2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA CIÊNCIA E DA MODERNIDADE E SEUS
2.5 PROCESSOS GRUPAIS E IDENTIDADE(S) EM FORMAÇÃO
Pensar em identidade é entender o indivíduo como construtor da sua própria história na medida em que ele passa a interagir com grupos sociais, participar de processos sociais e adquirir autonomia. Para entender identidade não há como separar o
desenvolvimento pessoal e a transformação comunitária porque as duas estão relacionadas entre si e definem-se reciprocamente. (LANE, 1993a)
De acordo com Erikson (1976), a formação da identidade e os processos históricos se cruzam, e é introjetada pelos indivíduos ainda na infância na forma da cultura, nos hábitos familiares e nas normas a que se deve seguir para ser aceito socialmente.
Mas, mesmo assim, a identidade não pode ser vista como algo parado, fixo, imutável. Ela envolve a relação de aspectos subjetivos, sociais e históricos e portanto, em constante construção. Assim, pode-se dizer que há um sentimento duplo de identidade pessoal: a construída ao longo da infância e a compartilhada com a sociedade, nos encontros com a comunidade à medida que se vai ampliando os círculos de convivência.
Na identidade psicossocial das pessoas há uma hierarquia de elementos positivos e negativos que se constroem em torno de modelos considerados ideais socialmente. Quando se pensa nessa construção social balizada nas idéias da modernidade que valoriza hierarquicamente as mulheres, por exemplo, geralmente identificadas mais com a natureza do que com a cultura, quando se adentram em espaços considerados culturais e públicos, levam consigo uma imagem negativa e consequentemente têm uma dificuldade de recursos que as ajudem a superar essa imagem negativa de si. (Erikson, 1976).
Ciampa (1993) afirma que as identidades refletem a estrutura social, mas também podem reagir sobre ela, em um constante processo de transformação e conservação, apresentando-se como “uma totalidade contraditória, múltipla, mutável, no entanto uma.” (CIAMPA, 1993 p.61). Portanto, cada posição do indivíduo na sociedade o identifica, e assim ele passa a representar, enquanto sujeito que se reconhece ou se diferencia dos demais sujeitos quando se posiciona em diferentes grupos.
Quando os indivíduos participam e se relacionam entre si, eles se transformam ao mesmo tempo em que são transformados pelo próprio grupo. Esse processo se apresenta, segundo Lane (1993), como uma constante espiral, de maneira que o grupo tende a entrar em crise diante das contradições que se apresentam neste constante transformar “(...)das relações de dominação, as lutas pelo poder, as determinações institucionais de papéis.” (LANE, 1993b. p. 90)
A consciência da reprodução ideológica inerente aos papéis socialmente definidos permite aos indivíduos no grupo superarem suas individualidades e se conscientizarem das condições históricas comuns aos membros do grupo, levando-os a um processo de identificação e de atividades conjuntas que caracterizam o grupo como unidade. [...] Na medida em que o processo é grupal, ou seja, ocorre com todos os membros, ele tende a caracterizar o desenvolvimento de uma consciência de classe, quando o grupo se percebe inserido no processo de produção material de sua vida e percebe as contradições presentes no seu cotidiano, torna-se um grupo-sujeito da transformação histórico-social. (LANE, 1993b p. 17).
No entanto, Lewin (1970) avalia que não se pode analisar um processo de um grupo sem levar em consideração a “atmosfera cultural geral” 3
, ou seja, o todo no qual o grupo está imerso. Essa influência da atmosfera geral estará permeando os ideais do grupo e causará impactos do pensar dos demais grupos que compõem a atmosfera cultural geral, como a família e a comunidade. Mesmo assim, é possível que dentro do grupo e na sua vivência os membros consigam reconhecer suas verdadeiras necessidades e vontades e recusar regras ou restrições que se apresentem exageradas ou por demais restritivas num âmbito social mais geral.
Para Silvia Lane (1993b) é papel da Psicologia compreender como os indivíduos introjetam a realidade em que vivem. Ela diz,
Uma abordagem psicológica do ser humano teria de enfatizar necessariamente, para uma compreensão completa do homem, uma macro e microanálise , em que a primeira abrangeria todo o contexto social, estrutura, relações, etc., e a segunda se direcionaria para o homem formado por este contexto e, portanto, agindo, percebendo, pensando e falando segundo as determinações desse contexto que, atuando como mediações, foram internalizadas pelo ser humano. (LANE, 1993b. p. 82-83)
Um grupo só é capaz de produzir transformações sociais entre os seus membros e a comunidade quando há um sério compromisso de mudança entre eles. Caso contrário, ele tende a se desagregar, em função da dificuldade de superar as contradições que emergem durante os processos de tomada de consciência dos indivíduos, que ocorrem em momentos diferentes para cada um que participa.
Quando se cria um forte sentimento grupal, em que todos vivem as mesmas dificuldades, angustias e alegrias, o indivíduo aceita mais facilmente um novo sistema de valores e crenças e isto pode ser um facilitador na modificação da identidade. Para
Lewin (1970) quando tal coisa acontece, a pessoa tende a não aceitar ocupar um lugar de menos valia nas relações sociais, por pertencer à diferente grupo que não o dominante.
Para essa dissertação, o trabalho produtivo do grupo de mulheres tem um papel importante no processo de identificação, na construção da identidade singular da pessoa. O ser humano é também o seu trabalho, pois este possibilitará relações que serão ou não mantidas, quais atividades podem ser desempenhadas, o que e como produz. Portanto, as relações de produção determinam os comportamentos humanos e cabe à Psicologia compreender o comportamento a partir dessas relações de produção. (CODO, 1993)
Assim, as mulheres ao se organizarem enquanto um grupo que produz, elas possibilitam nessa outra posição, a construção de uma nova identidade que se reconhece capaz de realizar diferentes processos de transformação da realidade. A participação nos grupos produtivos tem possibilitado transformações de posições sociais das mulheres na família e na comunidade, na medida em que vão construindo juntas novas respostas, novos lugares e a satisfação de sentir-se completas diante desses novos papéis. (SILIPRANDI, 2009). E é isso que será analisado ao longo dos próximos capítulos deste texto.
3 O TERRITÓRIO CANTUQUIRIGUAÇU SOB A PERSPECTIVA DE