconhece os incineradores como a principal fonte primária de dioxinas (agente químico

popularmente conhecido como a molécula da morte), furanos e cloro dos gases. Os incineradores, além das tetraclorodibenzodioxinas, expelem PCBs, hexaclorobenzeno, diversos metais pesados, entre outros materiais nocivos26. Todos esses gases provocam câncer, asma e outras enfermidades. (ACPO, 2007).

Phillip Jr. e Aguiar (2005), ao fazerem uma reflexão sobre as técnicas disponíveis para o tratamento do lixo urbano aqui apresentadas, ponderam que os modelos tecnológicos de aterro sanitário, compostagem, reciclagem e incineração envolvem práticas convencionais da engenharia sanitária e não resolvem de forma definitiva o problema da geração dos resíduos sólidos urbanos, mesmo reconhecendo que novos impulsos têm motivado a gestão ao aproveitamento das energias que ainda podem ser reabsorvidas, reutilizadas e reincorporadas ao processo produtivo27.

Diante destas análises, pode-se compreender que os modelos de tratamento e de disposição final do aterro sanitário, combinados com as atividades de reciclagem e compostagem, parece que, para as próximas décadas, continuarão ser o instrumento principal a ser incorporado na gestão dos resíduos sólidos urbanos das regiões no Brasil.

Diante destas discussões, a posição aqui assumida é que os arranjos político-administrativos e os manejos tecnológicos discutidos nesta seção formam um conjunto de manejo considerado técnica e economicamente inadequado, quando comparados a outros modelos de gestão do lixo urbano que estão em operação desde a década de 1990, nas regiões metropolitanas mais desenvolvidas, como é o caso do Sistema de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos.

26 Para ACPO (2007), os processos de incineração tidos como modernos são como os antigos, pelos quais os gases continuamente gerados são enviados para uma estação de tratamento convencional.

e carreiam, além dos tóxicos citados: monóxido (CO) e dióxido de carbono (CO2), hidrogênio (H2), nitrogênio, óxidos de nitrogênio (NOx), óxidos de enxofre (SOx) e água. O que diferencia os modernos dos antigos incineradores é que aqueles possuem um sistema pós-combustão cada vez melhor, ou seja, arrefecimento, lavagem, neutralização e filtragem de líquidos e gases, conhecidos pela retenção de metais voláteis e dos gases ácidos. Assim eles conseguem apenas acumular cada vez mais contaminantes que vão terminar em lixões ou aterros, além de não pararem em definitivo de emitir para atmosfera contaminantes persistentes.

27 Os autores numeram e analisam detalhadamente onze problemas derivados destes processos tecnológicos (ver referência, p. 179 a 184).