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ENSINO FUNDAMENTAL

2.1 Processos identitários

Vivemos em uma sociedade altamente letrada e multifacetada, assim o sujeito tem de construir sua(s) identidade(s) (HALL, 2006) para nela se inserir em cada uma de suas faces. Independente do meio social, a inser- ção do sujeito se consolidará se ele for letrado o suficiente para se rela- cionar com os demais sujeitos e compreender as demandas sociais por meio do letramento.

Assim, atualmente, o sujeito é mais um ser metacognitivo discursivo do que matéria física; que sofre e age, constantemente, sobre dois princí- pios que regem o nosso cotidiano. O primeiro é coletivo, formado pela sociedade e suas estruturas organizadas e articuladas entre os proces- sos ideológicos construídos ao longo de nossa evolução cultural e nem sempre representa a coletividade. O segundo é individual e está direta- mente relacionado ao sujeito que, para agir no social, precisa letrar-se e constituir sua personalidade.

De acordo com Street (2007, p. 466), “quaisquer que sejam as formas de leitura e escrita que aprendemos e usamos, elas são associadas a determi- nadas identidades e expectativas sociais acerca de modelos de compor- tamento e papéis a desempenhar”. Para melhor constatar essa afirmação de Street, devemos refletir sobre o letramento em dois aspectos como ele é compreendido no campo discursivo ideológico social. O primeiro se refere ao uso e aos significados que o letramento assume em diferentes sociedades, tornando se semelhante aos usos e significados do conceito de pessoa, a partir de estruturas ideológicas visíveis. O segundo aspec- to, refere-se a uma relação fundamental entre os campos ideológicos de pessoalidade e letramento. Dessa forma, o que define o sujeito enquanto pessoa, com seu conjunto de valores, morais e éticos, é o próprio sujeito em contextos culturais específicos, que são constituídos e representa- dos pelas práticas de letramentos em que está submetido.

Assim, podemos afirmar que o letramento desenvolve no sujeito habili- dades formativo-discursivas que o constituíram enquanto sujeito socio- cultural. Street elucida esse pensamento da seguinte forma:

[...] acabaram por associar letramento com a ideia de uma pessoa plenamen- te humana, brilhando em contraste com o espaço escuro do “analfabetismo”.

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Eu gostaria de sugerir que isso é característico dos modos como letramento e pessoalidade estão interligados em diversos discursos culturais e serve para nos lembrar que a aquisição do letramento envolve mais do que habilidades meramente técnicas. (STREET, 2007, p. 468-469).

Magalhães (2012) analisa o processo de formação identitária por meio das práticas de letramentos no contexto educacional brasileiro, e desta- ca que depende da compreensão dos múltiplos discursos existentes nos “eventos de letramentos”; discursos esses que são representações de práticas sociais. Ressaltamos que há vários “eventos de letramentos” interagindo na formação de um sujeito nas diversas agências de letra- mentos. A escola recebe, em um mesmo período, ou ainda, na mesma sala, estudantes das mais diferentes camadas sociais, que compreen- dem sua condição social como sujeitos e que lutam para sobreviver nessa sociedade heterogênea. O mesmo acontece com os professores. Então, a escola é um ponto de tensão nas relações discursivas ou interdiscursi- vas existentes na sociedade; e essa tensão se agrava ainda mais quando a escola, em suas práticas de ensino, nivela toda essa heterogeneidade social com atividades educacionais homogeneizadoras.

Dessa forma, a reflexão proposta por Magalhães (2012) vai além do letra- mento, da intertextualidade e das práticas sociais. Por meio das aborda- gens dessa autora o trabalho de intervenção pedagógica tem como base a formação de uma visão crítica na perspectiva do letramento ideológico, para que os estudantes possam agir enquanto sujeitos ativos e, assim, formar concepções sobre a sociedade a partir das quais irão formar ou transformar sua(s) identidade(s) sociocultural(is).

Com o objetivo de subsidiar o estudo sobre a formação de identidade cultural, essa proposta também se embasou em Hall (2006), que aborda como ocorre o processo de (trans)formação da(s) identidade(s) de um sujeito na sociedade pós-moderna. Segundo ele, nenhuma identidade é singular. É, na verdade, atravessada pelo “jogo social”; vários fatores contribuem para a formação identitária, que podem mudar de acordo com o contexto:

[...] a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é às vezes descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade de classe para uma política de diferença. (HALL, 2006, p. 21).

Assim, para se tornar mais atrativa e fazer sentido na formação socioedu- cacional, cultural e política dos estudantes, a educação precisa abordar temáticas que os levem a uma reflexão sobre a sociedade em que eles a constituem. A escola não pode fazer uso de práticas homogeneizado- ras excludentes para atender ao sistema. Essa intervenção pedagógica orientada pelas produções dos autores acima mencionados oportunizou aos estudantes participantes um espaço para compreenderem como se

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estrutura a sociedade e se verem enquanto sujeitos socioculturais dota- dos de identidade(s) a partir dos gêneros textuais trabalhados.

Com os pressupostos defendidos por Kleiman (2007) aprofundamos as reflexões sobre o letramento na formação para o social, sendo que todos os segmentos da sociedade: escola, família, religião, clubes, trabalho, grupos de amigos, entre outros, constituem-se em agências de letramentos. Isso é, todo conhecimento letrado desenvolvido a partir da interação social torna-se um evento de letramento. Segundo a auto- ra, professores priorizam, nas escolas, o trabalho com o conhecimento científico e acadêmico em detrimento ao conhecimento produzido nas relações sociais cotidianas. A partir dessa afirmação, temos o posicio- namento identitário do professor, em sua maioria, marcado pelo assu- jeitamento, pela formação discursiva alienada à ideologia hegemônica, pelas relações de poder e pela formação de um inconsciente imaginário que ciclicamente reproduz todo o sistema social e educacional pensa- do pela elite dominante.

De acordo com Kleiman (2007) “os agentes de letramento” são os agentes sociais, têm objetivos e todo conhecimento por eles articulados são volta- dos para a perspectiva da formação social. Estão presentes na maioria das agências de letramentos, quanto mais engajados em movimentos sociais, melhor compreendem os contextos sociais, político e econômico em que estão inseridos; e têm um posicionamento definido e marcado pela sua condição social e a necessidade de transformar a realidade que vivenciam. O sujeito deve formar ou transformar suas identidades – social, profissio- nal, cultural, entre outras – que, mesmo no caso dos estudantes, formam- -se para abrir espaço à discussão e à reflexão dos problemas que fazem parte do cotidiano, para que, a partir de suas vivências, formem opiniões sobre situações problemas locais, nacionais e até mesmo globais. Hall, ao discutir o conceito de “deslocamento das sociedades” proposto por Ernest Laclau, afirma que “a fragmentação ou pluralização de identida- des” ocorrem devido ao jogo e do dinamismo das sociedades.

Dessa forma, cabe à escola, como agência de letramento, propiciar aos estudantes momentos que os levem a refletir sobre o orquestramento ideológico alienante posto no jogo das relações sociais. Assim, propiciar as condições necessárias para que se letrem, reconhecendo e valorizan- do suas origens socioculturais.