• Nenhum resultado encontrado

2 A AUTORIA DA AULA

2.1 Constituição da aula

2.1.2 Professor, aluno e conhecimento

Quem sou eu para lhe falar assim? Aluno, por definição um aprendiz [...]. Quem é ele para eu lhe falar assim?

Professor, por definição aquele que ensina, porque sabe [...]. De que lhe falo eu [aluno]?

De um assunto que ele [professor] domina melhor do que eu. Eu não tenho o que lhe dizer: devolvo-lhe o que disse [...].

De que ele [aluno] fala?

Do que eu já sei! Logo, o que ele me fala é um comentário do que lhe falei... A autoria é dele ou minha? Como ele organizou, é dele; como o que organizou eu lhe disse, é minha. Mas os erros são dele... [grifos nossos]

(GERALDI, 1997, p. 69-70.) Essa passagem vem ao encontro de nosso propósito de discutir a relação dos elementos que constituem o jogo intersubjetivo da aula: professor, aluno e conhecimento, focalizando o lugar do professor ao assumir a função-autor. Com base nos mecanismos de controle do discurso propostos por Foucault (2007/1970), Geraldi (1997) levanta questões7 que exemplificam o funcionamento dos mecanismos de controle da produção de discursos nas interações entre professor e aluno, e a rede de controle que sustenta as formações ideológicas na instituição escolar. Como revela a citação acima, segundo o autor, a relação entre professor e aluno é assimétrica e se constitui em um “jogo” em que cada sujeito já tem o seu papel definido, sendo o primeiro o detentor do saber (conhecimento), enquanto o segundo é aquele que não sabe e precisa “aprender”. Contudo, apesar de ser o mais frequente, conforme Geraldi (1997; 2010), esse não é o único tipo de relação que pode ser estabelecida entre os sujeitos, professor e aluno, até porque, no passado, essa relação já foi menos assimétrica.

Geraldi (1997; 2010) defende a ideia de que a relação entre a produção de conhecimentos e o ensino desenhou os diferentes perfis profissionais da profissão docente.

Dessa forma, a identidade profissional do professor se construiu essencialmente por sua relação com o conhecimento, de tal modo que cada proposta pedagógica define diferentes posições para cada um dos três elementos que se constituem na escola: professor, aluno e conhecimentos. Segundo o autor, ao longo dos anos, o professor assumiu três funções distintas: produzir conhecimentos, transmitir conhecimentos e controlar a aprendizagem, as quais podem conviver em uma mesma época, estando elas relacionadas à identidade assumida pelo docente.

A função de “produtor de conhecimentos” assumida pelo professor, segundo Geraldi (1997), corresponde à relação entre mestres e discípulos, o que ele denomina de “escola de sábios” (por exemplo: as escolas dos sofistas, a escola de Sócrates, a escola de Platão, entre outras). Essa relação pôde ser observada da antiguidade ao início da modernidade, em que não se estabelecia uma separação radical entre aquele que ensinava e aquele que produzia conhecimento; e o discípulo, por sua vez, “não era visto como alguém a ser instruído (ainda que se lhe dê instrução), mas como alguém a ser considerado e conquistado para os pontos de vista defendidos pelo „sábio em sua escola‟”8 (GERALDI, 1997, p. 86).

De produtor de conhecimentos, a função do professor passou a ser a de “transmissor de conhecimentos”, a partir do início no século XVII. Nessa função, o professor deixa de ser um sujeito que produz conhecimentos para ser um sujeito que sabe um saber produzido por outros e o transmite ao aluno, que, por sua vez, “é tomado como uma espécie de receptáculo vazio, a ser preenchido pela instrução escolar” (GERALDI, 2010, p. 85). Cabe ao professor, então, articular os conhecimentos (da pedagogia, da psicologia, dos recursos didáticos etc.) com sua necessidade de transmissão para construir o conteúdo de ensino, que é fruto do trabalho científico que o professor deve conhecer e que o definirá como (des)atualizado9.

