• Nenhum resultado encontrado

Mapa 2 – Distância entre as cidades de Fortaleza e Quixeramobim

2 ALGUMAS CONSTRUÇÕES METODOLÓGICAS

5.5 Produzindo desenhos e contextos de desenho animado

"Naquele momento Fabiano lhe causava grande admiração." "Evidentemente ele não era Fabiano. Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano." "E precisava crescer ficar tão grande como Fabiano, matar cabras à mão de pilão, trazer uma faca de ponta na cintura. Ia crescer espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de couro cru." "Ao regressar, apear-se-ia num pulo e andaria no pátio assim, torto, de perneiras, gibão, guarda-peito e chapéu de couro com barbicocho. O menino mais velho e Baleia ficariam admirados.” (Vidas Secas, Cap.5 - O menino mais novo, Graciliano Ramos.)

Lembremos que as crianças desenharam na argila para criar um boneco-criança. Assim elas nos indicam que o ato de criar uma obra de arte é desenhar. E foi com o desenho que elas criaram propostas para pensar desenhos animados que elas desejariam ver na TV.85 Comecemos por uma das nossas singularidades destacadas.

Figura 36 – Desenho animado de autoria de Vaqueiro

- Vaqueiro: O que criei foi o vaqueiro (olha para a cartolina) destemido. Causa que é uma coisa que eu gosto muito que é ficar com o gado. E o vaqueiro destemido é muito corajoso e valente. O primeiro episódio foi, é... O primeiro episódio que eu pensei foi ele indo atrás de um touro valente no mato, e o touro partiu encima dele, e ele laça um touro. (Mostra um sorriso e balança a cartolina.)

Percebamos aqui o desejo de criar um desenho a respeito de coisas que se gosta, com elementos que sejam próximos a realidade dele. Identificamos o território desse discurso com o do Assentamento Recreio. Esse é um exemplo da importância de se pensar políticas públicas de incentivo à produção nacional/regional, conforme nos indica Sampaio (2012).

Aqui se faz presente o agenciamento coletivo de enunciação que busca valorizar as coisas boas do campo. Com esse agenciamento, o assentamento Recreio também produz subjetividade. Se, conforme Félix Guattari (1999, 1992), a produção de subjetividade se constitui com elementos individuais, coletivos e institucionais, apontamos que o coletivo de pessoas do assentamento cria agenciamentos que buscam valorizar o campesinato com as conquistas e belezas do próprio Recreio. Certamente partilham desse agenciamento positivo, a associação, o Ponto de Cultura Criança Feliz e o MST, que são instituições que engendram esse complexo produtivo de subjetividade. Apontamos questões individuais do Vaqueiro que se relacionam com produções de subjetividades: sua paixão pelo gado, seu desejo de ser vaqueiro, chegando a parecer com o menino mais novo que admira o vaqueiro Fabiano, de Graciliano Ramos. E essa produção de subjetividade, no contexto de midiatização, pode produzir, como é este caso, propostas de desenhos animados singulares.

Já que nos aproximamos do fim desta nossa escrita de pesquisa. Então, dizemos que consideramos muito importante para nós perceber o agenciamento coletivo que busca valorizar as coisas do campo, especialmente as do Assentamento Recreio. Assim, com esse agenciamento deles foi possível que nos aproximássemos um pouco mais de alguns elementos que os co-pesquisadores gostam no dia-a-dia do campo, como a proximidade com a natureza, alguns trabalhos que os aproximam dos animais, os saberes sobre os processos de produção agrícola etc.

Figura 37 – Desenho animado de autoria de Parker

Parker disse que desenhara vários personagens: o super Parker, o homem rato e o homem de fogo. “Eles são os heróis que protegem de coisa de heróis maus...”

- Parker: Ah, sim. O superman, o super [Parker] é um homem que tem muita força. Ele... (Parker começa a ler a cartolina que está de “cabeça para baixo”) e sua fraqueza é um pedaço de queijo. (Mostra um largo sorriso.) O homem rato é um homem muito rápido em... Peraí. (Ele vira a cartolina para ver o que está escrito. E passa a ler com menos dificuldade, consequentemente.) E é inteligente. Planeja os planos e confunde os inimigos. O outro (aponta para o boneco amarelado), o homem de fogo (e volta a ler) voa e solta bolas de fogo para se proteger dos inimigos.

