2.2 TALENT DEVELOPMENT ENVIRONMENT QUESTIONNAIRE FOR SPORT
2.2.3 O TDEQ
Com intuito de evolução na análise dos fatores determinantes no ambiente de desenvolvimento esportivo, em 2010, Martindale et al., publicaram o desenvolvimento do Talent Development Environment Questionnaire para o esporte. Este questionário tem como objetivo ser uma ferramenta de monitoramento eficiente para a análise do ambiente de desenvolvimento do talento esportivo, considerando os objetivos do ambiente e as características individuais do atleta (MARTINDALE et al., 2010).
Após a revisão feita por Martindale et al. (2005) e a aplicação prática de
Martindale et al. (2007), surgiram novas quatro categorias fundamentais: “objetivos e
métodos de longo prazo; mensagens e apoio abrangentes e coerentes; uma ênfase
no desenvolvimento não inicial ‘sucesso’; e desenvolvimento individualizado e
contínuo” (MARTINDALE et al., 2010, p.1211). A partir do processo descrito
anteriormente, surgiram 135 itens relevantes para compor o questionário (MARTINDALE et al., 2010). Passando por um painel de especialistas em psicologia do esporte e responsáveis formais para o desenvolvimento esportivo no Reino Unido, formadores da segunda forma de validação, foi reduzido o número de itens para 106 (MARTINDALE et al., 2010). Como terceira forma de validação, dois grupos de atletas em formação preencheram anonimamente o questionário e participaram de sessões de discussão, atribuindo grau de maior ou menor relevância para os temas propostos, retirando itens repetitivos e ambíguos, e o questionário foi finalizado com o número de 68 itens (MARTINDALE et al., 2010).
Após um teste de análise fatorial exploratória com 590 atletas em formação,
de múltiplos esportes, homens e mulheres e com uma faixa etária ampla (13 – 20
anos), as comprovações estatísticas expuseram que nove itens deveriam ser excluídos com resultados baixos ou cruzados, sem perda alguma no objetivo do questionário (MARTINDALE et al., 2010).
Com as reformulações feitas, um novo estudo piloto de confiabilidade foi desenvolvido com os mesmos participantes do teste anterior, que comprovaram a fiabilidade do uso desse instrumento para futuras aplicações ou para análises reais do tema pesquisado (MARTINDALE et al., 2010).
Como consequência da análise fatorial, houve a redução para 59 itens, mas também houve mudanças claras nos fatores influentes de análise (MARTINDALE et al., 2010). Como dito anteriormente, os estudos prévios dos autores ressaltavam quatro fatores num patamar de maior importância para a temática, mas as análises fatoriais e os painéis de especialista desmembraram certos itens e criaram novos, objetivando uma análise mais direta do atleta e de seu ambiente desenvolvedor. Isso resultou em sete fatores: foco no desenvolvimento a longo prazo; preparação de qualidade; comunicação; entendendo o atleta; rede de suporte; ambiente desafiador e de apoio; fundamentos de desenvolvimento de longo prazo (MARTINDALE et al., 2010).
O primeiro fator, denominado “foco no desenvolvimento a longo prazo”, trata de analisar até que ponto as possibilidades de evolução ofertadas aos atletas estavam especificamente focadas em auxiliar o desenvolvimento de longo prazo dos mesmos (MARTINDALE et al., 2010). Horn (2015) afirma que o ambiente estruturado e focado no desenvolvimento a longo prazo deve ser um fator a ser analisado para evitar essa especialização precoce, que comprovadamente traz uma série de malefícios ao atletas em desenvolvimento.
Outros pontos analisados por esse fator tratam habilidades psicológicas, atitudes e compreensões fundamentais para o desenvolvimento, sendo esses
elementos diretamente relacionados à “responsabilidade, dedicação, habilidades de
enfrentamento e compreensão” (MARTINDALE et al., 2010, p.1215).
Com relação ao fator “preparação de qualidade”, este analisa como as
experiências de treinamento, recuperação e competições são reforçadas e fornecidas por meio de orientações e oportunidades, objetivando a prática preparatória de qualidade (MARTINDALE et al., 2010). Essas práticas devem auxiliar a preparação do atleta em formação, e são oferecidas por meio da qualidade na estrutura do treinamento, definição de metas, oportunidades de repetição, feedback, participação em competições de qualidade e recuperação, evitando a sobrecarga de treinamento e de jogos, o desgaste e a desmotivação (MARTINDALE et al., 2010). O reforço das ações positivas e a análise das ações malsucedidas devem ser trabalhadas e analisadas de maneira a auxiliar os treinamentos, para obter um desenvolvimento do talento com qualidade (COYLE, 2010).
O terceiro fator aparente na análise de Martindale et al. (2010) é a
“comunicação”, diretamente ligado à relação técnico e atleta, que analisa como o
treinador se comunica com o jovem em ambientes formais e informais, “mais
especificamente, a natureza do estabelecimento de metas, revisão e feedback, planejamento do desenvolvimento e ênfase na progressão para o nível sênior foram
considerados importantes” (MARTINDALE et al., 2010, p.1215). Logicamente é
inegável a importância do treinador para o desenvolvimento do atleta, pois são uns dos poucos atores que se destinam a orientar os atletas de maneira técnica e psicológica (SHERWIN, 2016).
