SUMÁRIO
2.1 Produção e comunicação científicas
A ciência, para se efetivar, precisa ser comunicada e para alcançar esse objetivo os cientistas desenvolvem sua produção científica. Meadows (1999) explica que a comunicação científica está intrinsecamente relacionada ao próprio conceito de ciência e às justificativas para a alocação de recursos em seu desenvolvimento.
Pode-se afirmar que a produção científica iniciou-se com os gregos antigos e suas reuniões na Academia para debates filosóficos, os quais culminavam com produção científica falada ou escrita. A produção científica escrita era caracterizada por manuscritos copiados repetidas vezes, os quais influenciaram os demais continentes quando da invenção da imprensa por Gutenberg no século XV. Esse contexto influenciou o surgimento dos primeiros periódicos, pois foi na Londres do século XVII que cientistas se reuniam para debater questões filosóficas e sentiram a necessidade de registrar as discussões e seus resultados; e isso levou ao surgimento do primeiro periódico científico, o Royal Society, em 1662 (MEADOWS, 1999).
Meadows (1999) explica que a necessidade social de apoiar as pesquisas científicas em conhecimentos anteriores foi a propulsora do desenvolvimento da comunicação científica. Essa ideia, segundo o autor, pode ser expressa pela metáfora “se enxerguei mais longe foi porque me apoiei nos ombros de gigantes”, cujo sentido relativo à produção científica é atribuído a Isaac Newton.
A metáfora “apoiar-se nos ombros de gigantes” pode estabelecer as relações sociais construídas pelos cientistas como a base do desenvolvimento da comunicação científica, em virtude da necessidade de aprovação pelos pares cientistas dos resultados de pesquisas publicados, o que demonstra o objetivo da ciência em obter consenso no maior número de áreas temáticas (MUELLER, 2000).
A busca pela autoridade científica, nos termos de Bourdieu (1983), transmuda o caráter inicialmente privado da ciência para caracterizá-la como competitiva e produtiva, transformando a produção científica em uma atividade social com o intuito de obter resultados materiais ou simbólicos, o que pode ser observado até os dias atuais (LE COADIC, 2004).
Os ganhos simbólicos e materiais da atividade científica podem ser associados ao reconhecimento dos esforços individuais ou coletivos pelos demais agentes pertencentes à estrutura científica, e, dentre esses ganhos, estão o prestígio, a influência, o reconhecimento, os convites para compor bancas de avaliação etc., o que caracterizam a autoridade científica (BOURDIEU, 2003).
Em Leite e Costa (2007, p. 93) observa-se que a comunicação científica abrange desde a etapa de identificação de um problema a ser pesquisado até a apresentação e apreensão dos resultados pelos demais membros da comunidade científica, e compreendem fenômenos complexos como, por exemplo, as especificidades inerentes a cada área de conhecimento, os canais ideais para publicação e o impacto das tecnologias. Portanto, a comunicação científica pode ser definida como “[...] conjunto de esforços, facilidades, processos dinâmicos e complexos, consensual e socialmente compartilhados, por meio dos quais o conhecimento científico – em sua vertente tácita e explícita – é criado, compartilhado e utilizado”.
Nesse contexto, é importante recorrer a Bourdieu (2003) para compreender que toda a estrutura científica construída socialmente obedece aos requisitos estabelecidos pelos agentes que detém maior prestígio ou melhores posições administrativo-burocráticas nas instituições científicas ou tecnológicas, os quais direcionam os temas, os problemas, os canais de publicação dentre outros aspectos que envolvem a ciência, no sentido de manutenção do
status quo.
Em todo caso, a comunicação científica serve como abalizadora do processo e da estrutura científica, e pode ser de duas formas: um processo oral (informal) e um processo escrito (formal). O primeiro diz respeito às conferências, colóquios, seminários, nos quais os resultados das pesquisas são apresentados para debates com os pares; essa é a face pública da comunicação oral; a face privada da comunicação científica pode ser representada por conversas e mensagens entre os cientistas de forma não publicada. O processo escrito equivale aos livros, capítulos de livros, artigos publicados em periódicos científicos, papers apresentados em eventos (LE COADIC, 2004).