- Eu: e como vai ser o primeiro episódio?

- Parker: É... o super [Parker] vai segurar um prédio, e os outros vão tentar derrotar um inimigo que eu vou criar.

- Eu: E por que o prédio está caindo?

- Parker (mostra um sorriso, olha para cima e começa um pouco taciturno): Porque... sem querer, ele soltou um raio laser, aí caiu (ainda com os dentes a amostra do sorriso).

- Eu: Quem soltou o raio laser?

- Parker (aponta para o super Parker e diz): Ele o super [Parker]. - Eu: Ah, o super [Parker] é desastrado, também, é?

- Parker (larga gargalhada): É (e balança a cabeça afirmativamente).

O desenho criado por Parker dialoga com muitos outros desenhos animados, como Ben-10, Superman e Tartarugas Ninjas, por exemplo. Foi uma referência do herói que protege contra o mal. Nesse mundo fantástico da linguagem do desenho animado, que nos permite criar e inventar possibilidades muitas (PONCET, 19-?, SIQUEIRA, 1998), Parker se criou como super-herói. Por mais que o desenho de Parker pareça estar bem relacionado com animações comerciais, há uma ponta de desterritorialização com o destaque que assume a árvore do lado dos super-heróis. Por mais que a árvore não tenha surgido na fala de Parker, ela ocupa espaço considerável na cartolina. Cremos que essa ponta de desterritorialização pode vir a se reterritorializar no Assentamento Recreio.

Figura 38 – Desenho animado de autoria de Rute

- Rute: Ó, eu tenho que ler. Eu num decorei o nome do homem não. (Dá uma gargalhada e se vira para a cartolina, ficando de costas para a câmera.) - Vaqueiro: [Rute], com licença, deixa eu segurar. (Ele se abaixa e segura a cartolina.)

- Rute: Solta! Solta! (O tom de voz é rígido, principalmente o da repetição da ordem. E ela levanta a cartolina, indicando que não quer ajuda.) Obrigado pela sua ajuda. (Ela fala maquinalmente com os olhos na cartolina e tentando equilibrar a cartolina entre a parede e um batente da parede). Aqui é. (A cartolina cai. Naiara dá uma gargalhada alta. Rute responde com um sorriso aberto e tentando segurar a cartolina. Ela fica de lado para a câmera e começa a ler seus escritos.) Hutkyn Hood, o super motoqueiro, com atração nas duas rodas, já a te salvar. “Rute Ródi” é um motoqueiro muito descolado, atencioso, ligeiro, quando você... quando estão precisando dele. Um super herói. Isso acontece numa linda cidade nos Estados Unidos. Primeiro capítulo do desenho (largo sorriso no rosto. Ela fica de frente para a câmera.), a sua mãe vai fazer o café para ele merendar de manhã. Ele trabalha numa escola de motociclista. Assim, tipo auto-escola, né, de motos... E ele é um professor. E a mãe dele vai fazer o café de manhã, e sem querer, ela solta o fósforo queimado no chão, e aí começa a pegar fogo na casa. E ele salva a mãe dele. Aí desde esse dia, ele criou um poder dos cabelos dele que ele pode soltar fogo. Ele pode soltar fogo pelos cabelos.

Um exemplo da tensa relação entre Vaqueiro e Rute aqui foi expressa. Uma oferta de ajuda foi recebida quase como uma ofensa. É provável que experiências outras pudessem contextualizar melhor esse desentendimento entre os dois – no caso de Rute, sabemos que ela se sente preterida pelo Vaqueiro e pela mãe.

Esclareçamos uma relação que fizemos imediatamente: no dia anterior havia passado na TV Globo, o filme O motoqueiro fantasma. No qual o personagem se transforma numa caveira em que a cabeça pega fogo, tal qual a personagem desenhada por Rute. É certo que sua história para justificar a cabeça pegando fogo, é singular, e nada se relaciona com o filme. Mas a construção estética muito se aproxima: a moto com o motoqueiro pegando fogo na cabeça. Obviamente o agenciamento maquínico na confecção aqui foi muito diverso. Rute utilizou diversos lápis de cor e giz de cera para poder chegar à cor que desejara nos cabelos de fogo. Seu belíssimo desenho, mesmo que pequeno, custou-lhe um bom tempo de produção. Mas, de toda forma, o agenciamento maquínico com o corpo de representação d‟O motoqueiro fantasma foi perceptível.

