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Processos históricos do movimento indígena

Para Luciano (2006), a históra do movimento indígena contemporâneo pode ser organizada em três períodos, de acordo com o tipo de agência que intermediava as relações entre os povos indígenas e a sociedade nacional.

O primeiro período foi denominado por ele de Indigenismo Governamental Tutelar: que caracterizou-se pela forte presença do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) criado em 1910, o qual impulsionou a necessidade de proteção do Estado aos povos indígenas contra seu extermínio. Tendo como ideia vigente a relativa incapacidade dos índios, razão pela qual eles deveriam ficar sob a tutela do Estado.

Seguindo a concepção equivocada de incapacidade indígena, o SPI passou a ser porta-voz e o representante dos índios do país. Conforme Luciano (2006) explica, paralelamente a atuação do SPI, havia um processo de integração

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e assimilação cultural dos povos indígenas sob a tutela do Estado, o que na prática significava a efetiva e inexorável apropriação de suas terras e a negação de sua etnicidades e identidades. Nessa perspectiva, os índios deveriam ser integrados rapidamente à sociedade nacional, deixando de ser índios para abrir caminho à ocupação de suas terras pelos não índios, sob o argumento e a justificativa da necessidade de expansão das fronteiras agrícolas para o desenvolvimento econômico do país.

O Estado brasileiro, com a estratégia final de apropriação das terras e a extinção dos povos indígenas, buscou várias alternativas para prosseguir com esse objetivo. Dentre elas destacou-se na década de 60 e 70 a definição de critérios de indianidade, que visava estabalecer quem era mais índio, menos índio e quem deveria deixar de ser índio através de um procedimento administrativo do governo. Surgiram diferentes estratégias para acelerar o processo de integração, com um único objetivo: a negação e a anulação dos direitos dos índios aos seus territórios.

O segundo período denominado pelo autor de Indigenismo não-governamental teve início em 1970, e caracterizou-se pela introdução da Igreja Católica renovada e as organizações civis ligadas a setores das universidades.

A igreja Católica, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), instituiu em 1970 uma pastoral específica para trabalhar com indígenas e com um Conselho Indigenista Missionário (CIMI), como resposta às críticas que sofria como cúmplice do Estado Brasileiro. (Luciano, 2006, p. 72)

A partir de 1970, surgiram várias organizações não-governamentais (ONGs), rompendo com a doutrina civilizatória imposta pelo Estado e pelas missões religiosas. Dentre essas organizações destacam-se:

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Quadro 2

Organizações não-governamentais de apoio aos povos índigenas

Sigla Nome da Organização UF ANO

ANAI/BA Associação Nacional de Apoio aos Índio/Bahia

BA 1979

ANAI/POA Associação Nacional de Apoio aos Índio/Porto Alegre

RS 1977

AVA Associação Vida e Ambiente DF/MT 1994

CCPY Comissão Pela Criação do Parque Yanomami

SP/RR 1978

CIMI Conselho Indigenista

Missíonário

DF/AM/AC/RO/MT/MS/

PA/MA/AP/RR/GO/

TO/CE/PE/BA/MG/ES/

SP/PR/SC/RS

1972

COMIN Conselho de Missão Entre Índios

RS 1982

CPI Centro de Pesquisa Indígena SP/AC/MT/MG 1989

CPI/AC Comissão Pró-Índio de Acre AC 1979

CPI/SP Comissão Pró-Índio de São Paulo

SP/RR/PA 1978

CTI Centro de Trabalho Indigenista SP/AP/MT/MA/TO/MS 1979

GAIN Grupo de Apoio ao Índio MS 1986

GRACI Grupo Recifense de Apoio à Causa Indígena

PE S.D

GRUMIN Grupo Mulher-Educação Indígenas

RJ S.D

GTME Grupo de Trabalho Missionário Evangélico

MT/RO/RS 1979

IAMÁ Instituto de Antropologia e Meio Ambiente

SP/RO 1989

INESC Instituto de Estudos Sócio-Econômico

DF 1989

ISA Instituto Socioambiental SP/DF/AM/PA/MT 1994

MAGÜTA Centro Magüta AM 1985

MAREWA Movimento de Apoio à Resistência Waimiri Atroari

AM 1983

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MARI Grupo de Educação

Indígena/USP

SP 1989

NCI Núcleo de Cultura Indígena SP/MT 1985

OPAN Operação Anchieta MT/AM/MR 1969

PETI/MN Pesquisa Estudo Terras Indígenas/Museu Nacional

RJ 1986

Fonte: Ricaro, 2004, p. 54-55

O surgimento dessas organizações, serviu como grande mobilização em favor dos direitos indígenas durante a constituinte que culminou com importantes conquistas na Consituição Federal de 1988.

O terceiro período denominado por Luciano de Indigenismo Governamental Contemporâneo, teve início após 1988. Período em que ocorreu a ampliação da relação do Estado com os povos indígenas, a partir da criação de diversos órgãos em vários ministérios com atuação direta com povos indígenas, quebrando a hegemonia da FUNAI como órgão titular e absoluto da política indigenista. Várias ações indigenistas, antes centradas na FUNAI, foram transferidas para outros ministérios, como por exemplo o caso da saúde indígena, que passou a ser responsabilidade do Ministério da Saúde, e a Educação Escolar Indígena que foi transferida para o Ministério da Educação.

Esse período foi marcado por uma série de importantes conquistas políticas e de direitos, dentre elas Luciano (2006) cita:

Ocorreu a ratificação de alguns convênios internacionais, como a Conveção 169 da OIT (Organização internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 2002. Agora a convenção determina o controle social e participação indígena nas instâncias decisórias, sobretudo nas que lhes dizem respeito (...) A Convenção também ajuda a superar um problema conceitual e de cidadania indígena, reconhecendo a categoria de povos aos índios, admitindo com isso o direito de autodeterminação sociocultural e étnica nos marcos do Estado brasileiro (desde que não signifique soberania territorial).

(Luciano, 2006, p.75)

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Além disso, essa foi uma época caracterizada pelo processo de redemocratização do país, o que trouxe uma maior abertura à participação indígena nos debates nacionais e na implementação de políticas de seu interesse.

Como afirma o estudioso, uma série de avanços ocorreu no diálogo entre o Estado e o povos indígenas. Apesar de ainda não estar expressa em lei, houve a superação teórica do princípio da tutela que foi representada pelo reconhecimento da diversidade cultural e da organização política dos povos indígenas.

Certamente, essas conquistas não podem ser vistas sem o foco histórico em razão dos avanços e rupturas que aconteceram e das contradições existentes dentro do movimento e das aldeias quanto às execuções das leis de fato.

Porém, o fato é que junto com as reivindicações de terras e saúde, a educação sempre foi pauta das lutas do movimento indígena e dessa busca temos a Escola Estadual Indígena Krukutu funcionando dentro da aldeia atualmente. Nesse contexto, o que essa escola representa para a comunidade?

4. Políticas públicas educacionais no estado de São Paulo destinadas aos