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PROCESSOS EXPERIMENTAIS NO DESIGN DE JOALHARIA

No documento Investigação e Ensino em Design e Música (páginas 125-128)

1. INTRODUÇÃO

No Design de Interiores e na Arquitectura, procu- ramos responder às necessidades e aspirações da sociedade. Porém, podemos desenvolver uma narrativa, comunicar uma mensagem específi- ca, explorar um sentido cénico que nos aproxima de áreas criativas como as artes plásticas, a ceno- grafia e a própria joalharia, áreas que nos seduzem porque são responsáveis pela produção de paisa-

gens, espaços ou objectos que nos fazem sonhar não se limitando a ser “funcionais”. À semelhança da Arquitectura e do Design, uma peça de joalharia também nos pode fazer sonhar. Não funciona como abrigo, não nos protege do frio, pode ser igualmen- te ergonómica mas não necessariamente utilitária. Pode funcionar como plataforma da nossa indivi- dualidade, tal como uma casa, um habitáculo, espa- ço íntimo e de intimidade, independentemente da sua escala oposta enquanto objectos. Para Pagan,

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formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria essência.” (CALVINO, 2009, p.47-48) O presente projecto consiste na criação de uma linha de joalharia a partir da experimentação em torno do espaço, dos seus princípios, da sua geometria, cruzando-se com a Arquitectura e o Design de Inte- riores ao nível conceptual e metodológico. Partimos da experimentação espacial em torno de volume- trias assimétricas inspiradas pela natureza, assim como de tensões entre cores, materiais, transpa- rências. Este conceito nasce com um projecto simul- tâneo no âmbito da criação de arquitecturas orgâni- cas imaginadas e materializadas no plano do papel e de maquetas que teve início em 2013. Explorámos o tema de habitáculos possíveis embora imprová- veis. Sem utopia, tornamo-nos estáticos, perdemos a capacidade de moldar a história, afastamo-nos da possibilidade de desenhar o futuro. Este projecto paralelo parte da intenção utópica embora concre- tizável de repensar o território através da concep- ção de espaços fluídos, experimentais, irregulares, envoltos em membranas orgânicas que se adaptam à morfologia do terreno ou que simplesmente se erguem sobre pilotis respeitando o mesmo (Fig.1). No interior, lê-se, desenha-se, escreve-se, ouve-se música emitida pela natureza ou por uma orquestra improvisada, conversa-se, comunica-se. Há espa- ço e tempo para divagar. Procurámos sistematizar soluções que dão resposta a estas “funções” e até de estandardizar alguns componentes, nomeadamen- te volumes interiores, coberturas ou mobiliário que também nasce da geometria destes espaços (Fig.2). Recupera-se o sentido de abrigo em volumes soltos, que evocam o sentido de intimidade e que se opõe ao conceito de célula de habitar anónima. Tapetes modelam os interiores, definindo espacialidades, à imagem de tatamis. Dominam as cores da terra, do céu, da água, do fogo. Esboça-se uma ideia de casa do futuro mas não de uma casa futurista. Parte-se para o desenho tendo como referência a negação de referências, tendo como ponto de partida inter- rogações, tendo como veículo a imaginação. A fina- lidade não é a construção mas sim a possibilidade de construção.

O espaço imaginado passa a determinar a jóia. Os seus volumes e definição de tectos traduzem-se nas superfícies orgânicas compostas por planos oblíquos que integram as formas modulares de peças à escala da mão. Vastas transparências ou vazados que unem exterior e interior (envidraça- dos), espaços circunscritos e murados que evocam uma fronteira entre público e privado, traduzem-se em contrastes entre cheio e vazio, entre exterior e interior. Procurámos reter imagens destas casas resultantes do cruzamento da memória e da imagi-

nação, “ler” os seus espaços, explorar o seu fundo poético, relembrando Bachelard, para quem a casa era corpo e alma e o devaneio (BACHELARD, 1996, p.26), uma viagem em que nos deixamos condu- zir pelo sentimento, que nos pode conduzir a uma

