Conforme Libâneo & Freitas (2009), entre os anos de 1924 e 1934, Vygotsky iniciou uma pesquisa com a colaboração de psicólogos e pedagogos, entre eles A. N. Leontiev e A. R. Luria. Tal pesquisa embasou teoricamente a Psicologia histórico-cultural quanto às formulações sobre origem e desenvolvimento do psiquismo, processos intelectuais, emoções, consciência, atividade, linguagem, desenvolvimento humano, aprendizagem.
Nos tópicos abaixo, abordaremos individualmente alguns desses elementos, pois são conceitos importantes para a compressão do tema em estudo.
Atividade
VOCÊ SABIA?
Você sabia que Libâneo & Freitas (2009), em seus estudos, informaram que o conceito de atividade para a concepção histórico-cultural é elementar, pois é fundamental para que se possa explicar o processo de mediação? Para eles, é a atividade que promove a relação entre o homem e a realidade objetiva. Dessa forma, o homem não apenas responde automaticamente aos estímulos, mas reage ativamente, atuando e transformando tanto o meio quanto a si.
Leontiev (1903-1979), a partir das ideias da teoria histórico-cultural da atividade, também a investigou buscando demonstrar que a atividade psíquica humana, como forma singular de atividade humana, expressa elementos do desenvolvimento psíquico.
As concepções marxistas também contribuíram para o entendimento da atividade, ao sugerir duas premissas: a primeira denota que a natureza humana da atividade, ao afirmar que a atividade representa a ação humana, promove a relação entre o homem (ativo) e o meio; a segunda informa que o desenvolvimento das atividades psíquicas, como processos psicológicos superiores, acontece a partir das relações sociais, do contexto cultural.
Nesse sentido, entre 1930 e 1940, Leontiev estudou a relação entre a atividade humana e os processos internos da mente. Ele entendeu que as atividades só se concretizam por meio de ações, operações e tarefas se instigadas por necessidades e motivações. Assim, a atividade humana se materializa por meio de ações correspondentes: as atividades didáticas, por meio das ações de aprendizagem; as atividades físicas, por meio de exercícios físicos, entre outros exemplos.
NOTA:
Em suma, a atividade humana acontece e se materializa com uma ação humana, ativa e devidamente motivada por uma necessidade. Ela transforma reciprocamente o homem e o social, à medida que eles interagem. Esses eventos, além de permitirem a visualização de elementos do desenvolvimento psíquico, podem promover o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores.
Figura 11: Atividade Psíquica e aprendizado
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Figura 12: Desenvolvimento humano na perspectiva sócia histórica
Identidade
Segundo Silva (2009), os termos subjetividade, individualidade, personalidade e identidade são, na Psicologia, utilizadas com frequência para fazer menção ao seu objeto de estudo, referindo-se a seus processos ou resultados ou atuando sobre o entendimento desse objeto. Autores brasileiros vinculados ao pressuposto histórico-cultural utilizam, por vezes, os referidos termos como sinônimos ou dão prioridade a algum em detrimento de outro, por considerarem que um deles retrataria melhor as peculiaridades do assunto.
Assim:
“na Psicologia histórico-cultural (para alguns a Psicologia sócio histórica), que tem em seus fundamentos teórico-metodológicos as produções de Vygotsky, Leontiev, Luria e outros autores soviéticos, o objeto de estudo é a consciência, mas, para compreendê-la, é necessário considerar os processos que a constituem e fazem com que seja constituída.
Entre estes estão a subjetividade, a individualidade, a personalidade e a identidade (SILVA, 2009, n.p.)”.
Com isso, alguns conceitos que diferenciam esses termos são apresentados no estudo dessa autora. No entanto, mesmo sabendo que todos são termos que participam da constituição e compreensão da consciente e, apesar da proximidade entre os termos, nos restringiremos a adentrar somente o conceito de identidade.
DEFINIÇÃO:
O conceito de identidade é um termo complexo estudado por diversas abordagens das Ciências Humanas, como a Psicologia, a Sociologia e a Antropologia. Para Stuart Hall (2011), existem três tipos de identidades categorizadas de acordo com o período histórico: identidade do sujeito iluminista (identidade como um núcleo interno do homem;
esse núcleo é imutável ao longo da vida); identidade do sujeito sociológico da idade moderna (existe um núcleo, mas ele é modificado no contato social); e identidade do sujeito pós-moderno da atualidade (para esse período, a identidade é vista como fragmentada, havendo várias identidades). Ele também menciona as identidades culturais como sendo
“aqueles aspectos de nossas identidades que surgem de nosso ‘pertencimento’ a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais”. (HALL, 2011, p.8)
Dessa forma, como você já pode imaginar, não há um consenso sobre o tema. Entretanto, seguiremos com o objetivo de abordar a identidade e suas influências sobre o Psiquismo Humano a partir de um olhar mais amplo.
IMPORTANTE:
Nesse sentido, podemos então destacar Silvia Lane e Antonio da Costa Ciampa, que, na década de 1980, realizaram pesquisas em Psicologia Social, amparados teoricamente nos estudos de Vygotsky e Leontiev. Esses autores desenvolveram seus trabalhos posicionando-se criticamente em relação à psicologia burguesa, que entendia a identidade (referida pelo termo personalidade) como algo individual, que, mesmo com interferências externas, originava-se do indivíduo. Assim, abandonaram o termo personalidade, preferindo utilizar o termo identidade, por entenderem que este trata a constituição do eu de forma crítica, multifatorial e dinâmica (SILVA, 2009).
Para Ciampa 1987 apud Faria & Souza (2011), identidade é como metamorfose. Ela está sujeita a transformações constantes e pode, assim, ser entendida como uma consequência temporária da relação entre fatores como a história de vida do indivíduo, seus projetos e seu contexto histórico e social. Ou seja, sugere que a identidade é dada a cada diferente momento (possuímos várias identidades visíveis nos diferentes papéis que exercemos), não sendo algo pronto, atemporal e imutável. Ela está em um contínuo processo.
Ainda segundo o autor: “[...] identidade é o reconhecimento de que é o próprio de quem se trata; é aquilo que prova ser uma pessoa determinada, e não outra”. (CIAMPA, 2007 apud WONSOSKI
& DOMINGUES, 2015). Para ele, ela se estabelece na relação entre diferença e igualdade, posto que alguns elementos nos aproximam e nos diferenciam uns dos outros (como o nome, que nos diferencia, e o sobrenome, que nos traz uma relação de parentesco).
EXPLICANDO MELHOR:
Para entender a dinâmica e o processo de formação da identidade, Ciampa utilizou o método da narrativa, e empregou também as categorias atividade (entendida como ação, trabalho) e consciência para alcançar o conhecimento sobre os conteúdos que participam da formação da identidade. Assim, o indivíduo narrava os fatos sobre si, sobre sua história e, com base nesse relato permeado pela consciência, era possível observar e conhecer o processo de individualização do sujeito na atividade humana atuando sobre a formação da identidade.
Figura 13: O que é Identidade?
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