3.2 MODELO BIOECOLÓGICO DE DESENVOLVIMENTO
3.2.1 Processos Proximais
Como dito anteriormente, a evolução da teoria bioecológica está fortemente presente nas características biológicas dos indivíduos em desenvolvimento, contudo não limita apenas às características genéticas a responsabilidade do desenvolvimento, mas também as características ambientais, que relacionadas com a hereditariedade, são determinantes para o processo desenvolvimentista (STEFANELLO, 1999).
Segundo Bronfenbrenner e Ceci (1994), o modelo bioecológico tem a possibilidade da avalição dos chamados processos proximais; serve como estrutura conceitual que analisa a variação da transferência genética como uma relação entre os processos proximais e as características ambientais em que ocorrem; o modelo trata a herdabilidade como uma função resultante em desenvolvimento; o modelo utiliza a variação da herdabilidade como funcionamento do desenvolvimento levando em consideração as características genéticas de cada indivíduo; estabelece não só a contribuição da hereditariedade no desenvolvimento, mas também o potencial não desenvolvido de cada indivíduo.
Logo, as influências externas acabam por se tornar internas, por meio dos estímulos oriundos do contexto, mas como esse indivíduo também influência o ambiente, as características internas passam a transformar o externo (STEFANELLO, 1999). Esse desenvolvimento duplo prova que o potencial genético, não é passivo, mas ativo, que contém características de atenção, ação e resposta (BRONFENBRENNER; CECI, 1994).
Mas essa transformação de genótipos em fenótipos não ocorre de maneira simples, fácil e rápida, são necessárias algumas ferramentas conectoras do interior com o exterior, estimulando o potencial humano. Estas ferramentas ou mecanismos são os denominados processos proximais, caracterizados como processos de duas vias, ocorrendo ao longo do tempo, não de forma instantânea (BRONFENBRENNER; CECI, 1994; STEFANELLO, 1999).
Especialmente em suas fases iniciais e, em grande medida, ao longo da vida, o desenvolvimento humano ocorre através de processos de interação reciprocidade progressivamente mais complexa entre um organismo humano biopsicológico ativo e em evolução e as pessoas, objetos e símbolos em seu ambiente imediato. Para ser eficaz, a interação deve ocorrer em uma base bastante regular durante longos períodos de tempo. Tais formas duradouras de interação no ambiente imediato são referidas daqui em diante como processos proximais. Exemplos de padrões duradouros desses processos são encontrados em atividades de pais e filhos, jogos em grupo ou solitários, leitura, aprendizado de novas habilidades, resolução de problemas, execução de tarefas complexas e aquisição de novos conhecimentos e técnicas (BRONFENBRENNER; CECI, 1994, p.572).
Os processos proximais são os mecanismos utilizados para potencializar o funcionamento psicológico pelos potenciais genéticos humanos, ocorrendo em um determinado ambiente ao longo do tempo (BRONFENBRENNER; CECI, 1994;
BRONFENBRENNER e MORIS, 1998). Como são concebidos como motores fundamentais para o desenvolvimento, os processos fundamentais são alimentados por algumas forças dinâmicas (BRONFENBRENNER; CECI, 1994; STEFANELLO, 1999).
Assim, os processos proximais são os mecanismos de estímulo do potencial genético, objetivando o desenvolvimento psicológico efetivo, diferenciados pelas características da pessoa (biologicamente baseadas), pelo ambiente (desde os mais proximais até os mais distantes), pela natureza dos objetivos de desenvolvimento e pela longa duração (BRONFENBRENNER; CECI, 1994; BRONFENBRENNER; MORIS, 1998; STEFANELLO, 1999).
Ao se analisar as relações entre interações e os ambientes, podemos perceber que as interações podem ser analisadas como processos e os ambientes como os locais onde esses processos correm (BRONFENBRENNER; CECI, 1994; BRONFENBRENNER; MORIS, 1998; STEFANELLO, 1999). Podemos entender, assim, a relação duradoura entre dois colegas de equipe, como um processo, já o comportamento de outras pessoas com relação a essa interação pode ser considerado como ambiente. No modelo bioecológico, há também a diferenciação entre o ambiente mais imediato (sala de aula, igreja, família, equipe de treinamento) e os ambientes mais amplos que inserem o imediato (escola, religião, classe social e cultura) (BRONFENBRENNER; CECI, 1994; STEFANELLO, 1999).