“leitura” mais ampla deste nosso canto do mundo. A questão de fundo a abordar no âmbito da concep- ção desta linha específica de joalharia diz respeito à espacialidade, versatilidade e mutabilidade. Referi- mo-nos à possibilidade da peça poder não só mudar no seu posicionamento e relação com o corpo, mas sofrer mutações, numa filosofia de sobreposição de superfícies laminares, permitindo adaptar-se ao quotidiano ou a um evento, por exemplo. Enten- demos a jóia como um objecto versátil, do mesmo modo que uma solução espacial não tem de impor- -se necessariamente ao público. Esta ideia está subjacente no discurso de designers como os irmãos Bourollec que perseguem a ideia de um espaço que funciona como um livro de exercícios e que não se impõe aos utilizadores: “What we are looking for is

a different typology, a different kind of body confort, and an environment that doesn’t confine you to one single pattern throughout the entire day” (ERWAN AND RONAN BOUROLLEC, 2010, p.54). Na realida- de, a mutabilidade faz parte da evolução do design de interiores, assim como a multifuncionalidade sobretudo a partir do fenómeno das vanguardas. No caso da moda, destacou-se o papel inicial de artistas como Giacomo Balla que, em 1914, sugeriu uma série de elementos modificadores no vestuário que permitiam a qualquer um não apenas modificar, mas também inventar um novo fato para um novo estado de espírito (LEE, 2005, p.115). Com o apare- cimento de tecnologias como as fibras inteligentes, o controlo destas mutações passa a poder resultar da aplicação de corrente eléctrica, aquecimento, luz, forças de pressão ou magnetismo, provocan- do mudanças de forma, cor, tamanho ou de estru- tura molecular, podendo ser activas ou passivas e, muitas vezes, usadas no design para melhorar a sua performance ou adicionar novas funções (LEE, 2005, p.116). O projecto em causa persegue a ideia do objecto enquanto obra aberta que continua a implicar a participação activa por parte do sujeito na sua transformação.

Esta possibilidade de jogo, estaria presente na linha de peças analisada no presente artigo, de génese eminentemente espacial e referenciada num senti- do de metamorfose próprio dos organismos da natureza. Neste sentido, a composição das peças de joalharia desdobra-se em elementos assimétricos que na realidade são também modulares, tal como acontece com as estruturas contínuas da natureza, de carácter evolutivo, embora os elementos modu-

lares na natureza não sejam sempre iguais pois o ambiente condiciona a sua forma e cor, como acon- tece com uma árvore por exemplo: “Teoricamente,

todas as folhas de uma mesma árvore deveriam ser iguais, idênticas, mas isso só aconteceria se pudes- sem crescer num ambiente privado de influências e de variações. Todas as laranjas deveriam ser esferas semelhantes, mas uma cresce ao sol, outra à sombra, outra entre dois ramos muito juntos, e por isso são todas diferentes” (MUNARI, 1982, p.130).

Procurámos explorar esse sentido de metamorfo- se desenhando um colar. A base nasceu da articu- lação de módulos de planos de geometria irregular que apresentam calhas onde encaixam peças que se sugerem a configuração e curvas de nível mas que, na realidade, nascem da ideia de um alçado trans- parente que revela interiores angulosos de uma casa. Estes elementos que são considerados modu- lares pois servem de base para a concepção de outras peças, podendo ser trocados por outros de configuração idêntica e com cores ou acabamen-

Figura 1

Espacialidades experimen- tais que estiveram na génese do projecto de joalharia: Utopia #V-11. Caneta s/ papel. 28,9x20,8 cm. 2014. Mónica Romãozinho.

enquanto o corpo humano diferencia uma práti- ca da outra, ao mesmo tempo parece aproximá-la, pois o corpo não se reporta apenas a uma entida- de física mas também corresponde a uma estrutura mental e quer a arquitectura quer a joalharia contri- buem para qualidades humanas como as emoções e a nossa capacidade de memória.

Por outro lado, joalharia e espaço, podem parti- lhar princípios como: plasticidade, dialéctica inte- rior-exterior, jogo de escalas, contraste de cor ou textura, oposição luz-sombra, movimento, ritmo, repetição presente nas formas modulares, versatili- dade ou mutabilidade.

2. gÉNESE DO PROJECTO DE JOALHARIA

“ESPAÇOS POSSÍVEIS MAS IMPROVáVEIS”:

CONCEITO

“Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. (…) Nada da cidade toca o solo à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem. Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a terra, que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto, que a amam tal como ela era antes dela e com binócu- los e telescópios apontados para baixo não se cansam de passa-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra,

Figura 2

Espacialidades experimen- tais que estiveram na génese do projecto de joalharia: Exploração de células modulares correspondentes a cada função domésti- ca. Maqueta Utopia #VII. Mónica Romãozinho. 2016. Foto: Mónica Romãozinho.