Desde os gregos antigos, a comunicação científica passou por diversas modificações, as quais não afetam tanto o mundo científico relativo às ciências ou humanidades, mas impactam sobremaneira a atividade dos intermediários da cadeia de informação – editoras,
bibliotecários, cientistas da informação – os quais têm como objetivo realizar a ponte entre o sujeito e sua informação (MEADOWS, 1999).
Destaca-se o impacto dessas transformações relacionado às bibliotecas, pelo importante caráter histórico que essa instituição possui do ponto de vista da organização e disponibilização da informação. Em Sandler (2006), tem-se que as transformações parecem ser naturais e necessárias e, nesse sentido, as bibliotecas e seus profissionais vêm se adaptando e compreendendo que essas transformações mais do que quantitativas em termos tecnológicos, são qualitativas, visto seus reflexos nas relações sociais, econômicas, políticas e culturais.
Pode-se afirmar que a maior parte da produção científica e tecnológica nacional está vinculada às universidades e, mais especificamente, aos Programas de Pós-Graduação (PPGs), cujos incentivos vêm, em grande medida, de investimentos públicos do governo federal, o qual estabelece o quadro da pesquisa e da ciência por meio de suas agências de fomento (BALBACHEVSKY, 2005; MUELLER, 2008; MUGNAINI, 2011).
Essa produção – artigos científicos publicados em periódicos avaliados pelos pares, livros e capítulos de livros, produção artística e cultural, bem como papers apresentados em eventos científicos – apresenta peso diferenciado para cada área de conhecimento, as quais buscam priorizar diferentes canais de publicação, em alguma medida, considerando a natureza de suas pesquisas. Em relação à produção tecnológica, as patentes são seu produto mais visível e compreendem um direito concedido a uma invenção, por uma instituição oficialmente designada para essa tarefa (MUELLER, 2003).
A crise dos periódicos ocorrida no final da década de 1970 e início da de 1980 e descrita como a incapacidade de pessoas físicas e jurídicas em arcarem com os custos em constante elevação dos periódicos impressos, bem como as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), mais especificamente as tecnologias relativas à internet, trouxeram significativas alterações ao processo de comunicação científica, dentre as quais o advento dos periódicos eletrônicos e dos repositórios digitais de preprints, o que contribuiu para o surgimento da filosofia de acesso aberto (open access) (MUELLER, 2006).
Essa filosofia estabelece o direito ao acesso livre e gratuito aos resultados de pesquisas publicados, fomentados por agências públicas vinculadas às esferas estaduais e federais, e acarretou a proliferação de formatos de publicação, os quais, para serem utilizados, dependem da visão das instituições acadêmicas e dos pesquisadores quanto à relação custo/benefício (ALMEIDA; GUIMARÃES, 2013).
Apesar dos diversos canais de publicação científica existentes, os periódicos científicos indexados por importantes bases de dados ainda parecem ser os canais mais utilizados para a divulgação científica na maioria das áreas do conhecimento, o que levou a generalizações sobre quais os produtos científicos devem merecer destaque na avaliação da ciência e, mais especificamente, na avaliação do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) (MUELLER, 2006).
Recorrendo-se novamente a Bourdieu (1983), é importante ressaltar que o privilégio do tipo de publicação caracterizado como artigo em periódico científico pode estar relacionado ao poder adquirido por alguns agentes do campo científico que assim o entendem como o canal mais adequado para o desenvolvimento científico e tecnológico.
Em todo caso, os indicadores de produtividade relativos ao quantitativo de artigos publicados em periódicos científicos são tidos como importantes instrumentos para medição científica e utilizados na tomada de decisões quanto às políticas públicas nacionais, alocação de recursos públicos, bem como na estruturação e funcionamento institucionais (ALMEIDA; GUIMARÃES, 2013).
Portanto, é importante o conhecimento das nuances que englobam o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) e a dinâmica que o envolve como, por exemplo, os insumos e resultados relativos ao seu desenvolvimento e a avaliação empreendida pela Capes, com o intuito de obter dados que possam subsidiar os estudos métricos para a elaboração de indicadores, os quais podem ser úteis para traçar um quadro da ciência e tecnologia nacionais e contribuir para a gestão dos PPGs e das IES.