Esta função articula-se com o que Orlandi (2009, p. 21) chama de “discurso pedagógico autoritário”, que remete à ideia de que dizer e saber são equivalentes; logo, “a voz do saber fala no professor”. A disseminação dessa ideia, segundo a autora, deve-se a dois motivos: à posição de autoridade convenientemente titulada que o professor ocupa na instituição e à apropriação do conhecimento do cientista pelo professor, que se torna o possuidor de tal conhecimento, garantindo-lhe poder de decisão definitória (e definitiva). Ou seja, essa representação de prática de ensino-aprendizagem reflete a imagem social do aluno,

8Segundo Geraldi (2010), a relação entre professor e aluno, à época, assemelha-se à estabelecida entre orientador

e orientando, atualmente, em que ambos produzem conhecimentos.

9 Geraldi (2010, p. 85) afirma que a identidade do professor “transmissor de conhecimentos” está relacionada à

sua desatualização: “como o professor não está produzindo os saberes que ensina, ele está sempre atrás destes saberes que estão sendo produzidos por outros”.

“o que não sabe e está na escola para aprender”, e do professor, por sua vez, como “aquele que possui o saber e está na escola para ensinar” (ORLANDI, 2009, p. 21). A partir do que Geraldi (2010) levanta, em todo caso, pode-se problematizar se a “autoridade” nesse discurso centra-se de fato no professor ou no próprio conhecimento, já que também o professor está submetido a ele de uma forma que se reproduz na sala de aula.

Segundo Geraldi (2010, p. 87), no início do século XX, o professor passa a assumir uma nova identidade: “aquele que aplica um conjunto de técnicas de controle na sala de aula”. O autor defende que há um deslocamento na relação triádica professor, aluno e conhecimentos, em que a relação do aluno com o conhecimento passa a ser mediada “pelo material didático posto em suas mãos, cabendo ao professor o controle do tempo, da postura e dos comportamentos dos alunos”. Assim, deixa de ser responsabilidade do professor transformar o conhecimento em conteúdo de ensino, mas dos autores dos LD, dos materiais de ensino, entre outros. Consequentemente, os conhecimentos, que são hipóteses para responder a perguntas, perderam espaço para os conteúdos de ensino, que não só passaram a ser seriados (conhecimento dividido), como também a ser transmitidos como verdades.

Outra consequência dessa nova identidade profissional, consoante Geraldi (2010), diz respeito ao fato de professores leigos continuarem dando aulas em escolas brasileiras, como verificou o autor: professores de matemática dando aulas de português, alunos do Ensino Médio dando aulas para alunos do Ensino Fundamental, professores substitutos dando aula em qualquer disciplina. Logo, para que um sujeito se intitule “professor” não é necessária uma formação que o legitime enquanto tal.

Contudo, Geraldi (2010) ressalta que o modelo de professor “controlador” entrou em crise nas últimas décadas do século XX, momento este ainda vivido atualmente pela educação brasileira. A escola, com efeito, passa a não ter mais como desafio responder pela relação professor, aluno e conhecimentos, mas pela obsolescência de saberes e práticas produtivas, ou seja, ela assume o papel de formar profissionais (por meio de cursos, treinamento profissional, formação rápida etc.). Para o autor, a escola passou a se constituir como “tábua de salvação”, por isso, tem sido responsabilizada pelo insucesso de sua formação face às exigências do mercado.

Essa reflexão acerca das instâncias professor, aluno e conhecimento evidencia que não é possível pensarmos a função-autor sem se considerar o tipo de discurso que predomina na aula. Essa ideia se justifica na medida em que entendemos que o professor pode até ultrapassar os papéis de “transmissor do conhecimento” ou “controlador da aprendizagem”, produzindo seu material de ensino e sua aula, mas só ocupará a função-autor se inscrever um

discurso que leve em conta os agentes implicados no processo de ensino-aprendizagem – isto é, o próprio professor e o aluno – enquanto sujeitos que se constituem na e pela linguagem. A relação entre esses sujeitos, por sua vez, define-se em relação a um terceiro termo que também ocupa a posição de “outro” – os conhecimentos implicados na relação de ensino, tomados não como “conteúdos” de ensino, mas como enunciados provenientes de sujeitos que estão inscritos na cadeia enunciativa em que professor e aluno aspiram inserir-se enquanto produtores de conhecimentos.