Figura 3 e 4

Colecção “Espaços possíveis mas improváveis”: esquissos e protótipos finais de colar mutável. Mónica Romãozinho. 2016. Foto: Mónica Romãozinho.

tos distintos (Fig.3). O colar incorpora dois compo- nentes rebatíveis que permitem inseri-lo mais facilmente e seria moldado através de ar quente, apresentando uma curvatura ligeira que se adapta deste modo ao corpo. Foram pensadas tipologias de peças laminares que encaixam nos três pontos do colar, com variantes cromáticas e de acabamen- to à escolha, suscitando deste modo composições distintas em consonância com o estado de espírito do público alvo. O colar implicou uma reinterpreta- ção de espaços orgânicos, sobretudo os seus inte- riores desdobrados em perfis ondulantes e o seu sentido de leveza (Fig.4).

Objectos como os anéis, desdobrados em duas solu- ções tipologias (uma em pla, outra em pla conjuga- do com cobre) não são alvo de mutabilidade dada a sua escala mais mimética mas procurámos explorar uma tensão através do contraste cromático ou de brilho entre exterior e interior (Fig.5). O dois anéis podem formar um conjunto dinâmico dada a possi- bilidade de serem posicionados no dedo de duas formas na sequência da descentralização intencio- nal do aro face à componente superior. Contudo, podem ser usados isoladamente. A parede laminar interna apresenta um elemento circular que encaixa numa reentrância efectuada na armadura exterior (Fig.6). Todos os elementos assumem uma função na peça enquanto todo.

3. METODOLOgIA PROJECTUAL E NOVAS

MATÉRIAS NA JOALHARIA CONTEMPORâ-

NEA

Na metodologia, é patente a dicotomia entre intui- ção e racionalização. Ao contrário de alguns desig- ners de joalharia que partem para um processo de produção sem planificar o resultado final, nesta caso, dada a nossa experiência em arquitectura, a intuição e libertação de ideias estão sobretudo presentes nos esquissos e modelos exploratórios, procurando antever uma execução mais controla-

Figura 5 e 6

Colecção “Espaços possíveis mas improváveis”: Esquissos de colar e de soluções para o modelo de anel | Par de anéis em pla (1ªtipologia). 2016. Mónica Romãozinho. Foto: Mónica Romãozinho.

Figura 7

Colecção “Espaços possí- veis mas improváveis”: protótipos experimentais. Mónica Romãozinho. Foto: Mónica Romãozinho. da (Fig.7). Recorremos à modelação tridimensional

e impressão 3D, por vezes apenas de fragmentos a fim de testarmos encaixes, elementos lineares e de secção mínima, minimizando-se o gasto do mate- rial que consiste em pla (polímero biodegradável designado de poliácido láctico) ao longo do proces- so. Este projecto que se encontra em curso permi- tiu-nos testar espessuras mínimas suportáveis na impressão, folgas, níveis de densidade e qualida- de, tempos de impressão. A fixação das peças de diferentes cores ou materiais do colar foi possível devido à previsão de calhas inferiores e elemen- tos superiores que encaixam nas últimas lâminas e que integram suportes de brincos e respectivos travões ancorando-se de modo seguro à base. O colar desdobra-se em três partes dada a dimensão do tabuleiro da impressora.

O cobre foi a segunda matéria escolhida pela sua cor avermelhada, pelas mutações que sofre com o passar do tempo e oxidação ganhando tonalida- des esverdeadas, pela sua versatilidade e resistên- cia devido ao seu alto ponto de fusão. Nos anéis da segunda tipologia deparámo-nos com desencon- tros milimétricos entre o corpo principal de cobre e a lâmina interior de pla que dificultavam a arti- culação por encaixe entre os dois volumes, devido à dilatação do metal durante a soldadura, apesar de só termos recozido a parte superior para efei- tos de dobragem. Optámos inicialmente por assu- mir a parede exterior como um plano inacaba-