“Entendendo o atleta” é o quarto fator presente em Matindale et al. (2010).
Ele analisa como o atleta se vê compreendido holisticamente pelo seu treinador, a partir do relacionamento desenvolvido entre os dois, pois compreender o atleta, sua
natureza individual, valores, autopercepção, objetivos, autonomia e expectativas, são fundamentais em uma progressão vitoriosa (MARTINDALE et al., 2010). Neste ponto, podemos analisar a perspectiva de Coyle (2010), que em sua busca pelo desenvolvimento do talento, apresenta que os treinadores e professores das academias e escolas que visitou, não eram generais e nem reis e rainhas, na sua maioria eram pessoas, mais velhas, focadas e preparadas para realizar ajustes pequenos nos erros dos seu alunos, mas que, principalmente, ouviam muito mais que falavam, quando falavam, pareciam saber o que a personalidade de cada atleta precisa escutar .
Quinto fator considerado determinante no ambiente é a “rede de suporte”,
compreendida a partir da maneira como o atleta é auxiliado por uma rede de apoio emocional, perceptível, e informativo, estando de maneira acessível, abrangente e coerente para o atleta (MARTINDALE et al., 2010). A rede multidisciplinar de trabalhadores como treinadores, psicólogos, nutricionistas, fisiologistas e muitos outros, que trabalham diretamente no auxílio ao desenvolvimento esportivo, é uma das ferramentas principais para o controle do ambiente por parte da instituição esportiva (GLEDHILL et al., 2017).
O “ambiente desafiador e solidário” aparece na medida em que há um
ambiente competitivo e repleto de desafios, mas com a solidariedade de auxílio entre os componentes do ambiente (MARTINDALE et al., 2010). Os autores também
relatam a importância do controle sobre esse ambiente desafiador, pois, “como em
qualquer oportunidade de desenvolvimento, os desafios podem ser facilitadores ou
debilitantes dependendo de como eles são tratados” (p.1216), podendo servir como
desestimulador para o jovem praticante. Para Collins et al. (2016) um plano periodizado e progressivo, onde os desafios objetivem habilidades especificas, parece ser altamente contribuinte para o sucesso, pois se tem a importância da preparação dos atletas para a resolução dos desafios, e a avaliação e as reflexões devem ser de maneira positiva, para assim evitar o desestìmulo.
O último fator levantado pelos autores é “fundamentos de desenvolvimento
de longo prazo”, relacionado com o alcance em que as características principais das
instituições, para um desenvolvimento contínuo, são empregadas. “Oportunidades
contínuas, evitar a especialização precoce, o apoio dos pais e a autonomia do atleta”
(MARTINDALE et al., 2010, p.1216) são algumas características importantes que as instituições devem ter. Os atletas devem se envolver nas decisões de futuro a longo
prazo e os familiares tem papel importante nessas decisões, então não se deve exclui-los das características fundamentais de desenvolvimento, deixando a reflexão de como as instituições podem utilizá-los de maneira positiva (MARTINDALE et al., 2010).
Esse último fator é o ponto sobre o qual encontramos mais referências cruzadas com outros autores, já que pais, amigos, irmãos e outras pessoas são diretamente participantes dessa rede (CÔTÉ, 1999; COYLE, 2010; GLEDHILL et al.,
2017; MORLEY; BAILEY, 2016; SIEKAŃSKA, 2012). Os familiares são influentes
desde as atividades ofertadas, até as possíveis escolhas de futuro (CÔTÉ, 1999;
SIEKAŃSKA, 2012), e irmãos e amigos são pessoas altamente importantes nas
atividades lúdicas e de estilo de vida dos atletas (COYLE, 2010 ; MORLEY; BAILEY, 2016).
Com isso posto, os autores reconhecem algumas limitações no instrumento elaborado por eles, mas também destacam que o mesmo é importante como modelo avaliativo formativo do ambiente, trazendo reflexões e melhoras contínuas para os gestores das instituições esportivas (MARTINDALE et al., 2010).
Em 2012, Martindale et al. publicaram o teste de validade ecológica do questionário elaborado por eles. Foram analisadas dez instituições ou ambientes,
separadas em qualidade “superior” e “inferior”, com 99 atletas, com idades entre 11
e 21 anos (MARTINDALE et al., 2012).
Entre os resultados, a maior discrepância estatística entre os níveis de ambiente ficaram entre os fatores 2 e 4 (Preparação de Qualidade e Compreendendo o Atleta), mas Martindale et al. (2012) ressaltam uma possível falha na seleção dos contextos, pois todos eram fomentados pelos órgão governamentais
nacionais, tornando os ambientes de qualidade “inferior” não tão inferior assim, “mesmo assim, os resultados demonstram que o questionário tem boa validade ecológica e, como tal, pode ser usado com mais confiança” (p. 45).
Com essa comprovação existente da validade do questionário, vários pesquisadores começaram a sua aplicação. Vamos revisar alguns trabalhos que continham o TDEQ como instrumento de pesquisa e seus resultados no próximo ponto.