Capítulo III – Vozes Guarani
1. Protagonistas da história
No início de 2009, houve uma reunião na aldeia Krukutu para debater sobre educação escolar Guarani. Nela, estiveram presentes trinta indígenas de dez comunidades de quatro estados, entre lideranças e professores e caciques. Além de apontarem necessidades, esta reunião serviu como troca de experiências, para se discutir desafios e perspectivas do cotidiano escolar indígena nas aldeias Guarani do Brasil. (apud Santilli, 2009)
Trarei aqui algumas falas que achei interessante para a construção do entendimento sobre o significado da escola para o povo Guarani.
Sérgio Silva – Professor da aldeia Paraty Mirim.
Eu vim aqui a essa reunião e estou feliz, pois somos o povo Guarani.
Eu acho importante esse momento, pois eu acho que todos nós estamos preocupados. Primeiro eu quero lembrar que a luta dos povos indígenas, no caso a nível nacional, é coisa grande. Antigamente, eu me lembro, quando meu pai era ainda vivo, eles tinham uma organização, e todas essas histórias nós professores temos que coletar, pois é como uma memória para a gente, para que a luta dos que já foram não fique em vão. E vamos sempre valorizar o nosso nhande reko, Na época eu não acompanhava os movimentos, só na aldeia eu acompanhava algumas coisas. Tudo o que temos hoje, foi também graças à luta dos nossos líderes no passado. E os nossos xeramoi que
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seguem com as Opy, não podem ser abandonados por nós. É claro que todos nós que vivemos nas aldeias passamos por muitas dificuldades, sofremos para alimentar nossos filhos, sofremos preconceitos. Mas não é por isso que nós temos que desistir. Nós nhande temos que unir mais para ter forças, que nossos filhos não passem por tantas dificuldades como nós, para que seja mais fácil para os nossos netos. A questão da escola, quando falamos sobre educação, nunca fica de fora a nossa cultura, os nossos xeramoi. E tudo que conquistamos, os frutos que estamos colhendo é da luta deles.
Jerá Poty Mirin (Giselda Pires de Lima) – Professora da escola Gwyra Pepó (Asa de pássaro) - SP
A grande preocupação é de como fazer, como caminhar, como modelar e estruturar a questão da educação indígena, ou seja, ela é uma escola diferenciada, guarani, como outras, xavante, ou terena, e este molde de educação diferenciada, guarani, como outras, xavante ou terena, e este molde de educação diferenciada tem que atender alguns requisitos da Secretaria de Ensino. A educação diferenciada que a gente tem no estado de São Paulo é uma coisa muito confusa ainda, essa estrutura é muito recente.
As lideranças começaram a se mobilizar e se reunir pela educação, isso começou em 95. E a reivindicação principal na época era que a educação guarani deveria ser feita na aldeia, justificada pela seguinte questão: que os professores que deveriam atuar nas escolas guarani tinham que ser feita na aldeia, justificada pela seguinte questão:
que os professores que deveriam atuar nas escolas guarani tinham que ser guaranis, e sendo assim teriam condições de melhor atender as crianças dentro das comunidades, trabalhariam melhor a questão do fortalecimento cultural e a questão do bilinguismo, e quem teria a capacidade de atuar melhor por estes dois caminhos seriam os próprios professores guarani. (...)
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A educação indígena é coisa nova, e talvez por isso, há muitas divergências de ideias de como fazer essa educação, ideias muito diferentes. Algumas lideranças e caciques acham que a escola indígena deve apenas discutir o mundo Juruá, para formar crianças que possam mais para frente ir para as universidades e serem bem sucedidas. Eu vejo a escola de Juruá assim: como aquela coisa que você põe um pedaço de carne dentro, roda e sai carne moída, juruaíkurey (os filhinhos dos brancos) chegam ali com seus sonhos, com seus pensamentos, com seus ideais e quando ela entra na escola ele é transformado igualmente, como uma coisa só. E os Juruá devem estudar bastante para ter competência, para entrar no mercado de trabalho. E a gente na aldeia, não podemos pensar assim, não queremos que todos virem médicos, advogados e saiam da aldeia (...) Jerá
Marcos dos Santos Tupã – liderança coordenador educacional do CECI, Aldeia Krukutu – SP.
Eu não vou falar muito, mais tenho algo a dizer sobre educação. A educação bilíngue para a gente é uma coisa muito boa, porém para professores Juruá tem material didático de português, história, geografia, ed. física. Enquanto para gente não tem. Mais a escola é muito importante para que os alunos possam conhecer as lei Juruá, para às vezes eles nos protegerem, para lutarem por nós como os Jurua Kuery. E agora que tem tanta coisa, como os problemas das terras, as novas leis... é por isso que nós precisamos estudar.
Manoel da Silva Vera – Aldeia Krukutu – SP
A gente tem que valorizar a escola por que ela foi criada para a gente não ter que sofrer discriminação na escola de Juruá, para gente construir uma escola ideal. E hoje tem muitas historias escritas sobre os
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Guarani, desde jesuítas e a ideia de juntar todo esse material é interessante, por que tem livros que falam das localidades dos Guarani, que falam das lutas das nossas lideranças, então é importante para gente.
A gente tem que saber lidar com as coisas de Juruá, as tecnologias que vem, devemos saber como usar de forma positiva algumas delas. E nós devemos falar bem o português e ao mesmo tempo saber escrever na nossa própria língua. Quanto ao material didático, eu acho que as escolas, que os computadores, mesmo que seja um pouquinho, acho que cada um escrevendo a sua ideia e depois juntar com as das outras pessoas, vai dar certo para fazer material didático, que vai valer tanto para língua guarani quanto para língua portuguesa.
Durante a pesquisa, conversei com diferentes atores do processo de escolarização, dentre eles, os professores Jurandir e Sérgio, a vice-diretora Cora e o presidente da associação Nhe’é Porã Olívio Jekupé.
Para ampliar meu campo de estudo e contemplar os objetivos dessa pesquisa, busquei informações na aldeia Tenondé Porã com a professora Giselda Pires (Jerá) assim como com o cacique Timóteo, além disso, participei de reuniões na aldeia do Jaraguá na qual tive a oportunidade de conversar com as professoras Márcia e Poty Porã. Busquei ainda informações com a coordenadora pedagógica da Diretoria Sul 3, Lélia, encarregada pelas escolas indígenas de Parelheiros.
Ao longo da pesquisa se fez perceptível a rede de parentesco entre os funcionários das escolas indígenas Krukutu e as do Jaraguá pertencentes à família núcleo de Dona Jandira. Cora (vice-diretora da Krukutu) é “irmã” de Márcia (Jaraguá) e ambas são primas de Marcos Tupã (Liderança da Krukutu), filhas de Jandira (cacique da aldeia Ytu - Jaraguá) e primas de Jurandir Martins (professor da Krukutu).
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