Ademais, cremos que seja bem evidente que o discurso escrito e lido se assemelha muito a um discurso publicitário. “Hutkyn Hood, o super motoqueiro, com atração nas duas rodas, já a te salvar.” Cremos que, trabalhando um pouco mais no texto, seria perfeitamente plausível pensar em vender uma moto com um slogan semelhante. Ou vender um filme. Ou um desenho animado. Se pensarmos que o nome é estrangeiro, o lugar é uma “linda” cidade estadunidense, podemos mesmo pensar que se trata da publicidade de uma animação estrangeira, como a maioria dos desenhos que são exibidos nas TV‟s comerciais e públicas (SAMPAIO, 2012).

É importante nos atentarmos para os discursos coletivos de enunciação repetidos insistentemente nas TV‟s. Essa atividade foi proposta num território de criação. E algumas dessas criações, especialmente a de Parker, Carla e Rute nos parecem ser boa parte muito capturadas pelas megamáquinas capitalísticas, tanto dos desenhos animados estrangeiros, como de enunciações publicitárias – que obviamente não funcionam separadamente.

Atentemo-nos ainda para os papeis de gênero aqui expostos. A mãe faz o café- da-manhã. E o filho, homem, a salva. Rute foi a única menina que produziu um protagonista do sexo masculino.

Figura 39 – Desenho animado de autoria de Carla

- Carla: Eu desenhei o, o... o rato e o gato. É O rato, o gato e a sua dona. É... o gato não gosta do rato, porque ele... a Carla gosta mais do rato do que do... a Carla gosta mais do rato do que do gato. Do que mais dele. Então, ele tinha muita raiva, porque toda coisa que ele pedia a ela, ela não dava. Mas só que toda coisa que o rato pedia, ela dava. O gato era muito preguiçoso. E o primeiro episódio é que o rato tomava, é... escondia as coisas dele, ele tinha raiva. Aí, um dia, ele foi correr atrás do rato, aí eles foram para uma floresta. Aí se perderam. Aí o rato ia subir numa árvore, mas só que não deu certo. Aí, ele acharam uma casa.

Há aqui uma clara relação com o desenho animado Tom e Jerry (um gato e um rato que têm algumas características humanas e que brigam), bem como com a história de Chapeuzinho Vermelho (perder-se na floresta e achar uma casa). Percebamos que o território que permeia o enredo de Carla é uma floresta com árvores, flores, e animais

correndo. Carla, como dissera, na primeira oficina gosta de correr. Ademais, essa floresta parece se reterritorializar no próprio Assentamento Recreio.

Figura 40 – Desenho animado de autoria de Maiara e Naiara

- Maiara: O nome do nosso texto é (começa a ler) melhores amiga. Eu sou a Maiara, estudante, do cabelo preto, irmã da Naiara.

- Naiara: Eu sou a Naiara, estudante, cabelo castanho, irmã da Maiara. - Maiara: Nós estamos na escola. Pode dizer o primeiro capítulo? - Eu: Pode dizer.

- Maiara: A gente não se conhecia. Começou a se conhecer pela escola. Só que quando a gente se conheceu, descobrimos que era muito amigas. Cada uma tinha um pedaço de uma foto que era: ficava com a mãinha e ficava com o meu pai. Aí um dia, até que um dia, a gente foi obrigada a ficar num canto só e amostramos a foto uma a outra. Aí, quando a gente ajuntou dava uma foto só. Aí descobrimos que nós duas era irmãs (um grande sorriso no rostinho).

- Eu: E vai ser onde a escola?

- Naiara: No Assentamento... (tom interrogativo)

- Maiara: que a gente se conheceu. É assim, a gente estudava numa cidade. E a gente foi obrigada a passar as férias juntas porque tinha as cabines senhores (começa a rir muito e baixa a cabeça de tanto rir).

- Naiara: Uhumm.

- Maiara: Numa cabana só. A gente ficou no Assentamento Recreio (abriu um sorriso ainda maior).