Para que esses processos estimulem o desenvolvimento, com efetividade, é necessário que as atividades aconteçam regularmente, durante um largo período de tempo, ininterruptamente e evoluindo no seu nível de complexidade (STEFANELLO, 1999; BRONFENBRENNER; MORIS, 1998).
A multidirecionalidade dessas atividades é um dos fatores primordiais para o desenvolvimento através dos processos proximais, pois envolvem a troca de energia entre o indivíduo e seu ambiente, se desenvolvendo pela interiorização das características ambientais e estimulando as pessoas, objetos e símbolos, componentes desses ambientes (BRONFENBRENNER; EVANS, 2000; STEFANELLO, 1999).
A influência que a criança tem com relação ao ambiente vai mudando no decorrer do tempo. Primeiramente, seu potencial de intervenção nos anos iniciais estão limitados as suas expressões emocionais, mas os pais têm um potencial maior de mudar o ambiente, por meio da inserção em atividades e da interação com novas
pessoas, objetos e símbolos (STEFANELLO, 1999; BRONFENBRENNER; MORIS, 1998). Quando falamos de pessoas em desenvolvimento com idades mais avançadas, a interação entre pessoas passa a ser natural, os relacionamentos entre indivíduos formam uma base regular de interação temporal, que correspondem a processos proximais (STEFANELLO, 1999; BRONFENBRENNER; MORIS, 1998).
Ao se falar dos processos e seus resultados, podemos separá-los em dois tipos. O primeiro é da competência, que segundo Bronfenbrenner e Moris (1998), é a aquisição e desenvolvimento de habilidades, conhecimentos ou a capacidade de direcionamento do comportamento em diversas ocasiões de desenvolvimento, ocorrendo muitas vezes em apenas um domínio ou em uma combinação de esferas de atividades (intelectual, físico, artístico, motivacional, socioemocional).
Já a disfunção (segundo tipo de resultado) é vista pela dificuldade de controlar o comportamento e de integrá-lo a situações e domínios do desenvolvimento diferentes (BRONFENBRENNER; MORIS, 1998).
Assim, podemos imaginar o que faz a diferenciação no processo proximal para resultados distintos. Em ambientes desorganizados e desfavoráveis, há uma recorrência maior de disfunções, já em ambientes organizados e favoráveis, as disfunções ocorrem com menor intensidade e frequência, caracterizando a importância do contexto, com seus componentes, na relação dos processos proximais e o desenvolvimento (STEFANELLO, 1999).
Bronfenbrenner e Evans (2000) defendem que a exposição também é um fator de extrema relevância na interferência dos processos proximais no
desenvolvimento. Para os autores, exposição é a “extensão do contato mantido
entre a pessoa em desenvolvimento e os processos proximais em que essa pessoa
se envolve” (BRONFENBRENNER; EVANS, 2000, p.118).
Assim, a exposição sofre variação de acordo com cinco dimensões: duração (baseado em quanto tempo é o período de exposição), frequência (a periodicidade das sessões), interrupção (é a frequência das interrupções durante a exposição), momento da interação (ao dar resposta aos estímulos gerados pelos indivíduos em desenvolvimento, pode-se auxiliar ou perturbar o desenvolvimento do comportamento auto-regulador) e intensidade (é a força da exposição). Logo, quando a exposição aos processos proximais acaba sendo breve, com baixa frequência, altamente interrompida, com respostas em momentos errados e baixa
força, há uma alta probabilidade que os resultados sejam danosos para o desenvolvimento (BRONFENBRENNER; EVANS, 2000).
A forma, o poder, o conteúdo e a direção dos processos proximais que afetam o desenvolvimento variam sistematicamente como uma função conjunta das características da pessoa em desenvolvimento, do ambiente - tanto imediato quanto mais remoto - em que os processos estão ocorrendo, e as continuidades e mudanças sociais que ocorrem ao longo do tempo durante o curso da vida, e o período histórico durante o qual a pessoa viveu; e, claro, a natureza dos resultados de desenvolvimento em consideração (BRONFENBRENNER; EVANS, 2000, p.118).
Dessa maneira, os autores expressam que essas dimensões afetam diretamente o desenvolvimento humano, mas, aliadas aos processos proximais e sua força, as características da pessoa em desenvolvimento são fatores fundamentais para que esse ocorra.