do que envolve o interior da “casa”(Fig.8) mas na variante final, assumimos uma estratégia projec- tual comum às nossas casas imaginadas, em que o interior deriva da sucessão de células correspon- dentes a cada função, interligadas mas autónomas e por fim envoltas numa membrana exterior que confere unidade ao conjunto (Fig.9). No caso dos anéis de pla, o corpo superior seria condicionado pela abertura onde encaixa o aro, pois a prototipa- gem melhora consideravelmente com a impressão das peças deitadas, contornando-se a problemáti- ca das superfícies em consola que implicam a opção de suportes adicionais e que não alcançam o mesmo rigor. Na solução em cobre, também desdobrámos o anel em dois corpos a fim de contornar a leitura da solda que os une uma vez que a cor da mesma sobressai sobre o cobre ao contrário da prata, mesmo após operações como limar e lixar. Tendo em vista o mesmo objectivo, procedemos à dobra- gem da superfície superior do anel tendo como molde o interior de pla e tendo vincado previamen- te os seus planos com a serra de ourives, minimizan- do pontos de solda e executámos um acabamento escovado, mais estimulante ao toque. No colar e anéis da 1ªtipologia (pla) recorremos simplesmente a encaixes e dobradiças.

É sobretudo estimulante e criativo intersectar dife- rentes modos de produção, sem deixar de sentir o contacto com a matéria-prima e controlar directa- mente a impressão 3d, repensando e transforman- do continuamente o projecto.

Figura 8 e 9

Colecção “Espaços possíveis mas improváveis”: par de anéis em cobre (2.ªtipologia) | Variante final. 2016. Mónica Romãozinho. Foto: Mónica Romãozinho.

4. SÍNTESE CONCLUSIVA

A joalharia contempla objectos únicos, e essa sua identidade não deriva necessariamente do valor do seu material, mas do seu desenho singular, do seu conceito, do seu carácter. Partilhamos a convicção de designers que se interessam pela jóia enquan- to meio de conexão com a sociedade: “Usar uma

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jóia envolve uma dualidade fascinante, entre um ato absolutamente publico, extensão da própria identi- dade e, da intimidade com o contacto físico com o objecto” (GIMENO, p.85). Com esta linha de joalha- ria ainda em curso, procurámos traduzir uma narra- tiva: a história de uma arquitectura que se reconci- lia com a natureza e que contribui para (re)invenção da sociedade e do indivíduo numa procura de algo aparentemente perdido no tempo. Encaramos estas peças de joalharia como um devaneio experimental, talvez inconscientemente referenciado em auto- res como Munari que designava os seus mobiles de máquinas inúteis no sentido em que não tinham de conduzir a um objectivo utilitário mas que, no fundo, traduziam uma metodologia para o Design.

REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS

CALVINO, I., 2002. As Cidade invisíveis (2002). Trad. por José Colaço Barreiros, 2009. Sant Vicens dels Hors: Biblioteca Sábado.

GIMENO, Carolina. In Maestros de la Joyería contemporánea. Barcelona: Promopress, 2014. Monitor, 2010. Erwan and Ronan Bourolllec: former optimists, Monitor, Sep, n.61, p.54-71. Available at: http://www.bouroullec.com/upload/facsimile/ erb_2010_monitor.nr61_interview.pdf. [Accessed 20 September 2014].

LEE, S., 2005. Fashioning the future. London: Thames&Hudson.

MUNARI, B., 1966. A arte como ofício. 2nd ed.Translated by W. Ramos, 1982. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes.

PAGAN, S., 2011. Contemporary Jewellery: A Phenomenological approach to making informed by Architecture. In: ACUADS CONFERENCE 2011: creativity: brain – mind – body: A view into the future of Australian Art and Design Schools. 21 – 23 September 2011. Available at: http://acuads. com.au/conference/article/contemporary-jewe- llery-a-phenomenological-approach-to-making- -informed-by-architecture/. [Accessed 2 Novem-

ber 2015].

PARA REFERENCIAR ESTE CAPÍTULO / TO REFERENCE THIS CHAPTER:

Pedroso, G. (2017). A Cadeira "Sena" - na Senda do Assento Escolar Ideal. Em D. Raposo, J.Neves, J.Pinho & J.Silva, Investigação e Ensino em Design e Música (255-260). Castelo Branco: Edições IPCB. Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt

No documento Investigação e Ensino em Design e Música (páginas 125-128)

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