(...)

- Maiara: Nós fizemos com esse vestido, porque cada uma comprou do gosto da outra.

- Naiara: E a razão das coroas, é porque a gente era princesa (mostra um largo sorriso).

Aqui, as meninas, dentro do campo de possibilidades da pesquisa-intervenção, decidiram autonomamente fazer juntas. Elas criaram uma nova história sobre suas amizades. Com mais coincidências, símbolos e laços sanguíneos. Maiara e Naiara mesmas identificam que o território é o Assentamento Recreio.

É interessante ainda notar que a Naiara é negra e tem o cabelo preto, mas sua personagem é branca e com o cabelo castanho. Mayara tem o cabelo preto e é mestiça, e sua personagem tem o cabelo preto e é negra. Indicamos que aqui é provável que Naiara tenha agenciado a enunciação coletiva que reforça estereótipos que subvalorizam características étnicas do negro (COSTA, 2007). E esse agenciamento faz parte de uma representação sua com certo “branqueamento”. Podemos apontar que o agenciamento maquínico de Naiara envolveu, pelo menos, a cartolina, os lápis de cor, as canetinhas, a sua representação e a representação do negro.

Maiara certamente também é cortada por esse agenciamento de enunciação coletiva e maquínico. Entretanto, ao singularizar, ela reterritorializa esse agenciamento numa composição que valoriza uma estética afro-descendente. Pensamos que essa relação de Maiara com elementos de belezas afro-descendentes foram expressos, nas oficinas aqui analisadas, pelo seu encantamento com a boneca Tiana, o seu relato sentimental sobre o desenho A princesa e o sapo, e, na construção da sua própria personagem com claro “empretecimento”. Ressaltemos, de toda forma, que ambos os belos produtos que Maiara demonstrou afeto e sentimento, respectivamente, são da marca Disney. Esse elemento nos faz indicar uma ponta de desterritorialização que se reterritorializa com outro agenciamento relacionado às megacorporações que produzem enunciações coletivas e maquínicas que, muitas vezes, envolve práticas consumistas. Lembremo-nos de que, na técnica de coisa de criança, havia outra linda boneca de pano preta (p. 85) – certamente de uma estética incomum, mas bastante colorida –, mas os desejos agenciados de Maiara compuseram a sua decisão na escolha da boneca Tiana, da Disney. Lembremos que Maiara preferiu a belíssima boneca industrializada negra tanto quando utilizou o tato, quanto quando fez uso dos sentidos visual, tátil e auditivo. Certamente a experiência estética anterior do desenho da boneca negra da Disney, Tiana (p. 84), compõe o complexo jogo entre a megamáquina de produção de subjetividade capitalística e outras linhas fugas de Maiara.

Essa ciranda de sentidos86 aponta as personagens como princesas, com vestidos

e coroas, tais quais muitas produções da Dreamwork, Disney etc., mas são princesas reterritorializadas no Assentamento Recreio. Atentemo-nos ainda que a escola parece um misto entre castelo-e-escola ou escola-e-castelo. Entendemos ser importante ainda destacar um dos símbolos de conhecimento uma da outra: comprar roupas. Uma comprara a roupa da outra. Indicamos que é um indício de conhecimento uma da subjetividade da outra. É um conhecimento que baliza o saber como a outra gosta de aparecer para o mundo.

Todos os co-pesquisadores se colocaram em seus desenhos, seja como personagens protagonistas ou com elementos que gostam. A exceção destacada foi Rute. Entretanto, cremos que ela possa também ter se colocado em seu desenho, apenas não conseguimos identificar com mais clarezas pontas de desterritorialização que pudessem definir questões singulares da garota com base no desenho criado por ela.

Apesar de nos trazer alguns elementos interessantes para a pesquisa, destacamos que essa técnica não nos pareceu muito interessante da forma que propusemos. Dizemos isso, porque, especialmente no momento da apresentação, as crianças leram suas cartolinas. Pareceu um trabalho escolar. No processo de construção, Vaqueiro disse que não gostava de desenhar. E esse afeto nosso ainda pôde ser registrado pela assinatura de Rute como “trabalho”, e o realce de Maiara com o “nosso texto”.